domingo, 14 de novembro de 2010

As contradições de sempre!!!

TEXTO ESCRITO PELO PROFESSOR ALAN JONH

O presidente do PC do B, Sr.Renato Rabelo, se reuniu nesta última terça-feira, 09 de novembro com o presidente do PT José Eduardo Dutra integrante do governo de transição e defendeu a manutenção do partido a frente do Ministério dos Esportes.

Tudo leva a crer que a solicitação seja atendida e que o partido continue no Ministério. Já que o ministro Orlando Silva está à frente das atividades que envolvem a realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Análises da política de esporte nos apontam que o investimento prioritário no esporte de alto-rendimento e a realização de mega-eventos esportivos foi à tônica central do governo nos últimos anos no campo das políticas públicas de esporte e lazer.

Em tempos de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, o esporte tem se apresentado como valioso instrumento de ampliação da desigualdade social e da concentração de renda em nosso país.

Justifica-se que o alto investimento no esporte de rendimento seria uma medida de suma importância para o desenvolvimento esportivo e para a melhoria do desempenho dos atletas em competições internacionais.

Entretanto, experiências de popularização dos esportes em diversas nações demonstram que outra via é possível, possibilitando-nos resultados muito mais duradouros e condizentes com a melhoria das condições de saúde da comunidade e até mesmo do desempenho competitivo.

O futebol no Brasil, o basquete nos EUA, o tênis de mesa no Japão, o kung-fu na China, o Xadrez em Cuba são alguns bons exemplos de que a socialização dos esportes deve ser o primeiro passo na política de esportes nacional.


A justificativa para os altíssimos investimentos nesses mega-eventos esportivos é que ficaria um legado de infraestrutura e se ampliaria a prática esportiva no país.

Entretanto os jogos Panamericanos realizados no Brasil em 2007, apresenta-nos provas concretas do contrário.

Neste episódio pudemos observar: ataques a populações locais na tentativa de esconder as gritantes desigualdades sociais da cidade; falta de prestação de contas de mais de 1 milhão de reais, entrega de diversas construções realizadas com dinheiro público para mão de iniciativa privadas, gastos públicos absurdos na construção de espaços com possibilidade bastante limitada de vivência efetiva do esporte.

Um bom exemplo é o estádio Engenhão, orçado inicialmente em R$ 100 milhões tendo um custo total bem acima do valor orçado, custando aos cofres públicos cerca de 300 milhões e entregue ao clube de regatas botafogo por R$ 40 mil mensais mais custos de manutenção. Os gastos gerais com o evento estavam previstos em R$ 532 milhões e os gastos gerais com o evento chegaram a R$ 3 bilhões.

Segundo cálculos preliminares da CBF, espera-se que o governo gaste cerca de R$ 11 bilhões para se preparar para a copa de 2014. Já o projeto dos Jogos Olímpicos de 2016 está estimado em R$ 25,9 bilhões.

Segundo plano de gasto alternativo elaborado pelo movimento planeta sustentável com base em órgãos governamentais, só o recurso de R$ 11 bilhões da copa de 2014 daria para se investir: R$ 2,1 bilhões na expansão do saneamento, levar água tratada a 2,2 milhões de casas e coleta de lixo a 2,1 milhões – cerca de 20% do déficit de saneamento. (Segundo dados do IDH divulgado essa semana o país tem 20% da população sem acesso a saneamento e 57% dos brasileiros não têm coleta de esgoto. Dados do senso 2010 do IBGE aponta que o país têm 185 milhões de habitantes); R$ 2,8 bilhões para financiar a construção ou compra de 480 mil casas populares – 6% do déficit habitacional; R$ 2,8 bilhões para levar luz a 1,6 milhões de pessoas no campo – 13 % da população sem aceso à energia; R$ 1,4 bilhões para ensinar 600 mil jovens e adultos a ler e escrever - o que nos daria um saldo de 4% a menos de analfabetos no país; R$ 700 mil para levar o programa Saúde da Família a mais de 2 milhões de pessoas – o que superaria a população de Curitiba ou Recife.


Em paralelo a esses gastos absurdos, a esse derrame de dinheiro, a maioria das escolas públicas não tem quadras esportivas e grande parcela da população tem dificuldades de acesso aos serviços de saúde. As oportunidades de lazer são extremamente reduzidas, falta moradia, saneamento básico e alimentação, os recursos destinados à educação e saúde estão bem abaixo do necessário.

As contradições seguem seu curso. Na semana passada, o ministro Orlando Silva defendeu o investimento de prefeituras nos eventos. No caso de São Paulo o ministro defende o investimento dando exemplos de outros gastos nesse sentido e pra nosso espanto cita o caso desta mesma prefeitura que gasta R$ 28,30 milhões anuais em Interlagos para receber a Fórmula 1.

Aos que diante dos fatos se refugiam em discursos do tipo: esses eventos são importantes para confraternização entre os povos, para o intercambio cultural entre as nações. Nós lhes apresentamos uma necessidade ainda mais básica de cooperação: a de alimento.

Dados apontam que atualmente a produção de alimentos é superior a capacidade de consumo humano. Entretanto, temos hoje 1 bilhão de pessoas com fome no mundo, muitas delas crianças. 25 países apresentam condições alarmantes. A República Democrática do Congo tem 75% de sua população subalimentada.

Enquanto isso, esporte só como espectador. Empresas da construção civil se deleitam com os investimentos públicos e continuam espoliando os trabalhadores e o presidente LuLa ainda chora de felicidade com a vinda dos Jogos Olímpicos para o país.

8 comentários:

Adonis Cairo disse...

Excelente análise. Eu acrescentaria um comentário um tanto irreverente. Fingindo não entender o significado técnico do termo "contradição", utilizado com precisão cirúrgica pelo autor do texto,eu diria que não há contradição em tudo o que foi apresentado: os nossos governantes, sejam da assim chamada esquerda, sejam da assim chamada direita, só se preocupam com os projetos pessoais e de partidos. Portanto, esquecendo a precisão técnica da expressão utilizada pelo colega, eu diria que, pelo contrário o nosso atual governo é bastante coerente com o seu projeto. Contradição, talvez, haja entre o que ele faz e o que ele disse que faria quando, anos atrás, eu, inocente, puro e besta, ajudei, pelo exercício do voto consciente, este grupo a ocupar, enfim, o trono do poder (e sabe lá Deus por quanto tempo).

Welington disse...

Professor Adonis. Prazer renovado em "vê-lo" por aqui. Estamos nos encontrando muito pouco na faculdade para os nossos diálogos filosóficos junto ao cafezinho. Aliás, há um bom tempo não encontramos todos na sala dos professores para o debate saudável, não é mesmo? Uma pena. Sinto falta das suas interlocuções sempre lúcidas e esclarecedoras, embora atuemos em teorias divergentes. O texto me foi enviado sem título e ao lê-lo, pensei que o melhor termo para nominá-lo seria este, "as contradições de sempre". Sem nenhuma intenção filosófica, pois como bom filósofo que és, reconhece que a essência da dialética é a contradição que visa a superação qualitativa de um fenômeno e o que estamos vendo é sempre e cada vez mais do mesmo.

Anônimo disse...

Depois de ler o texto do Professor Alan fica ainda mais difícil aceitar que os dois maiores eventos da Terra sejam realizados aqui no Brasil. É muito dinheiro gasto em benefício de poucos. Eu não sabia dos números que o Professor pontuou, mas já tinha feito uma leitura do "desperdício" de dinheiro partindo da minha realidade local. Temos tantas necessidades que poderiam ser sanadas com os recursos da Copa e das Olimpíadas. E a questão da fome mundial - um murro no estômago - é realmente muito preocupante. É uma indignidade. E fico chocada quando algumas pessoas falam que é vontade de Deus. Por isso que peço permissão ao Professor para utilizar o texto no coletivo de professoras e professores da minha escola. Será muito interessante discutir esporte/fome, pois ainda predomina a crença de que esporte só tem relação com esporte... que futebol não se discute... Será também interessante o posicionamento dos/das colegas diante da estrela que carrego comigo - politicamente falando... Será um jogo duro. Parabéns pelo excelente texto, Professor Alan. Parabenizo também Wel pelo blog. É um espaço de aprendizagem, debate, reflexão... Um gol de placa.
Tô feliz com o Bahia, apesar de ser torcedora do Itabuna e do Vasco. É um time nordestino que voltou a ocupar seu lugar no cenário do futebol brasileiro. Tenho certeza que foi a paixão baiana que trouxe o Bahia de volta.


Glória

Welington disse...

Glória, embora não tenha conversado ainda com Alan, provavelmente nos encontremos hj na reunião do grupo de pesquisa, adianto que pode ficar inteiramente à vontade no uso do texto. Só pedimos que informe o autor e a fonte, ok? A estrela que brilha no seu peito é a mesma que brilha no meu. Sabemos nos últimos anos o quanto estar difícil carregá-la. Mas também sabemos que ela não é deste ou daquele nome ou desta ou daquela forma de fazer política. O PT tem história que vai além dos interesses que hj o domina. Muitos preferiram jogar fora o bebê junto com a água do banho. Outros preferiram a pureza dos anjos. Outros bateram completamente em retirada ao ponto de estarem do outro lado. Todos tem e tiveram suas razões e podem estar certos. A história dirá. Mas, por enquanto, continuo acreditando no partido que me ensinou o que é o mundo da política e os políticos. Precisamos é fortalecê-lo e aprender com os revezes. Itabuna precisa fazer urgentemente este debate, fazer com que Geraldo Simões reconheça os seus limites e voltar a trabalhar a base, deixando as outras correntes do partido trabalharem em favor da cidade e não do seu umbigo. A pouca margem de frente de Dilma em relação a Serra por aí mostra isso. Bom "vê-la" por aqui. Espero poder encontrá-la da próxima vez que for para Itabuna.

Ulisses disse...

Welington,
A cada postagem, nesse blog, a qualidade e o debate critico - para além das argumentações dos puros e do mundo mineral - se ampliam no sentido de colocar em cheque as verdadeiras contradições desse falido mundo capitalista. Parabéns! Aproveito para repassar a matéria do "lancenet" acerca do comitê olimpico (COL) e mais uma vez o senhor Ricardo Teixeiro, nesse sentido deixarei o titulo e o limk da materia para análise dos companheiros que bebem da fonte desse blog. (não se assustem!)

"Ricardo Teixeira pode ficar com 100% dos lucros do COL da Copa
Contrato social obtido com exclusividade mostra que lucros do Comitê da Copa serão distribuídos de acordo com a conveniência de seus sócios"

http://msn.lancenet.com.br/minuto/Ricardo-Teixeira-lucros-COL-Copa_0_373162928.html

Ulisses.

Welington disse...

Obrigado Ulisses pela contribuição, sempre bem vinda. Espero encontrar vc aqui mais vezes. Abraços.

Jefferson disse...

Parabéns ao professor Alan e ao blog pelas informações trazidas no texto. Elas são de fundamental importância para que possamos tomar algumas decisões no que diz respeito a aceitar ou não o megaevento. Os mesmos vão acontecer, é verdade, mas pelo menos nos esclarece como se dar a política nesse país.

wager matias disse...

Saudações ao companheiro de movimento estudantil, Alan. Lendo o texto sentir instigado a estabelecer diálogo com o colega aifnal, este deve ser um das principais pautas de discussão no âmbito das políticas públicas de esporte e lazer.

Como dito, o Brasil nos próximos anos sediará os principais eventos esportivos do mundo, a copa de futebol em 2014 e os jogos olímpicos de 2016, algumas análises (os otimistas) apontam simplesmente os possíveis benefícios para o país ou seja, os ganhos na infraestrutura, na chegada de mais turistas...
Outras analises estabelecem criticas através de comparações do quanto poderia ser feito na melhoria da qualidade de vida do brasileiro com dinheiro que será gasto com estes megaeventos (para a copa do mundo estimativa apontam atualmente cerca de 11 bilhões de reais serão gastos e para as olimpíadas mais de 25 bilhões). Para os críticos o Pan do Rio 2007 é um exemplo de desperdício do dinheiro público afinal, o custo total do evento ficou seis, sete vezes mais do que programado inicialmente.
O fato é que milhões de pessoas no Brasil ainda passam fome, não possuem casa ou mesmo quando têm não possuem acesso à água, esgoto e bens materiais básicos é verdade que o dinheiro gasto com estes eventos poderiam mudar a vida de milhões de brasileiros pois, muito dinheiro será investido, além dos benefícios fiscais que estão sendo concedidos para “os senhores do esporte”. Contudo, não basta fazer criticas deste tipo, a copa de 2014 e os jogos de 2016 são uma realidade, eles vão acontecer no Brasil e dinheiro público será colocado neles então, o que devemos fazer?
É importante ter claro que vivemos num país capitalista, tendo um Estado burguês que por mais que sirva a classe dominante necessita fazer concessões aos trabalhadores. Pontuado isto, vejo que é preciso que comportemos como intelectuais orgânicos, começando a disputar espaços e colocar alternativas. Desta forma, antes de discutir os megaeventos faz-se necessário perceber qual o nosso papel nesta sociedade? Qual a importância do investimento público no esporte? Nestes últimos oito anos este campo foi dominado pelos “senhores do esporte”, no governo Lula tiveram aproximadamente 70% dos recursos (BUENO, 2008), ou seja, predominam investimento no esporte de rendimento quando deveria ser o contrário, democratizando o acesso a prática esportiva.
Além disso, não cabe mais ser contra os megaeventos, já está superado, temos que avançar na discussão com nossos pares na busca de alternativas ao projeto existente buscando ganhar dividendo para quem realmente vai pagar as contas deles. Os estádios não podem ser “elefantes brancos”, as arenas esportivas para o “Rio 2016” não podem ser abandonadas. É preciso colocar na pauta que a prioridades são os legados destes eventos para os brasileiros.

Wagner Matias