sexta-feira, 17 de julho de 2026

Argentina ou Espanha?

Uma discussão em um grupo de WhatsApp de colegas professores me fez pensar sobre a forma como, muitas vezes, nós mesmos, que reivindicamos uma análise crítica da realidade, acabamos simplificando fenômenos complexos.

A conversa surgiu a partir de um texto do Mauro Iasi, publicado no Instagram da Boitempo, com o título “Você não quer que a Argentina ganhe por inveja”, mais um que alcança a polêmica sobre torcer ou não para a Argentina. Uns colegas consideraram o texto ruim, raso, simplificador.

Li o texto esperando encontrar algo desastroso. Não encontrei. Mas quero aproveitar o ensejo para contribuir com os meus centavos nesse debate.

Minha principal discordância do texto escrito pelo Iasi está na tentativa de explicar o imbróglio a partir da ideia de "inveja". Tenho a impressão de que a questão central não é essa. Mas, fora isso, não vi motivos para uma rejeição tão categórica. Ao contrário, a leitura acabou me levando a pensar sobre um aspecto que considero mais importante: a dificuldade que temos de compreender as mediações.

Confesso que também fico preso nesse dilema.

Não gosto do Messi. Já disse isso outras vezes. Nesse mesmo grupo, inclusive, já tinha emitido minha opinião sobre ele. Tenho dificuldade de separar algumas de suas atitudes — especialmente sua inércia diante de questões políticas relevantes — do fato de que ele é um gênio do futebol. E ele é. Talvez um dos maiores jogadores da história.

Mas Messi não é a Argentina.

Parece uma afirmação óbvia, mas nem sempre agimos como se fosse. Da mesma forma que seria um erro reduzir o Brasil a Neymar, ou Portugal a Cristiano Ronaldo, também é um equívoco transformar Messi na síntese de um país inteiro.

Isso vale para o debate sobre o racismo na Argentina. Trata-se de um problema real, que não pode ser negado nem relativizado. Mas também não pode ser compreendido como se fosse um atributo homogêneo de toda a sociedade argentina, muito menos explicado apenas pelas imagens que circulam durante uma partida de futebol. Uma formação social nunca se reduz às manifestações mais visíveis de um determinado momento.

Do outro lado, também me pergunto: por que simpatizo com a Espanha? É por causa de Lamine Yamal? Pelo fato de ele manifestar solidariedade ao povo palestino? Pela possibilidade simbólica de vê-lo levantar a bandeira de um povo que resiste a um genocídio?

Tudo isso me toca. Seria desonesto negar.

Imagem gerada por inteligência artificial

Mas esse sentimento diz respeito a mim. Não autoriza transformar Yamal na representação da Espanha, assim como minha resistência por Messi não autoriza transformar a Argentina em sua extensão. Nenhum indivíduo, por mais genial ou admirável que seja, esgota as contradições de uma nação.

Talvez o problema esteja justamente aí. Temos dificuldade de pensar por mediações. Nossa tendência é oscilar entre dois extremos igualmente empobrecedores: ou reduzimos processos históricos complexos a indivíduos, ou transformamos indivíduos na expressão acabada de uma sociedade inteira. E aqui não estou considerando que essa característica é atributo dos colegas que me levaram à esta reflexão. Só estou aproveitando o ocorrido para desenvolvê-la. Como disse. Contribuir com os poucos centavos.

Esse modo de pensar é sedutor porque simplifica a realidade. Messi vira "a Argentina". Yamal vira "a Espanha". Alguns episódios de racismo passa a definir um povo inteiro. Um gesto de solidariedade converte um atleta na consciência política de uma nação. Tudo parece fazer sentido, mas apenas porque eliminamos as contradições.

O pensamento crítico exige um movimento diferente. Exige compreender que a realidade social é sempre síntese de múltiplas determinações. Entre o indivíduo e a sociedade existem inúmeras mediações: a história, a formação econômica, as classes sociais, as instituições, a cultura, a política, as disputas ideológicas. É por isso que nenhum sujeito, por maior que seja seu talento ou sua projeção pública, pode representar, sozinho, a totalidade de um país.

Isso não significa que indivíduos não tenham importância. Têm, e muita. Suas posições políticas produzem efeitos simbólicos, influenciam comportamentos e podem ampliar ou restringir determinadas lutas. Mas esses efeitos só podem ser compreendidos quando inseridos na totalidade das relações sociais que lhes dão sentido. Fora dessa totalidade, corremos o risco de substituir a análise pela personificação.

Talvez seja por isso que eu tenha dificuldade em aderir às posições mais categóricas. Não consigo ignorar a inércia política de Messi, mas também não consigo fazer dele a síntese da Argentina. Da mesma forma, simpatizo com Lamine Yamal e me emociona vê-lo manifestar solidariedade ao povo palestino, mas isso não me autoriza a transformar sua figura na representação moral da Espanha.

No fundo, a questão nunca foi decidir por qual seleção devemos torcer. A questão é outra: como construir uma leitura da realidade que não elimine suas contradições? Como evitar que a indignação legítima ou a admiração igualmente legítima nos conduzam a explicações simplificadoras?

Talvez seja esse o maior desafio do pensamento crítico: resistir à tentação de trocar a análise concreta da realidade concreta por atalhos morais que, embora confortáveis, pouco explicam.

Dito isso, para quem vou torcer? Nem para a Argentina, nem para a Espanha. Mas, se ao final da Copa eu tiver que escolher entre a imagem de Lamine Yamal erguendo a bandeira da Palestina e a de Messi posando ao lado de Javier Milei, confesso que fico com a primeira. Não por causa da Espanha, mas pelo significado político que ela carrega para mim.

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