É em períodos eleitorais que uma velha máxima do futebol brasileiro revela, mais uma vez, sua fragilidade: a ideia de que “esporte não tem nada a ver com política”. Basta observar a movimentação para as eleições de 2026 para perceber que esporte e política não apenas se relacionam como, em muitos casos, caminham lado a lado.
A presença de ex-jogadores, dirigentes e treinadores na disputa eleitoral deste ano mostra que a popularidade construída dentro dos estádios pode ser convertida em capital político. Ídolos, dirigentes e personagens conhecidos do futebol passam a ocupar o espaço eleitoral carregando consigo não apenas suas trajetórias esportivas, mas também a visibilidade, a identificação e a memória afetiva construídas junto às torcidas.
No Rio de Janeiro, um dos nomes que chama atenção é Edmundo, o “Animal”. Ex-atacante de Palmeiras, Vasco e Flamengo, entre outros clubes, o ex-jogador busca uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PSDB. Campeão brasileiro pelo Palmeiras em 1993 e 1994 e pelo Vasco em 1997, quando também terminou como artilheiro da competição, Edmundo construiu uma carreira marcada pela enorme popularidade. Agora, pretende levar essa popularidade para a política e já declarou que, caso eleito, pretende atuar em Brasília “em defesa do Vasco da Gama”.
A frase, aparentemente curiosa, revela algo importante sobre essa relação. No futebol, o vínculo com o clube é construído pela paixão e pela identificação. Na política, essa mesma identificação pode funcionar como instrumento de mobilização eleitoral.
Em São Paulo, outro nome conhecido dos torcedores também entrou na disputa. Luís Fabiano, ex-atacante do São Paulo e titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010, concorre a deputado federal pelo MDB. Sua campanha apresenta como algumas de suas pautas o esporte, a saúde preventiva e a inclusão digital de jovens.
Também está na corrida Washington, o “Coração Valente”. O ex-atacante, que teve passagens marcantes por Athletico Paranaense, Fluminense e São Paulo, foi artilheiro do Campeonato Brasileiro em 2004 e 2008. Depois da carreira nos gramados, ocupou funções na área esportiva e chegou a atuar como deputado federal suplente pelo Rio Grande do Sul. Agora, apresenta como uma de suas bandeiras a possibilidade de “transformar a vida de jovens por meio do esporte”.
No Distrito Federal, Marcelinho Carioca, o “Pé de Anjo”, tenta uma vaga de deputado distrital pelo Republicanos. Ídolo do Corinthians, o ex-jogador utiliza o lema “se falta, eu cobro!” e apresenta como eixos de sua candidatura o incentivo ao esporte, a ação social e a fiscalização.
São Paulo também tem Alexandre Finazzi na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ex-atacante com passagens por clubes como Corinthians, Ponte Preta, Athletico Paranaense e Fortaleza, Finazzi também construiu experiências na gestão esportiva e em comissões técnicas antes de ingressar na política.
Mas não são apenas os ex-jogadores que atravessam a fronteira entre os campos e os palanques.
Em Minas Gerais, Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético Mineiro e ex-prefeito de Belo Horizonte, disputa o governo estadual pelo PDT. À frente do Atlético, participou de um período marcante da história recente do clube, que conquistou a Copa Libertadores da América em 2013. Depois, transferiu sua atuação para a política institucional e chegou à Prefeitura de Belo Horizonte. Agora, tenta retornar ao cenário eleitoral estadual.
No Rio de Janeiro, Marcos Braz, ex-vice-presidente de futebol do Flamengo, também está na disputa por uma vaga de deputado federal pelo PSDB. Em maio de 2026, assumiu um mandato na Câmara dos Deputados. Seu nome ficou nacionalmente associado à gestão do futebol do Flamengo durante um período de grandes conquistas, incluindo as Libertadores de 2019 e 2022.
E a lista não termina aí.
Vanderlei Luxemburgo, um dos treinadores mais conhecidos do futebol brasileiro, é candidato ao Senado pelo Podemos no Tocantins. O “Pofexô”, que acumula décadas de experiência no futebol e já comandou alguns dos principais clubes do país e a própria Seleção Brasileira, tenta agora transformar sua notoriedade esportiva em representação política. Luxemburgo já havia tentado disputar o Senado em 2022, mas sua pré-candidatura pelo PSB não avançou.
O fenômeno merece atenção porque vai muito além da simples constatação de que “jogadores também podem ser políticos”. Evidentemente, qualquer cidadão que cumpra os requisitos legais pode disputar uma eleição. A questão mais interessante está em compreender por que o futebol se tornou também um espaço de produção de capital político.
A resposta passa pela dimensão social do esporte. Jogadores e dirigentes não são conhecidos apenas por aquilo que fizeram profissionalmente. Eles constroem personagens públicos, acumulam reconhecimento, estabelecem vínculos emocionais com torcedores e alcançam uma visibilidade que poucos outros profissionais conseguem obter.
Um gol decisivo, um título, uma passagem marcante por determinado clube ou mesmo uma carreira inteira podem produzir uma espécie de patrimônio simbólico. Quando esse patrimônio migra para o campo político, aquilo que foi construído nos estádios pode ser convertido em votos.
É justamente aí que a velha afirmação de que “esporte não tem nada a ver com política” perde força. O esporte é atravessado por relações econômicas, interesses institucionais, disputas de poder, políticas públicas, empresas, meios de comunicação, governos e movimentos sociais. O futebol, particularmente, é um dos fenômenos culturais de maior alcance no Brasil.
Por isso, não deveria causar surpresa quando seus personagens entram na política. Talvez a surpresa devesse ser justamente o contrário: durante tanto tempo fomos levados a imaginar que o futebol existia em um espaço separado da sociedade.
Não existe.
O estádio, o clube, a televisão, as redes sociais, o mercado esportivo e, agora, as campanhas eleitorais fazem parte de uma mesma realidade social. Quando um ídolo troca a camisa do clube pelo palanque eleitoral, ele não está simplesmente abandonando o futebol. Está levando consigo a história, a popularidade e o capital simbólico que construiu dentro dele.
As eleições de 2026 oferecem, portanto, mais uma oportunidade para observar uma realidade que o futebol insiste em revelar: esporte e política nunca estiveram realmente separados. Nós é que, muitas vezes, fomos ensinados a enxergá-los assim.




