Escrito pelo professor Elson Moura (Univ. Estadual de Feira de Santana)
Assim como todo lutador que tem acesso aos canais de luta, me preparei ontem para assistir o UFC 140, com a participação de 3 Brasileiros. Aliás; eu e uma centena de pessoas que hoje se organizam em bares outrora reservados para os jogos de futebol (preferi assistir em casa).
É difícil para um faixa preta de Karate ficar indiferente a estes eventos. É, também, difícil para um estudioso da Cultura Corporal, neste momento, estudando sua mercadorização, ficar indiferente ao que ontem aconteceu. Aproveito para abrir um diálogo fraterno com os que de um lado criticam, de outro – às vezes de forma romantizada- idolatram.
A forma como os dois Brasileiros (Rodrigo Minotauro e Lyoto Machia) terminaram suas lutas, merece, no mínimo, uma observação. O primeiro teve simplesmente uma fratura transversa no úmero por não ter desistido (os famosos 3 tapinhas) depois de um golpe encaixado (Kimura, se não me engano). O segundo apagou frente nossos olhos por, também, não ter desistido após um estrangulamento encaixado (Confiram a “assustadora” foto clicando
aqui.
Já vi e tive algumas contusões: cortes e torções. Isso não quer dizer que veja isso como algo natural. Aliás, a época até era; dizia: “é o karate entrando”. Hoje, penso diferente. Não penso ser possível minimizar os impactos destas situações pelo simples fato de serem atletas preparados, saberem o que estão fazendo e terem aparato médico para socorrer; o que de fato, ontem, aconteceu.
Buscarei referência no próprio esporte. Aliás, quando a luta “abre o precedente” para ser esportivizada – que encontra no MMA sua máxima expressão- abre precedente, também, para tudo que este carrega.
O que para mim é notório – e teve ontem sua expressão- é o processo de alienação; neste caso, traduzindo como estranhamento.
O esporte que deveria me servir, onde deveria me reconhecer enquanto produtor e consumidor (consumo no ato de produção) passa a se estranhar de mim; passo a praticá-lo para atender a outros fins que não os diretamente ligados à minha satisfação. Passo a ter que valorizar uma marca, um clube, uma seleção, uma Confederação... uma mercadoria, às vezes minha própria força de trabalho enquanto mercadoria.
Isso trás consequências! Ou alguém acha normal um jogador se aposentar com 35 anos? Ter sua carreira interrompida por uma contusão? Jogar sem as melhores condições: o famoso “foi para o sacrifício”? Jogar com “infiltração”? Ver a menina Jadi, que nem a puberdade alcançou direito, já correr risco de aposentadoria? Estas até podem ser questões corriqueiras no esporte; jamais devem ser tidas como naturais!
Pois sim, este estranhamento invadiu a luta esportivizada: o MMA. O que existe por trás de um lutador que, convencido que o golpe está “encaixado” (gíria que significa que o golpe está eficiente), ainda assim não desiste?
Risco: os românticos dirão que são os princípios do guerreiro, melhor, do Samurai. Olá! O Bushidô, código, não escrito, de honra (Gi -justiça, Yu -coragem, Hei -cortesia, Jin - compaixão, Makoto - sinceridade, Meiyô -honra, Chugi - lealdade) esteve à serviço da luta de classes no Japão feudal (período conhecido como Shogunato).
O que estava, HEGEMONICAMENTE, em jogo ontem quando Minotauro e Machida não desistiram da luta? Qual império estava em jogo? Qual família? Qual clã? Os Samurais de outrora tinham um objetivo. Qual o objetivo dos de hoje?
Longe de anular – e os românticos gritarão!- os elementos constitutivos da ditas artes marciais, estas não estão à parte da universalização das relações mercantis. Ali, hegemonicamente, o que estava em jogo é o processo de valorização da mercadoria força de trabalho do lutador. Ao valorizar esta, valoriza uma centena de outras mercadorias incorporadas. Ou valoriza ou é demitido. “Valorizar”, entenda: ser agressivo e resistir até o fim!
Isto, também, trás características nas lutas esportivizadas e para os lutadores/atletas. Não naturalizemos o fato de ter um atleta estatelado, ainda assustado com o “estalo” no braço, enquanto outros comemoravam, davam entrevistas, assistiam o replay, ouviam os gritos de dor da torcida a cada vez que repetia a cena no telão... Acreditem, ao “ver” o estalo do braço, doeu aqui.
Longe de querer concluir sobre o assunto – como, aliás, alguns fazem- coloco mais este elemento, a alienação, para o debate.
Sigamos... OSS!!!