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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mais um elefante branco?

Uma imagem que sempre me coloca para refletir sobre a situação do esporte no país é a de um certo ginásio que fica na rodovia que liga a linha verde da Bahia a linha verde de Sergipe, logo após a entrada da cidade de Indiaroba.

Foto tirada no mês de junho do ano passado
Em junho do ano passado o ginásio continuava ali me instigando, afirmando que a política esportiva do país era para pouquíssimos, voltada única e exclusivamente para os chamados atletas de ponta, embora nesse aspecto também tenhamos sérios problemas de estruturas e equipamentos, diga-se de passagem.

Na verdade não há preocupação efetiva com o que chamamos e defendemos de democratização do esporte. Este se torna um valor exclusivo para os que podem acessar no plano privado ou, quando muito, nas instituições particulares de ensino.

E nas escolas públicas? Perguntarão. É possível, mas em sua grande maioria, existe o monopólio do futebol. A vivência do esporte fica prejudicada por isso e, sobretudo, pela falta de estrutura pedagógica e física do espaço. O esporte precisa ser compreendido não apenas como uma determinada modalidade, mas, sobretudo, como um fenômeno sócio-histórico.

Mas voltando ao ginásio. Ele ainda me leva a refletir, pois o mesmo ainda está lá como um "elefante branco" feito de concreto, ocupando a paisagem sergipana. Com uma diferença. No início deste mês, estacas foram colocadas ao seu redor e faixas de agradecimentos foram fixadas nas paredes pinchadas e já bastante maltratadas pelo tempo e desuso do equipamento esportivo.

Quando deparei com esta simples modificação da paisagem, fiquei animado. Parei o carro no acostamento e perguntei a um morador da localidade, residente de uma casa defronte ao ginásio, senhor Nhô, se havia algo ocorrendo por ali. Ele disse que sim. Afirmou que existem algumas intervenções sendo feitas e assegurou que as obras começarão para valer no próximo mês de fevereiro.
Foto tirada em 14 de janeiro deste ano
Passei pela localidade segunda-feira, dia 27, retornando de Aracaju onde fui buscar meus filhos que passavam férias com a avó e pude constatar que mais do que estacas e faixas existiam homens trabalhando. Alguns juntavam entulho e outros carregavam pedras para o interior do ginásio. Isso me deixou animado, otimista que ao menos o espaço iria realmente ser reformado. Fevereiro tinha, então, se antecipado.

Mas, meu otimismo não é alimentado pela ingenuidade. Essa dinâmica não significa que mudou a forma do Estado compreender a política esportiva. Podemos melhorar a estrutura, é um passo importante, mas é preciso haver projetos de utilização, políticas efetivas de formação humana via esporte e lazer nas cidades.

O equipamento é parte desse processo. Nada mais. O Estado precisa perguntar o que fazer com os mesmos, como utilizá-lo, quais os objetivos, as estratégias de ocupação, etc, etc, envolvendo toda a comunidade nesse debate.

Do contrário, teremos mais um "elefante branco". Reformado, "novinho em folha" mas...um "elefante branco".

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Cadê meu ovo de páscoa?

Eu, ainda um adolescente em passeio de férias no estado natal de meus pais, Sergipe (minha mãe é de Estância e meu pai de Santa Luzia), me defrontei com uma cena que me chocou bastante. Alguns homens, mulheres e crianças se misturavam aos cachorros na cata de alimentos sobre um monte de lixo residencial.

Imediatamente me lembrei de uma poesia do Manuel Bandeira, intitulada O Bicho. Hoje eu sei que esta poesia foi criada em 1947 e publicada em 1948. Mas na época, 1990, não sabia nada disso, mas ela me inspirou a criar uma poesia tematizando a cena que acabava de observar da janela do quarto onde estava.

Na quinta-feira que antecedia a páscoa (esse texto foi escrito em 2009. A cena é de 2010), sentado na poltrona do meu carro, me deparei com a cena que está no vídeo. Esta me remeteu quase que automaticamente a outra cena, de 1990, em Aracaju. A diferença desta para a outra é apenas e tão somente de quantidade. Apenas um homem rebusca o lixo a cata de comida, mas a realidade é tão perversa quanto àquela.

Resolvi socializar com vocês essa experiência, bem como a poesia que fiz e que só agora torno pública. Que ambas nos ajudem a desenvolver ações para que um dia essas expressões do capital sejam apenas lembranças.




UM BICHO?

E lá estava Enoque, no lixo, a catar comida com a mão, lembrando-me uma pequena e significativa poesia de Manuel Bandeira.

Enoque é um nome fictício.

Poderia ser José, João, Ernesto, ou outro, mas a cena é real. Tristemente real.

Ele, o Enoque, que se torna representante de milhões de brasileiros nesse momento, afunda todo o seu corpo dentro de tonel, à cata de resto de comida ou outra coisa qualquer que sirva para amenizar a sua fome.

Quando os seus braços tornam-se curtos, não conseguindo mais revirar os alimentos, habilmente, qual cachorro vira-lata, vira o tonel e recomeça, sofregamente, a catar os "restos", as "sobras" de comidas, tão alegremente levados à boca.

E lembro-me que no meu tempo de escola, aprendi que o Brasil é grande e altaneiro.

Esqueceram de me falar sobre os Josés, Joãos, Ernestos e Enoques da vida.

Não dão divisas e não caem no vestibular.