domingo, 22 de janeiro de 2012

Olhemos para a história: é pouca coisa para o povo, muita para o capital

No momento em que o Pan-americano do ano de 2007 foi decidido que iria ser no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, todo o discurso em volta das necessárias construções para abrigar o evento tinha como um dos argumentos o fato das obras servirem para abrigar, também, os Jogos Olímpicos, já que a sagrada família do esporte nacional tinha a pretensão de colocar a cidade como sede dos próximos jogos, pós Londres.

Pois bem. Assim foi feito. Novas estruturas foram construídas. Podemos lembrar do Estádio João Havelange, que passou logo depois para a iniciativa privada e para o clube de futebol, Botafogo, gerenciar e o Centro Aquático Maria Lenk. Este não serve mais para atender os propósitos aventados na época e que garantiram sua construção. Para os Jogos Olímpicos de 2016 abrigará, apenas, as competições de polo aquático e saltos ornamentais. Será necessário construir um novo complexo para abrigá as competições da natação e do nado sincronizado.

Cinco anos bastaram para que a estrutura do Maria Lenk ficasse obsoleta. Atualmente o conjunto aquático se encontra fechado e nem a comunidade de Jacarepaguá, carente de tudo e mais alguma coisa, tem acesso ao centro aquático para usar os seus equipamentos. Isso em um lugar, como muitos em nosso país, altamente carente de espaço de lazer. Um absurdo.

Nem estou mencionando aqui, a reforma pelo qual passa o Maracanã, que teve intervenções importantes no ano de 1999 e no ano de 2005. Ou foram muito mal feitas ou é mais um capítulo da farra com o dinheiro público. As empreiteiras agradecem.

Assim como foi para o Pan-2007, muitos discursos foram e estão sendo produzidos para a Copa e também para os Jogos Olímpicos. Nesses, o cenário é sempre paradisíaco e loucos, do contra, pessimistas, etc, etc, são todos aqueles que se aventuram na tarefa de procurar uma análise mais objetiva, menos emotiva e sem compromisso com o grande capital. Aliás, me permitam dizer rapidamente, estou preparando uma postagem sobre os dez homens mais ricos do Brasil e sua relação com os megaeventos. A proximidade é de assustar. Adianto que, por enquanto, até onde tem ido minhas pesquisas, quatro estão completamente envolvidos.

Mas, voltando ao discurso, nada melhor do que pegar um exemplo concreto para nos ajudar a perceber a realidade por trás dos mesmos. Para tanto, não podemos deixar de nos valer da África do Sul e vamos ficar em apenas dois, para não cansar o leitor.

Em primeiro lugar, a estimativa inicial do evento (Copa de 2010) era de 280 milhões de dólares. Custou 3 bilhões e 700 milhões. Previa-se um aumento do Produto Interno Bruto (PIB) do país na ordem de 3%. Ficou entre 0,2 e 0,3%. Estamos aqui trafegando a pista do aspecto econômico. Se pegarmos a próxima bifurcação e entramos nos aspectos relacionados aos direitos humanos, vamos encontrar absurdos bem maiores. Na época do Pan, refresquemos nossas memórias, oficialmente, 1.330 civis foram mortos pela polícia do Rio. Um recorde indígno de qualquer tipo de medalha.

E o que estamos vendo atualmente? A política de "pacificação" dos morros e favelas; remoções arbitrárias das famílias, muitas com prazo de zero dias para desocupar suas moradias (tratamos disso em uma postagem de abril do ano passado, clique aqui para ler); prisões sumárias de civis entre outros eventos, muitos deles parecidos com os que ocorreram também na África do Sul.

Diante do exposto, precisamos ter muito cuidado sobre o que ouvimos por aí em relação aos megaeventos esportivos no Brasil. Não precisamos passar por tudo o que os africanos hoje passam para percerber o que realmente existe nas entrelinhas do discurso oficial.

Olhemos para a história: é pouca coisa para o povo, muita para o capital.

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