domingo, 22 de novembro de 2009

Para além do esporte: mobilizando a comunidade através da Cultura Corporal

Na nossa última postagem nos inspiramos na questão do "apagão" ocorrido recentemente para pensarmos a relação entre a elite e o povo brasileiro. Mas não nos restringimos a isso. Refletimos também sobre como determinadas instituições reproduzem valores que fortalecem o ideário neoliberal, ou como já querem alguns pensadores, depois de mais uma crise do capital no ano passado, pós-neoliberal.

Quando escrevemos instituições, pensamos em basicamente duas: escola e esporte. Aprendi, nos bancos da faculdade de educação, na Universidade Federal da Bahia no início dos anos 90, que "a criança que pratica esporte respeita as regras do jogo...capitalista". Não creio que o autor que disse isso ainda pense assim. Aliás, duvido muito, pois o mesmo, no último Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, na plenária final, sem nenhuma mediação, disse em alto e bom som: viva as educações físicas.

Pois é. E os doutores que lá estavam, nada questionaram. Ficaram em silêncio. Consentiram. Para que abrir um debate desnecessário, logo no final de um evento científico? Pois deve ser isso mesmo. Se "ele" falou, tá falado. Que cada um cuide da "sua" educação física e ponto final.

Mas, apesar dos pesares, eu ainda acredito no que aprendi lá atrás. A diferença é que agora eu consigo enxergar as mediações. Não na sua intereza, ainda não atingir tal grau de compreensão do movimento do real. Mas o suficiente para aprender que não são "todas" as educações físicas que servem para as diferentes classes sociais. Algumas servem mais do que outras. Por exemplo, a educação física que defende a escola como um lugar onde se fabrica atletas. Essa eu não posso louvar. Como não posso louvar a outra que por extensão, reduz a educação física à prática do esporte. De preferência, obedecendo as mesmissimas regras impostas pelas federações e suas devidas penalizações, caso os educando(?) se tornem desobediente às regras.

Mas a educação física que se utiliza dos elementos da Cultura Corporal como mobilizador da comunidade, através da prática de outros conteúdos do seu acervo, esta eu louvo. Digo um grande viva em alto e bom som: VIVA!!! Foi justamente esta experiência que vivenciei, junto com outros colegas, no sábado, dia 14 de novembro último, na Escola Edgard Santos, no Fazenda Garcia. As imagens abaixo mostram um grupo de jovens ensaiando a sua apresentação,

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para logo depois, dentro de um ginásio lotado de outros tantos jovens de diversas comunidades da cidade do Salvador e de outros estados (Alagoas e Paraiba) se apresentarem, demonstrando um domínio corporal impressionante, onde além da técnica propriamente necessária para o domínio dos gestos, continham a plástica e a beleza estética.

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Foi um dia inteiro de muito gesto corporal através da ginástica e dos seus fundamentos e da dança e das suas possibilidades e nenhum pódium, medalha, ou premiação de primeiro colocado. Crianças, jovens, adultos e idosos. Estudantes das escolas públicas e das universidades, professores e professoras, moradores das comunidades, todos participando pela alegria de participar, buscando materializar na prática, a difícil tarefa de se auto-organizarem em função do coletivo.

Foi um dia muito rico. Só mesmo quem esteve por lá para poder sentir a força do momento que se expressava em cada grupo das escolas que se apresentavam. Falando em grupo, sabe aquele lá do início, que ensaiava para a apresentação? Pois é, veja como ficou. Os seus movimentos podem expressar, muito mais do que as minhas parcas palavras, não só o que significou o evento mas, também, que a educação física na escola tem muito mais o que fazer do que fabricar atletas.

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12 comentários:

Elson disse...

Poooooooooooooooxa!!!
Muito legal...estive lá e realmente Wellingotn tem toda razão.
A organização coletiva (para além da aceitação de gestos pre-determinados), meninos e meninas juntos e, o que é melhor, ninguém quis saber qual melhor equipe ou escola.
Ou seja, mesmo com todos os limites da escola Capitalista, esta organização do LEPEL e da SEC demonstraram que existe algo a ser feito em nome da superação da monocultura latifundiária do esporte de rendimento na escola.
Abraços

Anônimo disse...

Maneiríssimo!!!

Mpário Sérgio disse...

Deu vontade de tá lá. Quando vai ter de novo?

Welington disse...

Olá, Mário Sérgio. Este evento tem todo o semestre, pois faz parte da finalização das atividades das diversas disciplinas que funcionam em diferentes espaços, como escola e universidade. Este semestre contamos com a participação também de outras universidades de outros estados do Brasil. No próximo evento eu divulgo por aqui no blog. Obrigado pela participação

Anônimo disse...

Cara, eu tenho uma colega que vive falando nos coletivos (reuniões de professoras e professores) e nos corredores da escola sobre o blog Esporte em Rede. Ela fala tanto que resolvi conhecer o tal blog com o objetivo de "ser do contra", pois, ela vive "infernizando" - no bom sentido - a minha vida e de outros colegas para conhecer o blog.- Sabe, colegas , li uma coisa tão interessante no Esporte em Rede que não posso deixar de compartilhar com vocês - é assim que ela começa a ladinha. Resolvi finalmente conhecer o bendito. Estou feliz com o que li. O blog fala de uma Educação Física que está distante das escolas daqui de Itabuna, infelizmente. E a maneira como o blog relaciona o esporte com a política é peculiar mesmo. A colega está com a razão em ficar fazendo marketing de marcação do blog. Eu, por minha vez, vou fazer ela experimentar do próprio veneno e exigir que ela traga você aqui em Itabuna.



Ro

Welington disse...

Olá, Ro. Irei com o maior prazer. Aliás, estive ai em Itabuna a partir do convite do conselho municipal de educação, realizando uma palestra. Fico muito feliz em dá a minha cidade, um pouco do muito que ela me deu e continua me dando. Sempre que for chamado para estas bandas, irei com muito prazer.

Ruy Braga disse...

Mostrar o que pode ser feito através da educação física para além do esporte é de suma importância para a sociedade. É preciso estarmos atentos ao movimento que acontece e refletirmos sobre a realidade da escola no contexto atual. O hip-hop dá uma pista para essa reflexão e o basquete de rua como uma possibilidade de superação nas aulas de educação física. Parabéns a tod@s que participaram do evento e ao Grupo Lepel pela incansável luta.
Ruy Braga

Anônimo disse...

Fico realmente encantado com a grandiosidade que vc vem colocando estas e outras questões da Educação Física. Certamente irei divulgar para que possomas trabalhar com tamanha amplitude que a E F nos oferece.
Abraço a todos
Marcelo Faria

Welington disse...

Obrigado pelo apoio, Marcelo. Ficamos felizes em saber que nossas reflexões tem servido de ponto de apoio para as reflexões. Conte conosco para ampliar as possibilidades.

Itajaí disse...

Estou apenas no segundo semestre de Educação Física na UEFS e talves o meu comentário possa está errôneo, mas entendo que apesar do evento promocionar a cultura corporal de movimento e superar a monocultura esportiva no âmbito de escola, vejo que requer muita técnica sendo que esta exclui.



Itajaí Santiago, 2° semestre, Educação Física UEFS.

Welington disse...

Olá, Itajaí. Obrigado pela sua participação. Sobre a questão da técnica excluir o que posso afirmar é que não necessariamente. Aliás, a técnica sempre foi um elemento fundamental do desenvolvimento humano. Dois problemas se colocam. O primeiro é quando a mesma vira "tecnicismo", ou seja, a exacerbação da técnica em detrimento de outros componentes da cultura corporal e o segundo elemento é quando a mesma está inserida em uma lógica excludente. A competência técnica, como nos ensinava o professor Apolônio Abadio do Carmos tem que envolver o compromisso político e vice-versa. E hoje, precisamos ampliar esse conceito na definição clara sobre o projeto histórico que perseguimos.

Rosa Maria disse...

Muito bom!! Da próxima me convida!!