domingo, 5 de dezembro de 2010

Geopolítica do esporte

Nos dias 19 e 20 do mês de novembro passado, na cidade de Lisboa, Portugal, foi realizada a Cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Inspirada para fazer frente na chamada Guerra Fria e também lutar contra a dita ameaça socialista vinda do leste europeu, os países que compõem a otan (Bélgica, Canadá, Estados Unidos da América, França entre outros) procuraram na reunião de cúpula resolver o seu problema de identidade, já que os elementos inspiradores da criação deste organismo internacional já não se fazem mais presentes como antigamente.

Um dos elementos da pauta da reunião, em função das novas configurações geográficas, as crises econômicas e a necessidade de discutir setores energéticos fundamentais no século XXI, foi a redefinição de seu "Conceito Estratégico", acrescentando ao mesmo a necessidade de ampliação e cooperação com outros países e organismos internacionais, incluindo aí, advinhem, a outrora arqui-inimiga Rússia. Sendo assim, o líder do Kremlin, senhor Dmitri Medvedev, foi convidado a participar da reunião de cúpula, sendo o primeiro do seu país a ter essa "honra".

Esse fato me ocorreu logo após tomar conhecimento da escolha pela Fifa dos próximos países sedes para a Copa do Mundo de 2018 e 2022, Rússia e Qatar, respectivamente. Coincidência ou não, o fato é que esses países são altamente estratégicos para as intenções objetivadas pela Otan na sua reunião de cúpula, que além da Rússia, considera a Ásia Central como continente vital para conquistar parceiros de fora do eixo Atlântico Norte.

Em um artigo que encontrei ao pesquisar sobre este assunto para redigir esta postagem, o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira nos lembra que no ano de 1992 "(...) Dick Cheney, como secretário de Defesa do governo de George H. W. Bush, divulgou um documento, no qual confirmou que a primeira missão política e militar dos Estados Unidos pós-Guerra Fria consistia em impedir o surgimento de algum poder rival na Europa, na Ásia e na extinta União Soviética". (Leia o artigo na íntegra clicando aqui).


O Qatar embora faça parte do Oriente Médio, é estratégico para os objetivos dos países membros da Otan em função das suas reservas energéticas (gás e petróleo) e a Rússia é de longe um país militarmente forte. Ela, junta com a Otan, contém nada mais, nada menos do que 95% das armas nucleares do mundo.

Tudo isso pode parecer simples coincidência ou até devaneio de minha parte, mas são elementos interessantes para pensarmos a relação geopolítica do esporte. Dois outros elementos acrescento. Um, de ordem econômica. Segundo o site Máquina do Esporte, a Copa do Mundo de 2018 "(...) pode representar um impacto de até 24 bilhões de euros no futebol local".

O outro elemento é de ordem cultural. Ainda segundo o Máquina do Esporte, "(...) a escolha reforça política adotada pela Fifa desde a época em que a entidade era presidida pelo brasileiro João Havelange. A entidade esforçou-se, nas últimas décadas, para propagar a imagem de disseminadora do futebol por diferentes culturas".

Tanto um, como o outro elemento não são excludentes. Pelo contrário, se interpenetram nessa lógica contemporânea que tem o esporte como uma das expressões da mundialização do capital, da financeirização da cultura, da indústrialização do entretenimento entre outros. A geopolítica do esporte é a política elevada a sua enésima potência.

10 comentários:

Anônimo disse...

welington você como sempre está de parabens po mais uma postagem bem esclarecdora.

muito obrigado por colocar o meu comentario do bahia no seu blog.

( Rivelino.futebol@hotmail.com ) blog (
http://rivelinosantos.wordpress.com/

Anônimo disse...

É Rivelino.

boa noite meu amigo, você esta lendo o meu blog?

eu queria saber a sua opinião.

tem matérias todos os dias.

um abraço

José disse...

Muito bom essa sua análise da escolha das próximas sedes da Copa do Mundo. Cada vez mais o esporte fica em segundo plano e a FIFA resolve escolher muito mais por critérios políticos e econômicos. Sou Geógrafo e tenho um artigo publicado sobre geopolítica no futebol atual. Interessados: http://www.cantacantos.com.br/revista/index.php/geografias/article/view/128/94

Welington disse...

Olá, Rivelino. Tenho lido sim o seu blog sempre que posso. Inclusive queria te sugerir a leitura da postagem nesta página do texto "Por que o espanto?" O mesmo fala en passant sobre a eleição do fluminense e um indício de marmelada. Já lhe dei parabéns por email e aproveito o momento aqui e renovo o desejo. Siga em frente!!!

Welington disse...

Olá, José. Muito me agrada uma opinião positiva de alguém da área da geografia sobre a postagem. Tentei acessar o seu texto pelo link que deixastes no comentário mas não consegui. Procurei na própria revista pelo seu pré-nome, demorou um pouco mas encontrei o mesmo que já socializei com alguns companheiros do grupo de pesquisa que temos na UEFS. Para os que se interessaram em saber o conteúdo do texto do José, o endereço correto está logo abaixo. É copiar e colar no browser. http://www.cantacantos.com.br/revista/index.php/geografias/article/view/128/94 Boa leitura para todos.

Welington disse...

Complemento do link que coloquei no meu comentário que também não ficou legal para acessar o texto do José Eliomar Filho. Logo após "geografia" acrescentar os ítens abaixo no próprio browser:

/article/view/128/94

Outra forma de acessar o texto é colocando o nome do autor do mesmo na página de busca do google.

José disse...

Boa postagem e bom texto do meu Xará, josé. Parabéns professor por oportunizar esta interação.

Elson Moura disse...

Li o artigo; muito bom!
Aos que dizem não gostar de discutir sobre "política" no esporte, é bom que saibam que não precisa discutir para que esta relação aconteça. O texto do José, mostra claramente que o esporte não fica de fora da lógica mercadologica do Capital.
E aí, vai ficar de fora da realidade?!?!?!
Parabéns Welington e José!!

Melchior disse...

Professor Welington, parabéns pela postagem e por oportunizar esta interação. Não tinha ainda pensado no esporte nesta perspectiva e nem na do texto do José Filho. Muito interessante!

Welington disse...

Pois é, Melchior. Para muitos é difícil imaginar o esporte sendo tratado desta forma. Alguns até perguntam: por que a televisão, os jornais, as rádios e revistas especializadas não divulgam estas informações? Resposta: medo de manchar o produto, pois foi nisso que o esporte se transformou, um produto a mais nas prateleiras dos supermercados espalhados pelo mundo. Desmanchou-se no ar como, evidentemente, praticamente tudo.