segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Masculinidade Hegemônica no Jiu-jitsu: Precisamos conversar/superar

 


Texto publicado em Outubro de 2019 pela Bjj Girls Mag

Eu estava numa aula de uma turma adolescente quando vi uma movimentação em que um atleta machucou o outro seriamente, que logo caiu em lágrimas no chão ao som de uma canção popular aqui na Bahia: “porque homem não chora!”. Perguntei ao aluno qual o motivo dele estar fazendo chacota do amigo se a movimentação teria realmente machucado. Ele disse que achava que ele tinha que engolir a dor e seguir no treino. Aquilo não foi nada, “não é homem não?”

Já na nossa gestação, após aquela ultrassonografia para que saibamos se a criança é “menino ou menina” passamos por determinações sociais que nos impõem uma série de condutas a serem seguidas por toda a vida. É só observar os recentes “chás de revelação”. As cores rosa nos indicam que a criança que nascerá será uma menina, e o azul, como diria a Ministra da “mulher” Damares Alves, que será um menino. Uma espécie de estereotipia que não terá total influencia na relação entre gênero e sexualidade.

A partir deste momento são estabelecidas “caixinhas” comportamentais. As meninas são privadas de uma série de brincadeiras numa fase importantíssima de desenvolvimento de habilidades motoras – não apenas - (Correr, saltar, trepar, pular, rolar...) porque não é coisa de “mocinha”. São educadas para serem solicitas, vulneráveis, e seus brinquedos sempre agregam conotações de vida doméstica ou do cuidado do outro: Bonecas, conjunto de cozinha. Já os meninos, são sempre incentivados a participarem de brincadeiras que estimulam a agressividade, e possuem brinquedos que reproduzem a mesma lógica (Armas, bonecos com armaduras, espadas).    

Para termos uma ideia do quanto essa relação é pesada, voltemos ao caso do início do texto: Alguém questionou a atitude agressiva do aluno que machucou o outro e ainda fez chacota da situação cantarolando uma canção? O que ele fez, por incrível que pareça, é o exemplo de comportamento que nossa sociedade busca para todos os homens: Um homem forte, valente, que supera as dores e as adversidades, um homem “embrutecido” que reprime totalmente seus sentimentos.

O grande problema é que, mais cedo ou mais tarde, este mesmo rapaz usará os mesmos argumentos para agredir ou violar mulheres, como vemos cotidianamente: Por que ela apanhou, deve ter feito algo. O que fez pra merecer ser violada? Pois nessa lógica ele está cumprindo o papel que sempre lhe foi atribuído e a culpa sempre será da vítima, pois ele foi educado a pensar assim. O assédio sexual o estupro ou a violência física nada tem a ver com prazer, e sim, com uma relação de poder que visa colocar a mulher numa condição de inferioridade.

E é por essas e outras questões que temos que entender o que é a masculinidade hegemônica e quais as consequências que ela traz para nossa vida em sociedade. É uma construção negativa de masculinidade que nos coloca (homens) numa posição irracional, como se não fossemos capazes de dominar nossas pulsões, oprimindo nossa vida para manter a “ordem natural da sociedade”, nos fazendo acreditar que somos sempre fortes, superiores, nos fazendo buscar sempre aparentar ser extremamente ativo sexualmente, nos fazendo ter medo de parecermos “femininos”, nos colocando a todo momento numa lógica competitiva, buscar defender nossa honra, e termos uma exacerbada obsessividade por poder. Mais um subproduto dos modos de reprodução da vida no capitalismo. Assim como o racismo. 

Podemos observar, além do nosso exemplo do início do texto, alguns colegas de treino que não aceitam serem finalizados de forma alguma, os colocando numa situação de risco de lesões ou até mesmo de complicações mais graves, com aquela lógica “apaga mas não bate”. Atletas que subestimam as mulheres dizendo que vai lutar com a colega para “descansar” e que ao perceber que está em desvantagem, esquecem totalmente da técnica para partir para a clara agressão física. Machucando, lesionando, ou até afastando do treino. Que não lutam com mulheres porque “não dá treino para o seu nível” Não esquecendo os comentários: Tá rolando como uma “menininha”, buscando colocar o outro numa posição de inferioridade referenciando-se numa ideia de feminino vulnerável, inferior.

A homofobia anda de mãos dadas com essa lógica. Perguntem a qualquer homem o motivo dele chamar o colega de treino de forma pejorativa: “bicha”, “viado”. Como se ser homossexual fosse uma coisa ruim. Não esquecendo que essa construção anula qualquer forma de demonstração de afeto entre homens por receio de serem “mal vistos” ou mesmo serem confundidos como casal homoafetivo. Reprimindo violentamente o homem e as pessoas próximas. Imagine como é hostil para os colegas de treino homossexuais serem classificados de coisa ruim? O que não tem nada de diferente da perseguição que já sofrem fora dos tatames. O assédio sexual a colegas de treino também pode ser incluído neste pacote

Essa construção tem outros resultados negativos. No nosso país e no mundo a expectativa de vida dos homens está sete anos a baixo das mulheres. Os fatores relacionam causas biológicas mas as construções culturais interferem totalmente. Não fazer visitas periódicas ao médico e o comportamento agressivo e arriscado estão nesta lista. Por causa desse comportamento também os homens morrem mais em acidentes de trânsito do que as mulheres no Brasil. Por medo de “ferir” essa masculinidade, os homens cometem suicídio pois acreditam que é “frescura” comentar o que estão sentindo, ou porque simplesmente não encontram apoio dentro dos seus círculos de amizade. O abuso de álcool e outras substâncias também entram nesse quadro.

Por se tratar de um tipo de relação que causa danos não só para os homens mas também para as mulheres e LGBTS, devemos cada vez mais conversar sobre nossas construções de masculino e feminino em nossa sociedade. O jiu-jitsu se inclui nessa responsabilidade por se enquadrar num instrumento de formação humana informal. Essas situações estão acontecendo nos tatames de todo o país. Devemos, professores e alunos conversarmos sobre ou pensarmos em estratégias para encarar o problema.

São colegas que precisam, como primeiro passo, identificar e se conscientizar que este tipo de masculinidade afeta seus círculos de relação. Precisam parar de rivalizar ou menosprezar sua própria dor e a dor do outro por achar que isso afeta como ele vai ser visto por todos.

Mas para perceber isso eles também precisam de pessoas de confiança que possam identificar e conversar sobre o assunto. Existem grupos de homens que se reúnem para conversar sobre o tema, e sites que disponibilizam vídeos e textos para compreender melhor todas as nuances envolvidas na masculinidade hegemônica.

Portanto, já está na hora de colocarmos em pauta na Arte suave discussões que nos fará olhar para como tratamos o outro, mesmo que isso nos coloque numa situação incômoda, como o silêncio sofrido das nossas colegas de treino diante de algumas demonstrações dessa masculinidade horrível. Podemos ser diferente.

 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Carol Solberg

A jogadora de Voleibol de praia, Carol Solberg, foi advertida pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva devido ao seu posicionamento político contra o governo Bolsonaro. No dia 20 de setembro, frente às câmaras de uma rede de TV, logo após uma entrevista em que falava sobre o terceiro lugar conquistado no Circuito Brasileiro de Volei de Praia a atleta, microfone em punho, gritou em alto e bom som um "FORA, BOLSONARO!!!"

Para o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), naquele momento, Carol Solberg infringiu dois Artigos: o 191 que implica, entre outras coisas, questões relativas ao regulamento geral da competição, e o Artigo 258 que menciona questões que contrariam a disciplina ou a ética esportiva que não esteja tipificada no Código Brasileiro de Justiça Desportiva.

Por conta de sua atitude, a atleta poderia ser multada em 100 mil reais e pegar suspensão de seis jogos em competições oficiais. Nada disso aconteceu, tendo o STJD convertido a multa e a suspensão em advertência, proibindo Solberg de repetir qualquer ato político na condição de atleta.

Em depoimento, antes do julgamento, assim se pronunciou a jogadora que enfatizou não está nem um pouco arrependida por ter criticado o governo de Jair Bolsonaro.

“Estava muito feliz de ter ganhado o bronze e, na hora de dar minha entrevista, apesar de toda alegria ali, não consegui não pensar em tudo o que está acontecendo no Brasil, todas as queimadas, a Amazônia, o Pantanal, as mortes pelo Covid e tudo mais. Me veio um grito totalmente espontâneo de tristeza e de indignação por tudo que está acontecendo (...)".

Vale recordar que na época da campanha, teve foto no pódio com clara manifestação política dos atletas da seleção masculina de voleibol, e acertadamente, a Confederação Brasileira de Voleibol não se posicionou. O que coloca a necessária pergunta: Por que a CBV se posicionou tão veementemente contra a atitude de Carol Solberg? O problema é se posicionar politicamente ou é o tipo de posicionamento que incomoda?

Mundo afora os atletas de diferentes modalidades vêm se posicionando politicamente e a favor de causas universais, contra o racismo, violência nos estádios, homofobia entre outras pautas relevantes. Existem inúmeros exemplos de utilização política do fenômeno esportivo no mundo inteiro, principalmente por quem detém o poder. Por que o atleta não pode ter o mesmo direito? Por que ele não pode se posicionar, seja a favor ou contra determinadas direções da política desenvolvida no seu país ou da falta dela?

Ao advertir a atleta Carol Solberg pelo seu posicionamento como brasileira, acima de tudo, o STJD está mandando um recado claro para todos os atletas de todas as modalidades do esporte nacional: calem-se!!! Se é para criticar o governo, melhor ficar calado e se deixar alienar da sua condição de humano e do seu direito constitucional de se expressar livremente.

Para finalizar, algumas perguntas: o que farão os atletas em geral? Como se posicionarão as instituições, principalmente às ligadas ao esporte? A sociedade de uma forma geral, como reagirá? Aguardemos.

sábado, 25 de abril de 2020

Educação rima com revolução

25 de abril. Um dia muito especial para todos que acreditam em outras formas de sociabilidade, novos "modelos" de relações sociais. Algo que tem se falado muito nesses últimos dias.

Hoje, comemora-se a Revolução dos Cravos, movimento que derrotou e derrubou o regime salazarista em Portugal, no a
no de 1974, estabelecido após o golpe militar em 1926.

A relação desse momento histórico com os livros que compõem a imagem é para defender a necessidade de uma educação crítica, em todos os tempos históricos e, principalmente, nesse de "irracionalismo", "terraplanismo", "globalismo", "negacionismo", em que estamos vivendo.

Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Nos ensinou Paulo Freire. Ouso acrescentar que não é qualquer educação que potencializa essa capacidade efetiva de transformação social e nós, professores, precisamos enfrentar esse debate de maneira franca e fraterna.

Os portugueses comemoraram a vitória da revolução que os devolveu a liberdade de expressão, distribuindo cravos, a flor nacional. Façamos, portanto, da flor nosso mais forte refrão, e acreditemos que a revolução também se faz com educação.

(A imagem dessa postagem origina-se da capa dos seguintes livros: "Pedagogia histórico-crítica e educação física", da editora da Universidade Federal de Juiz de Fora; "A civilização capitalista", editora Saraiva e "Dominação e Resistência: desafios para uma política emancipatória", da editora Boitempo)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O que fazer em casos de violência doméstica durante o isolamento



As primeiras semanas de isolamento nos trouxeram dados assustadores sobre violência contra as mulheres no nosso país. Não bastasse o acúmulo ou aumento de pressão e trabalho por conta da quarentena, de toda responsabilidade compulsória que a mulher possui em nossas sociedade a respeito de tarefas domésticas e cuidado dos filhos, aumentar o período em que os agressores ficam em casa tornou os lares um ambiente hostil.
Problema que não foi observado apenas no Brasil. China e Itália também registraram números crescentes de violência contra mulheres durante o isolamento necessário para redução de contágio do Covid-19. O que nos faz pensar que além de ser um problema a ser superado em questões culturais em vários países, também é um problema estrutural e de saúde e segurança pública. Afinal, impactam na saúde física e psicológica das mulheres, filhos e parentes que se aproximam desses episódios, cabendo ao Estado desenvolver políticas efetivas para o combate.
Entretanto, pensando no descaso e banalização que o atual governo demonstra a respeito da violência contra as mulheres (o próprio chefe do Executivo já foi condenado por incitação ao estupro e naturalizou a violência crescente dizendo que os homens estão batendo nas mulheres porque está faltando pão) devemos desenvolver estratégias de combate ou de antecipação a estas violências pensando no bem-estar e integridade física dessas mulheres. Princípios base ou fundamentos da nossa defesa pessoal no Jiu-jitsu.
Devemos ter sempre em mente que estas mulheres sofrem de maneira progressiva as violências. Como falei no início do texto, a própria conjuntura já é violenta e desgastante. Por isso, devemos cogitar que as mulheres que vivem numa relação abusiva sentem-se sozinhas, e enfrentar o medo e a solidão é o primeiro combate a ser encarado.
Ao identificar uma amiga ou companheira de treino ou não, que esteja passando por isso neste período de quarentena, devemos apoiá-la, acolhe-la e orientá-la ao atendimento jurídico e psicológico, como sinalizou a colega Tatiana Peev no seu texto, apresentando o grupo de apoio Justiceiras. Outras plataformas de apoio também estão disponíveis na internet, como os Apps PenhasSOS MulherSalve MariaMe Respeita ou as plataformas Mapa do Acolhimento e Conexões que salvam. Claro que é importantíssimo que a denúncia seja feita nas delegacias especializadas ou do próprio bairro.
Teremos que pensar também que este período de confinamento potencializa uma série de impedimentos psicológicos à vítima no que diz respeito a dependência financeira ou medo de se manter ou sustentar seus filhos, se for necessário que ela saia de casa. Sua autoestima foi afetada e ela pode acreditar que não é nada sem o agressor. Ela teme por perder sua estrutura familiar construída, de ter sua competência para criar os filhos questionada e de perder as pessoas ao seu redor. Muito cuidado ao criticar ou a menosprezar a situação da vítima. Isso não ajudará em nada.
Para auxiliar na antecipação das vítimas nos casos de violência, é importante observar alguns comportamentos que os agressores apresentam:
Fase 1
Faz piadas agressivas;
Chantageia
Mente
Ignora a mulher
Tem ciúmes
Faz a mulher sentir-se culpada
Humilha
Intimida
Ameaça
Fase 2  
Proíbe a mulher de qualquer atividade
Destrói bens pessoais
Brinca de bater, beliscar ou dar tapas
Fase 3
Dá chutes na mulher
Confina
Ameaça com objetos ou armas
Ameaça de morte
Força relação sexual
Estupra, mutila
Diante da observação dessas atitudes, é necessário criar estratégias para se proteger dentro de casa no período e confinamento.
  • Evitar discutir em ambientes da casa que forneçam algum tipo de objeto que possa ser usado como arma pelo agressor. Um dos ambientes mais perigosos da casa é a cozinha, pois lá estão facas, garfos ou outros objetos pontiagudos;
  • Facilitar o acesso a portas e deixá-las destrancadas, para qualquer emergência ou fuga;
  • Combinar com vizinhas ou parentes próximos sinais sonoros convencionados para alertar que está sofrendo violência (Pode ser bater em panelas, apitar) ou mesmo gritar socorro;
  • Mantenha sempre um número de emergência pronto no aparelho celular, como também crie estratégias de permanecer com o aparelho sempre com você;
  • Deixe roupas e alguns documentos na casa de amigos, para no caso de alguma emergência não seja necessário perder tempo procurando ou arrumando uma mochila;
  • Se possível, fazer uma cópia da chave do carro, pois pode ocorrer do agressor tomar ou escondê-la ao perceber sua intenção de fuga.
Observar os sinais é imprescindível neste momento e sempre se antecipar, são as melhores ações no quesito análise de risco durante a quarentena. Mantenha sempre contato com suas amigas e amigos, desabafe, pois nenhuma mulher é obrigada a passar por nada sozinha, ainda mais em tempos de isolamento social.
Conversando podemos nos fortalecer psicologicamente como também podemos desenvolver melhores formas de se enfrentar os problemas. Informe-se sobre os telefones das delegacias especializadas, do bairro ou disque 180. Denuncie.

Publicado na Bjj Girls Mag em 13/04/2020. Autor: David Torres

sábado, 11 de abril de 2020

Ciência não é jogo de futebol

Foto do meu arquivo pessoal


Jorge Gioscia Filho, telespectador da TV 247, em texto monetizado disse que "Ciência não é jogo de futebol. Não é com torcida que se trabalha mas com pesquisa". Colocou esse raciocínio no momento em que os jornalistas Leonardo Attuch e Brian Mier discutiam sobre a insistência do presidente do Brasil em relação ao uso da hidroxicloroquina para os contaminados pelo Covid-19.

Não é difícil concluir, com referência ao texto presente na mensagem, que Jorge resume o jogo de futebol ao que ele enxerga na televisão, especificamente os 90 minutos que se desenrolam os lances na telinha. Ou então, como muitas vezes fazemos, utiliza da modalidade esportiva mais popular do país para passar um recado rápido e importante: não se cuida de coisa grave - como uma pandemia - com paixão ou emoção. Elas até podem e talvez devam existir no processo, desde que balizadas pelo imprescindível conhecimento científico.

Independente da intencionalidade de Jorge, sua observação pertinente serve como possibilidade de refletir para além das aparências em relação a dimensão esportiva. Ao contrário do que muitos talvez imaginem, há muita ciência no desenvolvimento das modalidades esportivas. Há muita reflexão sobre o esporte vinda das mais diferentes áreas do conhecimento.

Do sofá da nossa casa, da mesa do bar com os nossos amigos e/ou amigas, das arquibancada dos estádios  ou das modernas arenas, das quadras poliesportivas, entre outros, todos nós estamos assistindo, seja como torcedor ou apenas alguém que gosta de assistir competições esportivas, aos resultados não da competição em si, mas de várias técnicas e métodos de estudos visando melhorias das performances dos atletas.

Antes mesmo da bola rolar, do velocista ou maratonista começar a correr, do nadador iniciar suas braçadas nas raias, enfim, do atleta enfrentar os limites e as possibilidades dos seus gestos, assumindo por completo a máxima da prática como critério da verdade, a ciência se fez e se faz presente.

Quando se trata da dimensão social do esporte competição, ouso afirmar que o mesmo, na atualidade, não existe sem alguma dose de ciência. Desde suas indumentárias, assim como seus objetos de treinamento e competição, passando pela influência  ideopolítica e sua possibilidade de integração, emancipação e inclusão social, tudo é pensado cientificamente.

Concordo com Jorge sobre o risco que representa enfrentarmos uma pandemia que está matando milhares de pessoas no mundo inteiro, com as paixões e emoções próprias aos torcedores, sejam os de poltrona ou não. Apenas reforço que o esporte, seja o futebol ou qualquer outro, na sua dimensão de espetáculo, de rendimento, está completamente impregnado de ciência.

domingo, 5 de abril de 2020

O esporte em tempo de coronavírus - Primeira parte

Mais um domingo sem assistir em tempo real minhas modalidades esportivas preferidas, principalmente as partidas de futebol. Mais um domingo sem tentar uma "fezinha" na peleja entre Barcelona e Real Madrid, Vitória e Bahia, Flamengo e Fluminense, Schalke e Dortmund, entre outros.

Mais um final de semana em que as arenas estão fechadas para as contendas esportivas. Não haverá cestas mirabolantes, esteticamente maravilhosas e inéditas dos formidáveis Stephe Curry, LeBron James ou Kawhi Leonard. O pivô Ferrão, os tricampeões mundiais Rodrigo, Leandro Lino e Danilo Baron, não preencherão o coração dos fãs do Futsal.

Há muito a fórmula 1 nos deixou um vazio com a morte do ídolo Airton Senna. Vazia também estarão as quadras de tênis, voleibol, handebol, os campos de beisebol, golfe, pistas de kart. A bola oval não provocará o touchdown, assim como não veremos o fumble e o punt, entre outros, em mais um domingo.

Imagem retirada do Jornal O Correio
Em mais um final de semana sem as várias expressões da cultura corporal (que não se resume a dimensão esportiva), excetuando as diferentes estratégias das emissoras e canais esportivos, em função do coronavírus, de reprisar disputas diversas, a pergunta que emerge é: o que fazer? O que será da vida sem o esporte? O que faremos sem essa dimensão social que ocupa, tão fielmente, nosso cotidiano, que se faz tão presente nas nossas vidas ao ponto de em algum momento imaginarmos ser impossível viver sem?

Exagero de minha parte? Não? Sim? Talvez? Insensibilidade? Indiferença? O que é todo esse vazio esportivo frente ao sofrimento de centenas e milhares de pessoas que estão perdendo seus entes queridos por conta de mais uma pandemia que assola o mundo?

Ou será algo que está presente na dimensão do nosso inconsciente, sejamos ou não um torcedor de poltrona, praticante ou não de alguma modalidade esportiva e que só agora, no vazio da sua espetacularização, na ausência da sua midiatização, no hiato do seu televisionamento, os questionamentos citados emergem, permitindo reflexões diversas, como essa que agora faço e que continuarei na próxima postagem.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

BBB e futebol

Entre os dias 29 a 31 de março de 2020 observou-se algumas manifestações por parte de atores do futebol em apoio a um integrante de um Reality Show de uma rede aberta de TV. Nesse período ocorreu o décimo paredão da edição e foi integrado por três participante, sendo dois os protagonistas do processo. 

De um lado, uma atriz e cantora nacional extremamente politizada e consciente de causas sociais, e, do outro, um arquiteto e empresário que por diversas vezes na casa apresentou comportamento machista, autoritário, explosivo, imaturo, e até chegou a naturalizar causas como a zoofilia. 

Ocorre que, o referido arquiteto, mostrou durante o tempo na casa que se tratava de um amante do futebol. Apesar de nunca se tornar um jogador profissional, contou suas experiências em quadra e campo, além de se declarar corintiano enraizado. Esse fator, somado ao resgate de uma publicação que a sua adversária fez, anos atrás, contando que não gostava do esporte, levou ao apadrinhamento do arquiteto pelos jogadores de futebol. 

Publicações em texto, imagem e vídeo, declararam o apoio de figuras midiáticas do futebol ao arquiteto, o que fez com que uma grande camada da população se mobilizasse, por venerar essas figuras, a apoiar esse indivíduo independente da análise de outras vertentes do seu comportamento na casa. 

Imagem retirada do site O Dia

Esse fato nos mostra a magnitude da influência do futebol na sociedade em geral e nas subjtevidades. A espetacularização desta modalidade esportiva eleva sua popularidade ao ponto de torná-lo ‘sagrado’, e faz com que a população o apoie apenas por ser futebol, livre da análise de conceitos e valores.

Isso também é ilustrado quando recordamos dos vários escândalos, por diferentes motivos, envolvendo jogadores famosos, que não apagam nem mesmo mancham a sua reputação diante de admiradores do esporte. 

Os seus atores se tornam referências para crianças e adultos, e apesar do atual contexto histórico em que há um vazio esportivo devido à suspensão das competições em função da pandemia por coronavírus, essa referência se apresenta com muita força sobre qualquer situação em que se manifestar.

O paredão também se tornou uma disputa política quando virou pauta de uma publicação do filho do presidente da república, que defendeu o arquiteto argumentando que a cantora era uma militante esquerdista. Mais uma vez mostrando o seu desprezo por todas as causas sociais que a cantora defende e que são necessárias.

Texto escrito pela professora Vitória Lima Oliveira Morais

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Micheli Ortega Escobar. PRESENTE!!!

Micheli Ortega Escobar - Fonte: Revista Motrivivência

"Doutorando que se preze deve ler, no mínimo, 500 páginas por dia de referência do seu objeto de estudo". Essa frase foi dita, certa feita, pela professora Micheli Ortega Escobar em um dos vários momentos que tínhamos o prazer da sua presença nos nossos grupos de estudos.

Óbvio que era uma provocação seguida de uma exortação para as necessárias leituras em um momento que havia um "recuo teórico" na academia por parte de certas orientações pós-modernas de recrudescimento do relativismo epistemológico.

Conhecendo como conhecia a condição material de existência da classe trabalhadora, Micheli reconhecia que a apropriação do conhecimento, fundado no materialismo histórico dialético, era força revolucionária ao penetrar nas massas e que para tanto, tínhamos a obrigação, igualmente revolucionária, de nos apropriarmos da assertiva leninista: "sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária".

Essa brasileira de alma chilena que nos deixou hoje, fisicamente, deixou também um enorme legado que a fará presente no cotidiano de todes que têm compromisso com a mudança estrutural do metabolismo do capital e que reconhece, na educação/educação física, um espaço estratégico para potencializar/materializar novas formas de produção e reprodução da existência. E essas formas estão presentes nas experiências históricas do socialismo/comunismo que Micheli, tão bem, soube expressar na sua práxis.

Em alto e bom som, meus sinceros e profundos agradecimentos professora, lutadora do povo, Micheli Ortega Escobar. Presente!!!

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Finalmente o gigante acordou e... espera...ops...são os torcedores do Flamengo


Já não era sem tempo. Finalmente o brasileiro acordou e foi às ruas deste país em protesto contra a retirada dos seus direitos trabalhista, da sua aposentadoria, do investimento em saúde, educação, ciência e tecnologia.

Espera um pouco...ops... É a torcida do Flamengo comemorando o título da libertadores e o campeonato brasileiro!!!


sábado, 16 de novembro de 2019

Esporte e Política

Invariavelmente a crônica esportiva teima em afirmar que esporte não é política. Ignorância ou má fé? Não sei e nem irei julgar. O fato é que nos últimos meses estamos assistindo a um fenômeno interessante, vindo dos mais diferentes clubes de futebol brasileiro. Se não observamos nenhum engajamento político específico dos atletas profissionais, como até recentemente nós víamos no interior do movimento do Bom Senso F.C., os setores de marketing dos clubes resolveram pautar questões importantes da vida nacional em um momento conjuntural de claro acirramento no campo político.

Hoje, por exemplo, o Fluminente Football Club entrou em campo contra o Clube Atlético Mineiro com uma frase estampada na sua camisa que dizia "Todos Juntos Contra o Trabalho Infantil", tema candente e que toca o centro da reprodução do capital atualmente: a presença da força de trabalho superexplorada e precarizada, que segundo dados do Instituto de Geografia e Estatística de 2016, atinge dois milhões e quatrocentos mil crianças e adolescentes entre 05 e 17 anos em todo o território nacional.
Foto: Divulgação EC Bahia

Em outubro último foi a vez do Esporte Clube Bahia entrar em campo em jogo contra o Ceará, válido pela vigésima sétima rodada do brasileirão, com a camisa estampando "manchas de óleo" em clara alusão ao acidente ambiental que atinge as praias do nordeste do Brasil e impacta a vida econômica de várias cidades e centenas de famílias de pescadores. Em seu instagram oficial (@ecbahia) o clube assim se manifestou: “Por medidas de redução do impacto ambiental e pela punição aos responsáveis, nosso uniforme estará manchado de óleo no jogo de amanhã –como as praias do Nordeste”.

No mês de abril esse mesmo clube fez campanha aludindo as demarcações das terras indígenas. Nessa campanha o clube dizia claramente que era "preciso cumprir a regra. Sem demarcação, não tem jogo". E o que dizer em relação as bandeirinhas de escanteio com as cores do arco-íris em protesto contra a LGBTQfobia em jogo realizado na Arena Fonte Nova contra o Fortaleza?


Trabalho infantil, crime ambiental, discriminação e demarcação de terras indígenas. Esses são ou não temas que estão presentes nas pautas de diferentes movimentos de representações políticas e sociais que se articulam em vários lugares no Brasil e por que não dizer, no mundo? Qual a relação deles com o esporte? O que diriam os cronistas esportivos sobre essas iniciativas?

Mas, se ainda restam dúvidas do vínculo do esporte com a política e se acontecimentos históricos como, por exemplo, as Olimpíadas de Berlim, em 1936, não convencem ninguém, será que outras manifestações, surgindo agora não mais do marketing clubista, mas, sim, do interior das torcidas organizadas como a do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e o Santos Futebol Clube, teriam força para finalmente jogar por terra essa falácia de que esporte não pode se misturar com política?

Falaremos sobre isso em outra postagem.

domingo, 15 de setembro de 2019

Sensei sensato e o antro dos canalhas



Antro, substantivo masculino, escavação natural que pode servir de abrigo a pessoas ou animais selvagens; gruta, caverna. Caverna. No sentido figurado, lugar de perdição ou vícios, abismos. Abismo. Nosso país sempre foi um poço de desvios de conduta fantasiados de humor e zombaria. Apresentadores de Tv que usam do horário nobre nos finais de semana para mostrar vídeos de pessoas se machucando ou em situações desconcertantes. Objetificação e hipersexualização do corpo feminino, entre outros.

O tempo livre do trabalhador bombardeado de absurdos. Para nossa sorte, tínhamos os shows de horrores limitados aos domínios da “janela de vidro”. A televisão. Para nosso azar, houve um tempo que o antro de canalhas faziam sucesso apenas lá. Hoje, eles ganharam vida política e pública. Ser canalha, misógino, está garantindo posição de privilégio nacional. Dá pra virar Presidente.

Ministros que atacam em palestras internacionais as esposas dos chefes de estado, a chamando de feia, corroborando com a atitude do Presidente, que vai às redes sociais e curte um meme que também afirma que a esposa de um outro presidente é feia. “Humorista” que num stand-up diz que discorda do Presidente da República, quando ele afirma que não estupraria uma deputada porque ela não merecia, tendo quase sua voz silenciada por afirmar num tom calmo um “merece”, pelo estrondoso aplauso da plateia. Ser cretino está rendendo aceitação.

O que esperar de um perfil de instagram que deu control C + control V na conjuntura? Uma página que se propõe a divulgar “humor ácido” para falar da Arte Marcial Brasileira, Jiu-jitsu? Numa breve olhada no perfil @Senseisensato, qualquer atleta ou entusiasta que já deu uma lida na história do Jiu-jitsu Brasileiro, de uma forma mais radical, percebe as contradições de seu pseudônimo. Usar a foto do patriarca Hélio Gracie com a palavra sensato embaixo não é lá uma das melhores opções. Invadir academias e achar que mulheres só servem para procriar são alguns dos atributos do senhor em questão.

Se você continua a deslizar a tela, perceberá que as mulheres aparecem hipersexualizadas, como nos programas cretinos citados no início do texto. Uma mulher vestida apenas com uma camiseta, insinuando um impedimento para o namorado não ir treinar. Um compilado de ensaios sensuais em forma de crítica, questionando quando os quimonos começaram a ser vendidos na seção de lingerie. A cultura do estupro, que submete o valor das mulheres a uma lista de condutas morais relacionadas a sexualidade e a violação dos direitos autorais estão presentes nas publicações do “Sensato”.

O absurdo não está mais lá, publicado. Foi apagado com muito esforço. Mas, para o azar do administrador, a vítima tirou um print de sua publicação criminosa. Uma atleta de Jiu-jitsu feminino teve sua foto amamentando seu bebê publicada sem autorização, sendo alterada e contextualizada sexualmente, tendo um graduado ao fundo exclamando “deixa um pouco para mim”, insinuando que o mesmo estaria interessado em ocupar o lugar da criança.

A lei dos Direitos Autorais (9.610/98) em seu artigo 7 diz que fotografia é obra intelectual protegida, e no artigo 29, é apontado que sua reprodução depende de autorização prévia e expressa do autor. A atleta ainda solicitou diversas vezes que tivesse sua foto retirada da página, como também solicitou o apoio de amigos e de páginas de Jiu-jitsu feminino para que fizeram denúncias ao instagram por conteúdo indevido. Recebendo um feedback de não violação das diretrizes da comunidade. Uma falha que deve ser revista urgentemente pela empresa. Para quê servem as denuncias? 

A vítima pode comunicar o fato na justiça como crime virtual, pois tal publicação ofendeu a sua reputação (Art. 139 do Código Penal), que de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, é um dos crimes mais comuns nas redes. Ela precisa coletar as evidências, registrar as informações em cartório e se dirigir à uma delegacia mais próxima. O que é de extrema urgência. O administrador da página precisa compreender que o ambiente virtual não é uma "terra de ninguém". Algumas Leis se aplicam na web. 

A violência contra as mulheres nos tatames estão ganhando rostos e nomes através de iniciativas de algumas páginas como a Bjjgirlsmag e UOL, mas ainda recebe o silêncio e a impunidade aos agressores, das instituições reguladoras do esporte. Apenas a Sport Jiu-jitsu South America Federation (SJJSAF) se posicionou contra os abusos disponibilizando uma ouvidoria para escutar e acolher mulheres vítimas de violência causada por atletas, professores e praticantes (A ouvidoria funciona 24h por dia pelo whatsapp ou ligação e o número é: (21) 97102-5414).

Necessitamos de punições rígidas e emergenciais contra os agressores no Esporte, como proibições de participação em eventos, punições a equipes que tenha membros envolvidos em casos de violência contra a mulher e criação de regras específicas que condenem agressores em eventos esportivos.

Precisamos também da punição desses agressores na esfera civil. Não podemos mais tolerar comportamentos como o da página @senseisensato ou de figuras públicas que ocupam funções importantes na política Nacional. Obviamente o ataque às mulheres faz parte da política de governo atual. Sempre foi sua agenda. Mas devemos nos mobilizar nas redes sociais e nas ruas, não deixando que isso seja banalizado. O Estado não é um antro exclusivo aos canalhas. A sociedade também não. 

Ao contrário da decisão do instagram, tais atitudes violam as diretrizes das relações sociais humanitárias. São criminosas. Devemos devolver estes crápulas ao seu lugar de direito: O esgoto da história. A sociedade brasileira não pode ficar assistindo atônita essa corja. Nem aplaudindo é claro. 

Denuncie!!  Disque 180.

Bahia contra a homofobia

Imagem retirada do site lance
O Esporte Clube Bahia entrará em campo, hoje, pela décima nona rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol jogando contra o Fortaleza no estádio da Fonte Nova às 16 horas, horário de Brasília. Independente do resultado da partida, o Bahia já entra vencedor da contenda.

O chamado "Esquadrão de Aço" irá trocar, simbolicamente, as bandeirinhas que marcam o escanteio por uma outra, com as cores características da bandeira arco-iris (ícone criado por Gilbert Baker, falecido em março de 2017), em uma campanha contra a homofobia nos estádios. Um golaço antológico do tricolor baiano, com toda a certeza.

Essa campanha aparece menos de um mês depois em que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) considerou punir os clubes com perda de pontos caso as torcidas entoem gritos homofóbicos. Qualquer ato de caráter preconceituoso por parte dos torcedores, será enquadrado como uma atitude indisciplinar com base no artigo 243-G do Código Disciplinar que reza: "Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência".

Há quem diga que a atitude é muito mais em função da punição considerar a perda de três pontos (seis, caso ocorra reincidência) do time infrator do que, realmente, uma consciência profunda sobre elementos discriminatórios do cotidiano dos brasileiros. Só para termos uma ideia deste problema, entre 2011 e 2018 foram registrados 4.422 mortes. Isso equivale a 552 mortes por ano. Uma vítima de homofobia a cada 16 horas (Saiba mais clicando aqui).


Mas não é isso que afirma o Manifesto escrito pelo Clube e que diz em alto e bom som que "Não é uma questão de pontos a mais ou a menos. É um propósito de igualdade, amor e vida".

Que assim, seja. E que a Bahia, o Brasil, jogue sempre, dentro e fora dos estádios, o jogo da igualdade de fato e de direito.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Ghiraldelli comenta Wallace

O duplo medalhista olímpico da Seleção Brasileira de Voleibol (Londres, 2012 e Rio de Janeiro, 2016 - prata e ouro respectivamente), Wallace Souza, de 32 anos de idade, foi entrevistado ontem pelo Jornal Folha de São Paulo.

Na oportunidade, o jornalista Daniel E. de Castro, fez duas perguntas, entre outras, e as respostas do jogador em relação às duas questões em particular: 1) Suas opiniões sobre política ganharam repercussão em 2018, após você declarar apoio ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Você sente que passou a ser cobrado por essas posições? e 2) Você tem uma avaliação sobre a política esportiva deste governo até agora?; foi motivo de comentário do professor, filósofo, Paulo Ghiraldelli Júnior, autor de várias obras, entre elas, uma que foi muito importante para os estudantes e professores de Educação Física na década de 80 do século passado - Educação Física Progressista: a pedagogia crítica social dos conteúdos e a educação física brasileira. (Edições Loyola).


Vídeo retirado do canal do professor no YouTube

No vídeo, o professor, que no meu entendimento está corretíssimo, faz crítica contundente ao atleta que até alguns meses atrás foi eleitor confesso do então candidato e atual presidente da república (em mínúscula, mesmo), jair bolsonaro (sempre em minúscula), e que diante da conjuntura  nacional, promovida pelo seu candidato, se exime de prestar contas sobre sua posição política.

É incrível como nós temos atletas brasileiros completamente alienados. Não se posicionam politicamente - o que já se configura como um posicionamento - mas, quando fazem de maneira explícita, é sempre no plano conservador, e porque não dizer, reacionário!!!

E o posicionamento do Wallace torna-se mais emblemático ainda por conta dele ter sofrido, em 2012, em partida válida pela superliga, uma injúria racial ao ser chamado de "macaco" por uma torcedora mineira, e votar em um candidato declaradamente racista.

Se em 2018, ao declarar voto no bolsonaro, o minúsculo, Wallace perdeu a oportunidade de ficar calado; ontem, ele perdeu a oportunidade de falar.

domingo, 18 de agosto de 2019

O Amor é um Ato Revolucionário


Tua boca que é tua e minha
tua boca não se equivoca
te amo porque tua boca
sabe gritar rebeldia

Jeff Vasques

No meio do templo da paixão popular uma demonstração de carinho entre duas pessoas se tornou num ataque homofóbico entre torcedores. O flagra foi no jogo Flamengo X Vasco no sábado (17). As diversas páginas das torcidas flamenguistas, nas redes sociais, estão repudiando o fato e prestando total solidariedade ao casal.

O amor é um ato de coragem. Em tempos difíceis como estamos vivendo, onde até os intestinos são convidados a se retrair, me orgulhou muito a bravura do casal. A imagem soou aos meus olhos como uma flor no meio dos escombros. Me lembrou um cartaz que dizia: Beije sua Preta em praça pública!

Eu pensei em escrever, revoltado, o quanto nosso país é um dos que mais matam LGBTQ+ no mundo. No quanto isso ainda é encarado como simples “brincadeira”. Canalhas! Casais homoafetivos são coagidos diariamente. Sangram, sentem, sofrem. Mas, respirando um pouco, observando um pouco mais a imagem, refleti que não poderia marcar tal momento com o avesso do que o casal pregava. No outro lado, eles querem o ódio. Não poderia ser igual a eles.

Eles irão passar muito tempo ainda resmungando e perseguindo demonstrações de afeto e carinho dos casais LGBTQ+ em público. Eles não suportam a felicidade. E é por isso que mais e mais imagens assim deverão florir as arquibancadas do país. Eles não suportam o amor.

Não se trata aqui de passar pano para o episódio homofóbico. Eles nos querem doentes, revoltados a todo instante, bombardeados pelo chorume do ódio. Se não numa declaração racista, num comentário imbecil, uma piada machista, ou eliminando uma jovem vida na periferia, que sonhava em ser mais um artista nos gramados. Querem nos ver aos cacos.

Lembrei de Guimarães Rosa: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Portanto, no momento do gol, beije seu dengo, sua “bença”, sua preta. Beije, dê-se ao direito do descanso, de respirar o amor um pouco. Precisamos estar fortes e saudáveis para escrever outra história, colocaremos eles no ralo dela. Já dizia o camarada Chê: Endurecer, sem perder a ternura!

Obrigado aos amantes pelo gole de saúde!

domingo, 31 de março de 2019

O breve suspiro da periferia





O menino ainda não tinha escolhido seu time de futebol. Ouvia atentamente os comentários dos seus amigos sobre os melhores lances da última rodada do fim de semana, buscando nas opções multicoloridas qual seria seu “manto” para defender naqueles debates, antes, durante e depois das aulas.

Na escola ou na rua, os fervorosos momentos do campeonato estadual sempre estavam em pauta nas conversas. Nomes dos artilheiros, os melhores goleiros... Claro, ele sempre dava uma breve conferida antes de sair para escola, durante o almoço, no programa de notícias que dedicava um bom tempo da sua programação ao futebol. Mesmo diante de tantos argumentos dos amigos mais próximos, que na grande maioria torciam para o time rubro-negro, o menino achava melhor pensar mais um pouco.

Escolher o time de futebol representava para ele duas possibilidades: Guerra ou paz. Aquela alcateia nunca lhe deixaria quieto numa segunda-feira pós disputa, se o resultado fosse positivo ou não para eles. Não importava se a posição do time rubro-negro fosse a lanterna da competição, os saudosos tinham sempre a mão sua lista de títulos para usar como justificativa: “Somos os melhores, e isso é indiscutível!” “Lembra do nosso tricampeonato?” O garoto ficava abismado como nada abalava a autoestima daqueles torcedores. Qualquer coisa é só falar de mil novecentos e... Sempre a mesma coisa.

Na sua família não havia consenso. Suas irmãs torciam também para o time rubro-negro, seu pai era torcedor do alvirrubro e sua mãe era indiferente a tudo isso. Ele até acreditava, as vezes, que a única que tinha razão era ela:
- Time de futebol não põe comida na mesa. Nunca colocou. Dizia sempre sua querida mãe, quando flagrava um triste torcedor largado à sarjeta, ou entregue às pequenas doses de felicidade que chegam depois de dois ou três copos de cerveja ou cachaça, assistindo as partidas. Apontava os coitados para o menino como uma professora sinalizando um exemplo do que estava falando.

Ele cogitou várias vezes viver sem defender nenhum time de futebol, mas tinha uma enorme curiosidade de saber de onde brotava tanta paixão, tanto poder que, transformava os sérios pais de família, aqueles homens de face rija, que interrompiam os babas de rua retornando para suas casas dos seus trabalhos, querendo passar ilesos sem sujar seus uniformes impecáveis, em felizes criaturas festivas e infantis, entregues a esbórnia de um domingo ensolarado de futebol na TV.

A primeira inclinação do pequeno a um estandarte foi num domingo de final de estadual. A disputa era entre os alvirrubros x tricolores. Nos seus afazeres de ajudante no bar do seu pai, ele era envolvido por toda aquela atmosfera no ambiente: Torcedores com seus rádios de pilha, ofegantes entre um gole de cerveja ou cachaça. Uma miscelânea de sons e ruídos, palavrões e algumas lágrimas. No canto do bar um triste senhor retirava o excesso de suor do rosto com um lenço. Uma fisionomia arrasada perante o resultado da partida. Faltavam alguns minutos para acabar o jogo.

Tudo estava dado. Os alvirrubros levaram a melhor. O tricolor jogava por dois empates mas perdeu a primeira partida da final e estava perdendo a segunda por 1x0. Alguns já pagavam suas contas, outros pediam manhosamente o caderninho do prego. Recolhiam seus cacos sob uma tristeza sonolenta de um final de domingo. Era hora de preparar-se para enfrentar mais uma semana de trabalho e claro, de muita zombaria entre os adversários. Mesmo os torcedores que não tinham seus times envolvidos nas finais, pegavam carona na chacota aos derrotados. Eis que algo de inusitado acontece.

Os rádios de pilha já haviam sido silenciados, mas ouviu-se de longe um grito desesperado de gol. O time do povo, o tricolor, teria empatado o jogo aos 38 minutos. Seria ao menos um resultado reconfortante para se usar como argumento de defesa contra as chacotas. Entretanto, aos 44 minutos, o locutor, num misto de grito, desespero ou sabe-se lá o que, estrondava as caixas de som dos pequenos rádios de pilha que foram rapidamente religados, quase que perdendo a voz enquanto o menino paralisado tentava compreender tudo aquilo, anunciava a virada. O tricolor era o campeão.

Os torcedores surgiram de vários lugares. Se abraçavam, choravam, sorriam. Era carnaval na inocente subjetividade do menino. Por um instante todas aquelas pessoas que já estavam prestes a iniciar todo o processo de preparação espiritual para encarar por algumas horas o coletivo lotado, passar a metade do dia num ambiente insalubre, retornar para o mesmo coletivo “lata de sardinha” no final do dia, em suas labutas diárias, se entregavam ao prazer inconsequente. Eram felizes saltitantes, molhando seus pés nas águas do esgoto ao céu aberto, observava emocionado o menino.  

E logo surgiam análises sobre o feito. “Foi resposta divina”, “Minhas preces foram ouvidas”, entre outras mitologias. E o menino somava as explicações populares com as do jornal do meio-dia, que mostrava na TV os melhores momentos da partida. Tudo era válido. Afinal de contas, o garoto tinha se envolvido numa experiência, digamos, mística, sobrenatural, que o marcou de alguma forma. Alguma coisa tinha mudado no pequeno. Ele pensava que, assim como naquela partida, nem tudo está dado como encerrado. Assim como os bravos guerreiros tricolores, sempre se pode lutar até o último minuto.   

Atrás do balcão que era do seu pai e que hoje é seu, ele já assistiu a alegria, a angústia, a agonia e a tristeza, de pessoas comuns e trabalhadoras como ele, durante várias partidas, seja do estadual ou do nacional. No meio de toda euforia ele percebeu que estes momentos nos colocam em sintonia uns com os outros. Era um gole de vida para aquelas pessoas incompreendidas e propositalmente invisíveis, que se entregavam à bebida todos os dias gritando por ajuda.  

 Era o momento em que ele observava os poucos suspiros de fragilidade, os urros de humanidade, dessa gente embrutecida e saqueada, que passa por ele às 4 da manhã, arrasados de sono e cansaço, indo para o trabalho, enquanto ele abre as portas do bar. A bandeirinha de 1993 do tricolor, empoeirada entre as prateleiras, é um dos objetos de decoração do seu bar.