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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Paralímpico: haja bobagem e submissão

Leia abaixo o excelente texto do professor Paquele Cipro Netto sobre esta "novilíngua" que entrou sem pedir licença no nosso vocabulário nos últimos dias.

O texto foi publicado na Folha de São Paulo dia 06 de setembro de 2012.


O meu querido amigo, vizinho, filho e irmão Márcio Ribeiro me pergunta, com o seu falar italianado e com influência do linguajar da Casa Verde, bairro paulistano em que passou boa parte da vida: "Ma que história é essa de 'paralímpico'? Emburreci, emburrecemos todos?". E não foi só o Márcio. Vários leitores escreveram diretamente para o jornal ou para mim para pedir explicações.

Não, meu caro Márcio, não emburreceste. Nem tu nem os leitores que se manifestaram. E, é bom que se diga logo, a Folha não embarcou nessa canoa furadésima, furadissíssima.

Parece que o Comitê Paralímpico Brasileiro adotou a forma "paralímpico" para se aproximar da grafia do nome do comitê internacional ("paralympic"). Por sinal, o de Portugal também emprega essa aberração --o deles se chama "Comité Paralímpico de Portugal" (com acento agudo mesmo em "comité").

É bom lembrar que o "par(a)-" da legítima forma portuguesa "paraolímpico" vem do grego, em que, de acordo com o "Houaiss", tem o sentido de "junto; ao lado de; ao longo de; para além de". Na nossa língua, ainda de acordo com o "Houaiss", esse prefixo ocorre com o sentido de "proximidade" ("paratireoide", "parágrafo"), de "oposição" ("paradoxo"), de "para além de" ("parapsicologia"), de "distúrbio" ("paraplegia", "paralexia") ou de "semelhança" ("parastêmone"). Os jogos são paraolímpicos porque são disputados à semelhança dos olímpicos.

Talvez seja desnecessário lembrar que esse "par(a)-" nada tem que ver com o "para" de "paraquedas" ou "para-raios", que é do verbo "parar" (não esqueçamos que o infame "Des/Acordo Ortográfico" eliminou o acento agudo da forma verbal "para").

Pois bem. A formação de "paraolímpico" é semelhante à de termos como "gastroenterologista", "gastroenterite", "hidroelétrico/a", "socioeconômico", das quais existem formas variantes, em que se suprime a vogal/fonema final do primeiro elemento (mas nunca a vogal/fonema inicial do segundo elemento): "gastrenterologia", "gastrenterite", "hidrelétrico/a", "socieconômico". O uso não registra preferência por um determinado tipo de processo: se tomarmos a dupla "hidroelétrico/hidrelétrico", por exemplo, veremos que a mais usada sem dúvida é a segunda; se tomarmos "socioeconômico/socieconômico", veremos que a vitória é da primeira.

O fato é que em português poderíamos perfeitamente ter também a forma "parolímpico", mas nunca "paralímpico", que, pelo jeito, não passa de macaquice, explicitação do invencível complexo de vira-lata (como dizia o grande Nélson Rodrigues). Pelo que sei, em inglês... Bem, dane-se o inglês. Danem-se os Estados Unidos, a Inglaterra e a língua inglesa.

Alta fonte de uma das nossas mais importantes emissoras de rádio me disse que o Comitê Paralímpico Brasileiro fez pressão para que a emissora adotasse a bobagem, digo, a forma americanoide, anglicoide ou seja lá o que for. A farsa é tão grande que, em algumas emissoras de rádio e de TV, os repórteres (que seguem ordens superiores) se esforçam para pronunciar a aberração, mas os atletas paraolímpicos logo se encarregam de pôr as coisas nos devidos lugares, já que, quando entrevistados, dão de ombros para a bobagem recém-pronunciada pelo entrevistador e dizem "paraolímpico", "paraolimpíada/s".

Eu gostaria também de trocar duas palavras sobre "brasuca/brazuca" e sobre o barulho causado pelo "porque" da presidente Dilma, mas o espaço acabou. Trato disso na semana que vem.

É isso.

domingo, 18 de outubro de 2009

Jogos 2016: por um Brasil sem fome!

Com o título “Você tem fome de quê?”, trouxemos no dia 19 de junho de 2009 uma reflexão que buscava comparar a compra dos jogadores Cristiano Ronaldo e Kaká que juntos custaram 160 milhões de euros para o Real Madrid com uma notícia presente no relatório da Organização das Nações Unidas sobre a fome e que relatava que este ano superaríamos a barreira de um bilhão de famintos no mundo.

Além da postagem, fizemos também uma enquete com os nossos leitores, perguntando se eles consideravam a compra dos jogadores, diante da realidade da fome mundial, um aspecto imoral ou normal. 78% disseram que era uma imoralidade (26 votos) e 21% acharam normal, coisa do futebol moderno (7 votos).

Como o futebol moderno é jogado no interior do metabolismo sócio-histórico do capital, ele se apresenta junto com as contradições do mesmo. Só a compra do Cristiano Ronaldo por 96 milhões de euros alimentaria mais de 8 milhões de etíopes. Somados ao valor da compra de Kaká, 64 milhões de euros, totalizaríamos a "bagatela" de 160 milhões de euros, quantia esta que amenizaria, e muito, a condição dos 18 milhões de brasileiros famintos.

Vejam vocês o seguinte. Tomando os valores do euro em junho deste ano, 93 milhões de euros equivalia cerca de 257 milhões de reais. Com 257 milhões de reais eu alimentaria e ainda sobraria dinheiro, mais de 8 milhões dos brasileiros famintos.

Quanto vai custa mesmo os Jogos Olímpicos? 38 bilhões de reais (perspectiva até 2016, podendo ser mais, muito mais e olha que não estou mencionando nem o dinheiro que será gasto para a Copa do Mundo de 2014). É muito, mas muito dinheiro mesmo para um Estado que até bem pouco tempo, fazia o discurso neoliberal de que não tinha dinheiro para a saúde, educação, habitação, segurança (e ainda o faz) e sob esse argumento justificou todo o tipo de privatização, colocando como mercadoria ítens essenciais - como alimentação - da existência digna de qualquer ser humano.



Mas alguns dirão que agora é torcer para tudo dar certo, tornar os Jogos viáveis deve ser o esforço de todo patriota, de todo brasileiro que ama o seu país, que tá de bem com a vida e que não desisti nunca! Esses discursos pessimistas, "a la contra" é coisa de gente revoltada, frustrada com a vida e que não tem o que fazer.

Então, deixa eu sair de cena um pouquinho e dá voz a uma atleta, a alguém que conhece por dentro o fenômeno esportivo.

Depois do anúncio da escolha do Rio de Janeiro como sede para os Jogos Olímpicos de 2016, nosso emocionado presidente declarou: a meta agora é transformar o Brasil em potência olímpica.

Está cheio de gente questionando a viabilidade dessa meta. Por enquanto não vi ninguém questionar a validade dela. Eu quase acho o projeto mais viável do que válido.

A China foi a primeira no quadro de medalhas de Pequim 2008. IDH: 92º. O Quênia (147º no IDH) ficou em 15º lugar nas olimpíadas. À frente da Noruega, que foi 21ª no quadro de medalhas e tem o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano, segundo a ONU.

É possível tornar-se potência olímpica sem melhorar a distribuição de renda, a educação e a saúde pública. O destaque esportivo também pode prescindir da democracia, da liberdade de expressão e da liberdade de escolha.

Ganhar uma baciada de medalhas olímpicas pode encher um povo de emoção e orgulho patriótico, mas não faz um país melhor.

Como brasileira, ex-atleta e apaixonada por esporte, (...) Quero ver o Brasil no alto do pódio olímpico muitas vezes, mas como consequência da melhora de todos os nossos indicadores sociais.

(...)

Quando todas as nossas crianças frequentarem boas escolas, forem bem alimentadas e tiverem oportunidade de participar de bons programas de iniciação esportiva em locais com estrutura adequada, sob orientação de bons profissionais, teremos boas chances de nos tornarmos uma potência esportiva. Se forjarem em nós o destaque olímpico que desejam sem que tenhamos nada disso, nem quero pensar em como o farão.
"

Pois é. Palavras de Ana Mesquita, autora do livro “A travessura do Canal da Mancha” e recordista latino-americana da travessia do Canal da Mancha.