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domingo, 20 de maio de 2012

Profissionalismo

"O profissionalismo é um processo resultante da substituição dos princípios idealistas pelos utilitaristas entre as classes moças. É uma desgraçada avalanche que ameaça os alicerces morais de todas as organizações esportivas do mundo".
(Marcos de Mendonça, 1932, goleiro e craque do Fluminense dos anos 10) do século XX.

domingo, 28 de março de 2010

Ser jogador de futebol

Certo dia, estava eu folheando não sei bem se uma revista ou um jornal em uma sala de espera de um consultório médico quando me deparei com uma tira em quadrinhos muito interessante e com um poder de síntese fabuloso sobre a ideia de ser jogador de futebol.

Esta expressava, em poucos quadros, a mudança que havia se processado na relação dos pais com os seus filhos sobre o fato dos mesmos utilizarem o seu tempo não para estudar, mas, sim, para jogar bola.

No primeiro quadro, um garoto aparece jogando com seus coleguinhas em uma rua. A mãe do garoto bota a cara na janela e grita: João acabe com isso logo menino e vem estudar, amanhã tem escola!

Em outro quadro, o mesmo garoto se encontra sentado à mesa, debruçado sobre livros, escrevendo em uma folha, estranhamente compenetrado para uma criança que aparentava poucos anos de idade. A mãe aparece ao lado do filho e diz: filho, por que você não pára de estudar e vai jogar bola?

Lembrei dessa tira ao ler, no jornal A TARDE do último dia 20 de março uma matéria assinada pelo jornalista Diego Adans tratando da situação dos ex-jogadores baianos de futebol.

Um ex-jogador de futebol, dirigente da Associação de Garantia ao Atleta Profissional da Bahia (AGAP), revela na matéria que dos 87 filiados à AGAP, apenas 30% recebem até quatro salários mínimos do INSS por mês, relativo ao tempo de serviço ou invalidez. Os outros 61 filiados sobrevivem com um ou dois salários e existem àqueles que nada ganham, dependendo das ajudas dos amigos para sobreviverem.

Estamos aqui apenas falando sobre aqueles que estão cadastrados na associação. Com certeza, os números são mais assustadores e as histórias de cada um reveladoras da relação desigual que campeia o mundo dos esportes. Histórias como a do ex-jogador do Esporte Clube Bahia, José Augusto, zagueiro, heptacampeão (73 a 79), que sobrevive hoje pouco mais de quinhentos reais por mês proveniente que recebe do INSS por invalidez, já que o mesmo sofre com uma lesão no joelho.

A reportagem também apresenta a situação de um outro jogador com história semelhante ao do José. Trata-se do “(...) Dendê, ex-ídolo do Atlético de Alagoinhas, com passagens por Bahia e Vitória e que atuou ao lado de Zico, no Flamengo, em 1975. “Estou passando necessidade”, admite. Sem conseguir se aposentar, vive de pequenos serviços e conta com a ajuda dos amigos da Agap”.

E continua: “Não ganho nem R$ 500 por mês", relata Dendê, que mora na casa de um dos dois filhos em Alagoinhas. Tem problemas cardíacos, diabetes e está com 70% da visão comprometida. Na última terça-feira veio a Salvador fazer revisão médica. O sonho é a aposentadoria. “Não é muita coisa, mas já ajuda”, diz”.

Essa situação também se reflete na realidade dos jogadores da ativa, apesar da imaginação popular expressa na tirinha citada acima, considerar diferente, muito em função da generalização de casos particulares que a mídia, principalmente a televisiva, dissemina todos os dias nos seus programas esportivos.

A verdade é que das centenas e milhares de jogadores profissionais registrados e espalhados pelo mundo, poucos são aqueles que têm condições de viverem exclusivamente do futebol e que se valerá deste ao final da carreira para a manutenção da sua vida.

“Segundo a FIFA, em 2000 havia mais de sete milhões de praticantes do esporte no Brasil (...). Registrados nas Federações estaduais, há entre profissionais e amadores, 275 mil futebolistas homens. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tem informações sobre a faixa salarial de 22. 585 jogadores profissionais: em 2000, pelo menos oito em cada dez deles ganhavam até dois salários mínimos mensais. (...). Apenas 256 atletas profissionais ganhavam mais de 20 salários mínimos mensais”. (Reportagem, revista da oficina de informações, ano III, n. 34, julho de 2002, p.22).

Esta é um pouco da realidade cruel em que vivem os atletas brasileiros de uma maneira geral. Tratamos aqui apenas dos que se envolvem e se envolveram com o futebol. Mas essa particularidade é, também, a expressão mais geral da situação em que vive o conjunto da massa trabalhadora do Brasil e do mundo.