No início deste ano, no mês de janeiro, repercutiu também, embora muito menos do que o evento desta semana em função do mesmo ter ocasionado a morte de pelo menos um torcedor, o confronto entre componentes das torcidas do Guarani e do São Paulo, na cidade de Jaguariúna, Campinas, pelas oitavas de final da Copa São Paulo de Futebol Júnior.

Em um estudo publicado por Luiz Henrique de Toledo no ano de 1996, pela editora autores associados junto com a ANPOCS (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), intitulado Torcida Organizada de Futebol, ler-se na página 66 que "Nos cantos de protestos e intimidação os palavrões são opostos e exprimem, de maneira jocosa, a passividade sexual e, em decorrência deste estereótipo, a subordinação e fraqueza tanto dos jogadores, dirigentes, árbitros, polícia, quanto dos torcedores adversários".
Ou seja, não sobra ninguém, nem tampouco limites para provocar, bater, maltratar e até matar quem quer que seja. Se você pertence a uma torcida rival ou mesmo está apenas usando a camisa do seu time de coração você é um inimigo em potencial e deve ser interceptado, molestado e eliminado.
Segundo Maurício Murad, sociólogo, professor da Universidade Salgado Filho em uma entrevista no ano de 1995, em um periódico que me foge a memória no momento, a causa dessas violências é mais de fundo estrutural, pois o Brasil é um país violento e chega ser ilusão achar que é uma nação cordial. Por ter sido o último país a abolir a escravidão, tornou o quadro social perverso. Portanto a situação histórica e social facilita a violência que ocorre tanto dentro como fora do estádio. Desde quando o campeonato nacional foi criado na década de 70, essa violência vem sendo recrudescida a cada ano.
Se concordarmos o professor Apolônio Abadio do Carmo que nos ensina que a violência no mundo capitalista, não é uma excrescência, um defeito, uma anomalia devido a falta de controle. Não é um acidente, é fruto natural e concomitante da opção filosófico-política que se fez, teremos que concordar que todas as medidas, tais como: legislação específica para crimes que ocorrem em praças esportivas, proibição do consumo de bebidas alcóolicas no estádio e arredores, proibição do funcionamento das torcidas organizadas, perdas de pontos da equipe cuja torcida provocar confusão, encarceramento de torcedores problemáticos durantes jogos dos seus times entre outras, são de cunho paliativos, já que não mexem, nem de longe, com a estrutura social perversa na qual nos encontramos.
São medidas repressivas, apesar de necessárias.
Outros fatores também são citados por Murad, estes de cunho organizacional: impunidade, falha nos ingressos dos torcedores ao estádio, sistema de transporte coletivo precário entre outros são motivos que também geram insatisfação e revolta dos torcedores, potencializando possíveis atos de violência canalizados para os rivais.
Diante do exposto, entendemos que a violência das torcidas organizadas é um fenômeno complexo, de difícil solução a curto e médio prazo. Potencializadas por mediações diversas, tem base organizacional como, também, na forma metabólica como a sociedade vem se organizando.
Como nos diz o jornalista José Geraldo Couto, na Folha de São Paulo de hoje, "Não há soluções mágicas para a violência entre as torcidas, mas "civilizar" as organizadas pode ajudar". Se pudermos ampliar o civilizar, sem aspas, não apenas as organizadas mas, sobretudo, as relações de produção da nossa existência, talvez o êxito tenha um maior alcance, já que a violência das torcidas organizadas é também uma expressão da violência que campeia os diferentes espaços das nossas instituições políticas, econômicas e sociais.