As recentes turbulências envolvendo a FIFA parecem ter aberto uma nova frente de disputa dentro do futebol internacional. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o presidente de La Liga, Javier Tebas, foi direto ao questionar a permanência de Gianni Infantino à frente da principal entidade do futebol mundial. Para ele, o problema não está apenas no atual presidente, mas em um modelo de governança que permite a concentração de decisões e o afastamento dos principais atores do futebol dos processos que definem os rumos da modalidade.
A declaração de Tebas veio na esteira do fracasso do projeto da FIFA Forward Enterprise, a subsidiária criada com a perspectiva de negociar direitos comerciais de competições organizadas pela entidade, entre elas a Copa do Mundo. Para o dirigente espanhol, o episódio seria apenas a parte mais visível de um problema muito maior.
Segundo Tebas, não se trata de uma crise provocada exclusivamente por uma pessoa. O que estaria em questão é um sistema de poder construído dentro da FIFA e reproduzido ao longo dos anos. Na sua avaliação, trocar os nomes sem alterar as estruturas significaria apenas manter o mesmo modelo com novos personagens.
Essa crítica atinge diretamente Gianni Infantino. Tebas afirma que o “reinado” do dirigente suíço já teria terminado há muito tempo, embora sua saída formal ainda não tenha acontecido.
E, para sustentar sua posição, recorre a exemplos recentes da própria administração da FIFA. A organização e a expansão da Copa do Mundo de Clubes seriam, em sua avaliação, demonstrações de um processo de tomada de decisões no qual campeonatos nacionais e outros protagonistas do futebol têm pouca ou nenhuma participação efetiva.
A crítica também alcança o episódio da Superliga Europeia. Tebas lembra que o nome de Infantino apareceu em documentos relacionados ao projeto e aponta a existência de conexões entre pessoas envolvidas naquela iniciativa e o projeto da FIFA Forward Enterprise.
Mais do que questionar uma decisão específica, portanto, o presidente de La Liga coloca em debate o próprio modelo de poder existente no futebol mundial.
E aqui está talvez o ponto mais importante de sua declaração: o futebol não pode ser compreendido apenas a partir de seus grandes eventos internacionais, de suas estrelas ou de seus dirigentes mais poderosos.
Existe uma estrutura muito maior sustentando esse espetáculo. Existem campeonatos nacionais, clubes, jogadores, torcedores, trabalhadores, federações e uma enorme indústria econômica que movimenta bilhões de dólares. Quando decisões que afetam todos esses setores são tomadas de maneira centralizada, sem participação efetiva daqueles que serão diretamente impactados, o problema deixa de ser apenas administrativo. Passa a ser uma questão de poder.
É justamente nesse terreno que Tebas afirma que pretende continuar atuando.
Para ele, protestar, defender direitos e recorrer às instituições judiciais quando necessário são instrumentos legítimos de enfrentamento. La Liga, ao lado da FIFPro, já havia recorrido à Comissão Europeia em 2024 para questionar a expansão contínua do calendário, com o aumento do número de jogos e competições.
A posição de Tebas é clara: o diálogo, quando não produz mudanças concretas, não pode servir como justificativa para a manutenção de determinadas práticas.
“Estamos conversando há 20 anos e nada foi resolvido”, afirmou.
Essa declaração revela uma disputa que ultrapassa a figura de Gianni Infantino. O que está em jogo é quem terá o poder de definir os caminhos do futebol mundial e, principalmente, quais interesses serão considerados nessas decisões.
A grande questão, portanto, não é apenas saber se Infantino continuará ou não à frente da FIFA.
A questão é saber se uma eventual mudança de presidente será suficiente para transformar a estrutura de poder da entidade.
Porque, como o próprio Tebas sugere, substituir algumas pessoas sem modificar as regras do jogo pode significar apenas trocar os personagens e manter a mesma história.
No futebol contemporâneo, cada vez mais transformado em um gigantesco mercado global, essa discussão ganha ainda mais importância. Quanto mais competições são criadas, mais jogos são disputados e mais direitos comerciais são negociados, maior se torna a disputa pelo controle dos recursos, dos calendários, das transmissões e, consequentemente, dos próprios rumos do esporte.
Por isso, quando Tebas afirma que a “era Infantino acabou”, talvez a pergunta mais importante não seja quando o atual presidente deixará o cargo. Mas, sim, quando o futebol mundial deixará de ser administrado por estruturas que concentram decisões e passará a construir uma governança efetivamente democrática, transparente e participativa?
Enquanto essa resposta não aparecer, a crise continuará sendo muito maior do que o nome de Gianni Infantino.
E Javier Tebas garante que, enquanto estiver à frente de La Liga, continuará travando essa batalha.



