"Se a mobilidade física é uma condição essencial de liberdade, a bicicleta provavelmente foi o maior dispositivo inventado desde Gutenberg para alcançar o que Marx chamou de realização plena das possibilidades do ser humano, e o único sem as óbvias desvantagens". (Eric Hobsbawn)
Refletir sobre o esporte para além das configurações táticas e técnicas que lhes são próprias e tendo o mesmo como expressão singular para pensarmos fenômenos mais gerais da sociedade, eis o objetivo do blog.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Salvador vai de bike mesmo?
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| Foto editada. Cedida pelo autor |
Graduando em Educação Física pela Faculdade Social da Bahia, o acadêmico e professor Sandro Nascimento (foto), um experiente bicicleteiro com mais de 20 anos de pedaladas por trilhas, ruas e avenidas desta cidade onde "todo mundo é de Oxum" socializa, para os leitores e leitoras deste blog, principalmente para quem vem exercendo a arte do "bicicletar", um texto problematizando o Programa "Salvador Vai de Bke", desenvolvido pela administração do prefeito ACM Neto (DEM) e que vem sendo posto em prática desde 22 de setembro de 2013, com o objetivo de incentivar o uso da "magrela" na cidade esperando, com isso, melhorar a tão falada mobilidade urbana.
Vamos ao texto que está transcrito logo abaixo. Aproveito para agradecer ao acadêmico e professor Sandro Nascimento pela gentileza de atender ao nosso pedido.
Como todos os ciclistas da cidade de Salvador o projeto Vá de Bike nos traz uma certa esperança na melhoria das nossas ciclovias e criação de novas, mas a verdade não é bem essa. Sou ciclista de trilha desde 1992 e de lá para cá já vivenciei muitas situações que me faziam repensar sobre a utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade de Salvador.
Uso a bicicleta como meio de prática esportiva e meio de transporte e com a experiência que tenho vejo que o projeto "Salvador vá de bike" apresenta pontos positivos e outros negativos. A partir de uma observação diária e o estudo dos projetos que se referem à mobilidade urbana, venho mostrar uma visão acerca do tema, com um ponto de vista mais técnico e direto sobre essa nova proposta de mobilidade urbana para a cidade de Salvador.
A cidade apresenta um contexto geográfico que particularmente não atrai muitas pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte. O relevo que a cidade apresenta, com muitas ladeiras e avenidas de vale, torna os deslocamentos maiores do que 10 Km desinteressantes no uso da bicicleta como meio de transporte. Mas para muitos esta distância é pequena e fácil de fazer sendo muitas vezes mais rápido que os transportes coletivos. Eu mesmo dou aula em um prédio no Bairro da Barra que fica à exatos 8.5 Km de minha casa, no fim de linha de Brotas. O ônibus que faz o mesmo percurso leva 40 minutos, enquanto eu, de bicicleta, percorro o trajeto em 20 minutos.
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| Imagem retirada do site Salvador Vai de Bike |
Outro ponto que venho destacar é que muitas empresas não estão preparadas para este novo modal de mobilidade, pois não tem banheiros com chuveiro ou mesmo estacionamento apropriado para guardar as bicicletas. A violência urbana como assaltos, trânsito e motoristas que por muitas vezes não respeitam o ciclista são outros elementos que desencorajam outras pessoas a experimentarem este tipo de transporte.
Como todos sabemos a Copa do Mundo de Futebol no Brasil trouxe uma exigência da FIFA quanto a mobilidade urbana e seus modais e integração entre estes, mas estamos presenciando uma adaptação do que foi acordado com a FIFA e governo. Vemos aeroportos que não estão prontos para o eventos, estradas que não foram ampliadas e o sistema de transporte coletivo defasado, sobrecarregado, gerando transtornos para a população em geral. Vale destacar também que o governo federal deu isenção de ICMS para a venda de veículos aumentando ainda mais as frotas de carros nos grandes centros urbanos.
Em contra partida o governo federal juntos aos governos estaduais e prefeituras vem fazendo parcerias no que se refere a mobilidade urbana com o uso da bicicleta, mas estas propostas atendem realmente as necessidades das nossas cidades e sua população? Compreendo que não atendem e estão muito longe de atender de forma satisfatória as pessoas que preferem usar a bicicleta como meio de transporte. A nossa cidade é um exemplo disso pois o projeto que foi apresentado às entidades que representam os ciclistas de Salvador foi totalmente modificado ou boa parte não vai ser realizado.
No projeto foi orçado uma malha cicloviária de 217 km, considerável e de grande relevância para o desenvolvimento sustentável da nossa cidade, mas o que vemos é uma propaganda política que visa atender os acordos pré estabelecidos. O grande problema é que o projeto apresenta um orçamento que fica muito abaixo do que vai ser realmente gasto para se fazer da maneira correta, além disso não temos mais tanto espaço para a implantação das ciclovias restando assim criar ciclo-faixas que por muitas vezes só estão disponíveis aos domingos, servindo apenas para o lazer e não propriamente para a mobilidade.
Hoje o projeto vá de bike tem um caráter mais de lazer e turístico do que propriamente de mobilidade urbana ou transporte intermodal. As estações na sua maioria estão em pontos turísticos ou do ponto de vista de mobilidade não tem grande impacto no sistema de transporte de massa. Tais estações estão localizadas na orla, campo grande, e em alguns bairros que ainda não têm as ciclo–faixas e que tem trajetos relativamente curtos, exemplo do fim de linha do bairro de brotas até a estação próxima ao STEPS: menos de 4 km uma da outra.
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| Foto cedida pelo próprio autor |
Estas estações em alguns casos visam atender meramente aos acordos comercias entre a prefeitura e banco que mantém tais estações e bicicletas. Mas também temos algumas que estão sendo utilizadas como deve ser; mobilidade urbana e intermodal entre carro – bicicleta, ônibus – bicicleta. Mas ainda temos muitos outros pontos da cidade que precisam deste tipo de intermodal.
Destaco também que nos últimos anos tenho visto uma mudança no comportamento dos motoristas e também dos ciclistas. Há um respeito muito maior do motorista com relação ao ciclista, mas vale lembrar que falo dos ciclistas que usam as vias de forma correta e segura, estes são mais respeitados que àqueles que não andam de forma segura e sem equipamentos de segurança. Hoje é crescente o numero de pessoas que usam a bicicleta como meio de lazer, transporte ou trabalho, todos necessitam de um espaço adequado e segurança para fazerem seus trajetos.
Contamos com uma malha cicloviária de 20 Km na orla de Salvador, começando no bairro da Amaralina um pouco antes do largo das baianas até a sereia de Itapuã. E outra que fica no canteiro central da avenida paralela, que vai da frente das voluntárias sociais até à frente do estádio de pituaçú. Esta ultima não serve para mobilidade urbana.
Essas ciclovias que temos hoje não atendem de forma satisfatória a população, pois é estreita e com muitos pontos que geram insegurança nos usuários, como o trecho que fica na pituba, no antigo clube português. São obras mal projetadas que mostram pouco interesse em fomentar o uso da bicicleta como meio de transporte ou lazer na cidade de Salvador. Então vemos uma propaganda do governo municipal incentivando o uso da bicicleta como meio de transporte e a boa convivência entre os motoristas e ciclistas, mas, essa campanha é eficaz?
Temos que ampliar esta nova cultura nas escolas e centros sociais, nos Detrans, nas auto-escolas e mídia em geral.
domingo, 25 de julho de 2010
Mídia, ideologia e esporte
Estive em Fortaleza no último dia 21 de julho, quarta-feira, participando de uma mesa cuja a proposta era discuti as política de mega-eventos dos governos federais e estaduais junto aos alunos e professores de educação física que participavam do seu XXXI Encontro Nacional. A mesa foi em um ginásio de esportes do curso de educação física da Universidade Federal do Ceará, Campus do PICI. Presentes em torno de 600 participantes, num total de quase mil.
A parte que me cabia, sugerida pela ementa que me foi enviada pela Comissão Organizadora, dizia respeito a "fazer uma crítica aos meios de comunicação e sua influência na opinião pública, perpassando pela discussão de ideologia, controle social, poder e comunicação no que se refere à Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas no Brasil. Trazer elementos para a discussão sobre a manipulação das informações e como a mídia burguesa contribui para formar opinião e transmitir valores".
Iniciei conceituando mídia e situando a mesma, me valendo do Venício Lima, como um partido político, já que a mesma: a)constrói a agenda pública; b) gera e transmiti informações políticas; c) fiscaliza as ações de governo; d) exerce a crítica das políticas públicas e e) canaliza as demandas da população. (LIMA, 2006, p. 56).
Esses elementos são preocupantes, já que alguns indicadores apontam que somente um de cada brasileiro entre 15 e 64 anos conseguem entender as informa~ções de textos mais longos e relacioná-los com outros dados e 30% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais ou "alfabetizados rudimentares" que não conseguem, por exemplo, entender as orientações escritas por um médico.
Por que preocupante? Porque simplesmente 58% dos brasileiros declaram ter na televisão sua principal fonte de informação política (Vox Populi, 2006). Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008, indica que 95,1% dos domicílios brasileiros possuem aparelho de televisão. Portanto, podemos dizer que os brazukas tem na televisão o seu principal veículo de informação e se consideramos que a mídia, principalmente a televisão tem uma relação de pertencimento com o esporte, onde um não vive sem o outro, e considerando que o mesmo agrega valor substantivo aos produtos "colados" ao mesmo, podemos raciocinar na direção de que é muito pouco provável de que a mídia terá uma avaliação isenta sobre os chamados mega-eventos, colocando para a população de uma forma geral os pontos positivos e amenizando os negativos dos eventos Copa 2014 e Olimpíadas 2016.
Aqui entra a questão da ideologia. Se utilizando de uma das manobras do discurso ideológico, a generalização de casos particulares, as diferentes mídias e fundamentalmente a televisa, procura apresentar casos particulares de experiências exitosas, como as Olimpíadas realizadas na Espanha, para justificar a importância dos eventos e promover o consenso no conjunto da população.
Esquecem ou se omitem, ou se utilizam de uma outra estratégia ideológica (o discurso lacunar), de apresentarem estudos já realizados e que apontam interesses corporativos pelos mega-eventos, situando o mesmo como um movimento mais do que necessário, em função das crises estruturais do sistema, de reprodução do capital e de que os dados apontam que os benefícios estruturais colados aos eventos para justificar mais uma vez os mesmos poderiam muito bem serem materializados independentes da Copa e das Olimpíadas e com um custo muito menor. Custo esse que, embora orçado atualmente em 24,6 bilhões de dólares (só a Copa, ok?) tem uma projeção orçada em 100 bilhões até o final do evento.
O esporte, principalmente o futebol, entra nesta dinâmica como um elemento mediador, entre tantos outros, que potencializam os processos ideológicos da classe burguesa, catalizando desejos e valores na direção dos seus interesses de classe, operando inversões da realidade, desenvolvendo processos de fetichizações através do reinado das coisas e promovendo a alienação.
Tipos ideais de modalidades esportivas são apresentados, sem nenhuma consistência no real. O próprio discurso esportivizante da escola pública como base para formar atleta esquece de mencionar o sucateamente da mesma e a carência, só no Estado da Bahia, de mais de 80.000 (oitenta mil) professores na rede, enquanto o governo federal retira 28 bilhões do orçamento para a educação. O discurso que promove o volutarismo através do esporte esquece de mencionar o necessário papel do Estado no desenvolvimento de políticas para o público, colocando, no cidadão comum, a responsabilidade em sanar as lacunas do sistema.
Outra questão que podemos mencionar é a apresentação, no discurso ideológico via televisão, do esporte como receita e remédio para todos os males da sociedade. A droga tá correndo solta na comunidade? Esporte. As crianças estão violentas? Esporte para canalizar essas energias raivosas. Além do mesmo poder, de lambuja, promover a ascensão social, afinal de contas, quantos marginalizados socialmente não modificaram o seu status quo pelo esporte?
Como estratégia de resistência a esse discurso ideológico promovido pela mídia, precisamos saber dialogar com a população, disseminando informações poucos conhecidas. De nada adiantará um discurso raivoso, negativista, não dialético em relação aos mega-eventos. Aproveitar do que dizem que precisam fazer como melhoria estrutural necessária para sediar o evento e pressionar para que se cumpra de forma transparente é uma possibilidade. A questão da MOBILIDADE URBANA, DE HABITAÇÃO, MELHORIA DOS TRANSPORTES PÚBLICOS, entre outros, interessam à todos nós e podem ser elementos importantes para mobilizarmos a população para além dos megaeventos esportivos.
A parte que me cabia, sugerida pela ementa que me foi enviada pela Comissão Organizadora, dizia respeito a "fazer uma crítica aos meios de comunicação e sua influência na opinião pública, perpassando pela discussão de ideologia, controle social, poder e comunicação no que se refere à Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas no Brasil. Trazer elementos para a discussão sobre a manipulação das informações e como a mídia burguesa contribui para formar opinião e transmitir valores".
Iniciei conceituando mídia e situando a mesma, me valendo do Venício Lima, como um partido político, já que a mesma: a)constrói a agenda pública; b) gera e transmiti informações políticas; c) fiscaliza as ações de governo; d) exerce a crítica das políticas públicas e e) canaliza as demandas da população. (LIMA, 2006, p. 56).
Esses elementos são preocupantes, já que alguns indicadores apontam que somente um de cada brasileiro entre 15 e 64 anos conseguem entender as informa~ções de textos mais longos e relacioná-los com outros dados e 30% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais ou "alfabetizados rudimentares" que não conseguem, por exemplo, entender as orientações escritas por um médico.
Por que preocupante? Porque simplesmente 58% dos brasileiros declaram ter na televisão sua principal fonte de informação política (Vox Populi, 2006). Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008, indica que 95,1% dos domicílios brasileiros possuem aparelho de televisão. Portanto, podemos dizer que os brazukas tem na televisão o seu principal veículo de informação e se consideramos que a mídia, principalmente a televisão tem uma relação de pertencimento com o esporte, onde um não vive sem o outro, e considerando que o mesmo agrega valor substantivo aos produtos "colados" ao mesmo, podemos raciocinar na direção de que é muito pouco provável de que a mídia terá uma avaliação isenta sobre os chamados mega-eventos, colocando para a população de uma forma geral os pontos positivos e amenizando os negativos dos eventos Copa 2014 e Olimpíadas 2016.
Aqui entra a questão da ideologia. Se utilizando de uma das manobras do discurso ideológico, a generalização de casos particulares, as diferentes mídias e fundamentalmente a televisa, procura apresentar casos particulares de experiências exitosas, como as Olimpíadas realizadas na Espanha, para justificar a importância dos eventos e promover o consenso no conjunto da população.
Esquecem ou se omitem, ou se utilizam de uma outra estratégia ideológica (o discurso lacunar), de apresentarem estudos já realizados e que apontam interesses corporativos pelos mega-eventos, situando o mesmo como um movimento mais do que necessário, em função das crises estruturais do sistema, de reprodução do capital e de que os dados apontam que os benefícios estruturais colados aos eventos para justificar mais uma vez os mesmos poderiam muito bem serem materializados independentes da Copa e das Olimpíadas e com um custo muito menor. Custo esse que, embora orçado atualmente em 24,6 bilhões de dólares (só a Copa, ok?) tem uma projeção orçada em 100 bilhões até o final do evento.
O esporte, principalmente o futebol, entra nesta dinâmica como um elemento mediador, entre tantos outros, que potencializam os processos ideológicos da classe burguesa, catalizando desejos e valores na direção dos seus interesses de classe, operando inversões da realidade, desenvolvendo processos de fetichizações através do reinado das coisas e promovendo a alienação.
Tipos ideais de modalidades esportivas são apresentados, sem nenhuma consistência no real. O próprio discurso esportivizante da escola pública como base para formar atleta esquece de mencionar o sucateamente da mesma e a carência, só no Estado da Bahia, de mais de 80.000 (oitenta mil) professores na rede, enquanto o governo federal retira 28 bilhões do orçamento para a educação. O discurso que promove o volutarismo através do esporte esquece de mencionar o necessário papel do Estado no desenvolvimento de políticas para o público, colocando, no cidadão comum, a responsabilidade em sanar as lacunas do sistema.
Outra questão que podemos mencionar é a apresentação, no discurso ideológico via televisão, do esporte como receita e remédio para todos os males da sociedade. A droga tá correndo solta na comunidade? Esporte. As crianças estão violentas? Esporte para canalizar essas energias raivosas. Além do mesmo poder, de lambuja, promover a ascensão social, afinal de contas, quantos marginalizados socialmente não modificaram o seu status quo pelo esporte?
Como estratégia de resistência a esse discurso ideológico promovido pela mídia, precisamos saber dialogar com a população, disseminando informações poucos conhecidas. De nada adiantará um discurso raivoso, negativista, não dialético em relação aos mega-eventos. Aproveitar do que dizem que precisam fazer como melhoria estrutural necessária para sediar o evento e pressionar para que se cumpra de forma transparente é uma possibilidade. A questão da MOBILIDADE URBANA, DE HABITAÇÃO, MELHORIA DOS TRANSPORTES PÚBLICOS, entre outros, interessam à todos nós e podem ser elementos importantes para mobilizarmos a população para além dos megaeventos esportivos.
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domingo, 10 de janeiro de 2010
Mobilidade Urbana
A Copa do Mundo de Futebol, por ser um mega-evento esportivo que mobiliza bilhões de pessoas no mundo inteiro e centenas de milhares de setores empresariais e da sociedade civil, potencializa a reflexão sobre diversos fenômenos que não são, necessariamente, intrínseco ao evento em si, mas que acaba agregando um certo valor ao mesmo tornando-se, inclusive, um ponto importante que influencia a escolha de determinadas sedes do evento. Um desses fenômenos diz respeito a questão da mobilidade urbana.Este tema foi muito caro para os paulistanos no mês de dezembro último, quando o prefeito da cidade, Gilberto Kassab (DEM), anunciou que aumentaria o valor do transporte público em 2010, tendo cumprido esta promessa logo no dia 04 de janeiro. O aumento foi da ordem de 17,4%, superior a inflação acumulada do período (novembro 2006/novembro 2009) que foi de 15,9%, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).
Este fato nos permite abrir um debate justamente sobre uma das questões colocadas como importantes para a definição de um grande centro como guardião de mega-evento como o da Copa do Mundo que é, como já dissemos, o da mobilidade urbana, pois a majoração do valor do transporte público afeta, fundamentalmente, o direito de ir e vir do cidadão, seja para os estádio onde ocorrerão os jogos seja para outros fins.
Nesse caso, a questão do valor da passagem de ônibus tem muito a ver com os direitos de ir e vir do cidadão do que, necessariamente, de viabilização de uma ou outra competição esportiva, como pode parecer, já que esta questão vem sendo relacionada à viabilidade ou não de determinadas cidades se manterem como sede dos jogos.
A questão da mobilidade urbana é tão importante hoje que existe até uma secretaria no interior do Ministério das Cidades, intitulada Secretaria Nacional de Transporte e da Mobilidade Urbana, que tem como diretrizes os seguintes ítens: 1)Promover a cidadania e a inclusão social por meio da universalização do acesso aos serviços públicos de transporte coletivo e do aumento da mobilidade urbana; 2)Promover o aperfeiçoamento institucional, regulatório e da gestão no setor; e 3)Coordenar ações para a integração das políticas da mobilidade e destas com as demais políticas de desenvolvimento urbano e de proteção ao meio ambiente.
A majoração dos preços das passagens dos transportes públicos restringe, ainda mais, a utilização do mesmo para àqueles que mais precisam, tornando-se, portanto, o termo público colado ao termo transporte uma incongruência. Segundo Tertschitsch, falando ao site Brasil de Fato, “A distinção entre o que é público e privado reside no fato de que público é aquilo que não tem restrições ao uso. No caso, o transporte coletivo passa a ser privado no momento em que seu uso é mediado pela tarifa”.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2006, revelou que cerca de 37 milhões de brasileiros não podiam pagar pelas tarifas do transporte público, se locomovendo a pé para os seus destinos (casa, trabalho, posto médico, etc), fato que pode ser agravado se tomarmos como referência o crescimento da população urbana, o aumento do transporte privado nas cidades e o modelo atual de transporte “público”.
Um elemento fundamental a ser pensado e que não é levado em consideração pelos empresários do setor e gestores públicos é o que nos diz Tertschitsch, militante do Movimento Passe Livre. Segundo ele, “a cobrança de tarifa no transporte coletivo acaba excluindo a população mais carente dos outros serviços básicos, pelo fato de que o transporte é um direito que dá acesso a outros direitos”.
No mundo inteiro, 20 cidades trabalham com a política de tarifa zero o que não significa dizer que esta é uma forma de sistema de transporte público inviável. Ao contrário, penso que esta seja a única a contemplar o verdadeiro sentido e significado da palavra público e oportunizar de fato e de direito a condição de ir e vir do cidadão.
Pensar em mobilidade urbana apenas quando se pensa em eventos esportivos grandiosos é limitar por demais a importância das pessoas se moverem nas suas cidades para o atendimento dos seus diferentes interesses.
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Acesse o Brasil de Fato e fique por dentro de outros elementos relacionados ao tema. A matéria do link foi inspiradora para esta postagem e utilizamos alguns dados trazidos pela mesma.
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