domingo, 18 de agosto de 2019

O Amor é um Ato Revolucionário


Tua boca que é tua e minha
tua boca não se equivoca
te amo porque tua boca
sabe gritar rebeldia

Jeff Vasques

No meio do templo da paixão popular uma demonstração de carinho entre duas pessoas se tornou num ataque homofóbico entre torcedores. O flagra foi no jogo Flamengo X Vasco no sábado (17). As diversas páginas das torcidas flamenguistas, nas redes sociais, estão repudiando o fato e prestando total solidariedade ao casal.

O amor é um ato de coragem. Em tempos difíceis como estamos vivendo, onde até os intestinos são convidados a se retrair, me orgulhou muito a bravura do casal. A imagem soou aos meus olhos como uma flor no meio dos escombros. Me lembrou um cartaz que dizia: Beije sua Preta em praça pública!

Eu pensei em escrever, revoltado, o quanto nosso país é um dos que mais matam LGBTQ+ no mundo. No quanto isso ainda é encarado como simples “brincadeira”. Canalhas! Casais homoafetivos são coagidos diariamente. Sangram, sentem, sofrem. Mas, respirando um pouco, observando um pouco mais a imagem, refleti que não poderia marcar tal momento com o avesso do que o casal pregava. No outro lado, eles querem o ódio. Não poderia ser igual a eles.

Eles irão passar muito tempo ainda resmungando e perseguindo demonstrações de afeto e carinho dos casais LGBTQ+ em público. Eles não suportam a felicidade. E é por isso que mais e mais imagens assim deverão florir as arquibancadas do país. Eles não suportam o amor.

Não se trata aqui de passar pano para o episódio homofóbico. Eles nos querem doentes, revoltados a todo instante, bombardeados pelo chorume do ódio. Se não numa declaração racista, num comentário imbecil, uma piada machista, ou eliminando uma jovem vida na periferia, que sonhava em ser mais um artista nos gramados. Querem nos ver aos cacos.

Lembrei de Guimarães Rosa: Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Portanto, no momento do gol, beije seu dengo, sua “bença”, sua preta. Beije, dê-se ao direito do descanso, de respirar o amor um pouco. Precisamos estar fortes e saudáveis para escrever outra história, colocaremos eles no ralo dela. Já dizia o camarada Chê: Endurecer, sem perder a ternura!

Obrigado aos amantes pelo gole de saúde!

domingo, 31 de março de 2019

O breve suspiro da periferia





O menino ainda não tinha escolhido seu time de futebol. Ouvia atentamente os comentários dos seus amigos sobre os melhores lances da última rodada do fim de semana, buscando nas opções multicoloridas qual seria seu “manto” para defender naqueles debates, antes, durante e depois das aulas.

Na escola ou na rua, os fervorosos momentos do campeonato estadual sempre estavam em pauta nas conversas. Nomes dos artilheiros, os melhores goleiros... Claro, ele sempre dava uma breve conferida antes de sair para escola, durante o almoço, no programa de notícias que dedicava um bom tempo da sua programação ao futebol. Mesmo diante de tantos argumentos dos amigos mais próximos, que na grande maioria torciam para o time rubro-negro, o menino achava melhor pensar mais um pouco.

Escolher o time de futebol representava para ele duas possibilidades: Guerra ou paz. Aquela alcateia nunca lhe deixaria quieto numa segunda-feira pós disputa, se o resultado fosse positivo ou não para eles. Não importava se a posição do time rubro-negro fosse a lanterna da competição, os saudosos tinham sempre a mão sua lista de títulos para usar como justificativa: “Somos os melhores, e isso é indiscutível!” “Lembra do nosso tricampeonato?” O garoto ficava abismado como nada abalava a autoestima daqueles torcedores. Qualquer coisa é só falar de mil novecentos e... Sempre a mesma coisa.

Na sua família não havia consenso. Suas irmãs torciam também para o time rubro-negro, seu pai era torcedor do alvirrubro e sua mãe era indiferente a tudo isso. Ele até acreditava, as vezes, que a única que tinha razão era ela:
- Time de futebol não põe comida na mesa. Nunca colocou. Dizia sempre sua querida mãe, quando flagrava um triste torcedor largado à sarjeta, ou entregue às pequenas doses de felicidade que chegam depois de dois ou três copos de cerveja ou cachaça, assistindo as partidas. Apontava os coitados para o menino como uma professora sinalizando um exemplo do que estava falando.

Ele cogitou várias vezes viver sem defender nenhum time de futebol, mas tinha uma enorme curiosidade de saber de onde brotava tanta paixão, tanto poder que, transformava os sérios pais de família, aqueles homens de face rija, que interrompiam os babas de rua retornando para suas casas dos seus trabalhos, querendo passar ilesos sem sujar seus uniformes impecáveis, em felizes criaturas festivas e infantis, entregues a esbórnia de um domingo ensolarado de futebol na TV.

A primeira inclinação do pequeno a um estandarte foi num domingo de final de estadual. A disputa era entre os alvirrubros x tricolores. Nos seus afazeres de ajudante no bar do seu pai, ele era envolvido por toda aquela atmosfera no ambiente: Torcedores com seus rádios de pilha, ofegantes entre um gole de cerveja ou cachaça. Uma miscelânea de sons e ruídos, palavrões e algumas lágrimas. No canto do bar um triste senhor retirava o excesso de suor do rosto com um lenço. Uma fisionomia arrasada perante o resultado da partida. Faltavam alguns minutos para acabar o jogo.

Tudo estava dado. Os alvirrubros levaram a melhor. O tricolor jogava por dois empates mas perdeu a primeira partida da final e estava perdendo a segunda por 1x0. Alguns já pagavam suas contas, outros pediam manhosamente o caderninho do prego. Recolhiam seus cacos sob uma tristeza sonolenta de um final de domingo. Era hora de preparar-se para enfrentar mais uma semana de trabalho e claro, de muita zombaria entre os adversários. Mesmo os torcedores que não tinham seus times envolvidos nas finais, pegavam carona na chacota aos derrotados. Eis que algo de inusitado acontece.

Os rádios de pilha já haviam sido silenciados, mas ouviu-se de longe um grito desesperado de gol. O time do povo, o tricolor, teria empatado o jogo aos 38 minutos. Seria ao menos um resultado reconfortante para se usar como argumento de defesa contra as chacotas. Entretanto, aos 44 minutos, o locutor, num misto de grito, desespero ou sabe-se lá o que, estrondava as caixas de som dos pequenos rádios de pilha que foram rapidamente religados, quase que perdendo a voz enquanto o menino paralisado tentava compreender tudo aquilo, anunciava a virada. O tricolor era o campeão.

Os torcedores surgiram de vários lugares. Se abraçavam, choravam, sorriam. Era carnaval na inocente subjetividade do menino. Por um instante todas aquelas pessoas que já estavam prestes a iniciar todo o processo de preparação espiritual para encarar por algumas horas o coletivo lotado, passar a metade do dia num ambiente insalubre, retornar para o mesmo coletivo “lata de sardinha” no final do dia, em suas labutas diárias, se entregavam ao prazer inconsequente. Eram felizes saltitantes, molhando seus pés nas águas do esgoto ao céu aberto, observava emocionado o menino.  

E logo surgiam análises sobre o feito. “Foi resposta divina”, “Minhas preces foram ouvidas”, entre outras mitologias. E o menino somava as explicações populares com as do jornal do meio-dia, que mostrava na TV os melhores momentos da partida. Tudo era válido. Afinal de contas, o garoto tinha se envolvido numa experiência, digamos, mística, sobrenatural, que o marcou de alguma forma. Alguma coisa tinha mudado no pequeno. Ele pensava que, assim como naquela partida, nem tudo está dado como encerrado. Assim como os bravos guerreiros tricolores, sempre se pode lutar até o último minuto.   

Atrás do balcão que era do seu pai e que hoje é seu, ele já assistiu a alegria, a angústia, a agonia e a tristeza, de pessoas comuns e trabalhadoras como ele, durante várias partidas, seja do estadual ou do nacional. No meio de toda euforia ele percebeu que estes momentos nos colocam em sintonia uns com os outros. Era um gole de vida para aquelas pessoas incompreendidas e propositalmente invisíveis, que se entregavam à bebida todos os dias gritando por ajuda.  

 Era o momento em que ele observava os poucos suspiros de fragilidade, os urros de humanidade, dessa gente embrutecida e saqueada, que passa por ele às 4 da manhã, arrasados de sono e cansaço, indo para o trabalho, enquanto ele abre as portas do bar. A bandeirinha de 1993 do tricolor, empoeirada entre as prateleiras, é um dos objetos de decoração do seu bar.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Jiu-jitsu e a Barbárie





Num final de domingo, um programa de entretenimento de um famoso canal de TV aberta transmite os últimos e agonizantes minutos de uma advogada, que desmaia algumas vezes até ter seu pescoço fraturado por estrangulamento(como consta no laudocometido pelo seu marido, um “lutador” faixa roxa de Jiu-jitsu. Não suficiente toda selvageria, a vítima ainda foi jogada pela sacada do prédio onde aconteceu o crime.

Ontem, um perturbador vídeo que circula por diversas redes sociais mostra um segurança de um supermercado no Rio, aplicando um mata-leão por cima da vítima, o que dificulta ainda mais a respiração e, visivelmente, sem a menor intenção de imobilizá-lo. Ele queria mata-lo, e conseguiu. Diante da mãe da vítima e de pessoas que apenas filmavam um crime. No país que mata a cada 23 minutos um jovem negro.  

Pergunte para qualquer aluno iniciante, em qualquer academia de Jiu-jitsu:podemos apertar o estrangulamento mata-leão por mais de 10 segundos após a pessoa desmaiar? Qualquer professor minimamente sério já deve ter comentado em sua aula a respeito das consequências das técnicas da arte suave, pois, há alguns séculos atrás, tais técnicas já foram utilizadas na guerra pelos destemidos Samurais, com a intenção de matar.

Ensinar Jiu-jitsu é sobretudo, ensinar com ética. Praticar também. É desenvolver nos alunos a capacidade de superar suas fraquezas em busca do fortalecimento espiritual. É ampliar o olhar sobre o outro ser humano tão importante no processo de evolução. O adversário ou parceiro de treino, nos faz sairmos de nossas “ilhas”. Nos faz perceber e controlar o nosso ego.

Mas vivemos tempos difíceis de banalização da violência. De vidas “justificáveis” de serem exterminadas. E verificamos nos dois casos a utilização de técnicas de Jiu-jitsu para cometer os crimes. Crimes em defesa da “propriedade”. Simbolicamente as mulheres são propriedades dos maridos dentro da lógica do patriarcado, e a alegação do segurança para cometer tal atrocidade foi a defesa do patrimônio do chefe. Como podemos ver, a vida humana de nada importa.

Vamos pensar juntos como atletas empenhados no crescimento de nossa arte, como professores preocupados em garantir a apropriação mais humanizada desse objeto da cultura corporal, luta: como esse conhecimento técnico, que pode matar, chega em corações, mentes e no corpo todo de quem não deveria? Estamos vulgarizando a violência em nossas aulas?

Como estamos ensinando o Jiu-jitsu? Os professores conversam com seus alunos a respeito dos riscos? Percebem questões , como o caráter das pessoas que frequentam suas aulas? O acesso a este conhecimento via internet facilita ou prejudica no quesito violência?

Precisamos ir muito além do conhecimento técnico, atualmente. Se faz necessário conversar com alunos e colegas de treino sobre o ódio contra minorias, o desconhecimento do que são direitos e privilégios, de que nenhuma vida é “matável”, se pregamos a benevolência em nossa prática.

Que fique bem claro que estes fatos são exceções na nossa imensa comunidade praticante, que leva a sério, dia após dia, seus treinamentos e dedicação a arte. Mas não podemos simplesmente fechar os olhos diante de tais sucedidos. Uma jovem mulher e um jovem rapaz negro foram vítimas da “manutenção da ordem” pregada por algumas pessoas no Brasil. O que não é de forma alguma normal, e para deixar de ser, é necessário que se cobre das autoridades e que se problematize cada vez mais os casos.  

Deixo aqui o meu repúdio aos fatos e meu pedido de desculpas às famílias das vítimas. Nossa arte é utilizada por pessoas desumanas e com problemas de caráter, mas não são assim a grande maioria dos praticantes. Tenho certeza que vários professores e alunos estão propagando qualidades humanas positivas na prática cotidiana, lutando para mudar nossa realidade e contribuindo para a superação dessa fumaça da barbárie que paira a nossa sociedade.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Estamos prestes...

Estamos prestes a passar um recibo em branco para um político que se apresenta como a solução para o país. Um sujeito que dos 29 anos que está na política, 12 foi no interior do PP, o partido com o maior número de políticos "ficha suja" (partido do Paulo Maluf), e eu nunca ouvir o tal do Bolsonaro abrir a boca para dizer um "ai" sobre esse sujeito ou sobre a corrupção em que este partido esteve metido. Assim como nunca soube de um projeto de lei de sua autoria que objetivasse o combate a corrupção. Ou a melhoria de qualquer indicador social.

Estamos prestes a eleger um candidato que mudou de sigla nove vezes. Já foi do PSC, PP, PFL (atual DEM, partido também campeão do "ficha suja"... alguém ouviu um "ai"?), voltou para o PP, depois migrou para o PTB, PPB, PPR, PDC e atualmente no PSL. Em nenhum desses partidos, em nenhum, conseguiu ser algo além de deputado. Não coordenou nenhuma comissão, não presidiu coisa alguma, isso nos seus 29 anos de mandato. 

Estamos prestes a eleger um presidente que se nega a ir na TV realizar um debate franco e fraterno com o seu principal oponente. Algo nunca visto desde a reabertura democrática. 

Estamos prestes a colocar, pela via democrática, uma junta militar no poder central da república. Ou no que restar dela. 


Estamos prestes a eleger um sujeito que apresenta como principal símbolo da sua campanha uma arma apontada, direcionada para um alvo que pode ser você. Não se engane. Pastores aparecem em foto fazendo o sinal de armas apontadas. Pergunto: contra quem? Resposta previsível: contra os bandidos. Pergunto de novo: quem escolhe quem é o bandido? Ou melhor... quem são exatamente os bandidos? Resposta pelos dados da realidade que estamos vendo nos últimos dias: todos os que não pensam como ele. Todos os que parecem suspeitos ou estranhos. Ou pelos traços faciais, pelos gestos corporais, ou pela cor da camisa enfim, por destoarem do cenários que ele mesmo montou. 

Estamos prestes a eleger alguém que o mundo inteiro alerta sobre o risco da sua ascensão. New York Times, The Economist, Le Monde, El País, e tantas outras publicações. Muitas, inclusive, de cunho liberal, conservador. 

Mas, também, podemos estar prestes a fazer acontecer a maior virada que já se viu na história política do país. Uma virada não contra o Bolsonaro ou tudo o que ele representa. Mas uma virada contra as instituições que durante anos, colocaram a política e o debate político (sempre necessário) no lixo. Que apresentavam a política como algo sujo e os políticos, de uma forma geral, como corruptos, parasitas que não servem para nada.

Instituições e sujeitos (pois as instituições ganham vida pelas ações humanas) que naturalizam as relações sociais, como se as mesmas fossem produto de processos tais como a chuva que cai do céu ou a grama que brota da terra. 

O fenômeno Bolsonaro tem a ver com isso. Com a desistência da política, com a valorização da antipolítica, do "não debate", da ausência do contraditório, do "vamos ver o que acontece", do "se não for bom a gente tira". Do "cansei", lembram? E de muitas outras atitudes. 

Próximo domingo é o segundo turno do "Resto de Nossas Vidas". Diante das urnas iremos decidir quem governará o país nos próximos 4 anos. Sem ilusão alguma, sabemos que ganhe quem ganhar, temos muito o que fazer. Mas será muito melhor enfrentar "o desafio e o fardo do nosso tempo histórico" em pleno estado democrático de direito. Não é mesmo?

Que assim, seja!!!

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Futebol negro-branco-árabe da França

A França faz história no mundial da Rússia não apenas pelo balé futebolístico executado por Mbappé, Griezmann e esquadrão regido por Didier Deschamps.

A seleção recém-qualificada à final do torneio após frear a propalada geração belga também impacta pela formação diversa do elenco: dos 23 convocados, 19 são naturalizados ou descendem de imigrantes.

A composição heterogênea, no entanto, extrapola o mero debate esportivo sobre o limite de atletas “estrangeiros” permitidos por time.

Na França, a multinacionalidade é termômetro da forma como o país lida com a própria identidade.

Disponibilizado na Netflix, Les Bleus – Uma Outra História da França faz uma contribuição valiosa para entender como o futebol e o extracampo se conectam.

O documentário analisa a influência da ebulição social e política sobre a seleção e vice-versa a partir de momentos-chave do calendário esportivo, eleitoral e de acontecimentos históricos.

O recorte é o período 1996-2016 e compreende a primeira conquista de Copa do Mundo (em 1998), a ascensão e a queda dos campeões no rastro da popularidade de Zinedine Zidane e, sobretudo, a travessia nada harmônica pela questão da identidade nacional – tensionada tanto pela dificuldade de acolher franceses de origem estrangeira quanto pela xenofobia de políticos da extrema-direita.

O filme costura depoimentos de jogadores, atores (entre eles, Omar Sy, de Intocáveis), escritores e políticos de expressão (como o ex-presidente François Hollande) para mostrar como o desempenho esportivo reflete e influencia a percepção sobre integração social.

A gangorra é constante. E o imaginário de unidade flutua ao sabor de sucessos e fracassos dentro ou fora do campo.

Na vitória, vangloria-se a miscigenação “negro-branco-árabe” pontuada pelo título de 98 e protagonizada pelo craque de origem argelina Zidane – cuja dedicação era colocada à prova, antes, porque o jogador se recusava a cantar a Marselhesa.

Na derrota, evoca-se a falta de patriotismo dos “falsos franceses”, atribuído à presença de “estrangeiros” no time e se dissolve o conceito das três raças, já esgarçado pela discriminação e pela exclusão dos não-brancos confinados às periferias.

A percepção em torno da seleção é acompanhada pelo debate público sobre a questão migratória, o avanço do extremismo, a marginalização da população de origem árabe e africana, as políticas de enfrentamento ao terrorismo.

Impressiona a consciência social dos jogadores (na ativa ou aposentados) sobre temas de interesse nacional – postura crítica ausente de boa parte dos atletas brasileiros.

À declaração radical do então ministro (e futuro presidente) Nicolas Sarkozy – “vamos nos livrar desses bandidos”, diz ele, após onda de protestos nas ruas -, o jogador Lilian Thuram, negro, toma as dores e reage: “Não sou bandido. Só quero trabalhar e melhorar de vida”.

Em resposta ao fortalecimento eleitoral da extrema-direita personificada em Le Pen, Zidane conclama a população a não votar no candidato – e Jacques Chirac se elege com 80% dos votos.

A postura engajada contrasta, vale pontuar, com o silêncio alienado da maioria dos jogadores brasileiros da atualidade sobre temas sensíveis do país.

Mergulhados em cifras milionárias, eles se mostram mais propensos a usar redes sociais para falar de estética, videogame e diversão – esse conjunto de trivialidades capaz de transformar possíveis agentes de mudanças sociais em mensageiros do nada.


(Texto retirado do site Diário do Centro do Mundo de autoria do jornalista, Tiago Barbosa). 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

BRASILEIROS FURAM A FILA DA VERGONHA NA RUSSIA


Quem nunca ouviu aquela breve e preocupada dica dos parentes antes de ir visitar a casa de algum amigo da família: – Se comporte na casa dos outros!? Alguns torcedores brasileiros que foram assistir aos jogos na Rússia, aparentemente, estão seguindo bem essa orientação da pátria canarinha. Neste domingo (17) alguns vídeos foram viralizados nos aplicativos de mensagens (Você pode assistir aqui), mostrando torcedores brasileiros cercando uma jovem russa, entoando uma canção como uma torcida organizada, “Bu.... rosa”. A moça, se mostrando gentil aos visitantes e sinalizando não entender do que se trata, participa ingenuamente desse escárnio.

O amigo leitor deve estar se perguntando: Como assim estão seguindo bem a orientação da pátria canarinha? Talvez você não se lembre que há pouco tempo, foi necessário fazer uma campanha entre jornalistas da mídia esportiva para denunciar os assédios sofridos durante as coberturas das partidas dos campeonatos, nas capitais ou não do Brasil (confira a matéria aqui). Atitudes como essa são ainda muito “naturais” no nosso país. É só observar a quantidade de pessoas que comentam que expor uma manifestação de machismo e assédio é puro “mimimi”, que o mundo está ficando chato. Tá sim, afinal, somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo. 

Deve estar ficando ainda mais chato. A “brincadeira” dos, aparentemente, rapazes de classe média /classe alta da nossa sociedade, nos leva a pensar no poder simbólico que carrega a expressão linguística utilizada no vídeo. Nosso país é um dos líderes do ranking de cirurgias plásticas em órgãos genitais femininos (matéria aqui). Em 2016 foram 13 mil intervenções cirúrgicas, chamadas de labioplastias ou ninfoplastias (uma forma de corrigir “imperfeições” na vagina) num revezamento entre necessidade e busca de um padrão perfeito, como o que podemos verificar no vídeo do assédio na Rússia ou em páginas feministas que lutam contra mais uma imposição ao corpo feminino. Este movimento da “vagina perfeita” está submetendo mulheres a encarar um processo cirúrgico numa região altamente sensível do corpo.

O nosso (des)governo tentou até ajudar(não nesse caso específico), ou melhor, tentou piorar as coisas. Ao invés de tomar uma postura firme contra a homofobia do país anfitrião, como fizeram nossos vizinhos argentinos que criaram uma vídeo campanha (assista aqui) para mostrar que o futebol é um esporte onde o afeto e demonstrações de carinho masculino é muito forte (coisa que na Rússia é proibido desde 2013), o Itamaraty desenvolveu uma cartilha para orientar a população LGBT de como se comportar nas ruas durante o megaevento futebolístico.

Um chute que passou longe da trave diante do que aconteceu com a moça russa e uma total falta de noção da realidade. Qualquer LGBT brasileiro sabe desde a infância como se comportar num país com ou sem leis homofóbicas. Basta observar a perseguição e o extermínio deles em nossas ruas, a qualquer hora, ou mais precisamente, a cada 19 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. Não se esperava outra coisa de um elenco que participou de uma partida que tirou uma Presidenta democraticamente eleita, “com o supremo e com tudo”, e com uma “pataquada” torcida misógina disparando frases do tipo: Vai tomar no c. Dilma, Jumenta, anta, burra entre outras sandices. Essa bola ou cartilha, melhor dizendo, era para ser passada para os homens Cis mas, pra quê se não fazem nada além do "normal"?   

Por isso é tão importante que o diálogo de gênero e sexualidade seja incluído em nossas escolas, orientando toda população sobre atitudes machistas e suas consequências, quase sempre trágicas. Esse jogo inicia como "brincadeira", mas o final é sempre assédio, estupro e, como nos gritam as estatísticas, termina em morte. Outros “meninos” como os do vídeo na Rússia continuarão a aparecer, seja numa copa do mundo de futebol, seja num mundial de vôlei, de basquete... Eles estão apenas reproduzindo aquilo que aprendem todos os dias em seu país, pois, nossa pátria mãe “gentil”, atarefada com sua jornada tripla de trabalho, ganhando salário menor que os homens e com papeis sociais que impõe toda responsabilidade da educação dos filhos sobre suas costas, também sofre e muito com esses comportamentos.   

Sigamos para nosso próximo adversário, a Costa Rica.  

domingo, 17 de junho de 2018

O futebol ficou na Vuitton

A Seleção Brasileira estreou hoje na Copa do Mundo na Rússia contra a Seleção da Suíça e o resultado de 1 x 1 não foi bem recebido pela mal chamada "pátria de chuteira". O fato foi que o time deixou muito a desejar, principalmente após o gol sofrido logo no início do segundo tempo.

Muitos colegas acreditavam em uma estréia triunfante da seleção canarinho. O otimismo estava presente nos palpites em relação ao placar do jogo que giravam em torno de três gols ou mais. O Brasil estrearia bem e daria uma goleada na seleção dos famosos alpes da região do Tirol.

Não foi assim. A indiscutível capacidade técnica dos comandados do Tite não conseguiu ser traduzida em resultado positivo. Não que um empate contra uma seleção que só perdeu uma das suas 23 últimas partidas tenha sido ruim. Apenas não atendeu às expectativas da massa tupiniquim.

Quem deixou muito a desejar foi o craque Neymar que parece ter deixado o seu futebol na mala de 6 mil reais que ostentou ao desembarcar do ônibus em direção a Arena Rostov ou na bolsa da Louis Vuitton, de 18 mil reais.

Resta o consolo do país que é o décimo quarto em desigualdade social, que só em 2016 matou violentamente mais de 62 mil e 500 potenciais torcedores canarinhos, nos tropeços das também candidatíssimas ao título da Copa do Mundo, as seleções da Alemanha, Argentina e Espanha.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Raízes na periferia: um raio-x da origem social dos convocados para a Copa 2018

Pés descalços, campinho de terra batida. A periferia ainda é o maior celeiro de talentos do futebol brasileiro. É o que demonstra um levantamento feito pela reportagem do Brasil de Fato, baseado em imagens de arquivo, sínteses de entrevistas e relatos dos jogadores e familiares, concedidos ao longo da carreira.

A maioria dos jogadores convocados pelo técnico Tite para a Copa do Mundo 2018 vêm da região metropolitana de grandes centros urbanos das regiões Sul e Sudeste, de municípios interioranos distantes da capital, sem infraestrutura adequada, ou de bairros com altos índices de criminalidade e baixos indicadores sociais.

São, de modo geral, filhos de trabalhadores braçais, mal remunerados, com anos de escolaridade inferiores à média brasileira. Só não seguiram o mesmo caminho dos pais devido ao esporte.

Mesmo no mundo do futebol, eles são exceção. Cerca de 82% dos jogadores profissionais brasileiros ganham menos de R$ 1.000 por mês.

Dos 23 convocados para a Copa, 19 jogam em grandes clubes da Europa. Todos recebem mais de cem salários mínimos, entre remuneração fixa, direitos de imagem e patrocínios. Embora acentuem o problema da concentração de renda no país, hoje eles têm condições de ajudar a família e os amigos da “quebrada” – o que reforça o papel do futebol como ferramenta de mobilidade social nos países em desenvolvimento.

Conheça a origem e os primeiros passos de cada um deles:

GOLEIROS

Alisson (Novo Hamburgo-RS, 2 de outubro de 1992)

Cresceu em um apartamento simples no loteamento Mundo Novo, um dos maiores conjuntos de habitacionais do Brasil, com 1,2 mil casas – que sequer tinha posto de saúde até 2012. O Mundo Novo fica no bairro Canudos, que tem o segundo maior índice de criminalidade do município.

Para treinar nas categorias de base do Internacional, Alisson precisava pegar carona em uma van na rodovia BR-116, que liga Novo Hamburgo a Porto Alegre. Descendente de uma extensa linhagem de goleiros, que começou há quatro gerações, ele foi apenas o segundo a se profissionalizar e contribuir no orçamento familiar por meio do esporte. O primeiro foi o irmão mais velho, Muriel, que hoje atua no Belenenses, de Portugal.

Clubes: Internacional e Roma (Itália).

Cássio (Veranópolis-RS, 6 de junho de 1980)

O gigante de 1,95m cresceu em um casebre de madeira a 170 km de Porto Alegre.

Sobrinho do então massagista do Veranópolis Esporte Clube (VEC), Cássio assistia a todos os treinamentos do time e passava horas buscando as bolas que os jogadores chutavam para fora do campo. Gandula-mirim, aos seis anos, ele conheceu o técnico Tite, da Seleção Brasileira, que era treinador do VEC em 1993.

O primeiro trabalho remunerado, aos 14 anos, foi em um lava-jato.

Após fazer sucesso debaixo das traves, construiu uma casa moderna e confortável para a família ao lado daquela em que passou a infância.

Clubes: Grêmio, PSV (Holanda), Sparta Roterdã (Holanda) e Corinthians.

Ederson (Osasco-SP, 17 de agosto de 1993)

Primeiro jogador da história da Seleção a ser convocado para uma Copa sem nunca ter atuado profissionalmente no Brasil, Ederson foi criado na periferia de Osasco. O bairro Rochdale, de classe média baixa, era conhecido pelas enchentes e alagamentos.

Apaixonado por tatuagens, o garoto desenhava o corpo com caneta desde a infância. Hoje, são mais de 30 tatuagens – todas de verdade.

Ederson jogava bola na rua e, aos 10 anos, matriculou-se na escolinha do bairro. Teve 15 minutos para mostrar serviço aos olheiros do São Paulo, em meio a 150 garotos, e logo chamou a atenção.

Transferiu-se para Portugal antes de chegar à categoria profissional, e hoje vive em Manchester em uma mansão com a esposa, a filha, a sogra, um amigo de infância e um casal de amigos.

Clubes: Ribeirão (Portugal), Rio Ave (Portugal), Benfica (Portugal) e Manchester City (Inglaterra).

ZAGUEIROS

Marquinhos (São Paulo-SP, 14 de maio de 1994)

Cria do Centro de Formação e Treinamento de Atletas – Futebol SACI, que fica no bairro Imirim, Zona Norte de São Paulo, Marquinhos era o terceiro de cinco irmãos. Estreou como goleiro, mas já na infância mudou de posição dentro do campo.

Aos oito anos, o garoto da periferia paulistana chamou a atenção dos olheiros do Corinthians no “terrão” – campo de terra batida, esburacado, onde o clube fazia testes para crianças e adolescentes.

No bairro e na família onde cresceu, a bola parecia a única saída. O primo, Moreno, e o irmão, Luan, haviam sido revelados pela base do Corinthians. Mas Marquinhos foi quem mudou a vida da família com o futebol: Moreno está sem clube e Luan, que não engrenou como profissional, hoje administra a carreira do zagueiro da Seleção.

Clubes: Corinthians, Roma (Itália) e Paris Saint-Germain (França).

Miranda (Paranavaí-PR, 7 de setembro de 1984)

Formado na escolinha de futebol da Associação de Moradores do Jardim São Jorge, bairro de 25 mil habitantes na periferia de Paranavaí-PR, Miranda é o caçula de 12 filhos. Ele escolheu ser zagueiro em homenagem ao irmão mais velho, Vicente, que morreu carbonizado após acidente de trabalho em uma companhia de energia local. Era na zaga que o irmão gostava de jogar.

Miranda morava a poucos metros de um campinho, onde todos os dias jogava bola com os amigos. Foi revelado em torneios de várzea.

Clubes: Coritiba, Sochaux (França), São Paulo, Atlético de Madrid (Espanha) e Internazionale (Itália).

Pedro Geromel (São Paulo-SP, 21 de setembro de 1985)

O zagueiro-sensação do Grêmio viveu até a adolescência com a família em Vila Maria, bairro de classe média da Zona Norte da capital paulista. Sem chances nos clubes de São Paulo, Geromel quase desistiu do futebol para trabalhar como bancário.

A origem social de Pedro Geromel é uma exceção entre os jogadores convocação para a Seleção. Ele é um dos únicos que cresceu em uma família de classe média alta – o pai tem uma empresa de embalagens plásticas na capital paulista. É fluente em inglês, alemão e espanhol.

Clubes: Chaves (Portugal), Vitória de Guimarães (Portugal), Colônia (Alemanha), Mallorca (Espanha), Grêmio.

Thiago Silva (Rio de Janeiro-RJ, 22 de setembro de 1984)

Criado no bairro Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, a 100 metros da entrada da favela. Era uma criança apaixonada por soltar pipa e jogar futebol, e convivia com tiroteios entre policiais e moradores da comunidade.

A mãe vivia com medo. Para brincar na rua, ele esperava que ela cochilasse, depois do almoço, e saía de fininho para se juntar aos amigos.

Como zagueiro, foi rejeitado nas “peneiras” de cinco clubes do Rio de Janeiro. A primeira oportunidade como profissional veio em Alvorada-RS, a 1,5 mil km de casa.

Em 2005, na Rússia, teve um diagnóstico de tuberculose, foi hospitalizado em condições precárias e quase perdeu parte do pulmão.

Clubes: RS Futebol, Juventude, Porto B (Portugal), Dínamo Moscou (Rússia), Fluminense, Milan (Itália) e Paris Saint-Germain (França)

LATERAIS

Danilo (Bicas-MG, 15 de julho de 1991)

O pai de Danilo, caminhoneiro, conseguiu que o filho tivesse oportunidade de treinar em uma escolinha de futebol de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. De origem humilde, o lateral saía da escola, às vezes só com uma bolacha no estômago, e seguia para o treino, a 40 km de casa, no município de Bicas.

Depois de chamar atenção de grande clubes mineiros, Danilo foi contratado pelo Santos, marcou o gol do título da Libertadores da América em 2011 e, de lá, rumou para o futebol da Europa.

A família ainda vive em Bicas, e o jogador não esquece das dificuldades da infância. Durante as férias, Danilo sempre visita a escolinha de futebol onde começou a jogar, no bairro Novo Triunfo.

Quando postou uma foto no Instagram com um tênis de marca, um dos seus seguidores disse ter adorado o tênis, mas lamentou não ter condições de comprá-lo. Danilo se identificou: “Fala irmão! Tô ligado. Também sou de ‘quebrada’. Manda aí seu endereço e quanto você calça. Vou te mandar uns pisantes! Valeu”.

Clubes: América Mineiro, Santos, Porto (Portugal), Real Madrid (Espanha) e Manchester City (Inglaterra).

Fagner (São Paulo-SP, 11 de junho de 1989)

Descoberto em uma escolinha de futebol próximo ao Jardim Capelinha, um dos bairros mais violentos de São Paulo. Foi criado pelo pai e cresceu longe da mãe, depois de um divórcio traumático.

Aos seis anos, sofreu um acidente numa porta de vidro e quase teve o braço amputado, por um erro médico. O pai teve que vender o carro para pagar a cirurgia de correção. A primeira das muitas tatuagens que ele tem foi feita para esconder aquela cicatriz.

Fagner chegou ao Corinthians com nove anos. Pegava dois ônibus, um metrô e caminhava mais de uma hora até o Parque São Jorge para realizar o sonho de ser jogador de futebol.

Clubes: Corinthians, PSV (Holanda), Wolfsburg (Alemanha), Vasco e Corinthians.

Marcelo (Rio de Janeiro-RJ, 12 de maio de 1988)

Revelado na escolinha de futsal da colônia de férias do Exército, na Urca. Quando foi aprovado nas categorias de base do Fluminense, o avô o levava de carro para Xerém em um Fusca 1975, comprado no ano 2000 com dinheiro ganho no jogo do bicho.

No começo da carreira o dinheiro era contado e, às vezes, não dava sequer para tomar uma condução ou almoçar antes do treino.

Clubes: Fluminense e Real Madrid (Espanha).

Filipe Luís (Jaraguá do Sul-SC, 9 de agosto de 1985)

Cresceu na zona rural de Massaranduba, município de 14,6 mil habitantes do interior de Santa Catarina. Os passatempos preferidos do jogador na infância estavam ligados à terra: comer frutas nas árvores, pegar minhoca do chão, passear pelas plantações de arroz.

Começou a bater bola atrás da igreja da comunidade. Quando se mudou para Jaraguá do Sul, na adolescência, passeava de bicicleta de colégio em colégio para jogar futebol. Foi revelado em um torneio de futsal, aos 14 anos, e passou a integrar as categorias de base do Figueirense.

Morava debaixo da arquibancada do estádio Orlando Scarpelli, com outros 30 garotos.

Clubes: Figueirense, Ajax (Holanda), Real Madrid Castilla (Espanha), La Coruña (Espanha), Atlético de Madrid (Espanha), Chelsea (Inglaterra) e Atlético de Madrid (Espanha).

MEIO-CAMPISTAS

Paulinho (São Paulo-SP, 25 de julho de 1988)

Começou nos campos de várzea do Parque Novo Mundo, na região da Vila Maria, Zona Norte de São Paulo. Aos 12 anos, fazia parte da categoria de base da Portuguesa.

O padrasto, que Paulinho considera um pai, era quem o levava para assistir aos jogos de futebol.

Os pais se separam quando o jogador era ainda criança. Paulinho só foi encontrar o pai biológico novamente quando o Corinthians foi a Recife jogar contra o Náutico, em 2012.

Clubes: FC Vilnius (Lituânia), ŁKS Łódź (Polônia), Audax, Bragantino, Corinthians, Tottenham (Inglaterra), Guangzhou Evergrande (China) e Barcelona (Espanha).

Fernandinho (Londrina-PR, 4 de maio de 1985)

Passou a infância e adolescência entre duas cidades: Londrina e Ribeirão Preto. Fernandinho era o destaque do time de peladas da Rua do Roncador, no conjunto Lindoia, periferia do município paranaense. Ele também era o número 1 do campinho de terra batida no bairro Adão do Carmo Leonel, na zona Oeste de Ribeirão Preto.

Foi revelado em 1999, aos 13 anos, no PSTC – centro de treinamento especializado em categorias de base e formação de atletas profissionais de Londrina. Treinava no campo de futebol da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Até hoje, Fernandinho mantém contato com os amigos do Conjunto Lindoia.

Clubes: Atlético Paranaense, Shakhtar Donetsk (Ucrânia) e Manchester City (Inglaterra).

Renato Augusto (Rio de Janeiro-RJ, 8 de fevereiro de 1988)

Renato Augusto cresceu em três apartamentos diferentes na rua Ibituruna, a menos de 1 km do Maracanã. Via o estádio de segunda à sexta pela janela do ônibus 456, que pegava para ir à escola. Hoje, ele traz o Maracanã estampado em uma tatuagem no braço direito.

Assim como o zagueiro Pedro Geromel, Renato Augusto é um dos poucos convocados para a Copa oriundo de uma família de classe média.

Clubes: Flamengo, Bayer Leverkusen (Alemanha), Corinthians e Beijing Guoan (China).

Fred (Belo Horizonte-MG, 5 de março de 1993)

Cresceu no Jardim Europa, em Venda Nova, Belo Horizonte, jogando bola na rua, descalço. Na Copa de 2002, raspou o cabelo igual ao do ídolo Ronaldo, artilheiro da Seleção.

Foi aprovado em um teste no Atlético Mineiro aos dez anos, mas teve que abrir mão de jogar no time do coração porque não conseguiu um contrato que garantisse verba de transporte, moradia e alimentação.

Meses depois, foi levado a Porto Alegre em um projeto encabeçado pelo ex-jogador Assis, irmão de Ronaldinho Gaúcho, que lhe abriu as portas no Internacional.

Clubes: Internacional e Shakhtar Donetsk (Ucrânia).

Casemiro (São José dos Campos-SP, 23 de fevereiro de 1992)

Foi abandonado pelo pai aos três anos e passou necessidade durante toda a infância. Entre as lembranças mais vivas daquela época, está a imagem de uma vendedora de Yakult que passava em frente à casa dele todo final de tarde: Casemiro morria de vontade de tomar a bebida, mas a mãe não tinha dinheiro para comprar.

Aprovado em um teste no São Paulo, ele não tinha condições de ir e voltar de São José dos Campos à capital, e dependia da ajuda de amigos para passar a noite entre um e outro treinamento. Na mesma época, contraiu uma hepatite e ficou quase 90 dias sem treinar. Quase foi forçado a desistir do esporte.

Aos 14 anos, conseguiu uma vaga no alojamento do clube, driblou as dificuldades e hoje é considerado uma das maiores revelações da história do Tricolor.

Clubes: São Paulo, Real Madrid B (Espanha), Porto (Portugal) e Real Madrid (Espanha)

Willian (Ribeirão Pires-SP, 9 de agosto de 1988)

Cresceu jogando futebol na rua Conde de Sarzedas, no bairro Vila Albertina, no ABC paulista. Era conhecido de todos moradores e comerciantes da rua: volta e meia a bola entrava pela porta ou batia em uma janela.

Os primeiros treinos, aos cinco anos, foram na quadra de futsal do pequeno Ribeirão Pires FC.

A carreira deslanchou quando o pai, Severino da Silva, o levou para um teste na escolinha do ex-jogador Marcelinho Carioca. Era o primeiro passo para que Willian vestisse a camisa do Corinthians, time do coração de Seu Severino.

Clubes: Corinthians, Shakhtar Donetsk (Ucrânia), Anzhi (Rússia) e Chelsea (Inglaterra).

Philippe Coutinho (Rio de Janeiro-RJ, 12 de junho de 1992)

Cresceu em um condomínio no Rocha, Zona Norte do Rio. Quem primeiro identificou o talento dele para o futebol foi Dona Didi, avó de um amigo de infância.

Em casa, o dinheiro era contado, mas nunca faltou apoio da família: o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos suaram a camisa para que o menino se dedicasse desde cedo ao esporte.

Coutinho começou aos seis, na escolinha de futsal do Clube dos Sargentos do Rio de Janeiro. Em menos de um ano, foi aprovado no time de Mangueira e disputou o primeiro torneio estadual de futsal. Artilheiro da competição, chamou a atenção do Vasco, clube em que estreou como profissional.

Clubes: Vasco, Internazionale (Itália), Liverpool (Inglaterra) e Barcelona (Espanha).

Douglas Costa (Sapucaia do Sul-RS, 14 de setembro de 1990)

Estudou na escola municipal Hugo Gerdau, em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre. Filho de um mecânico e uma dona de casa, foi revelado em caminhos de terra batida. Matriculou-se na escolinha de futebol da Prefeitura e chegou ao Grêmio aos 12 anos.

Nos primeiros meses, causou desconfiança por ser muito mais magro do que a maioria dos colegas. Só conseguiu se firmar nas categorias de base após um trabalho de fortalecimento muscular e nutricional: ganhou seis quilos em dois anos.

Clubes: Grêmio, Shakhtar Donetsk (Ucrânia), Bayern de Munique (Alemanha) e Juventus (Itália)

ATACANTES

Taison (Pelotas-RS, 12 de janeiro de 1988)

Ex-flanelinha, integrante de uma família de onze irmãos, foi o único menino de seu círculo social que conseguiu se estabelecer profissionalmente e ajudar a família. Ao menos dois de seus amigos de infância são hoje moradores de rua, em Pelotas.

O talento de Taison foi desenvolvido em ruas de areia e calçamento, nas periferias do município, e no pátio da Escola Estadual Nossa Senhora dos Navegantes. Descoberto pelo clube Osório, deixou o trabalho de manobrista, em frente a um supermercado, e logo encantou os olheiros do Internacional, clube que o revelou para o mundo.

Clubes: Internacional, Metalist Kharkiv (Ucrânia) e Shakhtar Donetsk (Ucrânia).

Neymar (Mogi das Cruzes-SP, 5 de fevereiro de 1992)

Cresceu em uma casa simples Praia Grande, litoral paulista. A casa era pequena, improvisada, a poucas quadras de um lixão. Os garotos descalços se comportavam como os donos da rua: eram os carros, e não os pedestres, que precisavam pediam licença para passar.

O menino, conhecido na época por “Juninho”, começou a chamar a atenção aos dez anos, no Grêmio Recreativo dos Metalúrgicos de Santos (Gremetal). Após ser descoberto pelo Santos, ainda criança, pegava ônibus sozinho todos os dias para participar dos treinos. A rotina era tão pesada que ele se acostumou a “passar do ponto” de casa, tamanho cansaço.

O primeiro contrato com o Peixe, em maio de 2004, garantia R$ 450,00 por mês à família. Foi graças a essa ajuda de custos que o menino pôde se dedicar somente ao futebol.

Clubes: Santos, Barcelona (Espanha) e Paris Saint-Germain (França).

Roberto Firmino (Maceió-AL, 2 de outubro de 1991)

Único representante do Nordeste na Seleção, Firmino nasceu e foi criado no conjunto habitacional Dique Estrada, região pobre e violenta da capital alagoana.

O primeiro campo foi a rua de paralelepípedo. Os amigos do bairro e das duas escolas em que estudou, Colégio Tarcísio de Jesus e Colégio Caíque, eram os principais companheiros nas peladas.

Quando jovem, vendia coco na praia para ajudar no orçamento da família. Tornou-se profissional no Figueirense, em Florianópolis, a 3,1 mil km de casa. Sem dinheiro para a passagem, ficou mais de um ano sem voltar para Maceió.

Clubes: Figueirense, Hoffenheim (Alemanha) e Liverpool (Inglaterra).

Gabriel Jesus (São Paulo, 3 de abril de 1997)

Cria do Jardim Peri, comunidade pobre de São Paulo. Começou a chamar atenção aos oito anos, no campo de terra do presídio militar Romão Gomes, em Tremembé, Zona Norte de São Paulo. Para ir aos jogos e economizar no combustível, o treinador do time chegou a colocar onze garotos dentro de um Fusca.

Enquanto Neymar e outros companheiros de Seleção disputavam a Copa de 2014, Gabriel Jesus pintava as ruas da comunidade de verde e amarelo. No ano seguinte, ele seria revelado pelo Palmeiras.

O camisa 9 titular de Tite não teve a presença do pai, que abandonou a família quando o craque era ainda pequeno. A mãe, empregada doméstica, colocava comida na mesa para os três filhos.

Às vésperas do Mundial, o rosto do atacante da Seleção estampa o muro da rua onde o garoto cresceu e descobriu o futebol. Ou foi descoberto por ele.

Clubes: Palmeiras e Manchester City (Inglaterra).

MATÉRIA PUBLICADA NA BRASIL DE FATO E NO DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Salários milionários

Segue abaixo a lista dos dez jogadores que ganham salários milionários. Os valores então em milhões de reais por ano.

Lionel Messi (Barcelona)
194,8

Neymar (PSG)
152,4

Alexis Sánchez (Manchester United)
112,5

Oscar (Shangai SIPG)
101,5

Ezequiel Lavezzi (Hebei Fortune)
97,6

Cristiano Ronaldo (Real Madrid)
88,5

Hulk (Shangai SIPG)
84,6

Kylian Mbappé (PSG)
76,5

Paul Pogba (Manchester United)
74

Graziano Pellé (Shandong Luneng)
72,1

sexta-feira, 9 de março de 2018

MULHERES NA HISTÓRIA DOS ESPORTES #2 STAMATA REVITHI




            A ação subversiva das mulheres impulsionou a inclusão das modalidades femininas nos jogos olímpicos e claro, seu potencial lucrativo. Como já falamos no texto anterior, o pensamento dominante no período em que marca o inicio dos jogos olímpicos modernos era totalmente patriarcal. O próprio Pierre de Colbertin possuía esta visão política, e baseou sua “manifestação periódica solene de esporte masculino” nos moldes gregos antigos. Ele possuía apoio do Papa Pio XI e já teria afirmado que: “Olimpíada feminina seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta”. Para as mulheres, cabia tarefas domésticas e a procriação. Foi fundamental a atitude de mulheres como Alice Melliat, subvertendo a ordem, criando competições femininas, como também foi fundamental o enfrentamento de Stamata Revithi no questionamento do papel social das mulheres.

Aos 30 anos de idade, Stamata saiu de Pireu para tentar ventos melhores em Atenas, na Grécia. Sem marido, com um filho pequeno e com o sofrimento pela perda de outro filho. Ao chegar em Atenas, logo se juntou ao grupo de maratonistas por conta da observação que um jovem lhe fez a respeito de sua resistência física. Presa a esta ideia, prometeu que, mesmo com a proibição imposta sobre a participação de mulheres, estava em pé de igualdade com os competidores masculinos e com ou sem a autorização da comissão, seguiria em frente.

            Stamata fez, um dia após a realização da maratona de 1896, o mesmo percurso do evento olímpico de Colbertin, sendo que, concluiu os 42 quilômetros dando a última volta por fora do estádio, pois não possuía autorização para entrar. O esforço de proibir a participação feminina não foi o suficiente. A grega ainda concluiu o percurso com a diferença de 2 horas do vencedor, ficando assim na frente de vários competidores homens.

            Não se tem registros de sua vida pós o ocorrido. Há de se compreender que, diante da conjuntura, não seria interessante ao patriarcado dar relevância ao fato ou que uma mulher com tal comportamento ganhasse um lugar de destaque nos jornais. Basta ver na história do nosso país como foi o tratamento dado a mulheres subversivas à ditadura civil/militar: Quando não torturadas, mortas ou desaparecidas, silenciadas. Assim como toda história da participação das mulheres na nossa sociedade.  A maratona foi aberta às mulheres apenas nos jogos Olímpicos de 1984