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domingo, 12 de julho de 2026

Transmitir o jogo já não basta

Durante muito tempo, as grandes redes de televisão que detinham os direitos de transmissão dos principais eventos esportivos eram, automaticamente, também as protagonistas do debate público sobre o esporte. Quem transmitia o espetáculo definia os temas, selecionava os personagens, estabelecia as narrativas e influenciava a forma como milhões de pessoas interpretavam cada partida.

Esse cenário mudou.

A expansão das redes sociais e das plataformas digitais alterou profundamente a maneira como o público consome informação esportiva. Hoje, assistir ao jogo é apenas uma parte da experiência. Ao mesmo tempo em que a bola rola, milhares de pessoas comentam os lances, produzem memes, publicam cortes, realizam análises táticas, questionam decisões da arbitragem e repercutem entrevistas em tempo real. O debate acontece simultaneamente em diversas plataformas e já não depende exclusivamente dos grandes veículos de comunicação.

Nesse contexto, possuir os direitos de transmissão continua sendo um ativo importante, mas deixou de ser suficiente para garantir relevância. A disputa pela atenção do público ocorre também na capacidade de produzir conteúdo que dialogue com essa nova dinâmica de circulação da informação.

Outro aspecto que merece reflexão diz respeito ao próprio formato da cobertura esportiva. Em muitos casos, observa-se uma padronização das transmissões, dos comentários e das análises. A repetição de fórmulas consagradas e a busca por um modelo considerado seguro acabam reduzindo a diversidade de interpretações sobre o fenômeno esportivo. O resultado é uma cobertura tecnicamente competente, mas que nem sempre consegue provocar discussões mais amplas ou gerar conteúdos capazes de permanecer relevantes após o encerramento da partida.


Além disso, há uma tendência crescente de privilegiar a experiência prática dos ex-atletas como principal referência para a análise esportiva. Evidentemente, quem viveu o esporte de alto rendimento possui conhecimentos valiosos. Entretanto, a compreensão do esporte contemporâneo exige também contribuições oriundas do jornalismo, da história, da sociologia, da economia, da política e de outras áreas do conhecimento. O esporte é um fenômeno social complexo, que não pode ser explicado apenas pela perspectiva de quem esteve dentro das quatro linhas.

As mudanças tecnológicas também transformaram o papel do público. O espectador deixou de ser apenas receptor de informações para tornar-se participante ativo da produção e da circulação de conteúdos. Influenciadores, jornalistas independentes, canais especializados e perfis temáticos passaram a disputar espaço com empresas tradicionais, muitas vezes pautando debates que posteriormente são incorporados pelos próprios veículos de comunicação.

Esse novo ambiente impõe um desafio às redes esportivas. Mais do que transmitir grandes competições com excelência técnica, será necessário compreender que a audiência busca participação, diversidade de opiniões, agilidade e conteúdos capazes de dialogar com diferentes linguagens e plataformas.

O futuro da comunicação esportiva não dependerá apenas de quem possui as imagens dos eventos, mas de quem consegue interpretar o esporte de maneira criativa, crítica e socialmente relevante. Em uma época em que a informação circula de forma descentralizada, transmitir continua sendo importante, mas participar da construção do debate tornou-se indispensável.

terça-feira, 17 de março de 2026

Imperialismo e Esporte

Publiquei um vídeo no canal Esporte e Sociedade sobre o tema "Imperialismo e Esporte". O vídeo tem como base o ensaio que escrevi na revista Outras Palavras (link abaixo). O texto analisa a instrumentalização política do esporte global, argumentando que a suposta neutralidade de entidades como a FIFA e o COI é uma construção ideológica seletiva. Faço uma critica a assimetria nas sanções, contrastando o banimento imediato da Rússia com a impunidade histórica dos Estados Unidos diante de suas intervenções militares e violações do direito internacional. O ensaio sustenta que o esporte opera como um aparelho ideológico do capitalismo, servindo para legitimar a hegemonia ocidental e punir adversários geopolíticos sob o pretexto de valores morais. Assim, as decisões institucionais refletem interesses econômicos e diplomáticos em vez de princípios éticos universais. Concluo que desmistificar a pureza do esporte é essencial para compreender como ele reproduz as hierarquias de poder e as estratégias de dominação imperialista na ordem mundial contemporânea.


Vídeo com base no ensaio

Link do ensaio https://outraspalavras.net/geopolitic...

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Esporte e sociedade

Por Riva / 09 de julho de 2024 / terça-feira / 19h55

A popularidade do futebol brasileiro e o alcance em camadas mais pobres da população sempre foram um dos nossos grandes trunfos. Infelizmente, com o passar do tempo, o futebol brasileiro passou a ser um esporte mais elitizado. 

Hoje, para um jovem pobre conseguir jogar futebol é muito difícil. Claro que existem jogadores (exemplo: Vinícius Júnior) que se destacam pelo alto nível técnico e, nesse caso, a ascendência é inevitável. 

Mas, quando ganhamos um Vinícius Júnior perdemos vários talentos por falta de Políticas Públicas de Esporte e Lazer que oportunizam os jovens pobres a praticarem futebol.

Essa temática é longa, profunda e envolve a relação entre o esporte e a sociedade!

segunda-feira, 8 de julho de 2024

Bullying nos esportes

LEI Nº 14.911, DE 3 DE JULHO DE 2024  

Altera a Lei nº 14.597, de 14 de junho de 2023 (Lei Geral do Esporte), para coibir a prática de intimidação sistemática (bullying) no esporte.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º O art. 9º da Lei nº 14.597, de 14 de junho de 2023 (Lei Geral do Esporte), passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 9º Em todos os níveis e serviços da prática esportiva haverá a adoção de medidas que conscientizem, previnam e combatam a prática de intimidação sistemática (bullying), bem como as práticas atentatórias à integridade esportiva e ao resultado esportivo.

Parágrafo único. Entende-se por intimidação sistemática (bullying) todo ato de violência, física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra 1 (uma) ou mais pessoas, com o objetivo de intimidar ou agredir, causando humilhação, dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas.”. (NR)

Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 3 de julho de 2024; 203o da Independência e 136o da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Andre Luiz Carvalho Ribeiro

Simone Nassar Tebet

Nísia Verônica Trindade Lima

Este texto não substitui o publicado no DOU de 4.7.2024.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

A Sociedade Espetacular

Dando continuidade a nossa reflexão sobre "Capital financeiro e espetáculo: o controle do futebol por corporações mediáticas" (texto inicial aqui).

Parece não nos restar dúvidas que o esporte é uma das principais práticas quando o assunto é entretenimento. As diversas viagens de lazer têm, na prática esportiva, uma das várias motivações. Para alguns, se constituindo como a principal. Há uma verdadeira e promissora indústria do entretenimento que explora basicamente o esporte para o desenvolvimento das suas ações. Falamos sobre isto no mês de abril. Se tiver interesse no tema, acesse aqui o texto.

Para compreender este fenômeno de uma maneira mais ampla, é importante situá-lo no contexto específico da sociedade que o forjou. Para tanto, o capítulo sintetizado até aqui, vai tratar o mesmo com base na reflexão do escritor francê, Guy Debord (1931-1994).

"Em A Sociedade do Espetáculo, o autor desenvolve o conceito de espetáculo como um movimento histórico cujo ápice seria alcançado quando a cultura e a experiência não pudessem ser mais vivenciadas de outro modo que não intermediadas pela relação social capitalista" (p. 215).

Se é verdade que os elementos característico do esporte de rendimento podem ser definidos como competição, rendimento físico-técnico, record, racionalização e cientifização do treinamento, entre outros, não teremos muita dificuldade de verificar que esses mesmos elementos se fazem presentes na dinâmica do modo de produção capitalista.

Podemos verificar como as características da dimensão do rendimento estão presentes no esporte de caráter competitivo, sendo ele mesmo, o caráter hegemônico na sociedade. Muito embora a Constituição Federal apresente as dimensões de participação (lazer) e educação, é a dimensão do rendimento, da performance, que se constitui como hegemônica na prática esportiva.

Essa hegemonia faz com que mesmo no momento de lazer, os elementos do esporte de competição, sejam incorporados, reelaborados e disseminados pela indústria de entretenimento, constituindo este momento como mais um na cadeia de produção de mercadoria para ser comercializada, vendida. E para que isso tenha sucesso garantido, ela precisa ser espetacularizada.

"O espetáculo traduz-se como a visão objetivada do capitalismo, ao ser ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Por meio de suas formas particulares, como a propaganda, a publicidade e o consumo direto de divertimentos, o espetáculo reafirma as escolhas feitas na produção e no consumo que decorrerá dessas escolhas. Trata-se do desenvolvimento sócio-histórico que permitiu às relações produtivas capitalistas adentrarem e comandarem todos os aspectos da vida social." (p. 216).


A expressão do tudo que é sólido se desmancha no ar, foi atualizada. O sagrado, torna-se profano. E tudo bem com isso, desde que atenda aos interesses da dinâmica capitalista.

"Na medida em que o espetáculo se constitui como um mediador, portanto como elemento de separação do ser humano em relação ao ser humano, fazendo da contemplação  e da vivência  vicária o modelo de experimentação do real que atua na criação de necessidades de consumo por meio de publicidade, ele se torna um agente da indústria cultural vinculado à maximização do processo de reprodução do capital." (p. 216)

Após esse raciocínio, Moura (2022) vai nos apresentar três classificações para identificar o que ela chama de "eras da produção cultural" na Europa: o patrocínio e o artesanato; o profissional do mercado e o profissional da corporação. Este, tendo a sua gênese no século XX, especificamente "após a década de 1950." (p. 217).

Será neste século também que o futebol, em sua segunda fase (a primeira será "(...) em meados do século XIX, [associado] aos processos de disciplinamento das massas, adequando-as a regras e horários, e ao fair play, à aceitação individual de perdas e vitórias") surgirá como "prática esportiva e objeto de desejo" promovida pelo "surgimento das indústrias culturais." (p. 217).

A terceira fase do futebol terá como característica dois elementos centrais: será controlado por "grandes corporações midiáticas" e também, em uma relação simbiótica, terá financiamento do capital financeiro.

"A sociedade passa a ser regida pelo tempo da produção econômica em torno do espetáculo futebolístico que a transforma de modo permanente e absoluto. O tempo do espetáculo não se resume ao tempo  do jogo transmitido, ao contrário, engloba o antes, tempo necessário para sua promoção e para o estabelecimento de vínculos com os consumidores; o durante, no qual jogadores e torcidas, meios de comunicação e espectadores, e capitalistas e consumidores se reúnem em torno do espetáculo; e o depois, baseado na modelagem de estilos de vida indispensáveis à produção do capital em sua atual etapa." (p. 219).

A sociedade espetacular, ou melhor seria dizer, o futebol espetacularizado, é a síntese atual do capitalismo mundial. "(...) seu valor de uso, a prática ou mesmo a contemplação esportiva, é apropriado tanto pelos times quanto pelos meios de comunicação para promover seu valor de troca, visando ao aumento dos rendimentos dos acionistas, à multiplicação do capital investido inicialmente e à aceleração do processo de reprodução do capital pelo consumo de imagens." (p. 219-220).

Na nossa próxima postagem sobre o tema, que esperamos seja em breve, continuaremos trazendo as reflexões da autora, agora sobre o tema relacionado aos "Novos regimes de apropriação capitalista".

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Esporte em sociedade totalitária

O esporte em uma sociedade totalitária pode ser significativamente diferente em comparação com uma sociedade capitalista. Em um regime totalitário, o esporte é frequentemente usado como uma ferramenta de propaganda, controle social e manipulação da opinião pública.

Em uma sociedade totalitária, o governo ou regime no poder geralmente exerce um controle estrito sobre todas as atividades, incluindo o esporte. Os eventos esportivos podem ser usados para promover a ideologia do regime, enaltecer a figura do líder ou do partido dominante, e reforçar a lealdade e conformidade dos cidadãos.

As competições esportivas podem ser organizadas e manipuladas de acordo com a vontade do regime. Resultados e desempenhos podem ser distorcidos ou falsificados para criar uma narrativa de superioridade e sucesso do regime. Isso pode incluir a seleção e treinamento de atletas com base em critérios políticos em vez de mérito esportivo, com o objetivo de demonstrar a força e superioridade da nação.

Além disso, o esporte pode ser usado como uma ferramenta de controle social. Regimes totalitários podem promover atividades esportivas específicas para distrair os cidadãos de problemas sociais ou políticos e criar uma sensação de união e patriotismo em torno do regime. A participação em esportes também pode ser usada como uma forma de monitorar e controlar os cidadãos, recompensando aqueles que se conformam e punindo aqueles que se desviam das normas estabelecidas.

A liberdade de expressão e organização também pode ser limitada no esporte em uma sociedade totalitária. Os atletas podem ser coagidos a expressar apoio ao regime e serem proibidos de se envolverem em atividades políticas ou manifestações contrárias ao regime.

No geral, o esporte em uma sociedade totalitária serve como uma extensão do controle e propaganda do regime, destinado a promover a ideologia, reforçar a lealdade e controlar a população. A ênfase está menos na competição esportiva em si e mais na instrumentalização do esporte para alcançar os objetivos políticos do regime dominante.

domingo, 14 de maio de 2023

Esporte na sociedade capitalista

O esporte desempenha um papel significativo na sociedade capitalista, tanto como uma indústria lucrativa quanto como um meio de entretenimento e expressão cultural. Na sociedade capitalista, o esporte é frequentemente comercializado e transformado em um negócio altamente lucrativo, com a venda de direitos de transmissão, patrocínios, merchandising e bilheteria, entre outras fontes de receita.

Uma característica proeminente do esporte na sociedade capitalista é a competitividade. As equipes e atletas são motivados a alcançar o sucesso e a vitória, buscando melhores resultados e superando seus concorrentes. O incentivo financeiro, como premiações e contratos de patrocínio, muitas vezes impulsiona essa busca pela excelência.

Outro aspecto importante é a comercialização do esporte. As empresas veem o esporte como uma plataforma para promover suas marcas e produtos, investindo em patrocínios e publicidade. Os atletas muitas vezes se tornam celebridades e ícones de marketing, aproveitando sua popularidade para firmar contratos lucrativos com marcas e empresas.


No entanto, a relação entre esporte e capitalismo também pode gerar algumas controvérsias e desafios. Por exemplo, a busca pelo lucro pode levar a desigualdades econômicas entre as equipes e ligas esportivas, criando um desequilíbrio competitivo. Além disso, o esporte profissional pode levar a práticas como a compra de talentos, onde equipes mais ricas podem contratar os melhores jogadores, reforçando ainda mais sua posição dominante.

Outra questão é a comercialização excessiva do esporte, onde o foco nos lucros muitas vezes leva a uma ênfase exagerada nos aspectos comerciais, em detrimento dos valores e do espírito esportivo. Isso pode ser observado em casos de corrupção, doping e manipulação de resultados, que minam a integridade do esporte.

No entanto, nem tudo é negativo. A indústria esportiva capitalista também traz benefícios, como a criação de empregos diretos e indiretos, o estímulo ao turismo esportivo e a promoção de estilos de vida saudáveis. Além disso, a competição esportiva pode promover a camaradagem, o espírito de equipe e a superação pessoal.

Em resumo, o esporte na sociedade capitalista é moldado por forças econômicas e comerciais. Embora possa haver desafios e controvérsias associadas a essa relação, o esporte continua sendo uma parte importante da cultura e do entretenimento, proporcionando oportunidades para atletas, negócios e fãs.

terça-feira, 11 de abril de 2023

A popularização do xadrez

O xadrez foi criado no século VI antes de Cristo e hoje é um dos jogos mais populares no mundo, graças a internet, que possibilitou sua socialização em diversas partes do planeta.

Nos diversos sites que têm o xadrez como esporte central, há centenas de milhares de jogadores que da sua residência, ou até do seu local de trabalho, em diferentes países, se confrontam em torneios diversos, promovidos pelas centenas de associações e clubes de xadrez que também se popularizaram.

Foto montagem. Arquivo pessoal

No Brasil, o órgão máximo do esporte é a Confederação Brasileira de Xadrez, que no próximo ano, mais precisamente no dia 06 de novembro, irá comemorar o seu centenário.

Seja no formato de “bullet”, “blitz” ou “rápida”, entre muitas outras variações, o certo é que em site como lichess.org ou Chess.com, nós encontramos muitos jogadores, profissionais ou amadores. Só neste último, atualmente, existem mais de 100 milhões de membros.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Economia do Futebol

 Livro-sensação em vários países, Soccernomics tem sido aclamado como uma das mais reveladoras obras sobre o futebol. E também como uma espécie de equivalente futebolístico do célebre Freakonomics. Além da óbvia inspiração do título, afinal, a obra também aplica princípios socioeconômicos na explicação de fenômenos cotidianos no caso, da rotina que envolve o mundo da bola - o livro é, como o primo-irmão que se tornou bestseller planetário, recheado de ideias revolucionárias, provadas por meio de um vasto aparato de dados e análises.


Com estatísticas impressionantes e verdadeiros furos de reportagem, a dupla (formada por dois ingleses, um jornalista esportivo, Simon Kuper, e um economista, Stefan Szymanski)apresenta dados espantosos, todos eles provados com tabelas, gráficos e estudos de caso.

O livro comenta as dificuldades que os jogadores brasileiros têm de se adaptar à cultura europeia, sobretudo quando são comprados por times do Norte. E revelam como essas dificuldades provocam impactos em suas atuações. Por outro lado, relembram histórias pitorescas de nossos craques – como os atacantes Romário, Ronaldo, Robinho, e o goleiro Marcos, por exemplo. E tocam, ainda, num tema crucial para o país: o que podemos esperar das próximas Copas do Mundo.