terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Brasil não é a África: e daí?

No ano de 2010 tivemos, pela primeira vez na história do mundial de futebol, uma Copa do Mundo em solo africano. Com certeza, um acontecimento para ser lembrado pelos nativos e por todos os povos do mundo inteiro durante muitos e muitos anos. Tanto pela sua relevância histórica, quanto pelos temas que animou.

Durante os preparativos para a realização dos jogos, muito foi dito. Várias foram as avaliações dos diferentes especialistas nos mais variados assuntos. Falou-se sobre aeroportos, novos estádios, mobilidade urbana, marketing esportivo, entre outros, temas sobre os quais estamos já bastante familiarizados.

Para uns, a Copa do Mundo na África do Sul seria uma oportunidade ímpar para potencializar o crescimento econômico do país, viabilizando ações que contribuiriam com o desenvolvimento da infra-estrutura geral, principalmente das cidades-sedes e, por tabela, mexeria com a alta-estima de todos os cidadãos da nação africana. Sem falar nos ganhos intangíveis que só aparecem, segundo especialistas em megaeventos esportivos, anos e anos após a realização dos mesmos e que não existe maneira de mensurar nem de constatar o seu impacto no processo avaliativo. Só mesmo a história, ciência do tempo, pode demonstrá-los.

Para outros, tudo não passava de simples falácia, retóricas que por sua extrema força ideológica, ao apresentar os elementos positivos, alguns supra citados, velava outros tantos, os de reais interesses dos membros da FIFA, das corporações das mais distintas, dos patrocinadores e de membros dos governos (federal, estadual e municipal). Era necessário que o povo todo acreditasse que a Copa da África era para o bem geral da nação africana.

Uma dessas vozes destoantes em relação aos otimistas de plantão, era de um economista da Universidade de Kwa-Zulu Natal, que mantinha, junto com outros intelectuais da mesma instituição de ensino, um site na internet, chamado de Observatório da Copa do Mundo. Segundo ele, “não é do real interesse de nenhum dos entes envolvidos na organização do evento – FIFA, governos e patrocinadores – promover reais avanços na vida cotidiana do país. Menos ainda referenciados na justiça e progresso social”. (Citação retirada do Correio Cidadania. Acessada em 19/07/2010).

Passados já um ano e alguns meses do evento que iria trazer a Terra Prometida para os africanos, eis que os dados da realidade da Nação projetam uma situação por demais frustrante, de fazer corar de vergonha os mesmos otimistas, muitos deles já devidamente encastelados em terra tupiniquim e outros tantos, há tempos, com residência fixa nas federações e confederações brasileiras, exercitando a política das monarquias absolutista.

Matéria do Correio do Brasil, publicada ontem, ao trazer uma reflexão crítica sobre o CNA (Congresso Nacional Africano), que expulsou o Partido Nacional (exclusivo para brancos) do poder em 1994 e parece não fazer valer o seu slogan de fundação (em 1912), “uma vida melhor para todos”, nos presenteia com alguns dados que demonstram a falácia do potencial desenvolvimentista dos megaeventos esportivos.

Segundo a matéria (leia na íntegra clicando aqui) “Os únicos sul-africanos que realmente desfrutam de uma “vida melhor” são os 3 milhões integrantes da classe média negra – apenas 6% da população de 49 milhões de habitantes. Aproximadamente 40% da população (20 milhões de pessoas) vive abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com menos de 50 euros por mês.”

O texto do qual os dados foram retirados diz respeito à dinâmica da política partidária do país. Faz uma crítica ao CNA e suas políticas, não tratando de forma específica do tão propalado legado esportivo, que ganha cada vez mais força semântica e tem a potência de tudo explicar.

Mas creio que o mesmo nos serve de alerta e nos ajuda a pensar sobre os reais interesses dos mega-eventos esportivos no Brasil em 2013 (Copa das Confederações), 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Jogos Olímpicos) em contexto de crise política e econômica na Europa, berço tradicional do futebol.

Sabemos que o Brasil não é a África do Sul e que a tradição do futebol é muito mais enraizada no nosso solo e isso pode, dizem, fazer alguma diferença. Por outro lado, sabemos também que são os mesmos “senhores dos anéis” que estão organizando os megaeventos esportivos na “nossa pátria mãe gentil”.

Se lá na África, repetindo o economista Patrick Bond, da Universidade de Kwa-Zulu Natal, não era do interesse “(...) de nenhum dos entes envolvidos na organização do evento – FIFA, governos e patrocinadores – promover reais avanços na vida cotidiana do país. Menos ainda referenciados na justiça e progresso social”, por que no Brasil será diferente?

7 comentários:

Adonis Cairo disse...

Meu caro amigo,
Aproveito o blog para externar minha tristeza por não ter mais o prazer de vê-lo adentrar minha sala de aula para garantir momentos de sabedoria.
Quanto à sua provocação, concordo plenamente. Nossa auto-estima, na verdade, corre sério risco com essa nova empreitada dos senhores dos anéis. Resta-nos dizer, com todas as letras, que não somos todos alheios aos reais interesses desses senhores.
Contudo, sinto que nossa resistência pouco poderá fazer, a exemplo do que aconteceu na África... mas não é por isso que vamos dar a eles a alegria de agir sem qualquer impedimento.
Um abraço, caro amigo.

Welington disse...

Caríssimo. Compartilho também da tristeza de, ao menos pelos corredores e salas da FSBA, não ter mais a frequência das nossas conversas, sempre muito ricas e alegres, regadas com o café quentinho, acolhedor, como sempre foram os seus tímpanos. Você foi um dos poucos professores que pacientemente, me ouvia e demonstrava gentileza sobre o conteúdo da minha fala. Assim é no blog. Tenho mais sua atenção como professor de Filosofia, do que os meus colegas da Educação Física. Poucos são, àqueles do meu convívio, que aqui comparecem para tecer comentário, discordantes ou não. Mas seguimos em frente, MEU MESTRE, na certeza de que nós dois, somados aos muitos que convergem da nossa ânsia crítica de ver tudo mudar, mesmo estando em instituições educacionais diferentes, estaremos no mesmo campo de batalha pela formação emancipatória da humanidade, a começar pelos educandos de ontem, hoje e sempre que nos "aturam". Te admiro muito. Grande abraço, inestimável amigo e nos encontraremos, quem sabe, pelos "cafés da vida".

Célio De Castro disse...

E o povo brasileiro em sua grande maioria estaria preocupado com previsões progressistas??? Essa brava gente quer ver mesmo é a bola rolar nos estádios, pintar as ruas de verde e amarelo, não importando que milhões destinados à Copa 2014 sejam consumidos no ralo da corrupção. O povo aqui quer é festa, quer futebol e carnval... Depois de 2014 tudo voltará a ser como antes.

Cláudio Gutierrez disse...

Olá. Obrigado pela reflexão e informações.
Deixa eu dar um pitaco:
Sim! E também as caravelas portuguesas vieram aqui explorar essas terras e levar riquezas.
No entanto, é na língua portuguesa, violência simbólica implantada pelo colonizador, que eu li Marx, Lênin e Paulo Freire.
Os senhores dos anéis não estão interessados no desenvolvimento do povo... óbvio, trata-se de negócio!
A questão é: seríamos capazes de tomar esses grandes eventos mundiais como fatores adjuntos a um projeto de desenvolvimento nacional, politicamente comprometido com a melhoria de vida do povo?
Acho que pode ser que sim.
A crítica, orientada nessa direção, também constrói.
cláudio

Welington Silva disse...

Não tenho dúvida alguma que a crítica orientada na direção do seu questionamento constrói, e muito, caro Cláudio, e é com essa possibilidade que perspectivamos nossas ações e reflexões críticas. Até para trazer à tona determinados dados e situações do nosso país o evento já está servindo. Obrigado pela presença e continue participando junto conosco

Anônimo disse...

gostei muito do texto wellington e já repliquei no facebook
bjs e ótima semana
elenise

CVS disse...

Ótimo post professor!

Como já se prolifera nas redes sociais... agora será a hora de superfaturar as nossas obras. A lentidão em obras no Brasil nunca se deu por questões de incompetência de nossa engenhosidade. Quando isso ocorre é fácil a solução. Contratamos quem saiba.
Quanto ao legado... é bem verdade que nem todos os "senhores dos anéis" têm interesse em avanços sociais. Basta olhar para salvador e teremos um exemplo claro disso. Mas isso ocorrerá na medida que estes "senhores" assim desejarem.