sábado, 6 de abril de 2013

Contradição aparente

Amanhã, sete de abril, ocorrerá, principalmente nas cidades-sedes da Copa do Mundo de 2014, em parceria com o Ministério da Saúde, a comemoração do Dia Mundial da Saúde. O evento aqui em Salvador tem o apoio também das secretarias de saúde do estado e do município, que serão representadas pelo secretário do Estado, Jorge Solla e do Agita Bahia, sob a presidência do senhor Cristiano Pitanga.

Segundo a página oficial da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, o objetivo do evento é "fortalecer a mensagem da promoção da saúde, através da adoção da prática de atividades físicas e alimentação saudável".

Ainda no mesmo diapasão, há um alerta sobre a importância de somar, à estas práticas, o "não uso do tabaco e do álcool", potencializando, ao indivíduo, a proteção das "doenças crônicas não transmissíveis" e, deste modo, prevenindo a "hipertensão arterial, diabetes e outras patologias". Em suma: atividade física somada a uma alimentação saudável é uma excelente receita para os males da sociedade moderna.

Considero a intenção belíssima. E não tenho dúvida alguma sobre o sucesso do evento e da importância da prática da atividade física, muito embora tenha minhas dúvidas sobre este debate descolado de ações mais concretas sobre a relação causal entre esta e a aquisição da saúde e, também, sobre as ações contraditórias entre o governo que promove e incentiva o evento e suas ações práticas.

Por exemplo. Já que o não uso do tabaco e do álcool é um elemento fundamental para a proteção do indivíduo em relação a aquisição de patologias, por que então este mesmo governo aceita mudar o nome da Arena Fonte Nova para ITAIPAVA ARENA FONTE NOVA? Não é a Itaipava uma fábrica de cerveja? A cerveja não contém álcool?

Para não falarem que sou "do contra", quero registrar aqui que esta contradição é apenas aparente. Faz parte das lutas que interessam às classes e frações de classes que compõem o bloco histórico essa dinâmica contraditória em relação aos fenômenos sociais, entre eles a atividade física, a saúde e as ações do Estado.

Então, o que fazer? Sugestão para também não falarem que fico apenas no lugar confortável da crítica sem propor alternativas: que tal, na caminhada, ao invés desta se resumir a um "ato de repúdio ao sedentarismo e de incentivo a vida ativa e feliz", os participantes levantarem faixas e cartazes contra esta opção do Governo?

Fica a minha sugestão, irrealizável, obviamente - pois quem paga a banda escolhe a música - do combate a esta contradição aparente.

7 comentários:

IEPA - ANEXO BARREIRA disse...

Caríssimo prof. Welington seus textos são meios fortes de intervenção social, tem me ajudado muito a formar uma consciência crítica e, estarei usando-os em sala de aula.

Abraços.

Claudiano

Welington disse...

Fico muito contente que o texto inspire suas ações, Claudiano. Tem muito respeito e admiração por você. Estou relendo um livro que pelo debate que estamos travando na disciplina, penso que sirva para aprofundarmos o diálogo. Trata-se do livro O DILEMA DE HAMLET: o ser e o não ser da consciência. editora VIRAMUNDO. Abraços, amigo!!!

jonhmeef@yahoo.com.br disse...

Mais uma vez excelente discussão!

Sobre a questão central em debate vou deixar um breve comentário de Jaime Breilh em uma entrevista realizada no Brasil:

A ideia de determinantes sociais da saúde aparece muitas vezes relacionada com a de promoção da saúde, enfocando também hábitos individuais. Como essas duas perspectivas se relacionam?

Essa é uma das contradições mais importantes, porque isso parte do desconhecimento da diferença entre estilos de vida e modos de vida. O estilo de vida é um campo de livre decisão das pessoas, mas você não pode tomar decisões absolutamente livres porque você está determinado socialmente, portanto, sua classe social tem um modo de vida. Imagine uma senhora que tem problema de obesidade, é trabalhadora de uma fábrica com um horário de trabalho das sete da manhã até a noite, com apenas quatro dias de descanso por mês. Aí você diz a ela: ‘a senhora tem que fazer exercícios, andar de bicicleta’. Ela irá lhe responder: ‘em primeiro lugar, nunca tenho tempo livre, em segundo lugar, não tenho bicicleta, em terceiro lugar, no meu pouco tempo livre, tenho que lavar roupas dos meus filhos, cuidar da casa, etc’. Não considerar o modo de vida é uma maneira de culpar as pessoas do que é um problema estrutural. A mudança individual é importante, mas só é factível se existe uma mudança coletiva, e a mudança coletiva só é factível se existe uma legislação, uma proteção social, e ações que não são individuais. Então, são dois campos em que se deve atuar, mas não se pode deixar tudo nos efeitos e nas pessoas, porque o resultado disso é que os culpados de tudo são as pessoas.

Alan Jonh

Welington Silva disse...

Caro Alan Jonh. Muito pertinente a exposição do pensamento de Jaime Breilh. Não o cohecia. Obrigado pela colaboração. A resposta dele me inspira a desenvolver um outro texto sobre a mesma temática. Só está faltando tempo para amadurecer. Grande abraço e obrigado pela participação.

MARIA CONCEIÇÃO disse...

Prof. Welinghton,
Adoro ler seus textos, pois eles me tiram da inércia e me movem para o pensar criticamente. Com vc estou aprendendo a fazer "análise da conjuntura". Este texto está uma "delícia". E eu que nem sabia da mudança do nome para "ITAIPAVA ARENA FONTE NOVA". Deve ter sido um "enredo encomendado"... ou não? kkkkk Um abraço, querido!

Welington disse...

Obrigado Conceição pelas palavras que me estimulam para a reflexão-ação. Abraço.

Selma Mendes disse...

Prof. Welington,

Seus textos são, como diz Conceição, uma delícia, não só estou degustando cada um deles como compartilhando com vários amigos para que as suas reflexões, sempre tão coerentes e importantes, venham abrir os olhos de um número cada vez maior de pessoas. Eu também não tinha conhecimento sobre a mudança do nome do estádio e fiquei surpresa e chocada com isso (pois é, ainda consigo me surpreender...).
Um grande abraço!