quarta-feira, 11 de julho de 2018

Futebol negro-branco-árabe da França

A França faz história no mundial da Rússia não apenas pelo balé futebolístico executado por Mbappé, Griezmann e esquadrão regido por Didier Deschamps.

A seleção recém-qualificada à final do torneio após frear a propalada geração belga também impacta pela formação diversa do elenco: dos 23 convocados, 19 são naturalizados ou descendem de imigrantes.

A composição heterogênea, no entanto, extrapola o mero debate esportivo sobre o limite de atletas “estrangeiros” permitidos por time.

Na França, a multinacionalidade é termômetro da forma como o país lida com a própria identidade.

Disponibilizado na Netflix, Les Bleus – Uma Outra História da França faz uma contribuição valiosa para entender como o futebol e o extracampo se conectam.

O documentário analisa a influência da ebulição social e política sobre a seleção e vice-versa a partir de momentos-chave do calendário esportivo, eleitoral e de acontecimentos históricos.

O recorte é o período 1996-2016 e compreende a primeira conquista de Copa do Mundo (em 1998), a ascensão e a queda dos campeões no rastro da popularidade de Zinedine Zidane e, sobretudo, a travessia nada harmônica pela questão da identidade nacional – tensionada tanto pela dificuldade de acolher franceses de origem estrangeira quanto pela xenofobia de políticos da extrema-direita.

O filme costura depoimentos de jogadores, atores (entre eles, Omar Sy, de Intocáveis), escritores e políticos de expressão (como o ex-presidente François Hollande) para mostrar como o desempenho esportivo reflete e influencia a percepção sobre integração social.

A gangorra é constante. E o imaginário de unidade flutua ao sabor de sucessos e fracassos dentro ou fora do campo.

Na vitória, vangloria-se a miscigenação “negro-branco-árabe” pontuada pelo título de 98 e protagonizada pelo craque de origem argelina Zidane – cuja dedicação era colocada à prova, antes, porque o jogador se recusava a cantar a Marselhesa.

Na derrota, evoca-se a falta de patriotismo dos “falsos franceses”, atribuído à presença de “estrangeiros” no time e se dissolve o conceito das três raças, já esgarçado pela discriminação e pela exclusão dos não-brancos confinados às periferias.

A percepção em torno da seleção é acompanhada pelo debate público sobre a questão migratória, o avanço do extremismo, a marginalização da população de origem árabe e africana, as políticas de enfrentamento ao terrorismo.

Impressiona a consciência social dos jogadores (na ativa ou aposentados) sobre temas de interesse nacional – postura crítica ausente de boa parte dos atletas brasileiros.

À declaração radical do então ministro (e futuro presidente) Nicolas Sarkozy – “vamos nos livrar desses bandidos”, diz ele, após onda de protestos nas ruas -, o jogador Lilian Thuram, negro, toma as dores e reage: “Não sou bandido. Só quero trabalhar e melhorar de vida”.

Em resposta ao fortalecimento eleitoral da extrema-direita personificada em Le Pen, Zidane conclama a população a não votar no candidato – e Jacques Chirac se elege com 80% dos votos.

A postura engajada contrasta, vale pontuar, com o silêncio alienado da maioria dos jogadores brasileiros da atualidade sobre temas sensíveis do país.

Mergulhados em cifras milionárias, eles se mostram mais propensos a usar redes sociais para falar de estética, videogame e diversão – esse conjunto de trivialidades capaz de transformar possíveis agentes de mudanças sociais em mensageiros do nada.


(Texto retirado do site Diário do Centro do Mundo de autoria do jornalista, Tiago Barbosa). 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

BRASILEIROS FURAM A FILA DA VERGONHA NA RUSSIA


Quem nunca ouviu aquela breve e preocupada dica dos parentes antes de ir visitar a casa de algum amigo da família: – Se comporte na casa dos outros!? Alguns torcedores brasileiros que foram assistir aos jogos na Rússia, aparentemente, estão seguindo bem essa orientação da pátria canarinha. Neste domingo (17) alguns vídeos foram viralizados nos aplicativos de mensagens (Você pode assistir aqui), mostrando torcedores brasileiros cercando uma jovem russa, entoando uma canção como uma torcida organizada, “Bu.... rosa”. A moça, se mostrando gentil aos visitantes e sinalizando não entender do que se trata, participa ingenuamente desse escárnio.

O amigo leitor deve estar se perguntando: Como assim estão seguindo bem a orientação da pátria canarinha? Talvez você não se lembre que há pouco tempo, foi necessário fazer uma campanha entre jornalistas da mídia esportiva para denunciar os assédios sofridos durante as coberturas das partidas dos campeonatos, nas capitais ou não do Brasil (confira a matéria aqui). Atitudes como essa são ainda muito “naturais” no nosso país. É só observar a quantidade de pessoas que comentam que expor uma manifestação de machismo e assédio é puro “mimimi”, que o mundo está ficando chato. Tá sim, afinal, somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo. 

Deve estar ficando ainda mais chato. A “brincadeira” dos, aparentemente, rapazes de classe média /classe alta da nossa sociedade, nos leva a pensar no poder simbólico que carrega a expressão linguística utilizada no vídeo. Nosso país é um dos líderes do ranking de cirurgias plásticas em órgãos genitais femininos (matéria aqui). Em 2016 foram 13 mil intervenções cirúrgicas, chamadas de labioplastias ou ninfoplastias (uma forma de corrigir “imperfeições” na vagina) num revezamento entre necessidade e busca de um padrão perfeito, como o que podemos verificar no vídeo do assédio na Rússia ou em páginas feministas que lutam contra mais uma imposição ao corpo feminino. Este movimento da “vagina perfeita” está submetendo mulheres a encarar um processo cirúrgico numa região altamente sensível do corpo.

O nosso (des)governo tentou até ajudar(não nesse caso específico), ou melhor, tentou piorar as coisas. Ao invés de tomar uma postura firme contra a homofobia do país anfitrião, como fizeram nossos vizinhos argentinos que criaram uma vídeo campanha (assista aqui) para mostrar que o futebol é um esporte onde o afeto e demonstrações de carinho masculino é muito forte (coisa que na Rússia é proibido desde 2013), o Itamaraty desenvolveu uma cartilha para orientar a população LGBT de como se comportar nas ruas durante o megaevento futebolístico.

Um chute que passou longe da trave diante do que aconteceu com a moça russa e uma total falta de noção da realidade. Qualquer LGBT brasileiro sabe desde a infância como se comportar num país com ou sem leis homofóbicas. Basta observar a perseguição e o extermínio deles em nossas ruas, a qualquer hora, ou mais precisamente, a cada 19 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. Não se esperava outra coisa de um elenco que participou de uma partida que tirou uma Presidenta democraticamente eleita, “com o supremo e com tudo”, e com uma “pataquada” torcida misógina disparando frases do tipo: Vai tomar no c. Dilma, Jumenta, anta, burra entre outras sandices. Essa bola ou cartilha, melhor dizendo, era para ser passada para os homens Cis mas, pra quê se não fazem nada além do "normal"?   

Por isso é tão importante que o diálogo de gênero e sexualidade seja incluído em nossas escolas, orientando toda população sobre atitudes machistas e suas consequências, quase sempre trágicas. Esse jogo inicia como "brincadeira", mas o final é sempre assédio, estupro e, como nos gritam as estatísticas, termina em morte. Outros “meninos” como os do vídeo na Rússia continuarão a aparecer, seja numa copa do mundo de futebol, seja num mundial de vôlei, de basquete... Eles estão apenas reproduzindo aquilo que aprendem todos os dias em seu país, pois, nossa pátria mãe “gentil”, atarefada com sua jornada tripla de trabalho, ganhando salário menor que os homens e com papeis sociais que impõe toda responsabilidade da educação dos filhos sobre suas costas, também sofre e muito com esses comportamentos.   

Sigamos para nosso próximo adversário, a Costa Rica.  

domingo, 17 de junho de 2018

O futebol ficou na Vuitton

A Seleção Brasileira estreou hoje na Copa do Mundo na Rússia contra a Seleção da Suíça e o resultado de 1 x 1 não foi bem recebido pela mal chamada "pátria de chuteira". O fato foi que o time deixou muito a desejar, principalmente após o gol sofrido logo no início do segundo tempo.

Muitos colegas acreditavam em uma estréia triunfante da seleção canarinho. O otimismo estava presente nos palpites em relação ao placar do jogo que giravam em torno de três gols ou mais. O Brasil estrearia bem e daria uma goleada na seleção dos famosos alpes da região do Tirol.

Não foi assim. A indiscutível capacidade técnica dos comandados do Tite não conseguiu ser traduzida em resultado positivo. Não que um empate contra uma seleção que só perdeu uma das suas 23 últimas partidas tenha sido ruim. Apenas não atendeu às expectativas da massa tupiniquim.

Quem deixou muito a desejar foi o craque Neymar que parece ter deixado o seu futebol na mala de 6 mil reais que ostentou ao desembarcar do ônibus em direção a Arena Rostov ou na bolsa da Louis Vuitton, de 18 mil reais.

Resta o consolo do país que é o décimo quarto em desigualdade social, que só em 2016 matou violentamente mais de 62 mil e 500 potenciais torcedores canarinhos, nos tropeços das também candidatíssimas ao título da Copa do Mundo, as seleções da Alemanha, Argentina e Espanha.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Raízes na periferia: um raio-x da origem social dos convocados para a Copa 2018

Pés descalços, campinho de terra batida. A periferia ainda é o maior celeiro de talentos do futebol brasileiro. É o que demonstra um levantamento feito pela reportagem do Brasil de Fato, baseado em imagens de arquivo, sínteses de entrevistas e relatos dos jogadores e familiares, concedidos ao longo da carreira.

A maioria dos jogadores convocados pelo técnico Tite para a Copa do Mundo 2018 vêm da região metropolitana de grandes centros urbanos das regiões Sul e Sudeste, de municípios interioranos distantes da capital, sem infraestrutura adequada, ou de bairros com altos índices de criminalidade e baixos indicadores sociais.

São, de modo geral, filhos de trabalhadores braçais, mal remunerados, com anos de escolaridade inferiores à média brasileira. Só não seguiram o mesmo caminho dos pais devido ao esporte.

Mesmo no mundo do futebol, eles são exceção. Cerca de 82% dos jogadores profissionais brasileiros ganham menos de R$ 1.000 por mês.

Dos 23 convocados para a Copa, 19 jogam em grandes clubes da Europa. Todos recebem mais de cem salários mínimos, entre remuneração fixa, direitos de imagem e patrocínios. Embora acentuem o problema da concentração de renda no país, hoje eles têm condições de ajudar a família e os amigos da “quebrada” – o que reforça o papel do futebol como ferramenta de mobilidade social nos países em desenvolvimento.

Conheça a origem e os primeiros passos de cada um deles:

GOLEIROS

Alisson (Novo Hamburgo-RS, 2 de outubro de 1992)

Cresceu em um apartamento simples no loteamento Mundo Novo, um dos maiores conjuntos de habitacionais do Brasil, com 1,2 mil casas – que sequer tinha posto de saúde até 2012. O Mundo Novo fica no bairro Canudos, que tem o segundo maior índice de criminalidade do município.

Para treinar nas categorias de base do Internacional, Alisson precisava pegar carona em uma van na rodovia BR-116, que liga Novo Hamburgo a Porto Alegre. Descendente de uma extensa linhagem de goleiros, que começou há quatro gerações, ele foi apenas o segundo a se profissionalizar e contribuir no orçamento familiar por meio do esporte. O primeiro foi o irmão mais velho, Muriel, que hoje atua no Belenenses, de Portugal.

Clubes: Internacional e Roma (Itália).

Cássio (Veranópolis-RS, 6 de junho de 1980)

O gigante de 1,95m cresceu em um casebre de madeira a 170 km de Porto Alegre.

Sobrinho do então massagista do Veranópolis Esporte Clube (VEC), Cássio assistia a todos os treinamentos do time e passava horas buscando as bolas que os jogadores chutavam para fora do campo. Gandula-mirim, aos seis anos, ele conheceu o técnico Tite, da Seleção Brasileira, que era treinador do VEC em 1993.

O primeiro trabalho remunerado, aos 14 anos, foi em um lava-jato.

Após fazer sucesso debaixo das traves, construiu uma casa moderna e confortável para a família ao lado daquela em que passou a infância.

Clubes: Grêmio, PSV (Holanda), Sparta Roterdã (Holanda) e Corinthians.

Ederson (Osasco-SP, 17 de agosto de 1993)

Primeiro jogador da história da Seleção a ser convocado para uma Copa sem nunca ter atuado profissionalmente no Brasil, Ederson foi criado na periferia de Osasco. O bairro Rochdale, de classe média baixa, era conhecido pelas enchentes e alagamentos.

Apaixonado por tatuagens, o garoto desenhava o corpo com caneta desde a infância. Hoje, são mais de 30 tatuagens – todas de verdade.

Ederson jogava bola na rua e, aos 10 anos, matriculou-se na escolinha do bairro. Teve 15 minutos para mostrar serviço aos olheiros do São Paulo, em meio a 150 garotos, e logo chamou a atenção.

Transferiu-se para Portugal antes de chegar à categoria profissional, e hoje vive em Manchester em uma mansão com a esposa, a filha, a sogra, um amigo de infância e um casal de amigos.

Clubes: Ribeirão (Portugal), Rio Ave (Portugal), Benfica (Portugal) e Manchester City (Inglaterra).

ZAGUEIROS

Marquinhos (São Paulo-SP, 14 de maio de 1994)

Cria do Centro de Formação e Treinamento de Atletas – Futebol SACI, que fica no bairro Imirim, Zona Norte de São Paulo, Marquinhos era o terceiro de cinco irmãos. Estreou como goleiro, mas já na infância mudou de posição dentro do campo.

Aos oito anos, o garoto da periferia paulistana chamou a atenção dos olheiros do Corinthians no “terrão” – campo de terra batida, esburacado, onde o clube fazia testes para crianças e adolescentes.

No bairro e na família onde cresceu, a bola parecia a única saída. O primo, Moreno, e o irmão, Luan, haviam sido revelados pela base do Corinthians. Mas Marquinhos foi quem mudou a vida da família com o futebol: Moreno está sem clube e Luan, que não engrenou como profissional, hoje administra a carreira do zagueiro da Seleção.

Clubes: Corinthians, Roma (Itália) e Paris Saint-Germain (França).

Miranda (Paranavaí-PR, 7 de setembro de 1984)

Formado na escolinha de futebol da Associação de Moradores do Jardim São Jorge, bairro de 25 mil habitantes na periferia de Paranavaí-PR, Miranda é o caçula de 12 filhos. Ele escolheu ser zagueiro em homenagem ao irmão mais velho, Vicente, que morreu carbonizado após acidente de trabalho em uma companhia de energia local. Era na zaga que o irmão gostava de jogar.

Miranda morava a poucos metros de um campinho, onde todos os dias jogava bola com os amigos. Foi revelado em torneios de várzea.

Clubes: Coritiba, Sochaux (França), São Paulo, Atlético de Madrid (Espanha) e Internazionale (Itália).

Pedro Geromel (São Paulo-SP, 21 de setembro de 1985)

O zagueiro-sensação do Grêmio viveu até a adolescência com a família em Vila Maria, bairro de classe média da Zona Norte da capital paulista. Sem chances nos clubes de São Paulo, Geromel quase desistiu do futebol para trabalhar como bancário.

A origem social de Pedro Geromel é uma exceção entre os jogadores convocação para a Seleção. Ele é um dos únicos que cresceu em uma família de classe média alta – o pai tem uma empresa de embalagens plásticas na capital paulista. É fluente em inglês, alemão e espanhol.

Clubes: Chaves (Portugal), Vitória de Guimarães (Portugal), Colônia (Alemanha), Mallorca (Espanha), Grêmio.

Thiago Silva (Rio de Janeiro-RJ, 22 de setembro de 1984)

Criado no bairro Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, a 100 metros da entrada da favela. Era uma criança apaixonada por soltar pipa e jogar futebol, e convivia com tiroteios entre policiais e moradores da comunidade.

A mãe vivia com medo. Para brincar na rua, ele esperava que ela cochilasse, depois do almoço, e saía de fininho para se juntar aos amigos.

Como zagueiro, foi rejeitado nas “peneiras” de cinco clubes do Rio de Janeiro. A primeira oportunidade como profissional veio em Alvorada-RS, a 1,5 mil km de casa.

Em 2005, na Rússia, teve um diagnóstico de tuberculose, foi hospitalizado em condições precárias e quase perdeu parte do pulmão.

Clubes: RS Futebol, Juventude, Porto B (Portugal), Dínamo Moscou (Rússia), Fluminense, Milan (Itália) e Paris Saint-Germain (França)

LATERAIS

Danilo (Bicas-MG, 15 de julho de 1991)

O pai de Danilo, caminhoneiro, conseguiu que o filho tivesse oportunidade de treinar em uma escolinha de futebol de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. De origem humilde, o lateral saía da escola, às vezes só com uma bolacha no estômago, e seguia para o treino, a 40 km de casa, no município de Bicas.

Depois de chamar atenção de grande clubes mineiros, Danilo foi contratado pelo Santos, marcou o gol do título da Libertadores da América em 2011 e, de lá, rumou para o futebol da Europa.

A família ainda vive em Bicas, e o jogador não esquece das dificuldades da infância. Durante as férias, Danilo sempre visita a escolinha de futebol onde começou a jogar, no bairro Novo Triunfo.

Quando postou uma foto no Instagram com um tênis de marca, um dos seus seguidores disse ter adorado o tênis, mas lamentou não ter condições de comprá-lo. Danilo se identificou: “Fala irmão! Tô ligado. Também sou de ‘quebrada’. Manda aí seu endereço e quanto você calça. Vou te mandar uns pisantes! Valeu”.

Clubes: América Mineiro, Santos, Porto (Portugal), Real Madrid (Espanha) e Manchester City (Inglaterra).

Fagner (São Paulo-SP, 11 de junho de 1989)

Descoberto em uma escolinha de futebol próximo ao Jardim Capelinha, um dos bairros mais violentos de São Paulo. Foi criado pelo pai e cresceu longe da mãe, depois de um divórcio traumático.

Aos seis anos, sofreu um acidente numa porta de vidro e quase teve o braço amputado, por um erro médico. O pai teve que vender o carro para pagar a cirurgia de correção. A primeira das muitas tatuagens que ele tem foi feita para esconder aquela cicatriz.

Fagner chegou ao Corinthians com nove anos. Pegava dois ônibus, um metrô e caminhava mais de uma hora até o Parque São Jorge para realizar o sonho de ser jogador de futebol.

Clubes: Corinthians, PSV (Holanda), Wolfsburg (Alemanha), Vasco e Corinthians.

Marcelo (Rio de Janeiro-RJ, 12 de maio de 1988)

Revelado na escolinha de futsal da colônia de férias do Exército, na Urca. Quando foi aprovado nas categorias de base do Fluminense, o avô o levava de carro para Xerém em um Fusca 1975, comprado no ano 2000 com dinheiro ganho no jogo do bicho.

No começo da carreira o dinheiro era contado e, às vezes, não dava sequer para tomar uma condução ou almoçar antes do treino.

Clubes: Fluminense e Real Madrid (Espanha).

Filipe Luís (Jaraguá do Sul-SC, 9 de agosto de 1985)

Cresceu na zona rural de Massaranduba, município de 14,6 mil habitantes do interior de Santa Catarina. Os passatempos preferidos do jogador na infância estavam ligados à terra: comer frutas nas árvores, pegar minhoca do chão, passear pelas plantações de arroz.

Começou a bater bola atrás da igreja da comunidade. Quando se mudou para Jaraguá do Sul, na adolescência, passeava de bicicleta de colégio em colégio para jogar futebol. Foi revelado em um torneio de futsal, aos 14 anos, e passou a integrar as categorias de base do Figueirense.

Morava debaixo da arquibancada do estádio Orlando Scarpelli, com outros 30 garotos.

Clubes: Figueirense, Ajax (Holanda), Real Madrid Castilla (Espanha), La Coruña (Espanha), Atlético de Madrid (Espanha), Chelsea (Inglaterra) e Atlético de Madrid (Espanha).

MEIO-CAMPISTAS

Paulinho (São Paulo-SP, 25 de julho de 1988)

Começou nos campos de várzea do Parque Novo Mundo, na região da Vila Maria, Zona Norte de São Paulo. Aos 12 anos, fazia parte da categoria de base da Portuguesa.

O padrasto, que Paulinho considera um pai, era quem o levava para assistir aos jogos de futebol.

Os pais se separam quando o jogador era ainda criança. Paulinho só foi encontrar o pai biológico novamente quando o Corinthians foi a Recife jogar contra o Náutico, em 2012.

Clubes: FC Vilnius (Lituânia), ŁKS Łódź (Polônia), Audax, Bragantino, Corinthians, Tottenham (Inglaterra), Guangzhou Evergrande (China) e Barcelona (Espanha).

Fernandinho (Londrina-PR, 4 de maio de 1985)

Passou a infância e adolescência entre duas cidades: Londrina e Ribeirão Preto. Fernandinho era o destaque do time de peladas da Rua do Roncador, no conjunto Lindoia, periferia do município paranaense. Ele também era o número 1 do campinho de terra batida no bairro Adão do Carmo Leonel, na zona Oeste de Ribeirão Preto.

Foi revelado em 1999, aos 13 anos, no PSTC – centro de treinamento especializado em categorias de base e formação de atletas profissionais de Londrina. Treinava no campo de futebol da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Até hoje, Fernandinho mantém contato com os amigos do Conjunto Lindoia.

Clubes: Atlético Paranaense, Shakhtar Donetsk (Ucrânia) e Manchester City (Inglaterra).

Renato Augusto (Rio de Janeiro-RJ, 8 de fevereiro de 1988)

Renato Augusto cresceu em três apartamentos diferentes na rua Ibituruna, a menos de 1 km do Maracanã. Via o estádio de segunda à sexta pela janela do ônibus 456, que pegava para ir à escola. Hoje, ele traz o Maracanã estampado em uma tatuagem no braço direito.

Assim como o zagueiro Pedro Geromel, Renato Augusto é um dos poucos convocados para a Copa oriundo de uma família de classe média.

Clubes: Flamengo, Bayer Leverkusen (Alemanha), Corinthians e Beijing Guoan (China).

Fred (Belo Horizonte-MG, 5 de março de 1993)

Cresceu no Jardim Europa, em Venda Nova, Belo Horizonte, jogando bola na rua, descalço. Na Copa de 2002, raspou o cabelo igual ao do ídolo Ronaldo, artilheiro da Seleção.

Foi aprovado em um teste no Atlético Mineiro aos dez anos, mas teve que abrir mão de jogar no time do coração porque não conseguiu um contrato que garantisse verba de transporte, moradia e alimentação.

Meses depois, foi levado a Porto Alegre em um projeto encabeçado pelo ex-jogador Assis, irmão de Ronaldinho Gaúcho, que lhe abriu as portas no Internacional.

Clubes: Internacional e Shakhtar Donetsk (Ucrânia).

Casemiro (São José dos Campos-SP, 23 de fevereiro de 1992)

Foi abandonado pelo pai aos três anos e passou necessidade durante toda a infância. Entre as lembranças mais vivas daquela época, está a imagem de uma vendedora de Yakult que passava em frente à casa dele todo final de tarde: Casemiro morria de vontade de tomar a bebida, mas a mãe não tinha dinheiro para comprar.

Aprovado em um teste no São Paulo, ele não tinha condições de ir e voltar de São José dos Campos à capital, e dependia da ajuda de amigos para passar a noite entre um e outro treinamento. Na mesma época, contraiu uma hepatite e ficou quase 90 dias sem treinar. Quase foi forçado a desistir do esporte.

Aos 14 anos, conseguiu uma vaga no alojamento do clube, driblou as dificuldades e hoje é considerado uma das maiores revelações da história do Tricolor.

Clubes: São Paulo, Real Madrid B (Espanha), Porto (Portugal) e Real Madrid (Espanha)

Willian (Ribeirão Pires-SP, 9 de agosto de 1988)

Cresceu jogando futebol na rua Conde de Sarzedas, no bairro Vila Albertina, no ABC paulista. Era conhecido de todos moradores e comerciantes da rua: volta e meia a bola entrava pela porta ou batia em uma janela.

Os primeiros treinos, aos cinco anos, foram na quadra de futsal do pequeno Ribeirão Pires FC.

A carreira deslanchou quando o pai, Severino da Silva, o levou para um teste na escolinha do ex-jogador Marcelinho Carioca. Era o primeiro passo para que Willian vestisse a camisa do Corinthians, time do coração de Seu Severino.

Clubes: Corinthians, Shakhtar Donetsk (Ucrânia), Anzhi (Rússia) e Chelsea (Inglaterra).

Philippe Coutinho (Rio de Janeiro-RJ, 12 de junho de 1992)

Cresceu em um condomínio no Rocha, Zona Norte do Rio. Quem primeiro identificou o talento dele para o futebol foi Dona Didi, avó de um amigo de infância.

Em casa, o dinheiro era contado, mas nunca faltou apoio da família: o pai, a mãe e os dois irmãos mais velhos suaram a camisa para que o menino se dedicasse desde cedo ao esporte.

Coutinho começou aos seis, na escolinha de futsal do Clube dos Sargentos do Rio de Janeiro. Em menos de um ano, foi aprovado no time de Mangueira e disputou o primeiro torneio estadual de futsal. Artilheiro da competição, chamou a atenção do Vasco, clube em que estreou como profissional.

Clubes: Vasco, Internazionale (Itália), Liverpool (Inglaterra) e Barcelona (Espanha).

Douglas Costa (Sapucaia do Sul-RS, 14 de setembro de 1990)

Estudou na escola municipal Hugo Gerdau, em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre. Filho de um mecânico e uma dona de casa, foi revelado em caminhos de terra batida. Matriculou-se na escolinha de futebol da Prefeitura e chegou ao Grêmio aos 12 anos.

Nos primeiros meses, causou desconfiança por ser muito mais magro do que a maioria dos colegas. Só conseguiu se firmar nas categorias de base após um trabalho de fortalecimento muscular e nutricional: ganhou seis quilos em dois anos.

Clubes: Grêmio, Shakhtar Donetsk (Ucrânia), Bayern de Munique (Alemanha) e Juventus (Itália)

ATACANTES

Taison (Pelotas-RS, 12 de janeiro de 1988)

Ex-flanelinha, integrante de uma família de onze irmãos, foi o único menino de seu círculo social que conseguiu se estabelecer profissionalmente e ajudar a família. Ao menos dois de seus amigos de infância são hoje moradores de rua, em Pelotas.

O talento de Taison foi desenvolvido em ruas de areia e calçamento, nas periferias do município, e no pátio da Escola Estadual Nossa Senhora dos Navegantes. Descoberto pelo clube Osório, deixou o trabalho de manobrista, em frente a um supermercado, e logo encantou os olheiros do Internacional, clube que o revelou para o mundo.

Clubes: Internacional, Metalist Kharkiv (Ucrânia) e Shakhtar Donetsk (Ucrânia).

Neymar (Mogi das Cruzes-SP, 5 de fevereiro de 1992)

Cresceu em uma casa simples Praia Grande, litoral paulista. A casa era pequena, improvisada, a poucas quadras de um lixão. Os garotos descalços se comportavam como os donos da rua: eram os carros, e não os pedestres, que precisavam pediam licença para passar.

O menino, conhecido na época por “Juninho”, começou a chamar a atenção aos dez anos, no Grêmio Recreativo dos Metalúrgicos de Santos (Gremetal). Após ser descoberto pelo Santos, ainda criança, pegava ônibus sozinho todos os dias para participar dos treinos. A rotina era tão pesada que ele se acostumou a “passar do ponto” de casa, tamanho cansaço.

O primeiro contrato com o Peixe, em maio de 2004, garantia R$ 450,00 por mês à família. Foi graças a essa ajuda de custos que o menino pôde se dedicar somente ao futebol.

Clubes: Santos, Barcelona (Espanha) e Paris Saint-Germain (França).

Roberto Firmino (Maceió-AL, 2 de outubro de 1991)

Único representante do Nordeste na Seleção, Firmino nasceu e foi criado no conjunto habitacional Dique Estrada, região pobre e violenta da capital alagoana.

O primeiro campo foi a rua de paralelepípedo. Os amigos do bairro e das duas escolas em que estudou, Colégio Tarcísio de Jesus e Colégio Caíque, eram os principais companheiros nas peladas.

Quando jovem, vendia coco na praia para ajudar no orçamento da família. Tornou-se profissional no Figueirense, em Florianópolis, a 3,1 mil km de casa. Sem dinheiro para a passagem, ficou mais de um ano sem voltar para Maceió.

Clubes: Figueirense, Hoffenheim (Alemanha) e Liverpool (Inglaterra).

Gabriel Jesus (São Paulo, 3 de abril de 1997)

Cria do Jardim Peri, comunidade pobre de São Paulo. Começou a chamar atenção aos oito anos, no campo de terra do presídio militar Romão Gomes, em Tremembé, Zona Norte de São Paulo. Para ir aos jogos e economizar no combustível, o treinador do time chegou a colocar onze garotos dentro de um Fusca.

Enquanto Neymar e outros companheiros de Seleção disputavam a Copa de 2014, Gabriel Jesus pintava as ruas da comunidade de verde e amarelo. No ano seguinte, ele seria revelado pelo Palmeiras.

O camisa 9 titular de Tite não teve a presença do pai, que abandonou a família quando o craque era ainda pequeno. A mãe, empregada doméstica, colocava comida na mesa para os três filhos.

Às vésperas do Mundial, o rosto do atacante da Seleção estampa o muro da rua onde o garoto cresceu e descobriu o futebol. Ou foi descoberto por ele.

Clubes: Palmeiras e Manchester City (Inglaterra).

MATÉRIA PUBLICADA NA BRASIL DE FATO E NO DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Salários milionários

Segue abaixo a lista dos dez jogadores que ganham salários milionários. Os valores então em milhões de reais por ano.

Lionel Messi (Barcelona)
194,8

Neymar (PSG)
152,4

Alexis Sánchez (Manchester United)
112,5

Oscar (Shangai SIPG)
101,5

Ezequiel Lavezzi (Hebei Fortune)
97,6

Cristiano Ronaldo (Real Madrid)
88,5

Hulk (Shangai SIPG)
84,6

Kylian Mbappé (PSG)
76,5

Paul Pogba (Manchester United)
74

Graziano Pellé (Shandong Luneng)
72,1

sexta-feira, 9 de março de 2018

MULHERES NA HISTÓRIA DOS ESPORTES #2 STAMATA REVITHI




            A ação subversiva das mulheres impulsionou a inclusão das modalidades femininas nos jogos olímpicos e claro, seu potencial lucrativo. Como já falamos no texto anterior, o pensamento dominante no período em que marca o inicio dos jogos olímpicos modernos era totalmente patriarcal. O próprio Pierre de Colbertin possuía esta visão política, e baseou sua “manifestação periódica solene de esporte masculino” nos moldes gregos antigos. Ele possuía apoio do Papa Pio XI e já teria afirmado que: “Olimpíada feminina seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta”. Para as mulheres, cabia tarefas domésticas e a procriação. Foi fundamental a atitude de mulheres como Alice Melliat, subvertendo a ordem, criando competições femininas, como também foi fundamental o enfrentamento de Stamata Revithi no questionamento do papel social das mulheres.

Aos 30 anos de idade, Stamata saiu de Pireu para tentar ventos melhores em Atenas, na Grécia. Sem marido, com um filho pequeno e com o sofrimento pela perda de outro filho. Ao chegar em Atenas, logo se juntou ao grupo de maratonistas por conta da observação que um jovem lhe fez a respeito de sua resistência física. Presa a esta ideia, prometeu que, mesmo com a proibição imposta sobre a participação de mulheres, estava em pé de igualdade com os competidores masculinos e com ou sem a autorização da comissão, seguiria em frente.

            Stamata fez, um dia após a realização da maratona de 1896, o mesmo percurso do evento olímpico de Colbertin, sendo que, concluiu os 42 quilômetros dando a última volta por fora do estádio, pois não possuía autorização para entrar. O esforço de proibir a participação feminina não foi o suficiente. A grega ainda concluiu o percurso com a diferença de 2 horas do vencedor, ficando assim na frente de vários competidores homens.

            Não se tem registros de sua vida pós o ocorrido. Há de se compreender que, diante da conjuntura, não seria interessante ao patriarcado dar relevância ao fato ou que uma mulher com tal comportamento ganhasse um lugar de destaque nos jornais. Basta ver na história do nosso país como foi o tratamento dado a mulheres subversivas à ditadura civil/militar: Quando não torturadas, mortas ou desaparecidas, silenciadas. Assim como toda história da participação das mulheres na nossa sociedade.  A maratona foi aberta às mulheres apenas nos jogos Olímpicos de 1984
  

segunda-feira, 5 de março de 2018

MULHERES NA HISTÓRIA DOS ESPORTES #1 ALICE MELLIAT


Durante este mês que marca o 8 de março como dia internacional das mulheres trabalhadoras, apresentarei uma série de textos com as importantes personalidades femininas que contribuíram para a introdução das mulheres na história do esporte moderno. Mulheres que enfrentaram um período conturbado, onde predominou uma construção do feminino baseada na fragilidade e submissão (que não está longe da contemporaneidade), excluindo-as da possibilidade de praticar modalidades ligadas à força. Nomes importantes, que lutaram dentro e fora dos ginásios e estádios pela visibilidade das mulheres nos espaços públicos.

Claro que as atividades esportivas reproduzem todas as características da sociedade capitalista: disparidade salarial, falta de políticas de permanência para as mulheres (entendendo que estas possuem jornadas tripla de trabalho), falta de representatividade nos setores de organização e direção do esporte, assédio moral e sexual, etc. Mas, já podemos visualizar alguns avanços: como a federação de futebol da Noruega, que irá igualar os salários das jogadoras, e Corinne Diacre, a primeira mulher a comandar um time de futebol masculino. Frutos das disputas políticas individuais ou de grupos feministas, contrariando alguns setores midiáticos que teimam em fortalecer a cisão esporte/política.

Um fato é inegável: o esporte em sua dimensão social, ainda é um lugar de predominância masculina. Temos muita luta pela frente.

Alice Melliat (1884-1957) foi um quadro relevante diante à exclusão das mulheres nas atividades esportivas. A francesa frequentava muitos estádios e acreditava que o esporte era uma excelente ferramenta de desenvolvimento da personalidade. Como praticante, foi a primeira mulher a obter um diploma concebido apenas a remadores de longa distância. Em 1917, fundou a FFSF (Federação de Sociedades Femininas da França) que passou a regular atividades esportivas das mulheres, num período em que existiu um forte mito de fragilidade, para justificar a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, expressada na proibição da participação destas nas olimpíadas modernas. Como já foi citado na introdução do nosso texto.

Por este motivo, em 1921 ela organizou a Olimpíada feminina, em Mônaco. O evento teve a participação de cinco países: Inglaterra, Suíça, Itália, Noruega e França. Ainda em 31 de outubro 1921, com apoio dos EUA, Tcheco Eslováquia, Itália e França, Organizou a Federação Internacional Desportiva Feminina (FSFI), e, no ano seguinte, 300 mulheres, de sete países, participavam da segunda Olimpíada Feminina.

Em 1938 a FSFI se dissolveu pois, as “crenças” que até então o Barão de Coubertin possuía sobre as mulheres (Fragilidade e submissão) iam caindo por terra, e, o mesmo, começou a introduzir cada vez mais provas femininas em seus jogos Olímpicos. O sucesso de público e a grande repercussão dos eventos que Alice ajudou a introduzir e a popularizar culminaram com o reconhecimento das mulheres como atletas olímpicas pelo COI em Berlim, 1936. Uma “capitalização” de todo o esforço da francesa
  
Por outro lado, a contribuição de Alice Melliat forneceu ao movimento feminista do período uma possibilidade de protestar sobre os papéis sociais das mulheres. Toda retórica embasada numa perspectiva biológica de que “a mulher tem útero e ovários, o homem não tem”, ou que justificasse sua “inferioridade natural”, poderia ser contestada, diante dos recordes e das excelentes participações femininas em modalidades antes, destinadas apenas aos homens. Sua luta deu um importante passo para a desconstrução de paradigmas que alicerçam a estrutura social vigente. Alertando até mulheres que não se consideravam feministas.   


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Visibilidade Transexual e o Preconceito da Vez


29 de Janeiro é um dia histórico para Travestis e Transexuais desde 1992. Uma luta que iniciou contra a violência policial e pelo combate à AIDS, hoje se transformou numa contenda pela busca de direitos básicos que vão do respeito ao próprio nome, acesso à serviços de saúde, condições de trabalho, educação e os mais preocupantes: Direito de integridade física e à vida.

Nosso país não é um dos mais cordiais com Travestis e Transexuais, pois, a cada 48 horas uma pessoa Trans é assassinada e a sua expectativa de vida é de 35 anos. Segundo a secretária de articulação política da ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais Bruna Benevides, Transexuais estão sofrendo do mesmo problema que fomenta a violência contra as mulheres: O machismo. 94% dos assassinatos são de pessoas do gênero feminino. Uma espécie de “resposta” ou “limpeza” social destes corpos que desafiam a heteronormatividade tão ideal para o status quo da sociedade capitalista.

ASSEPSIA POLITICA E DADOS DA REALIDADE

Mesmo estando em debate nos principais veículos midiáticos, e dentro de uma lógica de consumo, estes corpos são consumidores que incomodam, mancham a assepsia nos bairros e das ruas com seus corpos dissonantes, suas plásticas e modos. Suas palavras desafiam o mundo asséptico, explica Ana Cristina Nascimento Giviki, no seu artigo O Incomodo Jeito de Lutar com Alegria e a Assepsia Política. É fácil perceber este movimento nas redes sociais, como o de perseguição ao cantor Pablo Vittar, que tem sua caçada justificada, muitas vezes, numa falsa aceitação de outros ícones da música que são homossexuais mas, atendem a lógica binária de gênero, não são travestis ou transexuais. Dessa forma, não se perturba a ordem vigente. É o mesmo tipo de perseguição que sofre a jogadora de vôlei Tiffany de Abreu e a atleta de MMA, Fallon Fox. Mulheres Transexuais que alcançaram resultados que, comparados aos resultados de mulheres cis nas mesmas modalidades esportivas, são insignificantes. Entretanto, foi o suficiente para inflamar o discurso preconceituoso.

Não há preocupação real com as mulheres, sua integridade física, permanência e salários nas equipes da liga de vôlei e nas lutas de MMA, como afirmam a maioria dos agressores das atletas citadas. O fato de 503 mulheres serem agredidas por hora no país nunca incomodou muito e nem foi motivo de mobilização nas redes ou nas ruas, para parte dos intolerantes. 1 em cada 3 brasileiros até acreditam que nos casos de estupro a culpa é das mulheres.

Já no esporte, as principais estrelas da seleção feminina, em 2016, tiveram que procurar por equipes fora do país justamente porque a Globo não falava o nome dos patrocinadores das equipes durante as transmissões. O que afetou diretamente na questão de patrocínios. As disparidades salariais entre homens e mulheres nos campeonatos realizados pela Federação Internacional de Voleibol já foram flagradas em imagens que provam premiações absurdamente diferentes( A masculina são 2 vezes maiores que a feminina, e se tratando da equipe, a masculina chega a ganhar cinco vezes a mais que a feminina, sendo US$ 1 milhão na liga mundial (masculina), enquanto no Grand Prix, como é chamado o campeonato feminino, as mulheres recebem apenas US$ 200 mil).

Nenhum desses problemas foi suficiente para instigar os mais fervorosos “defensores” da integridade, justiça e apoio as mulheres dentro ou fora dos esportes. Problemas que refletem as estruturas da sociedade machista, que justifica, ainda, a exploração da força de trabalho barata das mulheres na sua “inferioridade biológica”. Que abusa dos seus corpos através da cultura da dominação. Essas expressões da totalidade do sistema não perturbaram mais do que a simples presença de duas mulheres que não atendem a lógica binária de gênero, citada anteriormente.

PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO

As definições de preconceito e discriminação de uma simples pesquisa do google, nos ajuda a entender e confirmar este movimento de perseguição. Preconceito: Juízo pré-concebido que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças ou sentimentos. Que não tem fundamentos críticos ou lógicos. Discriminação: É a conduta de transgredir os direitos de uma pessoa, baseando-se em raciocínio sem conhecimento adequado sobre a matéria. Tornando-a injusta e infundada. Não adianta os especialistas afirmarem que ainda é muito cedo para determinar algo, que não existem ainda estudos científicos que comprovem que mulheres transexuais, em qualquer atividade esportiva, terão um desempenho superior ao de atletas cis. Além do mais, as atletas transexuais atenderam a todas às exigências do COI para participar de um torneio feminino: Processos cirúrgicos, tratamento hormonal, 12 meses sem jogar, exames periódicos solicitados pela entidade reguladora, entre outros. 

DADOS DOS JOGOS

De acordo com uma entrevista para a página canhota 10, o presidente do Bauru, Reinaldo Mandaliti, time da atleta Tiffani, declarou que a situação já está passando dos limites: A Tifanny tem aspecto físico maior, mas ela tem dificuldade motora numa largada, sofreu um ponto de saque em que foi passar por trás e não viu a bola… Ela fica no bloqueio várias vezes, no terceiro set cai de produção. Esse é o efeito da saída da testosterona do corpo. Ela tem 33 anos e o efeito da redução de testosterona cada vez a prejudica mais. É isso que as pessoas têm que entender.”  A página ainda divulga que o aproveitamento da atleta é de 46%, o que não fica nem próximo das melhores no quesito. O time da atleta ficou em oitavo na superliga (2017) e Tifany não aparece bem no ranking geral das melhores pontuadoras (Tandara ficou em primeiro lugar do ranking com 154 pontos, e o destaques do ataque são Ellen Braga 64% e Fabiana Claudino 60%).

Se ela estivesse fazendo dez pontos, ninguém estaria reclamando (Reinaldo Mandaliti). Assim como passou despercebida a participação de diversas atletas transexuais nas olimpíadas 2016. As “olimpíada das diversidades”. Não é permitido lugar de destaque para estes corpos transgressores, que não se adequam aos padrões heteronormativos, a não ser nas telas dos sites de vídeos pornô, o único lugar aceitável para travestis e transexuais. Somos um dos maiores consumidores do mundo deste tipo de vídeo, de acordo com levantamento da página Red Tube.

Travestis e Transexuais, assassinados, mutilados e perseguidos em plena luz do dia, em qualquer esquina do nosso país, de forma invisível, precisam de visibilidade, apoio e aceitação, exercerem seus direitos à vida e o direito ao trabalho. Pertencem a classe social trabalhadora e sofrem das mazelas destinadas por tal desumana divisão social. Desconstruir estes tipos de relação é um pequeno passo para a superação das desigualdades, que servem de alicerce para o modelo de sociedade que vivemos.   

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A juventude desportiva da Rubinéia


                                              ...Mas vêm o tempo e a ideia de passado
                                                     visitar-te na curva de um jardim.
                                                     (Carlos Drummond de Andrade)

Jeferson olhava a dança dos ventos, dos coqueiros, um olhar de quem passeia por lembranças boas. Disse ao amigo:
            - Quem disse que é necessário um gole geladíssimo de uma boa cerveja, nacional, estrangeira, artesanal, gourmet, para ingressar numa viagem aos dias de ouro de nossa revolução esportiva?

Parou por um momento, suspirou e voltou atrás:
- Tenho que admitir, para eles deve ser. O único sopro vivo dessa época ficou em mim, o mais jovem. Essa correria para chegar na próxima parcela da fatura tem o potencial de nos transportar da cama para a cama, do dia claro ao escuro. Não se reflete, não se revive. Ora, que luxo! Consegui driblar essa maratona, mas, não sai ileso.

Sim! Éramos os bravos juvenis da Rubinéia, incomodando a paz rotineira e quase comuna das famílias alocadas nos 500 metros de paralelepípedo, cimento, areia, esgoto e cacos de vidro da rua. Metragem quase diagonal, pois iniciava (ou teria fim?) na rua que tinha nome de um general. A vida poderia ser mais irônica? Colocar tanta criança ativa, ou na linguagem atual, “hiperativa”, apaixonadas por jogos, dança, esportes, convivendo e aprendendo como nas estruturas de um partido ou coletivo, sem romances por hierarquia e disciplina, num período em que o país estava namorando com uma infante “democracia”, e perto de um general? Só pode ser brincadeira.

            Longe de mim as análises do acaso. Acredito que tudo isso passou do mais velho ao mais novo pela boa e velha “difusão facilitada”. O general? esse daí era um mero costume da época, de colocar nomes nas ruas de importantes figuras da ditadura. Não para mim, o nome daquela rua deveria ser Fidel. E claro, acho que só eu penso assim. Só hoje. Tenho certeza que nenhum deles entenderia, nem hoje, nem naquela época, o que estou dizendo pra você agora, meu amigo. Muito embora nossas decisões sobre regras nas atividades fossem resolvidas na votação, e eu, o mais novo, tinha poder de escolha, ninguém aspirava leituras ou tinha contato com nenhum folhetim revolucionário.

            Era praticamente assim: Tínhamos o nosso horário de encontro. Era uma reunião onde se colocava em pauta a atividade esportiva do dia. Vôlei, futebol, basquete, handebol... As opções eram diversas. Mesmo que não fossem realmente expressões institucionalizadas. Duas sandálias = Uma trave, Aro de basquete num poste = Uma quadra oficial, Barbante = Rede de Vôlei. Não precisávamos do Marco Polo Del Nero, do Guy Peixoto, do Rafael Westrupp, muito menos do Antônio Madeira. Nem árbitros! Era fantástico o poder inconsciente que tínhamos de organização coletiva. Nossas partidas fluíam por horas, até a iluminação dos postes acenderem e complicar um pouco a nossa visão. Enquanto isso, o programa do sábado à tarde disparava a ideia de que o esporte era um elevador social com a capacidade de nos tirar daquela realidade. Isso me intrigava um pouco.

            Nossas atividades tinham destaques que até hoje, é incompreensível a não atuação profissional deles. O Roberto era muito craque no futebol. Nossa... Incrível sua capacidade de domínio, passe, lançamento, drible. Eu vi sua foto na rede social com sua família e percebi o quanto seu filho está parecido com ele, na mesma idade. Ele lembra muito seu pai. O Walter era o “Marcelo negrão” do grupo. O J.R era um tubarão na praia. Uma espécie de Phelps. Sim! Era comum irmos juntos a praia e criarmos nossas disputas aquáticas. Todos gozando da pura e leve liberdade de não ser o primeiro do ranking. O capa de revista.

Eu lembro que não tínhamos problemas entre nós, a não ser as divergências entre os personagens dos fliperamas. Enfrentávamos nossas famílias taciturnamente, quando elas classificavam algumas companhias como “não interessantes”. De fato, e se tratando de um bairro periférico, quase esqueço, “O bairro da morte”, como esbravejava intencionalmente o radialista pela manhã, alguns dos que participavam de nosso círculo organizado eram envolvidos em atividades criminosas. A pobreza falou mais alto que a dignidade. Era muito fácil para alguns de nós, depois de nossas epopeias esportivas, retornarmos para nossas casas com, se não toda, uma parte da condição objetiva para se tornar um ser humano diferente... E essa foi a “peneira” que determinou quem iria continuar no jogo da vida ou não. Sobraram 6.

Por um instante Jeferson deu uma pausa no relato. Coçou a nuca, chutou algumas pequenas pedras. Um súbito momento de emoção interrompeu sua fala. 

- É isso, caro amigo, é essa peneira, na verdade uma trituradora de gente. Foi difícil pra mim continuar no esporte com família pra sustentar. É difícil. Isso até responde algumas questões sobre os revolucionários da Rubinéia. Não é à toa que muitos talentos, melhores até do que eu, foram devorados por ela. Transformados em cópias idênticas de seus pais até no pensamento. Tentamos nos reunir num aplicativo de celular, mas, foi um choque ter que dialogar algumas questões políticas com tantos reacionários. Foi nisso que se transformaram. Nenhum suspiro de rebeldia e transgressão da nossa época de ouro, onde enfrentávamos a ira das vizinhas mais “carolas” da rua, que até viatura da polícia chamavam para interromper nossas práticas. Enfrentávamos as regras do sistema que nos dizia que aquilo não nos preparava pra nada. Que seríamos marginais. Nem tentei continuar alguma conversa. Parecem que passaram por uma lobotomia, semelhante a do personagem Winston, do George Orwell. Até a dele demorou mais que 20 anos. São jovens com espíritos de velhos. Apáticos.

Jeferson pensou novamente, no quanto era complicado cobrar de seus antigos camaradas algumas leituras da realidade. Tendo que esconder suas opções políticas. Tendo que aceitar algumas condições em prol de uma vida pacífica. Que, extrair posturas progressistas só era possível depois de algumas leituras e aproximações. Por um instante, teve uma leve inclinação às regras do sistema, pois, no momento atual ter aproximação com um espectro político que não seja “destro” parece ser crime. Nestes momentos de desabafo sentiu-se abraçado por uma forte nostalgia, empatia, solidão. Reviver os camaradinhas era pra se sentir protegido. Sem se entorpecer.

Em sua atividade esportiva/profissional e em vários outros espaços de seu convívio, o pensamento dominante é contrário ao seu. Ao ponto dele preferir fazer qualquer desafogo durante o passeio com seu cão. Não queria incomodar ninguém. Ninguém entenderia mesmo.