quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A culpa é só do atleta?

Na última Copa do Mundo, realizada na África do Sul, a seleção brasileira foi eliminada pela seleção holandesa que jogava com um a mais em função da expulsão do volante Felipe Mello, motivada por uma jogada faltosa em Arjen Robben aos 27 minutos do segundo tempo. Era o fim da "era Dunga".

No último domingo, 06 de fevereiro, eis que o zagueiro da seleção brasileira sub-20, Juan, desferiu um soco no jogador argentino Funes Mori, aos cinco minutos do primeiro tempo e foi expulso. Zagueiros e volantes desandaram a dar falta e Neymar, em mais uma atitude intempestiva, foi suspenso para o próximo jogo por ter empurrado o goleiro da seleção argentina.

Ontem, 09 de fevereiro, o protagonista de atitude truculenta em mais uma partida da seleção brasileira principal contra o selecionado da França foi o meio campista Hernanes, ex-são paulino e atual jogador do Lázio, da Itália. Ele aplicou uma chamada “voadora” no peito do atacante francês, Benzema, recebendo, assim como Felipe Melo e Juan, cartão vermelho, desfalcando a seleção brasileira que perdeu da França pelo placar de um tento a zero.

O que está havendo? Que péssimo hábito é este da truculência dos jogadores brasileiros contra os seus adversários? Seria este agora o adjetivo para “jogo bonito?”, para o “fair play? Ou isso é uma expressão do chamado futebol força de influência européia? Quais as mensagens que esses jogadores estão dando aos jovens deste país, que em sua grande maioria, já vivenciam de diferentes formas a violência da realidade social brasileira?
Exemplos de atitudes violentas por parte de jogadores da seleção brasileira nós temos abundantes em tempos e espaços distintos, mas assusta a regularidade e a motivação com que esses atos estão sendo praticados. Notem que o jogo contra o selecionado francês foi um amistoso, que segundo o meu amigo Houaiss é um jogo “que é próprio de amigo(s); amigável, afetuoso”.

Segundo David Yallop, no importante livro “Como eles roubaram o jogo: segredos do subterrâneo da FIFA”, na década de 50 a seleção brasileira já era talentosa, mas este atributo era “frequentemente mascarado e desfigurado por um nível de violência que, se perpetrado fora do campo, teria resultado em sentenças à prisão”. (p. 32), portanto, não estamos tratando aqui de algo recente e precisamos ampliar o campo de compreensão e explicação deste fenômeno, para que não recaia no atleta, individualmente, o processo de culpabilização.

Se olharmos apenas para as atitudes individuais dos atletas aqui citados e outros que já foram protagonistas de ações parecidas e àqueles que ainda estão por vir, não iremos reconhecer a essência do problema, que se multiplica, na minha modesta opinião, pelas relações de trabalho aviltantes, seja para os atletas, que suportam uma jornada de trabalho absurdamente alta, em ritmo de jogo e treino interminável, seja pela comissão técnica supervalorizada única e exclusivamente por sua competência técnica dissociada de outros valores, seja pela valorização do jogador A, B ou C, como se o mesmo não dependesse de uma equipe, do coletivo para chegar aos seus objetivos e do clube, seja pela não profissionalização e má formação dos árbitros, etc, etc, etc.

9 comentários:

Anônimo disse...

então professor não podemos cair no simplimismo do senso comum e atribuir toda culpa por estas atitudes não condinzentes com o papel de referência que estes atletas ocupam para a juventude brasileira A ELES.
para discutirmos esta questão temos que analizá_la com um olhar mais critico pois para alem das responsabilidades individuais destes atletas, temos questões de fundo como ausencia de formação educacional adequada, falta de acompanhamento psicologico pois alguns ganham muito dinheiro rapidamente e nem sempre estão preparados, neste bojo entram tambem questões da atual situação da sociedade que reflete uma intensa violencia para mediar as contradições do sistema capitalista, então culpabilizar somente os individuos atletas por essa onda de atos violentos é uma atitude minimante imprudente.

FLÁVIO SONALDO LEPEL UFBA

Antônio Carlos disse...

Querido Flávio, em suma, foi justamente sobre essa questão que o professor Wellington se referiu: não há como culpabilizar o atleta unicamente... obrigado por entender e ratificar seu pensamento.

jaycon disse...

Creio que todo jogador deve entender que essa a profissão dele e que uma falta desleal, desmedida, poderá tirar um companheiro de profissão da sua lide. Controle emocional deve existir, para que não haja atitudes intempestivas. Será que a falta de acompanhamento psicológico atinge também a quem não tem altos salários?

Deraldo Pitombo disse...

Concordo com Jaycon. Independentemente do fato de se analisar a quem cabe a culpa pela má formação do atleta, este deve ser punido no ato por suas más atitudes. Tanto porque se ele já esta atuando como profissional não há mais tempo de educá-lo da forma convencional. E falando no nivel do profissionalismo, o atleta deve ter sempre em mente que esta sendo pago para jogar um bom futebol e não para agredir os outros atletas. Se eles humanalmente precisam descarregar suas respectivas testosteronas que façam em babas em seus quintais.

Deraldo Pitombo disse...

Welington. Não tendo visto um "Fale conosco" nesta pagina, faço uso deste espaço para te enviar um desafio: tecer um comentário sobre a despedida do "fenomeno" Ronaldo.

Comenta-se que as últimas criticas feitas por torcedores o levaram a antecipar a decisão de aposentar-se.
A bem da verdade este quantitativo de criticas é ridiculo diante da magnitude dos elogios e celebraçções QUE POR JUSTIÇA ele recebeu. Entretanto ainda acho que cabe a todos os brasileiros que se alegraram com sua atenção demonstrar seus agradecimentos de forma colossal.
No meu entender além de registros de lindos lances que resultaram em seu apelido de "fenomeno", Ronaldo deixa, na história do futebol, três espetaculares de exemplos de superação, próprios de guerreiros.
Acho que Esporte em Rede (diante da proposta que tem) não pode ficar ausente desta "rede de agradecimento" que se forma hoje a nivel internacional. A bola esta com você, também.

Welington disse...

Caro Deraldo. Como sempre digo, é muito bom tê-lo por aqui. Sua sugestão tá anotada. Já me debrucei um pouco sobre Ronaldo na postagem O fenômeno do marketing esportivo, nesta mesma página, mas a decisão de se aposentar antes do que se imaginava (final deste ano) e a forma como ela se dá (o fenômeno em "baixa"), exige uma abordagem específica. Obrigado pela dica. Abraços fraternos

gondim disse...

Querido Bambam, tenho acompanhado esta ferramenta pedagógica, que tem se superado na perspectiva de apontar temas relevante para entender sobretudo que, o esporte é muito mais do que simples gestos técnico e composição tática.
Certamente, próprio da nossa cultura carregada do MDC, é possível achar culpas e responsabilidades em todos, pois a engrenagem precisar seguir.
Forte Abraço
Roberto Gondim

Welington disse...

Caro Gondim. Alegria em vê-lo por essa paragem, amigo. Tenho refletido sobre a ausência de alguns colegas que poderiam contribuir com o debate que aparece por aqui eventualmente. Tenho tido mais oportunidade de dialogar com outros profissionais, de outras áreas de atuação e conhecimento do que com os próprios colegas e professores da educação física. A impressão que tenho é que para esses, o blog não existe. Espero poder contar com suas importantes contribuições em outros momentos. Obrigado pela visita e comentário. Abraços fraternos.

LUIS PERES disse...

Caro Blogueiro.
Como V.Sa. disse em seu oportuno e pertinente texto, essa violência desregrada e desmedida do futebol não é recente e nem culpa exclusiva dos atletas.
Poderia discorrer sobre este tema por inúmeras linhas e ocupar muito espaço com tão pouco conhecimento.
Contudo, num breve resumo, enquanto questões como: honra, moral, vingança, batalha, guerra, dignidade... Além de outras expressões menos votadas, forem colocadas reiteradamente no ambiente futebol, o objetivo: jogo, será desprezado.
Alias, afirme-se que: os atores que ora repetem tais expressões, discutem tudo, menos o esporte em si, seus objetos e regras. Definitivamente, não entendem nada do que arvoram a falar e por isto tergiversam.
E, saliente-se, fazem questão de manter tal "status quo", fomentando a ignorância do jogo em si, pois, assim, podem falar a ignomínia que quiserem e não serão cobrados.
Quantas pessoas, hoje, falam de posicionamento, tática, formação, sistema de jogo... Quase ninguém!
@BahiaClub
www.bahiaclub.blogspot.com