Podia ser chuveirinho. Podia ser
canarinho. Podia ser dente de leite. A bola, na verdade, era o que menos
importava. Bastava quicar, aceitar um chute e carregar dentro de si a promessa
de uma tarde inteira de felicidade.
O chão também não fazia exigências.
Paralelepípedo, barro, cimento ou um pedaço de grama teimando em sobreviver
entre as pedras. Jogávamos onde fosse possível. O jogo não precisava de
cenário; precisava apenas de crianças dispostas a transformar qualquer espaço
em um campo de futebol.
E nós estávamos.
As traves eram improvisadas com a
mesma naturalidade com que o sol aparecia todas as manhãs. Dois caixotes. Duas
pedras. Dois pedaços de madeira. Às vezes, o tênis daquele amigo que nem queria
jogar, mas fazia questão de estar ali, servia de poste. Bastava combinar:
"daqui até ali". O resto era imaginação. E a imaginação, naquela
época, nunca conhecia limites.
O importante era bater o baba.
Entrávamos em campo com a
solenidade de quem vestia a camisa da Seleção Brasileira. Cada dividida era uma
final de Copa do Mundo. Cada gol merecia uma comemoração desmedida. Cada defesa
improvável transformava qualquer goleiro em herói. Não existiam arquibancadas,
nem narradores, nem câmeras. Mas existia um público invisível, formado pelos
nossos sonhos, que fazia de cada partida um espetáculo inesquecível.
No meio da Rua Querubim de Oliveira
havia uma parede.
Inclinada, é verdade. A rua também
ajudava, descendo em ladeira. Para qualquer adulto, aquilo talvez fosse apenas
uma construção comum. Para nós, era quase um monumento. Servia de trave, de
tabela, de desafio. Ali a bola ganhava efeitos inesperados, voltava caprichosa,
exigia reflexos rápidos e ensinava, sem que percebêssemos, que nem tudo na vida
segue uma trajetória previsível.
Aquela parede era o nosso Itabunão.
Porque estádio nenhum é medido pelo
concreto de suas arquibancadas. Os maiores estádios são construídos pela
grandeza das lembranças que guardam. E o nosso cabia inteiro naquela rua, entre
uma ladeira, uma parede e um punhado de meninos que acreditavam que o mundo
começava e terminava ali.
Foto retirada da página História de Itabuna (@historiadeitabuna)
Nem só de futebol vivíamos. Bastava alguém aparecer com uma rede improvisada ou uma cesta qualquer para que a quadra imaginária surgisse diante dos nossos olhos. Jogávamos vôlei. Basquete. Inventávamos modalidades se fosse preciso. Éramos polivalentes antes mesmo de conhecer essa palavra. O corpo queria brincar. A alma queria disputar. E havia sempre uma bola esperando por nós.
Hoje compreendo que não era apenas
sobre esporte.
Era sobre amizade.
Sobre aprender a perder sem
desistir e a vencer sem humilhar. Sobre negociar regras, resolver discussões,
escolher os times e voltar para casa quando a noite começava a esconder a bola.
O tempo passou.
A bola mudou. As ruas mudaram. Nós
mudamos.
Alguns amigos seguiram outros
caminhos. Outros ficaram apenas nas fotografias da memória. Há quem nem se
lembre de certos lances. Eu mesmo não lembro de todos. E foram muitos.
A Querubim de Oliveira talvez seja
hoje apenas mais uma rua para quem passa por ela.
Para mim, nunca será.
Ela continua povoada pelos gritos
pedindo passe, pelas discussões sobre se a bola entrou ou não, pelas
gargalhadas depois de um tombo, pela poeira levantada a cada arrancada e por
aquele sentimento raro de liberdade que só a infância sabe produzir.
Há saudades que não pedem para
voltar.
Elas sabem que o tempo cumpriu o
seu papel.
Mas permanecem vivas porque fizeram
de nós aquilo que somos.
Sempre que penso na criança que
fui, ela não aparece em uma fotografia de escola nem em uma festa de
aniversário.
Ela surge correndo pela Querubim de
Oliveira, atrás de uma velha bola chuveirinho, canarinho ou dente de leite,
acreditando, com toda a seriedade que só as crianças conhecem, que aquele baba
valia uma Copa do Mundo.
E talvez valesse mesmo.
Porque foi ali, naquela aventura
compartilhada com meus amigos, que aprendemos que a felicidade não depende da
perfeição das coisas. Ela mora, quase sempre, na simplicidade de um fim de
tarde qualquer, quando uma rua inteira consegue se transformar no maior estádio
do mundo.




