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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O socialismo venceu!

Segundo a Wikipédia, o socialismo é um sistema em que há um forte planejamento central, o fim da diferenciação de classes e a propriedade coletiva dos meios de produção. Além disso, Marx dizia que, no socialismo, os homens poderiam trabalhar um dia como pescadores, no outro como pintores e depois como cozinheiros. O trabalho não seria apenas o modo de ganhar a vida, mas seria a própria vida.

O socialismo ficou identificado como uma ideologia que pretendia diminuir o sofrimento de nossa existência, que queria acabar com a pobreza extrema, que achava que os homens deviam ter chances iguais. Essa ideia deu origem a organizações de trabalhadores, partidos políticos e guerras. Dominou boa parte do mundo e depois sumiu de boa parte dele.

Nunca foi o que se esperava, por conta de seus adversários e de seus próprios homens. Em Cuba precisa de reformas e na China houve tantas reformas que há quem diga se transformou num capitalismo de estado.

Porém, neste domingo, felizmente e infelizmente, o socialismo venceu.

Não, não houve uma nova revolução que não saiu nos jornais. Nem um novo PC ganhou alguma eleição. O socialismo de que falo é um socialismo ludopédico, o socialismo do Barcelona. Um socialismo com uma pitada de anarquismo.

E nem me venham dizer que é exagero. Vejam bem, o time tem um planejamento central forte, feito por Pep Guardiola, que conhece bem seus recursos naturais e os utiliza de forma racional para o bem comum. Há também uma certa abolição de classes. Não há mais uma separação nítida entre zagueiros, meio campistas e atacantes. Principalmente entre estes dois últimos. Messi pode ser visto na ponta direita e zanzando como volante, Fábregas é um meio-campista mas aparece para finalizar, Dani Alves é um lateral que mais parece um ponta. Assim sindo, obviamente temos a propriedade coletiva dos meios de produção do gol, pois todos podem, e devem, atacar.

Quanto à pitada de anarquismo, vem da mobilidade decidida pelos próprios jogadores dentro de campo. Não é “cada um faz o que quer”, como se pensa erradamente sobre o anarquismo, mas um conjunto orgânico, que funciona como um ser vivo, com cada indivíduo se comportando como a célula de um grande organismo.

Muitos cronistas esportivos, imitando Francis Fukuyama, diziam que a história do futebol tinha acabado. Que a divisão de classes entre homens de ataque e de defesa era definitiva, com algumas exceções que confirmavam a regra. Mas não. De Barcelona, cidade que esteve ao lado da república na Guerra Civil Espanhola e flertou com o anarquismo, veio uma mudança radical.

Hoje o Barcelona é o “fantasma que assombra a Europa”, como começa o Manifesto Comunista falando do socialismo. E não assombra só a Europa, mas o mundo inteiro.

Se eu não fosse santista, teria me sentido um privilegiado por ter visto ao vivo esta vitória do Barcelona. Como sou, para mim foi um espetáculo cruel e sangrento, com o time grená mostrando o cálculo frio de um vilão de história em quadrinhos e um sadismo de nazista de filme americano.

Mas tudo bem. Passada a dor profunda, sei que vou poder assistir a jogos do time catalão com prazer. Certamente nunca verei o replay deste jogo contra o Santos, mas doravante assistirei a todos outros jogos desta utopia que vai mudar o futebol, porque os outros times terão que imitá-lo de alguma forma, do mesmo modo que o socialismo acabou sendo responsável pela socialdemocracia dos países nórdicos.

Boleiros do mundo, uni-vos. Uni-vos ao belo futebol do Barcelona. Vós não tendes nada a perder, pois o futebol no resto do mundo, inclusive nestas nossas bandas, anda feio e sem arte.

Por José Roberto Torero do site Carta Maior

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Juventude socialista da Suíça pede fim de privilégios fiscais à Fifa

juventude socialista da Suíça pediu ao governo que coloque fim "aos privilégios fiscais" à Fifa, organismo máximo do futebol com sede em Zurique.


O pedido, embasado em 10,5 mil assinaturas e feito junto com a organização Solidar Suisse, considera injustificado o fato da Fifa ser considerada de utilidade pública, dados seus enormes lucros econômicos e os recentes escândalos de corrupção.

Se o principal órgão executivo do futebol mundial fosse considerado como uma empresa comum, afirmam os autores da iniciativa, de 2007 a 2010 teria pago o equivalente a R$ 366,8 milhões em impostos. No período, entretanto, só pagou R$ 6,8 milhões.

A juventude socialista lembra que ao fim da Copa do Mundo da África do Sul em 2010, a Fifa revelou lucro de R$ 4,7 bilhões, enquanto o país organizador, com altos níveis de pobreza, sobrou uma dívida de R$ 6,1 bilhões.

Conforme a agência local "ATS", o escritório federal do esporte da Suíça deve apresentar até o final do ano um relatório sobre a luta contra a corrupção em instituições esportivas, o que vai apontar quais medidas organismos como Fifa, Uefa e COI devem adotar a respeito.

Na última terça-feira, a ONG Transparência Internacional (TI) propôs que a reforma anunciada pela Fifa para evitar novos casos de corrupção seja supervisionada por uma comissão independente, formada por pessoas que não pertençam à organização.

A Fifa aceitou a proposta e ressaltou que em seu congresso de junho renovou "o compromisso de melhorar sua organização, centrada no aumento da transparência das atividades e não tolerando qualquer forma de corrupção".

Reportagem da ESPN/ESTADÃO.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional das Mulheres: um factóide?

Pensei em escrever um texto em homenagem às mulheres esportistas. Seus empenhos e suas lutas neste dia em que se comemora o Dia Internacional das Mulheres. Mas preferi reproduzir um texto por demais esclarecedor sobre essa data. Seria ela um factóide, uma manobra para escamotear uma luta mais ampla das mulheres ao se resumir esta a uma greve em uma indústria têxtil, nos Estados Unidos? Vejamos.

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A referência histórica principal das origens do Dia Internacional das Mulheres é a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em 1910, em Copenhague, na Dinamarca, quando Clara Zetkin e outras militantes apresentaram uma resolução com a proposta de instituir oficialmente um dia internacional das mulheres.

Nessa resolução, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março. Clara Zetkin apenas menciona, nas discussões, seguir o exemplo das socialistas norte-americanas. É certo que a partir daí, as comemorações começaram a ter um caráter internacional, expandindo-se pela Europa, a partir da organização e iniciativa das mulheres socialistas. Essa resolução e outras fontes históricas intrigaram a pesquisadora Renée Côté, que publicou em 1984, no Canadá, sua instigante pesquisa em busca do elo ou dos elos perdidos da história do Dia Internacional das Mulheres. Outras pesquisadoras também se dedicaram a desvendar essa história.

Renée Côté, em sua trajetória de pesquisa, se deparou com a história das feministas socialistas dos Estados Unidos que tentavam resgatar do turbilhão da história de lutas dos trabalhadores no final do século XIX e início do século XX, a intensa participação das mulheres trabalhadoras, mostrar suas manifestações, suas greves, sua capacidade de organização autônoma de lutas, destacando-se a batalha pelo direito ao voto para as mulheres, pelo sufrágio universal. A partir daí, esta pesquisadora levanta hipóteses sobre o porquê de tal registro histórico ter sido
negligenciado ou se perdido no tempo.

O que nos fica claro, a partir da pesquisa das fontes históricas, é que a referência a uma greve de trabalhadoras americanas, ou a manifestações de mulheres, ou a um incêndio com a morte de um grande número de mulheres como sendo a motivação para a criação de um dia da mulher não aparecem registradas nas diversas fontes pesquisadas no período. As fontes pesquisadas são os jornais da época, a imprensa socialista, documentos do movimento de mulheres daquele período.

Tampouco a referência a uma data específica, como o dia 8 de março, não consta dos registros das primeiras comemorações.

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É fato que houve greves e repressões de trabalhadores e trabalhadoras no período que vai do final do século XIX até a primeira década do século, 1910, mas nenhum desses eventos até então dizem respeito à origem do dia de luta das mulheres. Tais buscas revelam, para Renée Côté, que não houve uma greve heróica, seja em 1857 ou em 1908, especificamente vinculada à proposta de um dia de luta das mulheres, mas um feminismo heróico que lutava por se firmar entre as trabalhadoras americanas. As mulheres socialistas norte-americanas, organizadas, começaram a celebrar um dia
de luta das mulheres, a partir de 1908.

Várias fontes históricas encontradas revelam o seguinte: Em 3 maio de 1908 em Chicago, nos Estados Unidos, se comemorou o primeiro "Woman's day” (Dia da Mulher), presidido por Corinne S. Brown, documentado pelo jornal mensal The Socialist Woman, no Garrick Theather, com a participação de 1500 mulheres que "aplaudiram as reivindicações por igualdade econômica e política das mulheres; no dia consagrado à causa das trabalhadoras". Enfim, foi dedicado à causa das operárias, denunciando a exploração e a opressão das mulheres, mas defendendo, com destaque, o voto feminino. Defendeu-se a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres, o direito de voto para as mulheres, dentro e fora do partido.

Já em 1909, o “Woman's Day” foi atividade oficial do partido socialista americano e organizado pelo comitê nacional de mulheres, comemorado em 28 de fevereiro de 1909. O material de publicidade da época convocava o "Woman suffrage meeting", ou seja, um encontro em defesa do voto das mulheres, em Nova York.

Renée Coté apura que as socialistas americanas sugerem um dia de comemorações no último domingo de fevereiro. Assim, o “Woman's day”, no início, registra várias datas e foi ganhando a adesão das mulheres trabalhadoras, inclusive grevistas e teve participação crescente. Em 1910, os jornais noticiaram a comemoração do “Woman's day” em Nova York, em 27 de
fevereiro de 1910, no Carnegie Hall, com 3000 mulheres, onde se reuniram as principais associações em favor do sufrágio.

O encontro foi convocado pelas militantes socialistas mas contou também com participação de mulheres não socialistas. Também participaram dessa comemoração várias operárias do setor têxtil que há poucos dias haviam terminado uma longa greve, que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910, terminando 12 dias antes do Woman's Day. Essa foi a primeira greve de mulheres de grande amplitude nos Estados Unidos, denunciando as condições de vida e trabalho, e demonstrou a coragem das mulheres costureiras, recebendo apoio massivo do movimento sindical e do movimento socialista. Muitas dessas operárias participaram do Woman's Day e engrossaram a luta pelo direito ao voto das mulheres (conquistado em 1920 em todo os EUA), mas como se pôde ver, não foi a greve que motivou a criação do woman’s day, como aparece equivocadamente algumas vezes.

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Em agosto do mesmo ano, durante a Segunda Conferência de Mulheres Socialistas, Clara Zetkin, dirigente socialista alemã, e outras militantes, propõem que o “woman's day” ou “women's day” se torne "uma
jornada especial, uma comemoração anual de mulheres, seguindo o exemplo das
companheiras americanas", sem a indicação de uma data específica. Aprova-se, assim, um Dia Internacional das Mulheres, para ser organizado em todos os países, com a reivindicação central sendo o direito de voto para as mulheres. A proposição foi divulgada no jornal alemão “A igualdade”,
de 28/08/1910.

Em 1911, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado pelas alemãs em 19 de março e pelas suecas, junto com o primeiro de maio etc. Enfim, foi celebrado em diferentes datas. Em 1913, na Rússia, sob o regime czarista, foi realizada a Primeira Jornada Internacional das Trabalhadoras pelo sufrágio Feminino. As operárias e militantes socialistas russas participaram do Dia Internacional das Mulheres em Petrogrado e foram reprimidas. Em 1914, as principais organizadoras da Jornada ou do Dia Internacional das Mulheres na Rússia estavam presas, o que tornou impossível uma comemoração com manifestação pública.

Já na Alemanha, em 1914, o Dia Internacional das Mulheres foi dedicado ao direito ao voto para as mulheres e foi comemorado no dia 8 de março, ao que consta porque esta foi uma data mais prática naquele ano. As socialistas européias coordenavam as comemorações do Dia Internacional
das Mulheres, em torno do direito ao voto, vinculando-o à emancipação política das mulheres, mas a data específica era decidida em cada país.
Em tempos de guerra, as comemorações do Dia Internacional das Mulheres foram mais frágeis e esparsas em toda a Europa e o tema da luta contra a guerra ganha espaço na agenda.

Em fevereiro de 1917, na Rússia, manifestações de mulheres tomaram as ruas de Petrogrado. Eram manifestações contra a guerra, a fome, a escassez de alimentos. Ao mesmo tempo, operárias do setor têxtil entraram em greve. Era o dia 23 de fevereiro (que corresponde ao dia 8 de março no antigo calendário ortodoxo), que se comemorava o Dia Internacional das Mulheres na Rússia. Essas manifestações cresceram, envolveram outros grupos, duraram vários dias, e deram início à Revolução Russa.

A mobilização de mulheres precipitou as mobilizações que tornaram vitoriosa a revolução russa. Alexandra Kollontai, dirigente feminista da revolução socialista, escreveu sobre o fato e sobre o 8 de março. Diz ela: "O dia das trabalhadoras em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro, no antigo calendário) foi uma data memorável na história (...) A revolução de fevereiro começou nesse dia". O fato também é mencionado por Trotski, dirigente da revolução, na História da Revolução Russa. Trotski conta que o dia 23 de fevereiro (8 de março), era o Dia Internacional da Mulher.


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Estavam programados atos, encontros etc. Mas não se podia imaginar “que o Dia da Mulher pudesse inaugurar a revolução”. Estavam sendo pensadas ações revolucionárias, mas sem data prevista. Mas pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixam o trabalho de várias fábricas e
enviam delegadas para solicitar o apoio à greve... “o que se transforma em greve de massas.... todas descem às ruas".

Nessas narrativas fica claro que as mulheres desencadearam as mobilizações, a greve geral, saindo corajosamente, às ruas de Petrogrado, no Dia Internacional das Mulheres, contra a fome, a guerra e o czarismo. As mobilizações, a revolução foi desencadeada por elementos de base que
superaram os temores das direções e a iniciativa coube, em especial, às operárias mais exploradas e oprimidas, as têxteis. O número de grevistas foi em torno de 90 mil, a maioria mulheres.

Renée Côté menciona, por fim, documentos de 1921 da Conferência Internacional das Mulheres Comunistas onde "uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do Dia Internacional da Mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas". Assim, a partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher passou a ser celebrado oficialmente no dia 8 de março.

Essa história se perdeu nos grandes registros históricos seja do movimento socialista, seja dos historiadores do período. Faz parte do passado histórico e político das mulheres e do movimento feminista de origem socialista no começo do século. Recuperar, retomar e recontar a história do dia Internacional das Mulheres é, também, reafirmar a história das luta das mulheres inserida na luta pela transformação geral da sociedade. É recompor um pedaço da história do feminismo que se apresenta como um elo indispensável da luta das mulheres e da luta socialista.

Neste ano de 2010, quando se completam cem anos da instituição do Dia Internacional das Mulheres, é central retomar essa história de luta. A SOF-Sempreviva Organização Feminista e a Editora Expressão Popular publicam em português um estudo detalhado sobre a história dessa data.

O livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, de Ana Isabel Álvarez González, conta a história desse dia, esclarecendo versões que durante anos deixaram no esquecimento a luta das mulheres socialistas.

Desencontros, mitos e fantasias. Quantas vezes não ouvimos contar que o Dia Internacional da Mulher foi criado em homenagem a operárias têxteis mortas em um incêndio em 1857, em Nova York. Ou talvez em 1908 ou 1910. Ou mesmo que a comemoração, decidida em 1910 na conferência de mulheres socialistas, escolheu o dia 8 de março para lembrar as operárias mortas em um incêndio. Como vimos acima, a

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criação do Dia Internacional das Mulheres não tem qualquer vinculação com eventos de greves ou de incêndio ocorrido nos Estados Unidos. Algumas feministas européias na década de 1970 já levantavam dúvidas sobre essas versões e foram sugerindo pesquisas que pudessem desvendar as histórias repetidas sem qualquer evidência.

Em 1911, ocorreu em Nova York um incêndio em uma fábrica têxtil onde morreram mais de uma centena de trabalhadores, em sua imensa maioria mulheres. Um evento trágico e importante para a história do movimento dos trabalhadores nos Estados Unidos. Nesta data, entretanto, as militantes socialistas já haviam aprovado a criação do Dia Internacional das Mulheres. E o incêndio tampouco ocorreu na data do dia 8 do mês de março. Ao misturar, contar e recontar histórias também se escondeu uma história política, das militantes socialistas. Recuperar os elos perdidos dos fatos e da história enriquece a luta das mulheres. O ciclo de lutas, numa era de grandes transformações sociais, até as primeiras décadas do século XX, tornaram o Dia Internacional das Mulheres o símbolo da participação ativa das mulheres para transformarem a sua vida e transformarem a sociedade.

Referências bibliográficas:

CÔTÉ, Renée. La Journée Internationale des Femmes. Ou les vrais faits et les vraies dates des
mystérieuses origines du 8 de mars jusqu'ici embrouillées, truquées, oubliées: la clef des énigmes. La
vérité historique. Montreal: Les Éditions du Remue-ménage, 1984.
ÁLVAREZ GONZALEZ, Ana Isabel. As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres. São
Paulo: SOF / Expressão Popular, 2010.
(Texto originalmente publicado no site da SOF em 2001. Atualizado em 2010)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ainda sobre Políticas Públicas

O Blog Esporte em Rede dará continuidade ao debate sobre Políticas Públicas de Esporte. Para tanto, trouxe mais uma entrevista. Esta, com o professor Elson Moura, que participou ativamente da audiência pública na Câmara de Vereadores de Feira de Santana como representante do curso de graduação em Educação Física da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Esporte em Rede:Fale de sua trajetória pessoal e acadêmica.

Elson Moura:Tenho 28 anos. Entrei no curso de Educação Física da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) em 2001 por conta de na época ser atleta de Karate. Minha vontade era dar continuidade na minha vida de atleta e fazer a transição para treinador. Por volta do 7° semestre me deparei com a leitura de Luiz Carlos de Freitas que me alertou para a necessidade de colocar minha energia para outros fins. Em paralelo, estagiando no SESI (Serviço Social da Indústria), me deparei com o livro de Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia) e este sentimento de transformação só aumentou. Terminei o curso em 2006 e ingressei na especialização em Metodologia em Educação Física e Esporte da UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Ao fim da pós participei da seleção na UEFS para professor substituto e fui aprovado. Em 2009 fiz o concurso na mesma instituição e fui aprovado. Hoje sou professor da UEFS, professor da Rede Municipal de Camaçari, trabalhando na Educação de Jovens e Adultos. Também participo do Grupo LEPEL (Linha de Estudo em Educação, Educação Física, Esporte e Lazer) da UEFS bem como do Movimento Nacional Contra a Regulamentação do professor de Educação Física (MNCR) de Feira de Santana. Esta curta trajetória foi, no entanto, suficiente para que eu esteja esclarecido da necessidade de defender a Educação Física na perspectiva da Cultura Corporal, a educação numa perspectiva Historico-critica; bem como de colocar minhas energias (minha ação pedagógica e minha militância) à serviço de um projeto de sociedade Socialista – Comunista.

Esporte em Rede:Como se deu sua inserção na discussão sobre políticas públicas de esporte?

Elson Moura:Inicialmente meu interesse foi no fenômeno/produção humana esporte. Por conta do interesse neste conteúdo, aprofundei os estudos sobre o esporte e a contemporaneidade. Foi assim que o tema políticas publicas me interessou, embora assuma que o esporte continua sendo o meu objeto de grande interesse. Mas, na busca de entender este fenômeno na contemporaneidade precisei adentrar no estudo e entendimento sobre políticas públicas de esporte. Cheguei à conclusão que para entende esta relação, era preciso também entender a sua relação com o Estado.

Esporte em Rede:Na sua opinião existe uma política pública de esporte em feira de santana e região?

Elson Moura:Ao tentar responder esta pergunta me deparo com a seguinte situação: estar dividido entre a afirmação do Professor Edmundo Dias, da UNICAMP, que nos ensina que as políticas públicas formuladas e aplicadas na sociedade vigente são definidas como políticas governantes de construção da hegemonia burguesa na classe trabalhadora, que são diferentes de políticas públicas, pois estas limitam o avanço do capital e o que de fato é feito na cidade de Feira de Santana, cujo nome é o de políticas públicas de esporte. Sendo assim, a partir da ressalva feita por Edmundo Dias, penso que existe uma política de esportes que, de forma hegemônica, privilegia a dimensão do esporte de competição (no meu entender, diferente do rendimento) enquanto prática assistencialista que usa o esporte enquanto propaganda ideológica de que existe uma política, uma preocupação com o público. Mesmo esta política, para os fins que se propõe, é insuficiente. Por conta disso existe uma insatisfação da população Feirense. É preciso fazer a ressalva que esta é uma opinião de quem vive em Feira desde 2001 (entre idas e vindas de Salvador). Portanto uma opinião não muito fiel se comparada com um legítimo cidadão Feirense.

Esporte em Rede:Como você considera o papel de uma câmara de vereadores nesse debate sobre políticas públicas?

Elson Moura:Estivemos presente, no último dia 04 de Dezembro, em uma Audiência Pública promovida pela câmara de Vereadores através do chamamento do vereador Frei Cal, cuja proposta era a discussão sobre políticas públicas de esporte. Pensamos ser este o papel do espaço de representação do povo. Obviamente que temos o entendimento que seu papel não para por aí. É preciso que tal ação se estenda no desdobramento de outras. Se de fato lá existem pessoas que pensam o esporte enquanto direito de todos e todas é preciso que existam ações que garantam o atendimento deste direito, bem como a “fiscalização” das mesmas. Por exemplo, tivemos conhecimento de que existe uma Lei Municipal que dispõe sobre o sistema de esporte e lazer no âmbito da cidade de Feira de Santana. Lei esta do Vereador Marialvo do PT. O próximo passo é garantir que tal Lei seja cumprida. Acima, coloquei uma fala do Edmundo Dias que pode nos remeter ao desânimo. Ou seja, sentar, cruzar os braços e esperara construção de outro projeto para garantir uma verdadeira política pública. Porém, mesmo por dentro dos marcos do Capital e todos seus limites, devemos pensar o que podemos fazer. Ao mesmo passo que pontuo o limite de algo, eu digo o que este algo pode fazer. Sendo assim, é papel da Câmara, sendo ela consciente do esporte enquanto direito, implementar políticas que avancem em relação ao assistencialismo atual ou à exclusividade do esporte de competição.

Esporte em Rede:Qual o papel da universidade nesta dinâmica?

Elson Moura:Como falei na audiência pública, reafirmo que a educação superior está longe da realidade, longe do social. O que justifica minha afirmação é o entendimento que tenho de que ações pontuais em semestres não se constituem como uma relação orgânica entre universidade e sociedade. Muitas vezes, as mesmas são usadas como laboratórios para serem analisados pelos estudantes, bem como para justificar a existência do curso/Universidade/Faculdade a partir da sua referência social, do seu engajamento. Também não podemos esquecer dos atos assistencialistas tão presentes nas ações do cotidiano. A integração Universidade/social é um imperativo existencial da própria Universidade. Tal imperativo se justifica pelo entendimento que temos de como se dá o movimento do conhecimento. Este se inicia na prática (no contexto social), movimenta-se para a teoria, voltando à pratica. Este caminho nos permite afirmar que não se pode produzir conhecimento socialmente referenciado dissociado da prática cotidiana. Tal processo se dá nos 3 pilares de sustentação do ensino superior: ensino, pesquisa e extensão. Obviamente que respeitando este movimento, as Instituições, as Universidades qualificarão profissionais aptos para intervir em sua realidade. Um último elemento deste ponto é a afirmação de que não podemos pensar a Universidades e Faculdades, bem como seus estudantes, para cobrir buracos deixados pelo poder público. Isso reforçaria a lógica neoliberal.

Esporte em Rede:Você teria alguma ideia de como pode se desenvolver uma política de esporte para o público e não apenas para o setor de redimento, que acaba atendendo a uma elite esportiva?

Elson Moura:Responderei como falei na Audiência. Apontarei 4 sugestões para pensar em Políticas Públicas, mesmo por dentro dos limites do Capitalismo. 1- Uma gestão democrática realizada do planejamento, passando pela execução e administração, até as avaliações do investimento do dinheiro público em esporte. 2-Uma ação interdisciplinar conjuntamente com a secretaria de educação, ou outras. 3-A negação da lógica salvacionista do esporte. Ou seja, a possibilidade de o esporte ser o remédio para todos nossos problemas. 4-O delineamento das prioridades sobre o uso do dinheiro público para o esporte. Em vez de mega eventos e/ou esporte de rendimento, esporte para os incluídos no grupo dos privados de Cultura Corporal. Colocar a ordem das coisas a partir da implementação, a partir do esporte de rendimento, até chegar ao esporte para todos, já se mostrou ineficiente (basta ver o Pan do Rio). Sendo assim, invertamos a ordem. Ou fazemos isso ou mendigaremos por verbas públicas que beneficiam o espaço privado.