quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Visibilidade Transexual e o Preconceito da Vez


29 de Janeiro é um dia histórico para Travestis e Transexuais desde 1992. Uma luta que iniciou contra a violência policial e pelo combate à AIDS, hoje se transformou numa contenda pela busca de direitos básicos que vão do respeito ao próprio nome, acesso à serviços de saúde, condições de trabalho, educação e os mais preocupantes: Direito de integridade física e à vida.

Nosso país não é um dos mais cordiais com Travestis e Transexuais, pois, a cada 48 horas uma pessoa Trans é assassinada e a sua expectativa de vida é de 35 anos. Segundo a secretária de articulação política da ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais Bruna Benevides, Transexuais estão sofrendo do mesmo problema que fomenta a violência contra as mulheres: O machismo. 94% dos assassinatos são de pessoas do gênero feminino. Uma espécie de “resposta” ou “limpeza” social destes corpos que desafiam a heteronormatividade tão ideal para o status quo da sociedade capitalista.

ASSEPSIA POLITICA E DADOS DA REALIDADE

Mesmo estando em debate nos principais veículos midiáticos, e dentro de uma lógica de consumo, estes corpos são consumidores que incomodam, mancham a assepsia nos bairros e das ruas com seus corpos dissonantes, suas plásticas e modos. Suas palavras desafiam o mundo asséptico, explica Ana Cristina Nascimento Giviki, no seu artigo O Incomodo Jeito de Lutar com Alegria e a Assepsia Política. É fácil perceber este movimento nas redes sociais, como o de perseguição ao cantor Pablo Vittar, que tem sua caçada justificada, muitas vezes, numa falsa aceitação de outros ícones da música que são homossexuais mas, atendem a lógica binária de gênero, não são travestis ou transexuais. Dessa forma, não se perturba a ordem vigente. É o mesmo tipo de perseguição que sofre a jogadora de vôlei Tiffany de Abreu e a atleta de MMA, Fallon Fox. Mulheres Transexuais que alcançaram resultados que, comparados aos resultados de mulheres cis nas mesmas modalidades esportivas, são insignificantes. Entretanto, foi o suficiente para inflamar o discurso preconceituoso.

Não há preocupação real com as mulheres, sua integridade física, permanência e salários nas equipes da liga de vôlei e nas lutas de MMA, como afirmam a maioria dos agressores das atletas citadas. O fato de 503 mulheres serem agredidas por hora no país nunca incomodou muito e nem foi motivo de mobilização nas redes ou nas ruas, para parte dos intolerantes. 1 em cada 3 brasileiros até acreditam que nos casos de estupro a culpa é das mulheres.

Já no esporte, as principais estrelas da seleção feminina, em 2016, tiveram que procurar por equipes fora do país justamente porque a Globo não falava o nome dos patrocinadores das equipes durante as transmissões. O que afetou diretamente na questão de patrocínios. As disparidades salariais entre homens e mulheres nos campeonatos realizados pela Federação Internacional de Voleibol já foram flagradas em imagens que provam premiações absurdamente diferentes( A masculina são 2 vezes maiores que a feminina, e se tratando da equipe, a masculina chega a ganhar cinco vezes a mais que a feminina, sendo US$ 1 milhão na liga mundial (masculina), enquanto no Grand Prix, como é chamado o campeonato feminino, as mulheres recebem apenas US$ 200 mil).

Nenhum desses problemas foi suficiente para instigar os mais fervorosos “defensores” da integridade, justiça e apoio as mulheres dentro ou fora dos esportes. Problemas que refletem as estruturas da sociedade machista, que justifica, ainda, a exploração da força de trabalho barata das mulheres na sua “inferioridade biológica”. Que abusa dos seus corpos através da cultura da dominação. Essas expressões da totalidade do sistema não perturbaram mais do que a simples presença de duas mulheres que não atendem a lógica binária de gênero, citada anteriormente.

PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO

As definições de preconceito e discriminação de uma simples pesquisa do google, nos ajuda a entender e confirmar este movimento de perseguição. Preconceito: Juízo pré-concebido que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças ou sentimentos. Que não tem fundamentos críticos ou lógicos. Discriminação: É a conduta de transgredir os direitos de uma pessoa, baseando-se em raciocínio sem conhecimento adequado sobre a matéria. Tornando-a injusta e infundada. Não adianta os especialistas afirmarem que ainda é muito cedo para determinar algo, que não existem ainda estudos científicos que comprovem que mulheres transexuais, em qualquer atividade esportiva, terão um desempenho superior ao de atletas cis. Além do mais, as atletas transexuais atenderam a todas às exigências do COI para participar de um torneio feminino: Processos cirúrgicos, tratamento hormonal, 12 meses sem jogar, exames periódicos solicitados pela entidade reguladora, entre outros. 

DADOS DOS JOGOS

De acordo com uma entrevista para a página canhota 10, o presidente do Bauru, Reinaldo Mandaliti, time da atleta Tiffani, declarou que a situação já está passando dos limites: A Tifanny tem aspecto físico maior, mas ela tem dificuldade motora numa largada, sofreu um ponto de saque em que foi passar por trás e não viu a bola… Ela fica no bloqueio várias vezes, no terceiro set cai de produção. Esse é o efeito da saída da testosterona do corpo. Ela tem 33 anos e o efeito da redução de testosterona cada vez a prejudica mais. É isso que as pessoas têm que entender.”  A página ainda divulga que o aproveitamento da atleta é de 46%, o que não fica nem próximo das melhores no quesito. O time da atleta ficou em oitavo na superliga (2017) e Tifany não aparece bem no ranking geral das melhores pontuadoras (Tandara ficou em primeiro lugar do ranking com 154 pontos, e o destaques do ataque são Ellen Braga 64% e Fabiana Claudino 60%).

Se ela estivesse fazendo dez pontos, ninguém estaria reclamando (Reinaldo Mandaliti). Assim como passou despercebida a participação de diversas atletas transexuais nas olimpíadas 2016. As “olimpíada das diversidades”. Não é permitido lugar de destaque para estes corpos transgressores, que não se adequam aos padrões heteronormativos, a não ser nas telas dos sites de vídeos pornô, o único lugar aceitável para travestis e transexuais. Somos um dos maiores consumidores do mundo deste tipo de vídeo, de acordo com levantamento da página Red Tube.

Travestis e Transexuais, assassinados, mutilados e perseguidos em plena luz do dia, em qualquer esquina do nosso país, de forma invisível, precisam de visibilidade, apoio e aceitação, exercerem seus direitos à vida e o direito ao trabalho. Pertencem a classe social trabalhadora e sofrem das mazelas destinadas por tal desumana divisão social. Desconstruir estes tipos de relação é um pequeno passo para a superação das desigualdades, que servem de alicerce para o modelo de sociedade que vivemos.   

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A juventude desportiva da Rubinéia


                                              ...Mas vêm o tempo e a ideia de passado
                                                     visitar-te na curva de um jardim.
                                                     (Carlos Drummond de Andrade)

Jeferson olhava a dança dos ventos, dos coqueiros, um olhar de quem passeia por lembranças boas. Disse ao amigo:
            - Quem disse que é necessário um gole geladíssimo de uma boa cerveja, nacional, estrangeira, artesanal, gourmet, para ingressar numa viagem aos dias de ouro de nossa revolução esportiva?

Parou por um momento, suspirou e voltou atrás:
- Tenho que admitir, para eles deve ser. O único sopro vivo dessa época ficou em mim, o mais jovem. Essa correria para chegar na próxima parcela da fatura tem o potencial de nos transportar da cama para a cama, do dia claro ao escuro. Não se reflete, não se revive. Ora, que luxo! Consegui driblar essa maratona, mas, não sai ileso.

Sim! Éramos os bravos juvenis da Rubinéia, incomodando a paz rotineira e quase comuna das famílias alocadas nos 500 metros de paralelepípedo, cimento, areia, esgoto e cacos de vidro da rua. Metragem quase diagonal, pois iniciava (ou teria fim?) na rua que tinha nome de um general. A vida poderia ser mais irônica? Colocar tanta criança ativa, ou na linguagem atual, “hiperativa”, apaixonadas por jogos, dança, esportes, convivendo e aprendendo como nas estruturas de um partido ou coletivo, sem romances por hierarquia e disciplina, num período em que o país estava namorando com uma infante “democracia”, e perto de um general? Só pode ser brincadeira.

            Longe de mim as análises do acaso. Acredito que tudo isso passou do mais velho ao mais novo pela boa e velha “difusão facilitada”. O general? esse daí era um mero costume da época, de colocar nomes nas ruas de importantes figuras da ditadura. Não para mim, o nome daquela rua deveria ser Fidel. E claro, acho que só eu penso assim. Só hoje. Tenho certeza que nenhum deles entenderia, nem hoje, nem naquela época, o que estou dizendo pra você agora, meu amigo. Muito embora nossas decisões sobre regras nas atividades fossem resolvidas na votação, e eu, o mais novo, tinha poder de escolha, ninguém aspirava leituras ou tinha contato com nenhum folhetim revolucionário.

            Era praticamente assim: Tínhamos o nosso horário de encontro. Era uma reunião onde se colocava em pauta a atividade esportiva do dia. Vôlei, futebol, basquete, handebol... As opções eram diversas. Mesmo que não fossem realmente expressões institucionalizadas. Duas sandálias = Uma trave, Aro de basquete num poste = Uma quadra oficial, Barbante = Rede de Vôlei. Não precisávamos do Marco Polo Del Nero, do Guy Peixoto, do Rafael Westrupp, muito menos do Antônio Madeira. Nem árbitros! Era fantástico o poder inconsciente que tínhamos de organização coletiva. Nossas partidas fluíam por horas, até a iluminação dos postes acenderem e complicar um pouco a nossa visão. Enquanto isso, o programa do sábado à tarde disparava a ideia de que o esporte era um elevador social com a capacidade de nos tirar daquela realidade. Isso me intrigava um pouco.

            Nossas atividades tinham destaques que até hoje, é incompreensível a não atuação profissional deles. O Roberto era muito craque no futebol. Nossa... Incrível sua capacidade de domínio, passe, lançamento, drible. Eu vi sua foto na rede social com sua família e percebi o quanto seu filho está parecido com ele, na mesma idade. Ele lembra muito seu pai. O Walter era o “Marcelo negrão” do grupo. O J.R era um tubarão na praia. Uma espécie de Phelps. Sim! Era comum irmos juntos a praia e criarmos nossas disputas aquáticas. Todos gozando da pura e leve liberdade de não ser o primeiro do ranking. O capa de revista.

Eu lembro que não tínhamos problemas entre nós, a não ser as divergências entre os personagens dos fliperamas. Enfrentávamos nossas famílias taciturnamente, quando elas classificavam algumas companhias como “não interessantes”. De fato, e se tratando de um bairro periférico, quase esqueço, “O bairro da morte”, como esbravejava intencionalmente o radialista pela manhã, alguns dos que participavam de nosso círculo organizado eram envolvidos em atividades criminosas. A pobreza falou mais alto que a dignidade. Era muito fácil para alguns de nós, depois de nossas epopeias esportivas, retornarmos para nossas casas com, se não toda, uma parte da condição objetiva para se tornar um ser humano diferente... E essa foi a “peneira” que determinou quem iria continuar no jogo da vida ou não. Sobraram 6.

Por um instante Jeferson deu uma pausa no relato. Coçou a nuca, chutou algumas pequenas pedras. Um súbito momento de emoção interrompeu sua fala. 

- É isso, caro amigo, é essa peneira, na verdade uma trituradora de gente. Foi difícil pra mim continuar no esporte com família pra sustentar. É difícil. Isso até responde algumas questões sobre os revolucionários da Rubinéia. Não é à toa que muitos talentos, melhores até do que eu, foram devorados por ela. Transformados em cópias idênticas de seus pais até no pensamento. Tentamos nos reunir num aplicativo de celular, mas, foi um choque ter que dialogar algumas questões políticas com tantos reacionários. Foi nisso que se transformaram. Nenhum suspiro de rebeldia e transgressão da nossa época de ouro, onde enfrentávamos a ira das vizinhas mais “carolas” da rua, que até viatura da polícia chamavam para interromper nossas práticas. Enfrentávamos as regras do sistema que nos dizia que aquilo não nos preparava pra nada. Que seríamos marginais. Nem tentei continuar alguma conversa. Parecem que passaram por uma lobotomia, semelhante a do personagem Winston, do George Orwell. Até a dele demorou mais que 20 anos. São jovens com espíritos de velhos. Apáticos.

Jeferson pensou novamente, no quanto era complicado cobrar de seus antigos camaradas algumas leituras da realidade. Tendo que esconder suas opções políticas. Tendo que aceitar algumas condições em prol de uma vida pacífica. Que, extrair posturas progressistas só era possível depois de algumas leituras e aproximações. Por um instante, teve uma leve inclinação às regras do sistema, pois, no momento atual ter aproximação com um espectro político que não seja “destro” parece ser crime. Nestes momentos de desabafo sentiu-se abraçado por uma forte nostalgia, empatia, solidão. Reviver os camaradinhas era pra se sentir protegido. Sem se entorpecer.

Em sua atividade esportiva/profissional e em vários outros espaços de seu convívio, o pensamento dominante é contrário ao seu. Ao ponto dele preferir fazer qualquer desafogo durante o passeio com seu cão. Não queria incomodar ninguém. Ninguém entenderia mesmo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O SURPREENDENTE PROJETO EL@ LUTA




Num final de aula, a então estudante do curso de Educação Física da UEFS, Liamara Martfeld, me procurou com todas as dúvidas de quem quer se aproximar e apresentar para os seus alunos, algo que está distante dos estudantes em várias esferas do ensino: - Como vou trabalhar o conteúdo lutas na escola, David? Este episódio me foi recordado com emoção e algumas lágrimas de felicidade pela própria “Lia” justamente na realização da segunda edição do seu El@ Luta. Projeto que busca apresentar o percurso histórico e social das lutas, desenvolvendo conceitos e habilidades relacionados a este conteúdo da cultura corporal.

            Já seria um grande avanço planejar, coordenar e executar numa escola pública, da rede municipal de ensino e todas suas limitações, um conteúdo que passeia pelo consciente de uma grande parcela de nossa sociedade relacionado à violência. E claro, compreendendo como é corrida a vida de uma professora que precisa estudar, planejar e cumprir sua carga horária de ensino, desempenhando suas outras jornadas de trabalho, pois é mulher, numa sociedade contaminada com ideais que naturalizam sua exploração.

A colega foi além. Um de seus maiores objetivos é desconstruir a ideia de que meninas/mulheres não podem participar das lutas.



Sua metodologia, além de abordar o processo histórico de produção desse objeto da cultura corporal, questões de gênero e diversos preconceitos, se baseia também na apresentação dos traços essenciais de cada manifestação das lutas, que são as particularidades contidas em cada uma. A professora que não domina todas estas produções humanas, apresenta durante as aulas, através de jogos de oposição, os traços técnicos que constituem o boxe, Judô, caratê, Jiu-jitsu, Muay Thay, Kickboxing, MMA, Capoeira e este ano, acrescentou a defesa pessoal feminina. Por fim, convida os profissionais de cada luta para apresentar as técnicas mais avançadas em cada produção.

O projeto é surpreendente pelo conjunto de ações educativas, diretas e indiretas, que a colega propõe. Desmistifica a lógica de que, para apresentar um conteúdo na escola o professor precisa dominar totalmente o objeto, inclui toda a comunidade escolar (pais, estudantes, gestores, funcionários e professores) dentro do debate de superação de algumas “crenças” a respeito das lutas, se articula com a universidade, desde professores a estudantes de projetos como o Programa Institucional de Bolsas de iniciação à Docência. Participando do planejamento e execução do projeto.  Como também resgata e divulga importantes personagens no cenário das lutas em Feira de Santana. Como o mestre Gago, que já participa de duas edições do projeto, e Virna Jandiroba, uma de nossas promessas no MMA internacional.   



O meu desafio e do camarada e professor Elson Moura, nesta edição, ficou em apresentar o que tínhamos trabalhado no primeiro minicurso de defesa pessoal para mulheres e LGBTs da UEFS. Entretanto, havia algo de diferente do nosso projeto, a participação de meninos na oficina. Como professor de artes marciais para crianças, percebo o quanto é fundamental a desconstrução de preconceitos já nas idades iniciais, intervindo na fala, nas atitudes e ações, em prol da superação das relações submissas entre os seres humanos.

A violência contra as mulheres é fomentada desde a infância, pois a criança tem acesso a diversos tipos de meios que propagam a visão da mulher passiva, omissa e à disposição dos homens. Naturalizando à violência. Isso foi constatado em perguntas feitas durante a oficina, sobre propagandas de cerveja, entre outras. Esta naturalização também foi constatada numa pesquisa realizada pelas organizações Visão e Instituto Igarapé, com crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos. Foi verificado que crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica percebem a violência (de uma forma geral) nos ambientes que estão inseridos (escola, casa e comunidade), mas, ao mesmo tempo, a sensação de segurança delas é elevada.

Incluímos no nosso plano de ensino, além das técnicas de defesa, ações de identificação de violência contra a mulher, atitudes que os meninos devem tomar diante de episódios de violência física ou sexual com suas colegas, como também, inclui-los na responsabilidade de não cometer, perceber e intervir nestas agressões quando seus colegas praticarem.    
É muito esperançoso observar eventos dessa natureza, que surgem do esforço e da preocupação de uma mulher com a comunidade estudantil que ela está envolvida, como também é esperançoso ver todo esforço coletivo durante a realização do evento. Não poderia esquecer da participação e do empenho dos professores da escola, dos alunos da UEFS, envolvidos no projeto, dos “oficineiros” e claro, dos estudantes da escola que leva o nome do grande ativista político e líder sindical Chico Mendes, assassinado em 1988 por lutar pelos seringueiros e pela reforma agrária, na região amazônica.

Liamara Martfeld me deu a resposta para a pergunta feita por ela, que descrevi no início do texto. Aliás, me deu uma aula. Parabéns, camarada!   

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Por que o Vitória não caiu?

Por que o Vitória não caiu?

Você pensa que foi por causa da chapecoense? Não.

Eu não cai porque fiz mais pontos que Ponte Preta e Atlético de Goiás.

Eu não cai porque tive mais vitórias que o Avaí.

Eu não cai porque fiz mais gols que o Coritiba.

Eu não cai porque quando tinha 12 pontos e estava na lanterna soube me recuperar e terminei com 43 pontos e soube superar as adversidades e para isso venci o líder e campeão Corinthians em São Paulo, ganhei do Flamengo no Rio de Janeiro, venci a batalha com a Ponte em Campinas, virei um jogo improvável contra o Botafogo.

Eu não cai porque joguei, lutei e acreditei até o fim.

Eu sou Vitória e não jogo a toalha jamais.

(Texto Anônimo)

Economia do Esporte

Com as classificações dos times já consolidadas, em função do término do Campeonato Brasileiro da Série A deste ano, veja quanto o clube do seu coração vai ganhar de prêmio em dinheiro da Confederação Brasileira de Futebol.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

JUNINHO PERNAMBUCANO PODERIA ESCALAR UMA SELEÇÃO






Na minha infância, mais precisamente, década de 90 em Recife, capital pernambucana, um moleque de quase 18 anos perturbava meus fins de semana de clássicos Sport x Santa Cruz. Eu torcedor doente do tricolor do arruda, sofria em ver alguns lances daquele pós-adolescente com cara de “playboy” jogando aquele futebol todo. Claro, precisou que os ponteiros do relógio desse algumas voltas, que eu passasse por algumas experiências pessoais para que eu, fiel da coral, chegasse diante da minha tela de computador pra colocar o nome desse, “pivete”, num texto pra falar de seus feitos dentro e fora dos gramados. Inferno coral, me perdoe!
Juninho não é herói. Deixo bem claro que não faz parte do meu “jogo” ficar nomeando salvadores para tarefas que devem ser feitas por mim mesmo. Isso é coisa de "técnicos" caras-pintadas, que já erraram na escalação dos seus centroavantes há algum tempo. E como trocam de atacantes viu? Primeiro foi o Joaquim Barbosa, depois o Eduardo cunha, Aécio... Até chegar na contratação curiosa de um jogador que nunca fez um mísero golzinho, mas já está treinando com investimento público por alguma décadas, e com sérias possibilidades de ser escalado para o time principal.
Acho que a experiência que o atleta acumulou nos seus 22 anos de futebol e claro, contrariando minha expectativa de que o futebolista fosse na década de 90 playboy, como o próprio já afirmou em suas redes sociais que é filho de militar de baixa patente, lhe condicionou a produzir algumas análises da realidade diferente da maioria. Seus discursos e, não podemos esquecer, “indicações” ultimamente vem me surpreendendo. Principalmente, quando se trata de uma figura pública que toma posições políticas diferentes da empresa que o contratou e que também tem o poder de decidir alguns “jogos”.
Primeiro Juninho marcou um golaço, solicitando a expulsão de seguidores (daquele jogador) em suas redes sociais. Aquele, que falei que há algum tempo está por ai sem marcar gols e mesmo assim é uma crescente possibilidade de jogar no time principal. O camisa 6 (seus mandatos como deputado), Jair Bolsonaro. Uma jogada, considerada por mim ideal contra o fascismo. Me lembrou Eric Cantona dando uma voadora no hooligan fascista Matheus Simmons, em 1995, só que de uma forma mais suave, literalmente: “Vaza Bolsominions, te respeito fora de meu twitter!
Suave sim!
E como numa premiação dos melhores do ano do campeonato, o craque elegeu o melhor jogador da temporada: Um zagueiro! 



Espero que suas próximas indicações (comentários) girem em torno de um grupo de “(em)boleiros” que há algum tempo eram divisão de base e que hoje, possuem alguns atletas atuando como profissionais em times pelo Brasil afora. Suas táticas são antigas, copiadas de uma conhecida equipe de futebol alemã de 1936. Gostam de driblar a atenção da geral com um toque de bola rasteiro, sem fundamentos, e de proteger o craque da equipe, que apesar de parecer um senhor senil, adora dar uns carrinhos por trás e estimular a diretoria do clube a terceirizar os lucros nas “costas” dos pobres torcedores. Oriundos do Austeridade F.C. MBL e Michel Temer. Ultimamente, para deixar seu protegido longe dos holofotes, esses jogadores estão forçando o jornalismo e a torcida a focar em homens nus que invadem o jogo, como intervenção artística.

Vamos encerrar nosso bate bola. Como sugere o título do texto, o comentarista poderia escalar uma seleção dos melhores do ano, com banco de reservas, comissão técnica e tudo que se tem direito. Não custa nada sonhar, mas, como um torcedor de um time que fez história em Pernambuco, um time que levanta multidões em qualquer série do campeonato que estiver, torço para sairmos da apatia nessa temporada e que façamos como numa final de campeonato diferente: Invadir o campo, ocupar o gramado e decidir novas regras para esse jogo. Quem sabe até, criar um campeonato só nosso.



sábado, 7 de outubro de 2017

No futebol da Noruega, homens doarão quantia para que mulheres tenham mesmo salário que eles

Um acordo histórico foi anunciado pela Federação Norueguesa de Futebol neste sábado. A partir de agora, homens e mulheres receberão pagamento iguais quando defenderem a seleção de futebol do País. E mais: a equipe masculina vai contribuir financeiramente com o time feminino. 

O valor pago às mulheres vai praticamente dobrar, passando de 3.1 milhões de coroas norueguesas para 6 milhões. A quantia já inclui a contribuição de 550 mil coroas que os homens darão às compatriotas, dinheiro que eles recebem de publicidade. 

“A Noruega é um país onde a igualdade é muito importante. Acredito que seja algo inédito e essencial para o país e para o esporte. Na Dinamarca, ainda estão negociando. E nos Estados Unidos, a situação tem melhorado. Mas devemos ser o único país onde homens e mulheres são tratados igualmente”, disse Joachim Walltin, líder da união nacional dos jogadores. 

Meio-campista, Caroline Graham Hansen escreveu em sua conta no Instagram para agradecer aos atletas da seleção masculina pela ‘doação’. “Obrigada por nos ajudarem a darmos esse passo. Por apoiarem a igualdade, tornarem tudo um pouco mais fácil. Por compartilharem dos nossos sonhos.” 

Os detalhes do acordo ainda estão sendo costurados. Mas a ideia é que as jogadoras recebam uma quantia mensal, dependendo de quantas vezes forem convocadas, enquanto os homens terão pagamento anual. 

“Para as meninas, com certeza fará diferença. Algumas delas trabalham e estudam, além de jogarem. E mais do que o dinheiro, terão o sentimento de serem respeitadas. A federação enxerga a decisão como um investimento para melhorar o nível da seleção feminina”, completou Walltin.

Retirado do site UOL

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Os jogadores da NFL estão dizendo algo

                                                                   (imagem: O Globo)

Um dos esportes mais consumidos pelos norte-americanos está passando por um momento de euforia política, dividindo patriotas e defensores da “liberdade de expressão” norte americana. Na realidade, trata-se do fenômeno esportivo materializando as relações mais gerais dentro das suas 4 linhas. Desde a eleição que nomeou Donald Trump presidente dos Estados Unidos, uma cortina de medo e revolta paira sobre a população que já sofre há algum tempo com o genocídio do seu povo negro. Seus discursos carregados de incentivo à divisão racial, religiosa e claro instigando a xenofobia, desenterrou alguns monstros, como a passeata da extrema-direita em Charllotesville, suásticas decorando fachadas de residências e vandalismos em templos muçulmanos.
Um quarterback é o protagonista de um crescente movimento político dentro do evento que movimenta milhões em transmissão, vendas de ingresso e lucros em produtos licenciados. A mais ou menos um ano, Colin Kaepernick, ex- San Francisco49ers, hoje, desempregado, iniciou uma onda de protestos simbólicos durante o início das partidas da liga, mais precisamente durante a realização do hino nacional norte americano. O jogador ajoelha-se em protesto. O que para vários patriotas significa uma afronta, uma injuria, para ele é um ato em resposta ao genocídio do povo negro contra a violência estatal nos EUA.

                              (Colin, de joelhos, durante a execução do hino)


Alguns críticos creditam a demissão do atleta e a sua não contratação ao seu mau desempenho durante algumas partidas, entretanto, o incomodo do presidente Donald Trump, que chegou ao nível de chamar o atleta de “filho da puta” e a solicitar que os amantes do fenômeno esportivo deixem de prestigiar os eventos da NFL, nos indica que algo de maior há por trás da polêmica. Assédio moral e ameaças também fazem parte das declarações do mandatário: “Se os seguidores da NFL se recusarem a ir aos jogos enquanto os jogadores desrespeitarem nossa bandeira e nosso país, vocês verão uma mudança rápida. Demitam ou suspendam [os jogadores]”.
Essas declarações causaram uma onda de solidariedade a pauta do quarterback. Inclusive, equipes que fizeram doações de campanha ao presidente racista, se posicionaram em suas redes sociais contra seus comentários. Obviamente, seria uma contradição muito grande se as equipes não se posicionassem a favor dos seus atletas negros, que são maioria dentro do esporte. O que causa dúvidas é se, realmente foi um ato gentil com essa população financiar a campanha de um candidato que sempre se posicionou segregacionista. Até a década de 60 no país a comunidade negra sofria com leis de segregação racial e hoje, possuem piores moradias, piores postos de trabalho e lotam os presídios.  
Por outro lado e dentro da perspectiva da causa negra, diversos jogadores aderiram à manifestação durante as partidas nos EUA e no mundo, inclusive, celebridades do mundo da música, artistas, apresentadores de TV e produtores musicais, utilizando em suas publicações nas redes sociais a hashtag #TakeTheKnee. O que demonstra um enfrentamento ao presidente e a todo o contexto, sem esquecer do peso simbólico que é uma representação esportiva encarar toda a lógica econômica por trás desses grandes eventos, na luta por uma causa. Me lembrou Tommie Smith e John Carlos, com seus punhos cerrados nas olimpíadas do México, em 1968.
O esporte instigando uma mobilização política de enfrentamento, diante de um cenário de recrudescimento da moral conservadora, racista, fascista. Se observarmos na nossa história e em outros “estádios”, o esporte já serviu de objeto de hipnose (do grego hipinos = Sono, Latin osis = ação ou processo) das massas, particularmente no período da ditadura civil/militar, e na Alemanha nazista. O que unia todos no “mesmo sentimento”, num momento histórico parecido, agora divide opiniões e críticas. Coloca em exposição mazelas sociais que pareciam invisíveis, e provocam à reflexão se realmente existem ambientes propícios ou adequados para se discutir, expressar, ou denunciar a violência de uma forma geral, já que vivemos numa “democracia”. Uma excelente pauta para nossas aulas na universidade, escola, academia...
            Uma boa oportunidade para nós da Educação Física, ou não, refletirmos sobre nossas práticas, já que nossa conjuntura não é tão diferente. Além do genocídio do povo negro em nosso país, estamos passando por um desmonte das universidades públicas, nos programas de incentivo e permanência de estudantes e de atletas (o governo enviou uma proposta orçamentária reduzindo 87% das verbas disponíveis para os programas do ministério dos esportes), que vai afetar resultados de uma maneira geral. Na escassez de concursos públicos e no fortalecimento da lógica de que o local do/e o acesso ao esporte é exclusividade da esfera privada.      

Deixo, por fim, um recado bem interessante. Não precisamos esperar o momento do hino!

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
(Intertexto – Bertolt Brecht)

REFERÊNCIAS


terça-feira, 19 de setembro de 2017

La mano de Jô: o que não só o juiz não viu

Por Elson Moura

No último dia 17 de setembro do corrente ano, no jogo Corinthians e Vasco pelo campeonato Brasileiro, um lance escandaloso definiu o placar (1x0); um gol de mão do atacante Jô. O gol definiu a vitória para o Corinthians e fez sua vantagem para o segundo colocado, o Grêmio, chegar na casa dos dez pontos. Desde então uma enxurrada de críticas tem desabado sobre o atacante do líder do campeonato. 

Para agravar a situação, os críticos estão resgatando um lance em que Jô foi, na pior das hipóteses, um coadjuvante de um lance chamado no futebol de fair play (jogo justo). No campeonato Paulista deste mesmo ano, no jogo entre Corinthians e São Paulo, o atacante se envolveu em um lance que resultou em um esbarrão com o goleiro do São Paulo. Para o árbitro da partida Jô mereceu o cartão amarelo. Ele chegou a aplicar. Foi quando o zagueiro do São Paulo, Rodrigo Cairo, o fez retroagir da decisão se acusando como aquele que esbarrou acidentalmente no goleiro. Isso possibilitou a Jô jogar a próxima partida. Se “amarelado” fosse, estaria suspenso pelo segundo cartão. O atacante do Corinthians não poupou elogios à atitude nobre do zagueiro adversário. Zagueiro este que enfrentou problemas com parte da imprensa, com o próprio técnico, colegas de clube e a própria torcida. O famoso "fogo amigo". 

Em outro clássico do mesmo campeonato, desta vez contra o Palmeiras, uma expulsão injusta de um jogador do Corinthians resultou numa crítica contundente do nosso personagem em questão. Para Jô, os jogadores do Palmeiras se omitiram ao não revelar ao árbitro que a expulsão era injusta (não tinha sido o jogador expulso o que cometeu a falta). 

Imagem retirada do site Gazeta Esportiva
Pois bem, para os críticos do Jô ele teve sua chance de demonstrar inclinação ao fair play dentro do futebol. Tal chance teria sido desperdiçada. E mais; após o jogo, nas entrevistas na chamada “zona mista”, o atacante se defendeu. Apresentou-se como um homem de Deus e afirmou que não sentiu a bola bater em seu braço; o lance foi rápido, ele se jogou na bola e não sentiu onde pegou. Continuou: se tivesse percebido, teria alertado o árbitro. Acrescentamos o fato de o Corinthians ser líder do campeonato, o time a ser batido. Um lance – irregular- que beneficie a equipe ganha uma dimensão amplificada.

A atitude do jogador não anula a responsabilidade da equipe de arbitragem por não ter visto a irregularidade da jogada. Um erro gravíssimo! Não à toa, pressionada, a CBF anunciou já no dia 18 de setembro que utilizará o recurso do vídeo para resolver questões polêmicas nos jogos. Aqui temos uma outra discussão que não cabe neste texto. 

Imaginamos que a defesa da equipe de arbitragem girará em torno do argumento de não ter visto o lance.

Aqui precisamente começa nossa análise. Até então apenas estávamos apresentando os fatos.

Parece-nos que não só os árbitros estão tendo problemas em enxergar as coisas. Ao criticar única e exclusivamente o atacante pela atitude, no mínimo, desonesta, alguns críticos parecem só querer enxergar aquilo que lhes convém. Vemos limites bem demarcados quando a crítica recai apenas sobre o indivíduo.

Primeiro destaque. Muito se falou que não devemos misturar futebol – e as atitudes desonestas- com a conjuntura maior de nosso país. Divergimos! O futebol não pode ser pensado como uma ilha isenta das contradições das relações sociais de produção no Brasil. Sequer pode ser pensado como algo imune à crise econômica, política e moral que abala nosso país. Ele é expressão singular das relações que estabelecemos; as macro e as micro. O surgimento do esporte de uma forma geral e seu desenvolvimento acompanhou pari passo o surgimento e desenvolvimento das relações sociais de produção capitalista. É só olhar para a história. Por outro lado, entendemos isso ser insuficiente para uma análise. Por ser uma expressão singular, além de ser pensado nesta generalidade, tem o futebol que ser pensado, também, naquilo que lhe é específico, singular. Em síntese, uma singularidade carregada de generalidade.

Foge ao objetivo deste texto abordar as questões mais ligadas ao geral. Fiquemos, por hora, com as questões singulares que, por si só, são carregadas da generalidade acima exposta.

Como Jocimar Daólio, no livro “Cultura, educação física e futebol”, expressou isso? Parte o autor do mesmo entendimento, ou seja, de que as questões inerentes ao futebol não estão desligadas do mais geral. Porém, ao tratar das singularidades cita um exemplo representativo. Nas relações cotidianas ainda impera a máxima de que o “homem não chora”. Ainda que esta expressão não seja literalmente usada, somos, homens, educados para tais princípios. Exceção feita ao campo e à arquibancada. Neste espaço singular, por tudo que ele envolve, é permitido ao homem chorar, expressar suas emoções.

Precisamos realizar este duplo movimento: singular-geral-singular... E ao fazê-lo evitamos a demonização do indivíduo que é, ao mesmo tempo, a preservação da lógica do futebol na sua expressão atual, de alto rendimento, e de todo um conjunto de contradições que carrega.

Esqueçamos um pouco o Jô e pensemos em outro tema bastante polêmico não só no futebol, mas no esporte de uma forma geral: o doping. A Revista Brasileira de Ciências do Esporte (v. 27, n. 1, p. 7-184, setembro de 2005) dedicou todo este volume à temática. Chamou-nos a atenção o primeiro artigo: “Doping: consagração ou profanação” de autoria da Dra. Méri Rosane Santos da Silva. Nele, a autora parece seguir na contramão da forma como os casos de doping são expostos pela grande mídia e apropriados pelo grande público, ou seja, a exclusiva demonização do atleta pego em doping. Para tal faz menção ao mercado do doping (laboratório, testes, antidoping, etc.) e ao rompimento com uma perspectiva romântica em relação ao esporte. Ao citar Escobar (1993), indica: ‘os princípios românticos que animavam o esporte há algumas décadas foram substituídos por outros menos altruístas e de maior afinidade com nossa sociedade de consumo’.

Ou seja, para discutir seriamente o doping no esporte, precisamos discutir uma expressão histórica do esporte, o de alto rendimento, em que o doping é quase que uma exigência. Ainda no artigo: 

[...] um sistema esportivo que se estabelece na performance e na busca incessante pela melhoria do desempenho do atleta, o doping pode ser considerado ‘uma estratégia racional’, já que o aumento do rendimento é ‘uma condição intrinsicamente ligada à própria natureza da competição esportiva’. Portanto, a ilegalidade do doping é absolutamente arbitrária e contradiz a sua própria lógica. (p. 14-15).

O que fazem com os atletas é o contrário; preservam a lógica do esporte intocada, atacam sistematicamente o indivíduo/atleta.

No documentário “Bigger, Stronger, Faster” (Maior, Mais forte, Mais rápido), a questão singular do esporte extrapola suas fronteiras para encontrar uma sociedade “em anabolizante” – expressão comumente utilizada nos Estados Unidos para identificar algo de desempenho mais intensificado. Estudantes usam substâncias para realizar exames, músicos nas audições, ator pornô para melhorar o desempenho, sujeitos “comuns” para melhorar a estética e, lógico, atletas para melhorar desempenho esportivo.

Voltamos ao Jô. Quer dizer, voltamos a uma lógica que envolve o jogador e que lhe dá a opção da trapaça. Diria mais, o pressiona para a trapaça. Negar isso é insistir na concepção liberal que pensa a organização social como um somatório de indivíduos isolados concorrendo entre si. Sucesso e insucesso é prerrogativa do que cada um, individualmente, realiza nesta lógica. São os únicos responsáveis.

Insistir nisso é querer impor à lógica das relações sociais uma especulação idealista do “dever ser”. Ou seja; ao invés de realizar uma análise concreta das situações concretas, esmiuçar ao máximo o objeto e fenômeno, para pensar nas possibilidades; limita-se a uma imposição de uma moral descolada desta mesma realidade. Uma moral – bem-intencionada na maior parte das vezes- que só existe na forma especulativa. Por isso o “dever ser”.

Nossa concepção, a materialista (histórico e dialética), aponta para uma outra direção. Sim; são indivíduos, mas o são como expressões singulares das relações sociais que estabelecem. Repito: as macro e as micro. A posição ativa que cada um ocupa no processo de produção e reprodução da vida vai determinar, em última instância, suas decisões (inclusive às futebolísticas). Isso não isenta o indivíduo de suas decisões ao mesmo tempo em que não isenta as determinações econômicas e sociais. São estas relações que devemos analisar minuciosamente. Pensando que o objeto é composto por uma multiplicidade de determinações e que se movimenta num eterno “vir a ser”.

Que poder tem um jogador de superar sozinho esta lógica? Quanto dinheiro está envolvido hoje no esporte, notadamente no futebol? Quantos patrocinadores condicionam seu apoio ao sucesso? Quantos sócios torcedores condicionam sua associação ao sucesso? Como se organiza inicialmente a cota da TV? Qual o conjunto de interesses não estão por trás de apenas um jogador de futebol? Que tipo de pressão ele sofre para obter resultados positivos? Como vem se dando a formação das novas gerações de jogadores? Uma formação toda ela voltada ao fair play ou voltada à necessidade vital da vitória (a qualquer custo)? A frase aparentemente inofensiva – “o importante é competir”, geralmente utilizada como consolo ao derrotado, além de expressar a lógica de concorrência, oculta a necessidade imperiosa da vitória.

Ao pensar que esta lógica supera inevitavelmente o fair play, ao mesmo tempo em que ressaltamos a postura do zagueiro Rodrigo Cairo, identificamos os seus limites. Uma atitude – positiva- pontual que tem o poder de mudar quase nada. A saída não nos parece individual.

Jô errou, pagou pela incoerência entre suas declarações e seus atos. A equipe de arbitragem também errou ao não enxergar o lance escandaloso. Mas erram também os que, intencionalmente ou não, ocultam e preservam a lógica de uma expressão histórica do esporte, a de alto rendimento, colocando todo peso nas costas dos indivíduos. Pegam o problema pela sua expressão aparente, pela periferia, pela superfície.

Nesse sentido, ao olharmos só para "La mano de Jô", demonstramos estar carentes de um olhar mais apurado sobre a realidade do esporte de uma maneira geral e a do futebol, em particular.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

PRIMEIRO MINICURSO DE DEFESA PESSOAL PARA MULHERES E LGBTs DA UEFS: UMA RESPOSTA NECESSÁRIA.



Nossas demandas cotidianas, trabalho, estudos, obrigações com o lar, vão consumindo nosso tempo e nossa capacidade de observar e reagir a algumas situações inadequadas, que ferem qualquer convenção social mais simples. Prioridades implantadas nos corações e mentes através das relações individualistas e competitivas do capitalismo. Falta empatia, falta solidariedade, falta o respeito mínimo. Estamos deixando de enxergar o outro. Estamos deixando de nos enxergar.

Esta catarata anti-humano de longas datas já se faz presente na realidade de mulheres e LGBTs no nosso país e no mundo. Debates que não fazem parte da lista de prioridades de muita gente, até porque, dentro de uma lógica patriarcal de exploração dos corpos femininos e LGBTs, que precisam estar à disposição da dominação dos “insaciáveis” no sexo e claro, como instrumento de produção, é ameaçador alertar para alguns processos. Do tipo, mulheres e LGBTs são seres humanos. Precisam ser atendidos pela mesma luz constitucional que ilumina seus direitos e garantias, para exercerem o mínimo de humanidade. Precisam ir e vir com segurança, precisam acessar os espaços públicos ou não. E claro, sem sangrar.

Para se ter uma ideia, nosso país é um dos que mais assiste transexuais no Red Tube, canal especializado em reproduzir vídeos pornográficos. Somos um dos que mais consomem este tipo de pornografia, e, no entanto, matar uma transexual em plena luz do dia ninguém viu, ninguém vê, como a tortura e assassinato de Dandara, em 15 de fevereiro deste ano. Nos primeiros 50 dias de 2016, segundo a publicação da página Super interessante de 14 de junho deste ano, 13 pessoas foram assassinadas por serem transexuais.

É preciso se fazer entender sobre qual tipo de invisibilidade que falo. Não necessariamente convocando a empatia aos modos modernos do “poderia ser um parente seu”. A que nível nós chegamos? Tá difícil, mas certamente a ironia não é minha. Principalmente se observarmos algumas respostas dentro da justiça.

 Basta observar a jurisprudência. Ejacular numa mulher em um transporte “público” não é violento. Não cabe nem atentado violento ao pudor, pois, segundo o magistrado, não houve violência (decisão do Juiz José Eugênio do Amaral Souza Neto sobre o caso em que Diogo Ferreira de Novaes ejaculou numa passageira, num transporte coletivo). Engels em 1884 na obra A Origem da Família do Estado e da Propriedade Privada já aconselhava que o direito, como outras instituições burguesas, contribuiriam para a perpetuação do patriarcado. O pior de tudo é que o agressor sabe que pode contar também com a invisibilidade de sua prática, com a culpabilização da vítima (1 em cada 3 brasileiros culpam a mulher. Datafolha, 2016) e com textos jurídicos que pouco dialogam com violência sexual. Os avanços conquistados por mulheres e LGBTs na esfera das leis foram tipificação do crime (matar uma mulher virou crime hediondo), direito ao casamento, redesignação sexual, nome social, mas, pouco se avançou a respeito da violência sexual. Que faz vítimas e mais vítimas, minuto a minuto.  

Por hora, vai levar um tempo para que se alcance algumas alterações por meio da justiça, ou que se adotem ações educacionais efetivas a respeito do combate à violência sexual, ou não, contra mulheres e LGBTs. Aqui na cidade de Feira de Santana por exemplo, já tivemos projetos de políticas sustentáveis sendo repudiados por conter no texto um trecho solicitando igualdade de gêneros. E, vamos dar nomes aos bois. Foi o vereador Edvaldo Lima (PP). É preciso, como ação educativa, mostrar a cara dessas pessoas como também mostrar o trabalho de uma bancada evangélica conservadora na esfera municipal.

Foi pensando em todo este caos, invisível e silencioso, e logo após uma ocorrência no nosso “quintal” universitário que realizamos alguns encontros para organizar um evento que sabemos que não tem o poder de encerrar toda essa conjuntura, pois o problema é estrutural, mas, que garanta à mulheres e LGBTs condições de lutar por sua integridade física e de evitar a incidência destes quadros estatísticos. Condições que Dandara, Claudia, Rafaela, Vitor, entre vários outros não tiveram em situações de estupro, homofobia, misoginia. Não esquecendo que já era uma pauta de alguns coletivos a urgência de um curso de defesa pessoal na instituição.

Não somos institucionalizados, e isso é mais uma ação educativa, uma primeira resposta. A segurança dessas populações não foi um debate massivo, não chegou à todos na universidade. E se faz necessário, podemos dizer até urgente um olhar mais específico, menos ingênuo ou policialesco, do ponto de vista da segurança. Os dados já nos mostraram que os agressores, na maioria dos casos, são pessoas próximas. Medidas que garantam o deslocamento desses estudantes para os banheiros sem que sejam violados. Que garantam o deslocamento entre os módulos, permanência na biblioteca, na fila do bandejão. Que garantam que poderão exercer sua autonomia intelectual em sala de aula sem serem agredidos fisicamente.

Oferecemos nossas horas livres para que pessoas se apropriem de técnicas de defesa pessoal, da mesma forma que outros grupos na história e quando foi necessário, responderam à apatia social ou jurídica. As sufragistas por exemplo, fizeram uso do Jiu-jitsu para se proteger nas manifestações quando entravam em confronto com a polícia na luta pela reivindicação de seus direitos, alvorada do século XX, na Inglaterra. Ou como, Partindo de uma realidade agravada por pertencer a uma etnia criminalizada num dado momento histórico, o transformista brasileiro João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, fazia uso da capoeira nas noites cariocas. Última instância de quem reunia características sociais odiadas no período, e ainda hoje.

Respostas, que não poderiam ser diferentes quando as estatísticas nos provam que há um verdadeiro extermínio de mulheres e LGBTs. Que não podem ser as mesmas que alguns, por conveniência utilizam, como culpabilização da vítima ou dar às costas ao problema que cresce absurdamente. Se até nosso organismo quando é invadido por uma bactéria (um visitante indesejado e não autorizado ao nosso corpo) reage, e não de forma pacífica, porque mulheres e LGBTs tem que responder com o silêncio da sensação da impunidade? Da naturalização?


ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE O MINICURSO

Os módulos estão sendo realizados no parque esportivo da UEFS desde o dia 19/08, aos sábados, das 9 às 12 horas. Serão 6 módulos ao todo. Os participantes são 30 aluno(a)s de diversos cursos da UEFS, que se organizam em coletivos ou não.

A equipe organizadora é composta pelo professor Elson Moura, pelos egressos Virna Jandiroba e Lucas Lima, e pelos alunos do curso de Educação Física, Gigliola Souza, Lucas Nunes e David Torres. Colaboram também nos encontros os estudantes Bruno Barros, Marivaldo Andrade e o Professor de Jiu-jitsu Breno Lira.

Já existem 18 inscrições para participação de um possível segundo evento.     

REFERÊNCIAS