terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Salvador vai de bike mesmo?

Foto editada. Cedida pelo autor
Graduando em Educação Física pela Faculdade Social da Bahia, o acadêmico e professor Sandro Nascimento (foto), um experiente bicicleteiro com mais de 20 anos de pedaladas por trilhas, ruas e avenidas desta cidade onde "todo mundo é de Oxum" socializa, para os leitores e leitoras deste blog, principalmente para quem vem exercendo a arte do "bicicletar", um texto problematizando o Programa "Salvador Vai de Bke", desenvolvido pela administração do prefeito ACM Neto (DEM) e que vem sendo posto em prática desde 22 de setembro de 2013, com o objetivo de incentivar o uso da "magrela" na cidade esperando, com isso, melhorar a tão falada mobilidade urbana.

Vamos ao texto que está transcrito logo abaixo. Aproveito para agradecer ao acadêmico e professor Sandro Nascimento pela gentileza de atender ao nosso pedido.

Como todos os ciclistas da cidade de Salvador o projeto Vá de Bike nos traz uma certa esperança na melhoria das nossas ciclovias e criação de novas, mas a verdade não é bem essa. Sou ciclista de trilha desde 1992 e de lá para cá já vivenciei muitas situações que me faziam repensar sobre a utilização da bicicleta como meio de transporte na cidade de Salvador.

Uso a bicicleta como meio de prática esportiva e meio de transporte e com a experiência que tenho vejo que o projeto "Salvador vá de bike" apresenta pontos positivos e outros negativos. A partir de uma observação diária e o estudo dos projetos que se referem à mobilidade urbana, venho mostrar uma visão acerca do tema, com um ponto de vista mais técnico e direto sobre essa nova proposta de mobilidade urbana para a cidade de Salvador.

A cidade apresenta um contexto geográfico que particularmente não atrai muitas pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte. O relevo que a cidade apresenta, com muitas ladeiras e avenidas de vale, torna os deslocamentos maiores do que 10 Km desinteressantes no uso da bicicleta como meio de transporte. Mas para muitos esta distância é pequena e fácil de fazer sendo muitas vezes mais rápido que os transportes coletivos. Eu mesmo dou aula em um prédio no Bairro da Barra que fica à exatos 8.5 Km de minha casa, no fim de linha de Brotas. O ônibus que faz o mesmo percurso leva 40 minutos, enquanto eu, de bicicleta, percorro o trajeto em 20 minutos.

Imagem retirada do site Salvador Vai de Bike
Outro ponto que venho destacar é que muitas empresas não estão preparadas para este novo modal de mobilidade, pois não tem banheiros com chuveiro ou mesmo estacionamento apropriado para guardar as bicicletas. A violência urbana como assaltos, trânsito e motoristas que por muitas vezes não respeitam o ciclista são outros elementos que desencorajam outras pessoas a experimentarem este tipo de transporte.

Como todos sabemos a Copa do Mundo de Futebol no Brasil trouxe uma exigência da FIFA quanto a mobilidade urbana e seus modais e integração entre estes, mas estamos presenciando uma adaptação do que foi acordado com a FIFA e governo. Vemos aeroportos que não estão prontos para o eventos, estradas que não foram ampliadas e o sistema de transporte coletivo defasado, sobrecarregado, gerando transtornos para a população em geral. Vale destacar também que o governo federal deu isenção de ICMS para a venda de veículos aumentando ainda mais as frotas de carros nos grandes centros urbanos.

Em contra partida o governo federal juntos aos governos estaduais e prefeituras vem fazendo parcerias no que se refere a mobilidade urbana com o uso da bicicleta, mas estas propostas atendem realmente as necessidades das nossas cidades e sua população? Compreendo que não atendem e estão muito longe de atender de forma satisfatória as pessoas que preferem usar a bicicleta como meio de transporte. A nossa cidade é um exemplo disso pois o projeto que foi apresentado às entidades que representam os ciclistas de Salvador foi totalmente modificado ou boa parte não vai ser realizado.

No projeto foi orçado uma malha cicloviária de 217 km, considerável e de grande relevância para o desenvolvimento sustentável da nossa cidade, mas o que vemos é uma propaganda política que visa atender os acordos pré estabelecidos. O grande problema é que o projeto apresenta um orçamento que fica muito abaixo do que vai ser realmente gasto para se fazer da maneira correta, além disso não temos mais tanto espaço para a implantação das ciclovias restando assim criar ciclo-faixas que por muitas vezes só estão disponíveis aos domingos, servindo apenas para o lazer e não propriamente para a mobilidade. 

Hoje o projeto vá de bike tem um caráter mais de lazer e turístico do que propriamente de mobilidade urbana ou transporte intermodal. As estações na sua maioria estão em pontos turísticos ou do ponto de vista de mobilidade não tem grande impacto no sistema de transporte de massa. Tais estações estão localizadas na orla, campo grande, e em alguns bairros que ainda não têm as ciclo–faixas e que tem trajetos relativamente curtos, exemplo do fim de linha do bairro de brotas até a estação próxima ao STEPS: menos de 4 km uma da outra.

Foto cedida pelo próprio autor
Estas estações em alguns casos visam atender meramente aos acordos comercias entre a prefeitura e banco que mantém tais estações e bicicletas. Mas também temos algumas que estão sendo utilizadas como deve ser; mobilidade urbana e intermodal entre carro – bicicleta, ônibus – bicicleta. Mas ainda temos muitos outros pontos da cidade que precisam deste tipo de intermodal.

Destaco também que nos últimos anos tenho visto uma mudança no comportamento dos motoristas e também dos ciclistas. Há um respeito muito maior do motorista com relação ao ciclista, mas vale lembrar que falo dos ciclistas que usam as vias de forma correta e segura, estes são mais respeitados que àqueles que não andam de forma segura e sem equipamentos de segurança. Hoje é crescente o numero de pessoas que usam a bicicleta como meio de lazer, transporte ou trabalho, todos necessitam de um espaço adequado e segurança para fazerem seus trajetos. 

Contamos com uma malha cicloviária de 20 Km na orla de Salvador, começando no bairro da Amaralina um pouco antes do largo das baianas até a sereia de Itapuã. E outra que fica no canteiro central da avenida paralela, que vai da frente das voluntárias sociais até à frente do estádio de pituaçú. Esta ultima não serve para mobilidade urbana.

Essas ciclovias que temos hoje não atendem de forma satisfatória a população, pois é estreita e com muitos pontos que geram insegurança nos usuários, como o trecho que fica na pituba, no antigo clube português. São obras mal projetadas que mostram pouco interesse em fomentar o uso da bicicleta como meio de transporte ou lazer na cidade de Salvador. Então vemos uma propaganda do governo municipal incentivando o uso da bicicleta como meio de transporte e a boa convivência entre os motoristas e ciclistas, mas, essa campanha é eficaz?

Temos que ampliar esta nova cultura nas escolas e centros sociais, nos Detrans, nas auto-escolas e mídia em geral.

7 comentários:

sergio pereira disse...

SOBRE ESTE FATO TEM MEU TOTAL APOIO! NAO MUDO UMAVIRGULA SOBRE ESTE COMENTARIO!

MTBSPORT disse...

Concordo plenamentente,ha muita coisa que precisa ser melhorada

xiru pitanga disse...

Parabéns!
O Tema ámplo
Comento minha interpretação do texto seguido de algumas reflexões.
Ampliando a conciencia de coletivo pela “ciclocidadania”.
A vida humana é social por natureza, sem a qual não seria possível vencer fragilidade e superar as fraquesas individuais.
Assim as decisõe de uma vida, smpre estarão integradas a sociedade, o que no caso é bom que conte com apoio e incentivo desta sociedade. Visto o bem estar fisico e mental que esta prática propicia a todos, ciclistas ou não, pois todos usufruem do benefício ambiental: não consume qualquer energia além da física; não produz ruídos; não polui a atmosfera; produz um mínimo de resíduos e todos recicláveis. Ganho social.
A mobilidade urbana por bicicleta é uma necessidade, deve ser pensado além da ciclo/faixa/via, num trânsito compartido e solidário, com estacionamentos e áreas sombreadas, percursos médios curtos e longos, atendendo a escola, o trabalho, o comércio e o lazer. Muito além do turismo, também uma necessidade, um poco fora da sustentabilidade.

João Carlos Silva disse...

Há muito o que se fazer, Sandro. Mas o bom é que temos pessoas como você que é um verdadeiro ativista da causa ciclística. Parabéns pelo texto e por sua luta!

Rafael Teles disse...

Ótima postagem. Professor estou em Amsterdam e o número de ciclovias e bicicletas espalhadas pela cidade e' impressionante.

Leandro Paim disse...

Barcelona é outra cidade muuuito bem preparada para os transportes alternativo

Sandro Cerqueira disse...

Vejo que na nossa cultura a uma grande resistência por parte do empresariado e políticos para a implantação de um sistema eficaz de transporte urbano ou de intermodais, a Europa já tem a cultura da mobilidade urbana muito antes que nós por uma necessidade que tinham e esperavam ter com o crescimento de suas cidades. A politica lá é seria e capaz de executar projetos que sejam realmente interessantes para a população.