A crise entre a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA) atingiu um novo patamar nesta quinta-feira (30). Em uma decisão inédita, a entidade que representa as 55 federações nacionais da Europa anunciou que deixará de disputar todas as competições organizadas pela FIFA, incluindo a Copa do Mundo.
A medida foi aprovada durante uma reunião extraordinária realizada por videoconferência e representa uma reação direta ao projeto liderado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, que pretende abrir espaço para investidores privados nos direitos comerciais da Copa do Mundo.
Em comunicado oficial, a UEFA afirmou que o torneio mais importante do futebol mundial não pode ser transformado em um ativo financeiro. A entidade declarou que a competição pertence ao futebol e que sua gestão não deve ser submetida aos interesses de investidores cujo principal objetivo seja a obtenção de lucro.
O estopim da crise foi a divulgação de um plano, até então mantido em sigilo, que prevê a criação da FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões. A proposta contempla a venda de pouco mais de 20% da empresa para investidores privados, em uma operação estimada em US$ 4,2 bilhões. Entre os grupos apontados como possíveis interessados está a Thrive Eternal, comandada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump.
Segundo Infantino, os recursos obtidos permitiriam ampliar significativamente os investimentos destinados às federações filiadas. A promessa é dobrar o financiamento básico destinado a cada associação nacional nos próximos quatro anos, elevando o valor de US$ 10 milhões para US$ 20 milhões. O dirigente também afirma que, até 2038, cada membro da FIFA poderá receber cerca de US$ 86 milhões em programas de desenvolvimento, mais que o dobro do montante inicialmente previsto.
A UEFA, entretanto, considera que a proposta foi conduzida sem transparência. A entidade acusa a FIFA de ter elaborado um projeto de enorme impacto para o futebol mundial sem promover consultas efetivas às confederações e federações responsáveis pela administração do esporte.
Na avaliação dos dirigentes europeus, permitir a participação de investidores privados na estrutura comercial da FIFA poderá submeter decisões esportivas à lógica do mercado financeiro, aumentando a pressão por rentabilidade e reduzindo a autonomia das entidades que administram o futebol.
Como consequência, a UEFA informou que manterá o boicote às competições da FIFA até que o projeto seja retirado definitivamente e que existam garantias jurídicas de que a governança e os principais torneios da entidade não serão, no futuro, abertos à participação de investidores privados.
A decisão pode produzir impactos imediatos no calendário internacional. A próxima competição organizada pela FIFA será a Copa do Mundo Feminina Sub-20, marcada para setembro, na Polônia. Em 2027, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina, torneio que também poderá ser afetado caso o impasse permaneça.
Além das consequências esportivas, o episódio aumenta a pressão política sobre Gianni Infantino. Após mais de uma década no comando da FIFA, o dirigente, que até recentemente era considerado favorito absoluto à reeleição, passa a enfrentar um cenário de crescente desgaste entre dirigentes das confederações continentais. A eleição presidencial da entidade está marcada para março do próximo ano, em Rabat, no Marrocos, e o prazo para inscrição de candidatos termina em 18 de novembro.
Nos bastidores, dirigentes do futebol internacional avaliam que a proposta da FIFA representa a maior crise institucional enfrentada por Infantino desde que assumiu a presidência em 2016. Caso o rompimento com a UEFA se consolide, o futebol mundial poderá viver uma das disputas políticas mais profundas de sua história recente, colocando em risco a unidade das principais competições organizadas pela entidade máxima do esporte.




