A imagem acima faz referência ao chamado Dia do Profissional de Educação Física, uma data criada e difundida pelo sistema CONFEF/CREF, instituição que, para nós, da Linha de Estudo e Pesquisa em Educação Física, Esporte e Lazer (LEPE-UEFS) não representa a totalidade da categoria — sobretudo aqueles que vêm defendendo uma concepção ampliada da formação e da atuação docente em Educação Física. Não nos reconhecemos, portanto, na denominação de “profissional de Educação Física” quando ela é utilizada para reduzir a complexidade do nosso campo de conhecimento e da docência.
O próprio card é bastante revelador. Bola, halteres, prancheta, apito e outros elementos presentes na imagem compõem uma representação bastante particular da Educação Física. Uma representação que remete a uma determinada concepção histórica da área, marcada pelo tecnicismo, pelo mecanicismo, pela esportivização, pelo militarismo e por uma compreensão reduzida do objeto de estudo e da intervenção pedagógica.
Não se trata de negar que o esporte, o exercício físico, os jogos ou outras práticas corporais façam parte da Educação Física. O problema está em reduzir a área a esses elementos e, principalmente, em apresentá-los como se fossem capazes de sintetizar, por si mesmos, aquilo que somos enquanto campo de conhecimento, formação e intervenção pedagógica.
O texto que acompanha a imagem — “Celebrando o dia do(a) profissional que inspira movimento, promove saúde e transforma vidas” — reforça essa compreensão. “Inspirar movimento”, “promover saúde” e “transformar vidas” são expressões aparentemente positivas, mas que, quando tomadas como síntese daquilo que é a Educação Física, acabam produzindo uma visão idealista e reducionista da área. Afinal, de que movimento estamos falando? Que concepção de saúde está sendo mobilizada? E o que significa, concretamente, “transformar vidas”?
A Educação Física é atravessada por questões históricas, sociais, políticas, econômicas e culturais. Seu objeto de conhecimento não pode ser compreendido fora das relações sociais nas quais as práticas corporais são produzidas, apropriadas e ressignificadas.
A questão ganha ainda mais relevância porque estamos falando de uma universidade pública, na qual setores e professores vêm justamente chamando a comunidade acadêmica para refletir e se posicionar diante da ingerência de um Conselho que pretende definir quem pode ou não atuar em determinados espaços profissionais e que, historicamente, tem produzido conflitos com a autonomia dos professores que atuam na escola.
Estamos falando de um Conselho que, até pouco tempo, questionava — e continua questionando — a atuação de egressos da UEFS e o seu direito ao trabalho. Nesse contexto, torna-se difícil compreender essa homenagem como algo simplesmente natural, neutro ou desprovido de significado político. Os símbolos educam, discursos também formam e imagens expressam concepções de mundo.
E, para nós, esta homenagem acaba por expressar uma determinada compreensão de Educação Física que consideramos equivocada e reducionista.
Fazemos, portanto, coro ao movimento construído pelo MNCR — Movimento Nacional Contra a Regulamentação do Profissional de Educação Física — e reafirmamos: nosso dia é 15 de outubro. Não porque rejeitamos a Educação Física, mas justamente porque defendemos uma concepção de Educação Física que não cabe na figura do “profissional” reduzido a alguém que inspira movimento, promove saúde ou transforma vidas.
Defendemos a docência, a formação humana, o conhecimento, a cultura corporal e a compreensão crítica da realidade. E se a própria instituição que abriga um curso de Educação Física apresenta publicamente uma imagem tão estreita sobre aquilo que “somos”, cabe perguntar: o que estamos comunicando à sociedade sobre o que é, afinal, a Educação Física? Ela é Bola? Halteres? Uma quadra na prancheta? Apito? Ela é tudo isso ao mesmo tempo agora?
Atenção. Esses elementos podem fazer parte da Educação Física, mas não são a Educação Física. Representam uma época e uma concepção que o debate acadêmico da área, sobretudo desde os anos 1980, vem problematizando e buscando superar: a Educação Física tecnicista, esportivizante, militarista, mecanicista e autoritária.
O debate acadêmico construído pela área, especialmente a partir da década de 1980, contribuiu justamente para colocar em questão concepções que reduziam a Educação Física ao desenvolvimento da aptidão física, ao treinamento esportivo, ao rendimento ou à dimensão estritamente biológica do corpo. E mesmo aqui, a uma determinada compreensão desta visão biológica.
O card nos provocou. Ele não traduz — e talvez nem devesse traduzir — todo o debate acadêmico sobre a Educação Física. Uma peça institucional destinada a uma homenagem não precisa apresentar uma síntese epistemológica da área. O problema é que essa imagem não foi produzida em qualquer lugar. Ela parte de uma instituição que abriga um curso de Educação Física e que em seu projeto político-pedagógico trabalha com uma concepção de formação que transcende esse reducionismo.
Por isso, aproveitando o card produzido pela @pgdpuefs , homenageando o profissional de educação física neste 1º de setembro, nós da LEPEL-UEFS queremos levantar a reflexão sobre o que estamos comemorando e sobre qual Educação Física queremos defender.
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