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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sem copa e sem cozinha

A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que ocorrerão aqui no Brasil já começaram. Aliás, desde que o país consagrou-se como a "bola da vez" dos dois principais megaeventos esportivos do globo, que Estado e Sociedade Civil vem se mobilizando para o seu empreendimento e/ou seu questionamento.

Ponderações de diferentes setores da sociedade, tomando como base experiências históricas de grandes eventos no país, como, por exemplo, o Pan-americano de 2007, realizado no Rio de Janeiro, questiona a necessidade de investir tanto dinheiro público para eventos que beneficiarão uma ínfima parcela da sociedade, isso quando os próprios argumentos não passam a questionar os próprios benefício, já que "gato escaldado tem medo de água fria".
Setores que ponderam no sentido de convencer a população da necessidade dos eventos esportivos, obviamente, rebatem os argumentos contrários. Enfatizam eles os mais diversos tipos de benefícios: melhoria da mobilidade urbana; investimentos em infra-estrutura; por exemplo, nos aeroportos; ampliação do turismo; incentivo à prática esportiva, de onde se alega um aporte de benefícios indiretos para outros setores sociais, como a saúde e a educação, entre outros.

Se o debate, ora em curso, depender da Organização das Nações Unidas (ONU), novos argumentos irão fortalecer grupos sociais que questionam os megaeventos nacionais. Isso por que, a despeito da necessidade de agilização das ações de viabilização do evento, atrocidades estão sendo acometidas à população mais humilde, e elas não tem relação alguma com saúde e educação. Ao contrário. Trata-se de impedir que o sujeito tenha garantido um dos seus direitos mais básico: a moradia.

Raquel Rolnik, relatora especial da ONU, em artigo escrito no sítio do yahoo! nos alerta que várias autoridades estão descumprindo acordos importantes, definidos internacionalmente, ao praticarem remoções de moradores de maneira arbitrária e sem os devidos cuidados impostos por lei, violando direitos humanos fundamentais. (Leia o artigo clicando aqui).

Existem absurdos, tal como o relatado pela revista Carta Capital da semana passada, em que famílias são comunicadas sem tempo para organizar o seu desalojamento, se é que isso é possível. Diversos moradores recebem a notificação de desapropiração da área com um prazo máximo de "zero dia(s)". (Ver imagem ao lado).

São moradores que vivem na comunidade há mais de 20, 30 anos e sofrem todo esse transtorno para dar passagem as obras que foram prometidas como contrapartida para a realização dos eventos esportivos. Tudo perfeitamente justificado pelas manobras ideológicas via discursos lacunares sobre melhoria da qualidade de vida, oportunidade de emprego, geração de renda, entre outros. "Na avaliação de Maria de Lourdes Lopes, coordenadora do Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), os megaeventos estão sendo usados como desculpa para expulsar os pobres para as áreas periféricas da cidade". E não pense que isso vem ocorrendo apenas com moradores de comunidades sem regulação fundiária. Ainda segundo a mesma coordenadora, ouvida pela reportagem da Carta Capital, (que pode ser lida na íntegra clicando aqui), "Mesmo bairros que já passaram por processos de regularização fundiária (...), estão sendo alvo de desapropriações. O governo quer ocultar a pobreza do turista, maquiar a cidade para inglês ver".

São por essas e outras que passamos a questionar o sentido e o significado de grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Eventos, inclusive, que não foram discutidos amplamente com a sociedade, que fazem parte de um desejo de grupos que parecem mandar no destino do país e do seu povo, que tem seus direitos violados por organismos do Estado que deveriam garantir e ampliar os mesmos.

Até quando?


sábado, 8 de maio de 2010

O esporte pode tudo!!!

Utilizo-me do título do mais recente livro do professor Vitor Marinho de Oliveira para refletir sobre o movimento das Conferências Municipais de Esporte que aconteceram em praticamente todo o país e que conta com a sua terceira edição. O livro faz parte da nova coleção questões da nossa época e “integra os projetos comemorativos dos 30 anos da Cortez Editora”

Já a III Conferência do Esporte é fruto da política do governo, oriunda do aconselhamento do Banco Mundial e que objetiva o propósito de democratizar o debate em torno do esporte e da sua função social. A forma encontrada pelo organismo internacional para a aproximação do estado com a sociedade civil foi o modelo das conferências, que aconteceram não só em relação ao esporte, mas, também, em relação à comunicação, à educação entre outros.

No que diz respeito ao esporte, a impressão que fica lendo alguns documentos e ouvindo algumas explanações sobre o mesmo é de que realmente, tal como expressa o título do livro já citado, o esporte pode tudo!!! Fenomenologicamente, colocamos o mesmo “entre parênteses”, e o analisamos de forma isolada, descontextualizada “de todo o processo histórico que o produz” e reproduz, “deixando de lado as condições materiais de sua existência”.

Nesse sentido, um discurso humanista de cunho existencial cola no esporte aspectos sociais que intrínseca e imediatamente não é função do mesmo. Para além do seu caráter lúdico e agonista, o mesmo assume a função de tirar as crianças e jovens das drogas, “é eficaz no processo de ressocialização, é prática democrática, proporciona saúde, combate a violência, reintegra deficientes físicos”, etc, etc. Um verdadeiro elixir salvacionista, receita e remédio para todos os males da sociedade capitalista.

A Universidade Federal de Goiás, através dos pesquisadores do GEPELC (Grupo de Estudo e pesquisa de esporte, lazer e comunicação) vem analisando os documentos produzidos na primeira e na segunda Conferências Nacionais do Esporte e o que eles tem encontrado se caracteriza como uma “avalanche semântica” onde “um conjunto de funções, de atribuições, de qualidades são coladas ao esporte (...)”.

É o esporte enquanto “desenvolvimento humano”, como “promotor da qualidade de vida”, da “cidadania”, o esporte como “ferramenta da paz”,toda uma gama de atributos e qualidades que apresentadas “entre parênteses” só contribuem para a mistificação do próprio esporte e de todos esses elementos colados ao mesmo.

Nesse sentido, destituído de qualquer referência sócio-histórica, passamos a pensar as políticas públicas de esporte e lazer descoladas tanto da política quanto do público, transformando o objetivo democrático das Conferências em democratismo, puro sofismas, falácias, verdadeiro exercício ideológico no sentido clássico do termo, de falseamento da consciência.

Para irmos de encontro a esses e outros fatores, sugiro que façamos um esforço de estudo e análise sobre o que está prescrito nas leis que regem o esporte e nas formulações presentes nos documentos das Conferências já realizadas e cotejemos com a realidade concreta do nosso país, explicitada, dentre outros, no documento Habitat, da ONU (Organização das Nações Unidas) divulgado no dia 2 de março e que aponta o Brasil como o país mais desigual da América Latina, onde os 10% mais ricos da população controlam 50,6% das riquezas do país, enquanto que os 10% mais pobres detêm apenas 0,8%. Isso tudo apesar do Brasil ser hoje a oitava maior economia do mundo.

Para aqueles que acham que esses dados são apenas para economistas e sociólogos, sugiro então que se debrucem apenas sobre os documentos das Conferências e analisem, tomando os mesmos como referências, o que foi realmente realizado e que setores foram mais privilegiado no desenvolvimento das políticas de esporte dos governos.

Helvétius, nos ensina o Vitor Marinho, no bojo da revolução burguesa, afirmou que a educação pode tudo. O desenvolvimento histórico demonstrou que nem tanto e interrogou sobre de qual educação se tratava. Aprendamos com a história e interroguemos: o esporte pode tudo? De qual esporte estamos falando? Para quem praticar? Sobre quais estruturas e modo de produção e reprodução da existência? Esporte para todos ou esporte para poucos?

domingo, 3 de janeiro de 2010

O melhor futebol da terra

2010. O ano que vai revelar o continente africano para o mundo. Do dia 11 de junho ao dia 11 de julho, 30 bilhões de olhos em audiência acumulada estarão fixados nas televisões do mundo inteiro para assistirem aos jogos da Copa do Mundo de futebol.

Até lá, muito se falará da África do Sul. De suas belezas e da sua pobreza. O futebol será o mote para muitas e diferentes matérias sobre a África e os africanos, sobre a possibilidade ou não dos mesmos sagrarem-se campeões do mundo.

Mas enquanto esse título não chega, a África vai conquistando outros. Poucos nobres, é verdade, como o título de possuir o pior país da terra: a Somália que segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 40% de sua população necessita de ajuda humanitária para ter o que comer.

Ainda segundo a ONU, uma em cada cinco crianças sofre de desnutrição grave e um terço de sua população, aproximadamente um milhão e meio de pessoas, sobrevivem em acampamentos improvisados.

Muitos outros países do continente africano sofrem com esses e outros problemas. As questões de mortalidade infantil, desnutrição generalizada, corrupção, educação e saúde precárias não são questões exclusivas da Somália. Serra Leoa, Nigéria, Ruanda, Zimbábue, Guiné entre outros são países que sofrem em menor ou maior grau de um conjunto desses problemas.

É nesse continente, que nos alegra pelos gramados do mundo através da elegância, genialidade e estética de jogadores como Samuel Eto´o, Emmanuel Adebayor, Michael Essien, Didier Drogba, Kolo Touré e seu irmão Yya Touré entre muitos outros, que a Copa do Mundo de 2010 se realizará.

Eis a oportunidade para a África e os africanos celebrarem, mesmo que efêmeramente, um título honroso para o seu continente: o de melhor futebol da terra!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Você tem fome de quê?

O maior problema do mundo é a fome. Esta se encontra presente em menor ou maior grau tanto em nações desenvolvidas quanto em nações subdesenvolvidas.
Um dos maiores mercados do mundo é o esporte. Ou melhor: o futebol. Este se encontra presente em maior ou menor intensidade em diferentes partes do planeta. Joga-se o futebol tanto em países desenvolvidos quanto em subdesenvolvidos. Um verdadeiro fenômeno social, tal como a fome, guardadas as suas devidas proporções.
Existe o basquete, o hugby, o beisebol, o boxe e outros que também são fenômenos sociais importantes e que são praticados em vários lugares do mundo, mas nada comparável ao futebol.
No Brasil, nada mais, nada menos de 10% da população, um montante de 18 milhões de brasileiros, são de famintos. No mundo, a cifra é maior, muito maior. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Agricultura e a Alimentação (FAO), superaremos a barreira de um bilhão de famintos ainda este ano.
Um bilhão de famintos!!!
Ainda segundo a ONU, "O número supera em quase 100 milhões o do ano passado e equivale a uma sexta parte aproximadamente da população mundial".
Nesta semana, esses dois fenômenos sociais aparentemente distintos ganharam visibilidade em diferentes mídias, um com mais intensidade (futebol) que o outro (a fome). Um, em função da transação comercial de dois jogadores que, somados, alcançaram a cifra de 160 milhões de euros e o outro, devido ao relatório supra-citado da ONU sobre o recrudescimento da fome no mundo, apesar de produzirmos o suficiente para nutrir os 6 bilhões de seres humanos do planeta, o equivalente a dois quilos de grãos e meio quilo de carnes, ovos, frutas e vegetais por dia.


Apenas a compra do jogador Cristiano Ronaldo, que custou a “bagatela” de 96 milhões de euros, daria para alimentar mais de 8 milhões de etíopes e ainda sobraria dinheiro para outras ações.
Se somarmos 96 milhões aos 64 milhões de euros da transação relacionada à compra de Kaká, obteremos a fabulosa cifra de 160 milhões de euros.
Diante deste impasse – futebol ou fome –, a justificativa da escolha se dar pela lógica do mercado. Para alguns, esta transação é perfeitamente plausível, e embora consideremos que seja muito dinheiro, o mercado explica.
Esse é o pensamento expresso pelo presidente da FIFA, Jopseph Blatter. Diz ele: “sejamos generosos: é muito dinheiro, mas é o mercado. Há uma sensível crise econômica mundial, mas o futebol continua a ser um bom mercado”.
Eu não sei de onde vem esta sensibilidade da crise, mas o Blatter tem razão ao mencionar que o futebol é um grande mercado. Diante deste imperativo, deste argumento autojustificador, pouco importa se pessoas morrem de fome. Infelizmente, existem pessoas que não tiveram a sorte de nascer em um berço esplêndido, já tem o seu destino traçado e que, portanto, não podemos fazer nada.
O futebol realmente é um grande negócio, extremamente rentável não apenas para os clubes e para os jogadores mas, também, diria até que principalmente, fundamentalmente, para empresários e investidores.
Entre futebol e fome, futebol. Entre jogador e pessoas famintas, jogadores.
Esta é a lógica insana deste sistema insano. Privilegiar as coisas e coisificar as pessoas.