terça-feira, 14 de agosto de 2012

Temos que salvar Neymar de nós mesmos, jornalistas

Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)
 
Nós, jornalistas, estamos destruindo Neymar. Claramente o superestimamos, e ele parece acreditar nas pataquadas superlativas que dizemos dele. Neymar é um grande talento, mas não é um fenômeno. Se a máscara tomar nele o lugar que deveria ser da dedicação humilde, e com nossa adulação bovina nós contribuímos para isso, Neymar terminará como Ronaldinho Gaúcho antes dos 25 anos. Será um Neymarzinho Santista.

Jogadores extraordinários têm desempenhos extraordinários em situações extraordinárias. Essa é a lei básica dos craques. Nas decisões, nos grandes jogos, ele simplesmente irrompe. É como Bolt no atletismo: ele apanhou de seu compatriota Yohan Blake em provas secundárias, neste ano. Mas em Londres, nas Olimpíadas, transformou Blake num aprendiz.

Neymar contra o Barcelona, Neymar contra o Corinthians na Libertadores, Neymar hoje contra o México: em todos esses casos, Neymar foi um a mais. “Ele tem que provar muito ainda”, disse um comentarista da BBC. É verdade. Mas nós o colocamos, muito antes do devido, na condição de quem já provou tudo. Oscar não corre este risco porque vai jogar no Chelsea. Fizemos de Oscar o que ele jamais foi, uma espécie de novo Sócrates. Mas Oscar, pelo menos por enquanto, nem sequer é Raí, o irmão menos brilhante de Sócrates.

Não define como Sócrates, não lidera como Sócrates, não arma como Sócrates. Em comum, a perna direita, o porte ereto e a posição. Se ele jogar no Chelsea o que jogou nas Olimpíadas, vai ser reserva. A imprensa inglesa é bem menos indulgente com os jogadores que nós, jornalistas brasileiros. Também somos míopes. Não percebemos ainda que o caso de sucesso esportivo do Brasil passou, já há anos, do futebol para o vôlei. Temos, sistematicamente, bons resultados no vôlei em competições internacionais – homens e mulheres, quadras ou areia.

Temos dois anos, antes da Copa de 2014, para tentar aprender com o vôlei. Uma das diferenças é clara: os jogadores e as jogadoras de vôlei não são estragados, como filhos mimados, por nós, jornalistas, e nossa mania de endeusar quem, como Neymar, não merece ser endeusado.

Retirado do Blog TRIBUNA DA INTERNET em 14 de agosto de 2012

2 comentários:

Jordão Vieira disse...

Acho que nem tanto nem tão pouco!! Não dá pra dizer que Neymar é um fenômeno, isso eu concordo. Porém, o problema do Futebol brasileiro não começa em Neymar! Muito pior do que ele é o Ganso...Neymar pelo menos não se esconde, erra tentando fazer o melhor dele, porém, não dá pra jogar só..quais são os craques do Brasil na atualidade? Só vejo ele mesmo. O que temos que entender é que o futebol mudou, mas o brasileiro fica sempre esperando por uma jogada milagrosa e individual que vai definir o jogo, mas atualmente será muito difícil acontecer!
O futebol moderno não admite mais este tipo de tolice. Futebol é coletivo, hoje em dia ganha o time que tem essa ideia mais clara!

Marcelo "Russo" Ferreira disse...

René Simões, s.m.j., em um partida do Santos com (ou contra, p'ra quem quiser) o Atlético Goianense (na Vila), disse em público e entrevista após a partida (Quando Neymar, indignado, xingou o técnico por não ter sido escolhido para bater um penalt): "estamos criando um monstro no futebol brasileiro"... Interesses comerciais e de marcas, interesses do Santos, a própria imagem junto aos "pequenos fãs de Neymar" que já cortavam o cabelo igual ao dele disseram: "Retrate-se!"... Resultado: Dorival Junior foi demitido, as marcas que o patrocinam continuam lucrando com a imagem dele, ele continua sendo imagem de ídolo de crianças (que, também, implica entrar no rol de "carros dos craques!") e, enfim, René estava certo: o monstro continua crescendo!!!
Vida Longa ao Esporte em Rede!
Eu já votei!