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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Competência profissional

Nas idas e vindas do raciocínio, quando da exposição do conteúdo em sala, assuntos aparentemente desconexos surgem, procurando fazer parte do momento pedagógico da contextualização.

Na aula de história, dizia que embora a Educação Física se colocasse como uma área da saúde, a sua perspectiva sobre o tema ainda era, hegemonicamente, centralizada no indivíduo e o exercício físico, além de "receita e remédio para os males da sociedade", assumia um caráter utilitário, funcionalista, objetivando a promoção e o desenvolvimento “normal” da sociedade, assumindo uma visão conservadora, típica dos tratados higienistas e eugenistas do século XVIII. E arrematava: NÓS NÃO ESTAMOS NO SÉCULO XVIII. ESTAMOS EM PLENO SÉCULO XXI, e problemas sérios de saúde pública afetam a população brasileira e nós, o que estamos fazendo? Discutindo a importância do galho seco na reprodução dos macacos.

Isso foi na aula de história, pela manhã. Na parte da tarde, na disciplina de Introdução ao Trabalho Científico eis que surge, mais uma vez, a preocupação por parte dos acadêmicos, sobre sua formação e a necessidade de inclusão, no currículo de novas disciplinas. Entre elas, a BIOMECÂNICA.



De maneira alguma, estou querendo negar essa necessidade. Não tenho base concreta para isso. Mas disse aos estudantes que se eles consideravam importante a inclusão de qualquer disciplina, que demonstrassem cientificamente essa importância. Se, com base no desejo particular, interesses singulares, o curso começasse a mexer na matriz curricular, onde iríamos parar?

Nesse ínterim, suponho que está em jogo, por parte do alunado, a preocupação com a sua competência técnica. Algo extremamente importante. No entanto, se apartamos esta do debate sobre o compromisso político da formação de professores, estaremos reforçando a hegemonia dos que entendem a Educação Física, enquanto uma área do conhecimento, como mais um aríete a reforçar a visão oitocentista.

Precisamos ter muito cuidado com este processo. Citando uma antiga referência diria, para início de conversa, que devemos procurar desenvolver um movimento simétrico entre a competência técnica e o compromisso político.

Eis o desafio que está posto e ele não é novo.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Lógica Formal?

No dia 06 de abril, segunda-feira passada, comemorou-se o Dia Mundial da Atividade Física. Aproveitamos a imagem abaixo que circulou pelas redes sociais para questionar mais uma vez a lógica presente no entendimento da relação entre a atividade física e a saúde, bem como do sedentarismo.

Nem sedentarismo é doença e nem atividade física é saúde, como afirma o texto presente na imagem. Essa causalidade impede que compreendamos a relação, sempre e cada vez mais complexa e contraditória entre os elementos desta "equação".

E essa complexidade não será resolvida mesmo que, hipoteticamente, possamos, cotidianamente, acumular os tais 30 minutos de atividade física.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Gordinhos Atléticos

O título desta postagem segue o mesmo de uma pequena matéria publicada na revista ISTOÉ em setembro do ano passado.


E reza a matéria: "Esqueça a equação de que quanto mais gordura uma pessoa tiver, menos saudável ela será. Duas pesquisas publicadas na última semana mostram que essa regra tem uma exceção: os gordinhos não sedentários. Quem faz exercícios físicos, mesmo estando acima do peso, tem tanta saúde quanto os magros - e também está menos sujeito a morrer por problemas cardíacos e câncer. A descoberta põe em cheque a validade do Índice de Massa Corpórea (IMC) para determinar quem é ou não obeso. A razão: o cálculo pode indicar como obeso alguém que tem alto peso por causa da massa magra e não de gordura"

Será verdade isso? Qual a relação do início da matéria com seu arremate final? Com a palavra os especialistas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mensagem publicitária como tática da "maquinaria do agito"

A publicidade deve atingir em cheio a consciência do espectador. Ou telespectador, dependendo do meio que se utiliza para passar a mensagem. Aliás, o meio também exerce uma influência no conteúdo da mensagem publicitária.

No rádio, onde os sentidos são "mais reduzidos" a mensagem de um produto apresenta um conteúdo diferente na apresentação deste mesmo conteúdo anunciado na televisão, por exemplo. Conteúdo e forma são dois elementos que balizam as produções da mensagem e suas disseminações nos diferentes meios.

Conteúdo/forma e meio/mensagem se evidenciam pela linguagem. Esta, como produto e processo das relações sociais, não é neutra e garante sentidos e significados distintos às produções publicitárias, expressando nas mesmas uma visão de mundo que pode ser reducionista, ampliada, flexível, entre outras, podendo até classificar socialmente os indivíduos.


No mês de setembro último, para comemorar o dia do Profissional de Educação Física, o Conselho Regional de Educação Física (CREF) de Minas Gerais veiculou uma propaganda com um teor, no meu ponto de vista, além de reducionista, grosseiro, minimalista e preconceituoso.

Além de tudo isso, classificou também o indivíduo obeso, enquadrando-o em coordenadas geográficas. Seria a metáfora perfeita para o chamado "mundo dos magros" ou dos "menos redondos"? Um mundo onde as linhas e os meridianos são mais importantes do que as pessoas?

Ao dar de frente com esse tipo de mensagem expressa na propaganda da imagem acima, fico me perguntando até que ponto a mesma denota uma preocupação com o fenômeno da obesidade ou trata a mesma com nítidos contornos preconceituosos. O que justifica "fazer de tudo por um mundo menos redondo"? O que este "mundo menos redondo" tem de tão bom que é preciso "fazer de tudo" para que ele prevaleça?

Aliás, a expressão "fazer de tudo" já é preocupante. Aqui entra, portanto, até a prática do uso de anabolizantes, remédios para emagrecer, utilização de atividades físicas não condizentes, etc, etc, etc. Em outras palavras, o importante é ser "menos redondo", pleonasmo para dizer que o fundamental é ser magro!!! Não importa o que você faça.

Uma instituição como o CREF não pode desconhecer os estudos realizados no campo da psicologia que vem identificando que quanto mais se rejeita a obesidade, quanto mais se idolatra a magreza, mais e mais problemas relacionados à própria obesidade se ampliam.

Na minha humilde opinião, esse discurso da mensagem publicitária acima só se justifica pelo atendimento aos interesses da "maquinaria do agito". Conota muito mais uma estratégia que visa ao endereçamento. Esse discurso do "menos redondo" compõe uma tática recorrente que objetiva capturar o sujeito. Subliminarmente, propagandeia produtos e serviços ao mesmo tempo em que vende um certo estilo de vida "saudável" e "ativa".

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P.S. Observe o que fizeram nas camisas da mensagem publicitária com o suposto suor. Isso demonstra cabalmente que as suspeitas da postagem anterior - Coração de suor... - não são infundadas.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Saúde é o que interessa!!!

Hoje pela manhã, mais uma vez, o processo de mistificação da relação atividade física/saúde foi disseminado via reportagem no Bom Dia Brasil, programa jornalístico da Rede Globo de Televisão.

O programa veiculou que um grupo de professores de educação física, tomando como referência um estudo que comprova que 30 minutos diários de atividade física são suficientes para o indivíduo adquirir saúde, começou a promover uma campanha intitulada "30 todo dia".

Segundo os professores, esse é o tempo suficiente para que a atividade física promova sua saúde, melhore o seu bem estar e amplie sua qualidade de vida. Além disso, melhora a sua "capacidade funcional" e previne doenças, entre outros chavões reproduzidos via televisão e por outros meios de comunicação de massa. Em síntese: atividade física é receita e remédio para os males da saúde da sociedade.

E se você não puder, por alguma maneira, fazer 30 minutos? É preguiça!!! Afirma taxativamente um dos professores que fez parte da reportagem.

O que esse tipo de reportagem tem de problema é o fato de mistificar a realidade, passando a ideia de que todos nós temos as mesmas condições de realizar atividade física quando quiser, bem como as mesmas condições materiais, sociais, culturais entre outras, de prover o completo bem estar, que não se resume a ausência de doenças, como parece ter em mente os colegas professores e a lógica da reportagem.

Em um país com a saúde privatizada; um salário mínimo de 678 reais; um nível de violência urbana que vitima os indivíduos muito mais do que muitos países em guerra; taxa de desemprego de 11% (só no mês de março); vítimas de assassinatos se proliferando mês a mês, ano a ano (só em São Paulo, tivemos 37,3% de homicídios dolosos de janeiro a março, um aumento de mais de 26% em relação ao ano passado) entre outros indicadores sociais, a abordagem sobre a relação entre atividade física e saúde deveria ser veiculada em um patamar muito mais responsável e esclarecedor, como requer toda boa matéria sobre qualquer tema.

Se a Rede Globo e o Bom Dia Brasil, está realmente preocupada com a saúde do brasileiro, que tal utilizar um Globo Repórter para falar sobre o tema em uma abordagem mais ampla e crítica, esclarecendo ao povo brasileiro o comportamento dos planos privados de saúde e o papel do seus lobistas no congresso nacional?

Ontem, os médicos de todo o país pararam para denunciar o descaso dos planos de saúde para com a remuneração das suas horas trabalhadas, que repercute diretamente na cada vez mais falta de qualidade do atendimento, com prejuízo para todo o cidadão brasileiro.

Mas o que fez a "Vênus Platinada" um dia depois? Dourou a pílula e deu a receita. Para sanar estes e outros problemas de saúde, faça atividade física ao menos 30 minutos por dia. Caso contrário, você será taxado de preguiçoso, de sedentário, esses sim, os verdadeiros vilões da sua falta de saúde.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Nota em Repúdio ao CONFEF/CREF's


NOTA ESCRITA PELO DIRETÓRIA ACADÊMICO DE EDUCAÇÃO FÍSICA DA UFBA.

O Diretório Acadêmico de Educação Física da UFBA, Gestão 2013/2014 vem, por meio desta nota, repudiar a ingerência do Sistema CONFEF/CREF’s no NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família).
O CONFEF/CREF, através do ofício CONFEF/426/2013, “alerta” o Ministério da Saúde sobre a atuação do licenciado em Educação Física, alegando que “(...) no sentido de garantir a qualidade dos serviços e a segurança da população, vez que os egressos de curso de licenciatura em Educação Física baseados na RESOLUÇÃO CNE/CP Nº1, de 18 de fevereiro de 2002, que instituiu Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, não adquirem conhecimentos acadêmicos para intervenção no segmento relacionado ao NASF”.
O Sistema CONFEF/CREF’s é criado em 1998, com o objetivo de defender a fragmentação da formação e atuação do professor de Educação Física. Neste momento, tal fragmentação se expressa na limitação de atuação nos diversos campos de trabalho, em especial no campo da Saúde, Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF). Assim, o CONFEF/CREF tenta dividir a nossa formação, se inserindo nas universidades e espaços de trabalho.
Tomando como base as ações do Ministério Público Federal contra a ingerência do Sistema CONFEF/CREF’s em todo o Brasil (especificamente aqui na Bahia, atuação do Conselho Estadual de Educação), nós repudiamos tal atitude e chamamos todos os estudantes e professores de Educação Física a somarem esta luta.
Somos contrários à fragmentação da formação do profissional de Educação Física em Licenciatura e Bacharelado, pois esta fragmentação coloca estudante contra estudante, pra ver quem atua no campo de trabalho da Saúde, fazendo com que estes disputem entre si.

Defendemos a proposta de Licenciatura Ampliada, construída pelo Movimento Estudantil de Educação Física e pelo grupo LEPEL, que coloca no centro da formação de professores a necessidade da fundamentação teórico-prática nos campos de atuação da Educação Física, e isso inclui o NASF, a necessidade de instrumentalização para o trabalho científico e para o trabalho pedagógico nos campos de atuação, na defesa de um projeto de sociedade que caminhe para a democratização do acesso á produção humana no campo da Cultura Corporal. Temos uma experiência em andamento, a reformulação curricular do curso de Educação Física da UFBA, aprovado em 2011, que tendo 2 anos de sua implementação, vem com a proposta de defender a Licenciatura Plena de Caráter Ampliado,  com um currículo voltado para defender a atuação destes profissionais nos diversos campos, seja na escola, na saúde coletiva, no lazer, nos clubes, e nos demais campos. Esta experiência se expressa como o que temos de mais avançado em relação à formação de professores de Educação Física no país.

Convocamos todas e todos os estudantes e demais professores de Educação Física que defendem a proposta da Licenciatura Ampliada para seguir na luta juntos contra a ingerência do CONFEF/CREF’s em todo o Brasil. Sabemos que toda essa problemática em relação à atuação profissional é uma ação do capital na defesa de uma sociedade desigual, que visa os seus interesses.

Seguiremos na luta contra a atuação deste conselho e por uma formação adequada para intervenção dos professores nos diversos campos de atuação.

Educação Física é uma só!  Formação Unificada Já!

terça-feira, 16 de abril de 2013

Absurdo

País sem escola, sem saúde, sem transporte, sem casa, sem esgoto vai gastar bilhões em Copa e Olimpíadas. Absurdo!!! (Alberto Murray Neto)

sábado, 6 de abril de 2013

Contradição aparente

Amanhã, sete de abril, ocorrerá, principalmente nas cidades-sedes da Copa do Mundo de 2014, em parceria com o Ministério da Saúde, a comemoração do Dia Mundial da Saúde. O evento aqui em Salvador tem o apoio também das secretarias de saúde do estado e do município, que serão representadas pelo secretário do Estado, Jorge Solla e do Agita Bahia, sob a presidência do senhor Cristiano Pitanga.

Segundo a página oficial da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, o objetivo do evento é "fortalecer a mensagem da promoção da saúde, através da adoção da prática de atividades físicas e alimentação saudável".

Ainda no mesmo diapasão, há um alerta sobre a importância de somar, à estas práticas, o "não uso do tabaco e do álcool", potencializando, ao indivíduo, a proteção das "doenças crônicas não transmissíveis" e, deste modo, prevenindo a "hipertensão arterial, diabetes e outras patologias". Em suma: atividade física somada a uma alimentação saudável é uma excelente receita para os males da sociedade moderna.

Considero a intenção belíssima. E não tenho dúvida alguma sobre o sucesso do evento e da importância da prática da atividade física, muito embora tenha minhas dúvidas sobre este debate descolado de ações mais concretas sobre a relação causal entre esta e a aquisição da saúde e, também, sobre as ações contraditórias entre o governo que promove e incentiva o evento e suas ações práticas.

Por exemplo. Já que o não uso do tabaco e do álcool é um elemento fundamental para a proteção do indivíduo em relação a aquisição de patologias, por que então este mesmo governo aceita mudar o nome da Arena Fonte Nova para ITAIPAVA ARENA FONTE NOVA? Não é a Itaipava uma fábrica de cerveja? A cerveja não contém álcool?

Para não falarem que sou "do contra", quero registrar aqui que esta contradição é apenas aparente. Faz parte das lutas que interessam às classes e frações de classes que compõem o bloco histórico essa dinâmica contraditória em relação aos fenômenos sociais, entre eles a atividade física, a saúde e as ações do Estado.

Então, o que fazer? Sugestão para também não falarem que fico apenas no lugar confortável da crítica sem propor alternativas: que tal, na caminhada, ao invés desta se resumir a um "ato de repúdio ao sedentarismo e de incentivo a vida ativa e feliz", os participantes levantarem faixas e cartazes contra esta opção do Governo?

Fica a minha sugestão, irrealizável, obviamente - pois quem paga a banda escolhe a música - do combate a esta contradição aparente.

domingo, 31 de março de 2013

Caminhando contra o vento?


O cartaz ao lado nos convida para uma caminhada no dia sete de abril. Domingo próximo. “Céu de brigadeiro”, sem nuvem alguma. O sol está presente embora não apareça. A paisagem arborizada completa o clima agradável e, porque não dizer, saudável.

De imediato, a contradição entre o texto e a imagem idealizada aparece, já que o homem da ilustração não caminha, mas, corre. Seria esse um simples paradoxo? Seria essa uma pequena contradição? O que um cartaz que convida a caminhar quer representar com um sujeito que corre?

O sujeito, aparentemente corre a esmo. Ele é indiferente ao que está no horizonte. Corre olhando despreocupadamente para o piso gramado, muito embora o seu tênis “solicite” um piso mais duro. Sua camisa, enxuta e “branca como a neve”, parece indicar que ele começou a correr no exato momento do click do fotógrafo. Tudo na paisagem é “clean”. Todo o texto aparece limpo e sem odor.

Mas a mensagem é clara. É mais um investimento do “discurso da vida ativa” que tem como objetivo desenvolver na população de uma maneira geral, o gosto por um estilo de vida além de ativo, saudável. Nada de novo. Esse discurso já se encontrava presente na área médica oitocentista que apresentava a educação do físico como receita e remédio para os males da sociedade capitalista nascente.

Mas o capitalismo se desenvolveu. Nesse processo, novas mediações foram aparecendo e junto com elas, as contradições sociais. Soares em seu estudo sobre Educação Física: raízes europeias e Brasil, publicado pela editora Autores Associados, alerta que “A medicina social, que se estrutura a partir do século XIX, procurará demonstrar que a verdadeira ‘origem’, ‘causa’ ou determinação da doença era a realidade social, absolutamente opressora, do capitalismo (...) não sendo suficiente, portanto, apenas a intervenção médica no corpo individual ou no coletivo social para o restabelecimento ou o estabelecimento da saúde, como postulava a medicina clínica. Não pode haver saúde sem que se mude a sociedade, pois é a estrutura social que explica o surgimento das doenças” (pág. 31).

Perdemos essa compreensão. Os anos 90 do século XX, com o neoliberalismo a engendrar o pensamento único, fez prevalecer o recuo teórico e a defesa de que a solução dos males da sociedade estava nas atitudes individuais. Não foi a excelentíssima ex-primeira ministra britânica, Margaret Thatcher que disse em alto e bom som, em plena efervescência do neoliberalismo inglês de que só o indivíduo existia e que a sociedade era uma simples peça de ficção?

É assim que os apologistas do princípio da vida ativa enxergam o fenômeno da atividade física e saúde. Centra-se no sujeito, no indivíduo que é posto entre parênteses e suspenso no ar, convencendo-o que basta tomar gosto pela prática da atividade física, realizá-la por alguns minutos por dia, que sua saúde vai melhorar, sua qualidade de vida vai ser ampliada, sua disposição física se elevará a enésima potência, etc, etc.

Notem que o otimismo desta concepção é tão grande, que a extensão do convite aos familiares e amigos para praticarem a tal caminhada é sugerido sem preocupação prévia alguma sobre o estado de bem estar social deste mesmo indivíduo. Parte-se do princípio, característico desta visão de mundo naturalizante, positivista, que todos têm as mesmas condições para praticarem a atividade física e adquirir ou ampliar sua saúde. Não por acaso no cartaz contém a observação que a “atividade física” é “sem barreiras”, sejam elas físicas ou sociais ou ambas.

No fundo no fundo, a mensagem expressa no cartaz diz respeito aos indivíduos já saudáveis, brancos e bem nascidos, aos robustos “mamíferos de luxo” gramsciano, aos que podem usar Bermuda TechFit, meias de algodão, tênis mizuno, camiseta Crew Ess, Boné Oakley Sport, relógio Oversized Alpha para desfrutar, despreocupadamente, do prazer de caminhar ou correr no Jardim de Alah, às sete horas da manhã de um domingo.

Uma pena que a caminhada e a corrida estejam em favor dos ventos, com lenços e documentos.

sábado, 15 de setembro de 2012

A questão do voluntariado

Desde o dia em que a FIFA anunciou que também iria trabalhar com o voluntariado para a Copa de 2014, que este tema vem ganhando o lugar do debate. Uns são contra. Outros a favor. E outros tantos, nem contra e nem a favor, muito pelo contrário.

Brincadeira a parte, o fato é que este tema é realmente muito delicado. A ideia do trabalho voluntário para um evento que mexe com a casa dos bilhões, soa estranho para qualquer ouvido atento. No entanto, penso que devamos tomar cuidado com determinadas posturas a respeito do tema.

Refiro-me ao fato de não contextualizarmos as nossas opiniões discordantes. Dos que ouço falarem que são contra, parece generalizar sua contrariedade, como se todo o trabalho voluntário fosse algo absurdo, quando na verdade, não é bem assim. Senti esse clima quando na mesa sobre megaeventos esportivos que participei, no encontro nacional dos estudantes de educação física, falei que era a favor do voluntariado.


O voluntariado é uma bandeira cara a esquerda mundial. Cuba mesmo, um dos países referência desta bandeira, pratica o voluntariado no mundo inteiro, principalmente na área da saúde. Precisamos ter muito cuidado quando em alto e bom som, falamos que somos contra o trabalho voluntário. Não podemos jogar o bebê junto com a água do banho fora só porque, mais uma vez, o capital se apropriou de uma palavra cara a todos nós e a transformou em possibilidade de subtração de mais valor sobre as ações de homens e mulheres, que encaram esta empreitada com as maiores das boas intenções.

Devemos sim, condenar este tipo de voluntarismo que pratica a FIFA, que praticou o COI em Londres e praticará também aqui, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. Este mesmo voluntarismo que alimenta ações do tipo "amigos da escola", da Rede Globo e tantas outras ações que a despeito de levarem a bandeira do exercício da cidadania, alimenta a sanha financeira de muitas corporações.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Esporte, saúde e a crise estrutural do capital

O tema proposto para a Campanha da Fraternidade deste ano nos diz respeito. Trata-se do “Fraternidade e Saúde Pública” e o lema é “Que a saúde se difunda sobre a terra”. Precisamos aproveitar este momento para aprofundar ainda mais o debate sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o papel da nossa área de conhecimento neste campo de intervenção.

Durante muitos anos, o paradigma que envolvia o campo da educação física era o conhecido modelo da "aptidão física", que tinha a ausência de doença como critério de indivíduo saudável e propunha a atividade física como elementos potencializador da saúde, sem levar em consideração outros fenômenos sócio-históricos como componentes importantes de uma vida saudável, como lazer, trabalho, educação, habitação, transporte entre outros. Este paradigma ainda tem força no chamado "princípio de vida ativa", que procura vincular as atitudes individuais, no âmbito da atividade física, como potencializador da saúde ou da doença.

O caduco paradigma da aptidão física junto ao "moderno" princípio da vida ativa, vincula(va) o esporte como elemento fundamental nesse processo, já que era uma prática que a maioria das pessoas gosta(va)m de fazer. O mote "Esporte é saúde: pratique", que ficou durante muitos anos sendo vinculados em diferentes redes de TV do país é uma prova da relação mecânica que se estabelecia entre estes dois complexos temáticos e que atualmente ainda se vincula ao pão requentado do "vida ativa".

No entanto, novos ventos sopraram sobre o campo da agora educação física/ciências do esporte e estes nos obrigam a pensar a relação atividade física/esporte/saúde/doença em outras perspectivas teóricas e práticas. Para tanto, precisamos buscar na contradição presente nesses fenômenos o ponto central do debate. As categorias da "realidade" e da "possibilidade" nos ajudam a pensar dialeticamente estes complexos.

E no meu entendimento, a contradição aparece justamente na intenção do governo federal de contingenciar (eufemismo para não dizer cortar) mais de 5 bilhões da pasta da saúde do orçamento para 2012, muito embora, no discurso, o governo apresente um aumento do orçamento em 17% em relação a 2011.


Esses e outros elementos é que nos permitem aprofundar o debate sobre os complexos temáticos apresentados no contexto imediato sem idealizá-los, colocando-os no emaranhado de fatores presentes no movimento do real, na tentativa de se aproximar de uma solução mediada no limite das relações sociometabólicas do capital, que procura solucionar o embate via planos privados de saúde.

A Campanha da Fraternidade é mais uma oportunidade de ampliar, aprofundar e buscar soluções do que há muito o campo crítico progressista  da educação física vem procurando problematizar: o conceito de saúde pública, atrelando ao debate, impelido pelos fatos contemporâneos, a necessária superação do sistema metabólico do capital como horizonte histórico no contexto da sua crise estrutural.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Saques 24 horas

Angeli, chargista brasileiro, conseguiu em uma das suas charges, como sempre, resumir o que significa hoje a relação dos governos, entre outros, com a república brasileira. A charge a qual me refiro pode ser vista clicando no link http://noticias.uol.com.br/humor/1101_album.jhtm#fotoNav=2 .Essa charge, que leva o nome do título desta postagem, me fez pensar nas políticas dos governos, chamadas de Políticas Públicas só por força semântica.

Agora Salvador vai abrigar a Copa das Confederações. Alguém foi consultado? Não, simplesmente eles, os senhores dos anéis, os donos do estado, compreendem que é importante e...PONTO! Saúde? Educação? Habitação? Saneamento? Segurança? Urbanização? Bobagem. É só colar tudo isso ao discurso da importância dos grandes eventos esportivos para o país, para o estado, divulgar este discurso em diferentes meios de comunicação para reverberar na consciência do povo que tomará o discursos como se fosse, ele, o próprio idealizador do mesmo e tá tudo resolvido.