domingo, 2 de maio de 2010

Até quando?

Escolhir para a postagem desta semana comentar uma denúnica publicada no site do IG que aborda temáticas relacionadas à Copa do Mundo. A reportagem denúncia é do jornalista Allan Brito e o mesmo toma como suporte para desenvolver a matéria um livro publicado pelo Instituto de Estudos de Segurança da África do Sul, intitulado "Player and Referee: Conflicting Interests and the 2010 FIFA World Cup", traduzido livremente pela reportagem como “Jogador e árbitro: conflitos de interesse na Copa do Mundo de Futebol de 2010”.

"Jornalistas investigativos da África do Sul e do Reino Unido foram os autores do livro, que traz à tona seis situações relacionadas a construção de estádios, seleção de fornecedores oficiais, práticas de concorrência pública e estrutura de fiscalização governamental. Tudo isso teria ocorrido sem qualquer transparência e até com manipulações. São citados casos que envolvem propina, fraude e extorsão".

Muitos elementos relatados devem servir para os brasileiro refletirem sobre a Copa do Mundo que se realizará por aqui em 2014. Um dos casos relatados e que preocupam a população africana diz respeito a construção de estádios considerados verdadeiros elefantes brancos. É citado na reportagem o caso do Green Point(foto), estádio situado na Cidade do Cabo que custou a bagatela de R$ 1,15 (um bilhão e quinze milhões de reais) por força da vontade dos senhores dos anéis encastelados na Fifa (Federation Internationale de Football Association). Se o mesmo terá alguma serventia pós-Copa, isso não é matéria que preocupem os botões de seus paletós. O fundamental mesmo é que a maior beneficiária da Copa do Mundo é a FIFA e o país sede é que tem que arcar com “ (...)uma parcela desproporcional dos custos", aponta o estudo de impacto econômico presente no livro.

Um outro ponto, que ao meu ver atinge diretamente a figura do representante-mor da FIFA diz respeito "a pouca concorrência aberta pelos lucros com a construção dos estádios ou até mesmo com os serviços oficiais durante o evento. A Match Hospitality é citada como exemplo de empresa suspeita. Ela tem entre os seus acionistas ninguém menos que Philippe Blatter, sobrinho do presidente da Fifa, Joseph Blatter. Com essa facilidade, ela teria conseguido, sem grandes concorrências, direitos exclusivos para oferecer pacotes de hospitalidade a clientes empresariais".

O que para nós não é nenhuma novidade e nos faz lembrar dos benefícios de parentes do senhor Nuzman quando da realização do Pan-Americano aqui no Brasil entre outros fatos. Aliás, aproveitando a deixa, abro um parêntese para perguntar sobre a tal da CPI do Pan. Por onde e a quantas anda? Questionamento inclusive feito também, em fevereiro do corrente ano pelo jornalista José Cruz, em matéria publicada no seu blog.

Como entendemos que esporte atualmente é negócio, um fenômenos com alto potencial de reprodução do capital e que agrega valor a diferentes mercadorias e alimenta a ganância e vaidade dos poderosos que se esforçam em não se deixarem pegar com cifrões nos olhos, não tomamos os elementos expostos aqui e no livro com nenhum tipo de surpresa e perplexidade. O que me surpreende mesmo é o silêncio de certos setores das mídias esportivas e a passividade com que algumas instituições e intelectuais importantes do campo da cultura corporal se comportam.

Mas talvez uma coisa tenha relação com a outra. O difícil mesmo é compreender nessa relação as regularidades fenomênicas que nos permitam dar um salto qualitativo rumo a uma política de esportes para todos e não para os mesmos.

Talvez se perdéssemos o medo de ferir suscetibilidades, compreendendo a crítica franca e fraterna como elemento fundamental do esclarecimento como verdade revolucionária, tal como nos ensina Trotsky quando nos diz que "expor aos oprimidos a verdade sobre a situação é abrir-lhe o caminho da revolução", estudos como esse, pontuado aqui, nos inspirassem a não fazer mais do mesmo com sempre os mesmos, que nos iludem ao ceder os seus anéis dizendo que estão inovando, quando, na verdade, não querem é perder os seus dedos onde colocarão mais e novos anéis. Até quando???

8 comentários:

Éverton Renan disse...

Muito bom professor! Em relação a "omissão' de alguns setores da mídia, me fez pensar em uma entrevista do jornalisata Juca Kfouri, onde perguntado sobre o poder midiático, este simplesmente opinou que se a mídia tivesse esse poder que dizem, não existiriam mais Ricardos Teixeiras, nem outros presidentes de confederações esportivas cometendo absursdos com verba pública, além de inúmeros mandados consecutivos "antidemocráticos"!

abraço

Welington disse...

Pois é, Éverton. Muito bem lembrado. É importante também pontuar que jornalistas como Kfouri, Cruz, Trajano, entre outros, fazem a diferença e tornam a mídia esportiva digna dos ideais republicanos.

dado disse...

Fraternalmente, parabéns por mais uma análise precisa, digamos, sobre o FUTEBOL...

Michael Daian disse...

Parabéns professor pela postagem... isso me faz lembrar que em 2014 infelizmente o dinheiro público será aplicado em projetos "privados" e um número reduzido de pessoas terão acesso aos benefícios desse dinheiro. Sempre assim...a minoria dominante, FIFA, Clube dos 13, CBF,..apoderam-se e perpertua no poder.

Welington disse...

Grande Michael. Obrigado pela visita e comentário. Felizmente ou infelizmente, o que temos que fazer é continuar no debate e na luta em favor da democratização da cultura corporal. E a solução é a tomada do poder pela classe trabalhadora. As condições objetivas para tanto já existem, embora não se expressem nas subjetividades, estas há muito mergulhadas nos processos ideológicos e alienantes do movimento do real. Vamos em frente porque a luta é para vencer!!!

Welington disse...

Para fazer justiça a prata da casa, gostaria de colocar no nível dos jornalistas citados, o baiano Nelson Barros Neto, também jornalista, responsável por muitas matérias que extrapola o trivial no jornal A TARDE.

Anônimo disse...

Eu ainda fico surpreso e perplexo diante de tanta podridão. Tenho dó do povo da África do Sul que não será beneficiado com a Copa e tenho dó também do nosso povo. Tanto desperdício de dinheiro é uma afronta diante dos hospitais sucateados, das escolas sem carteiras, da fome que ceifa tantas pessoas, da dengue, da falta de segurança, das crianças nos faróis, das enchentes. Uma afronta que tem a cara perversa do capitalismo. É tudo uma questão de esporte pelo dinheiro, afinal, é o único jogo que os "senhores dos anéis" sabem jogar.



Kuat

PAULO KRAIDE PIEDADE (PAULOFILÉ) disse...

Prof. WELINGTON & Blogueiros

"Ói nóis aqui otráveis"...

Tudo bem?

Pois é, até a FIFA, quem diria, acabou no Irajá... o clã dos Blatter perdeu a compostura(ou vergonha...).
Sabe professor, tem um texto do Marcelo Tas, sobre o PT, que se enquadra no assunto, está no meu Blog (http://paulofile.blogspot.com/)
para quem se interessar. Resumindo, enfoca e recrimina a postura do "Todo mundo erra, todo mundo rouba e nós também podemos..."
Sei lá, não vejo saída honrosa para o mundo capitalista(sic), pois, valem apenas as teorias do "quero mais", da "mão grande", escândalos e mais escândalos... Será que ninguém crê na lei da ação e reação? Independente do credo de cada um, creio que "colhemos aquilo que plantamos"... portanto, eleitores merecem os políticos que tem e esportistas merecem os dirigentes esportivos que tem... a conivência é o pecado capital e a penitência acaba sendo de todos...

Forte abraço.

PAULOFILÉ