domingo, 16 de agosto de 2009

O silêncio da imprensa esportiva baiana


No dia 25 de novembro de 2007, o Estádio Otávio Mangabeira foi palco de um episódio trágico: parte das arquibancadas do seu anel superior caiu, vitimando torcedores do Esporte Clube Bahia que jogava, naquela fatídica tarde de domingo contra o Vila Nova de Goiás, em busca da ascensão para a Série B. O intento foi conseguido sob o manto da tragédia.
O saldo desta foi sete torcedores mortos e mais de 80 feridos que foram encaminhados para o Hospital Geral em estado grave. Durante os dias que antecederam ao jogo, a imprensa esportiva radiofônica incitava o povo para encher o estádio. Nada mais do que cinco trios elétricos estavam prometidos. As rádios fizeram promoções, enfim, todos estavam envolvidos em criar uma "corrente pra frente" visando o jogo. O povão, carente de oportunidades de lazer, atendeu o chamado. Lotou o estádio e o seu entorno. Todos prontos para a festa, mas, o final deste jogo todos nós já sabemos.
De imediato, sob pressão, o governador Wagner disse que iria demolir A Fonte Nova. Na oportunidade, em outro blog, eu dei minha opinião, me posicionando contra a decisão e a favor de uma consulta popular para decidir o destino do Estádio, já que o mesmo não se reduzia ao campo de futebol, mas abrigava também uma escola e uma piscina públicas, sem falar em outros serviços prestados à comunidade do Dique do Tororó e imediações.
Um dia após o episódio (26.11.07), assim me pronunciei em relação ao papel da imprensa esportiva no episódio no blog movimento do real."Quem são os culpados? Quem vai pagar pelos acontecimentos ocorridos no final da partida de ontem no Estádio Octávio Mangabeira, mais conhecido como Fonte Nova, quando no lugar dos gritos de alegria e de festa pela ascensão do Esporte Clube Bahia à Série B do Campeonato Brasileiro, tivemos choros e gritos de angústia e desespero por conta das vítimas do desabamento de uma parte da arquibancada?
Essas perguntas atravessaram toda a programação do “Se liga Bocão”, e do “Balanço Geral”, dois dos principais programas populares aqui de Salvador que vão ao ar todo meio-dia.
Importante salientar que todos os dois programas são ancorados por radialistas. Um, que atualmente trabalha nas transmissões esportivas pela rádio transamérica e o outro, que já trabalhou por muito tempo como comentarista esportivo.
Todos os dois buscaram culpados pela tragédia que acabou sobrando para o Governo do Estado e o Superintendente da SUDESB (Superintendência de Desportos do Estado da Bahia), o ex-jogador do Bahia, Bobô.
Sem querer tirar as responsabilidades dos elementos citados acima, gostaria de pontuar o que considero ser importante. Em nenhum momento a imprensa esportiva baiana, que vive a incentivar os torcedores do Bahia para que encham a Fonte Nova, para que lotem o estádio e prestigiem o seu “esquadrão de aço”, se posicionou de forma crítica sobre os seus próprios atos.
Se a imprensa sabia dos laudos técnicos sobre a Fonte Nova que apontavam para uma reestruturação da mesma, por que incentivava tanto os torcedores a irem ao estádio? Por que ao invés disso, não esclarecia o torcedor sobre os riscos iminentes de uma lotação excessiva da Fonte Nova?
Agora a mesma imprensa que aplaudia os 50, 60 mil torcedores que iam à Fonte Nova torcer pelo seu time do coração, que enaltecia em todas as programações radiofônicas ligadas ao esporte o fato de em plena série C, o time do Bahia colocar uma média de mais de 30 mil torcedores por partida, apedreja o Estado (...)".

Eis que mais uma vez a imprensa esportiva silencia. No caderno específico sobre esporte do maior jornal do Norte e Nordeste do Brasil, nenhuma nota sobre a decisão da justiça (?) sobre a absolvição do senhor Bobô e o senhor Nilo Santos Júnior, únicos a serem julgados do total de 5 indiciados pela Polícia Civil à época, foi redigida nos cadernos de sábado e domingo.
A conclusão que podemos chegar,já que ninguém foi responsabilizado pela tragédia, é que os culpados foram as próprias vítimas.
Enquanto isso, as famílias lutam na justiça pelas indenizações prometidas pelo Estado. Das sete famílias, duas ainda não receberam o seguro do ingresso (no valor de R$ 25 mil) e três ainda não tiveram decisão favorável do governo, prevista na Lei Estadual nº 10.954, quanto ao pagamento das pensões.
Sobre a situação da absolvição, assim se expressou o Coordenador do Curso de Educação Física da UFBa, professor Cláudio Lira: "Aqui se mata a rodo e não se pune nada. Ainda assim tem gente que crê na possibilidade de saída institucional pela via da democracia (alçada a valor universal, ou seja, sem classes). Para render uma homenagem aos que guardam ilusões, São Gregório de Nissa - no seu sermão aos usurários - diz: "de que adianta consolar um pobre se tu ajudas a fazer outros cem?"
Pois é. De que adianta? De que adianta tanto empenho em fazer da Bahia e de Salvador, especificamente, uma rota do esporte internacional, se tratamos de forma tão vil o nosso povo, desconhecendo, inclusive, os seus direitos legalmente constituídos? De que adianta a tão propalada liberdade de imprensa se esta fica a serviço do sistema? Quando a imprensa vai paltar de forma séria e aprofundada as questões de fundo da relação entre esporte e sociedade e dá voz e vez aos despossuídos da terra?
Muitas perguntas e uma certeza: as respostas não estão nos encartes esportivos.

9 comentários:

Adonis Cairo disse...

A população baiana e, sobretudo, as famílias dos vitimados na tragédia da Fonte Nova aguardam as medidas do Estado. NO entanto, o Estado já disse com todas as letras quais as suas medidas. E são medidas tão estreitas com relação à população quanto largas com relação àqueles a quem apadrinha e de quem obtém apoio político.
O mesmo Estado que devia ser processado pela tragédia (já que a segurança e o bem-estar físico da população são, em última instância, responsabilidades do Estado)também deveria ser processado pelo hediondo crime de que foi vítima a médica pediatra sequestrada por um estuprador que estava nas ruas por autorização de um juíz.
Em resumo: não podemos fazer justiça com as próprias mãos e não podemos contar com a segurança que o Estado se jacta de garantir a todos os cidadãos.
Aguardamos todos uma resposta, é verdade. Mas também é verdade que os nossos políticos, o senhor prefeito, o senhor governador e todos os seus asseclas, esperam nossas respostas nas urnas. Continuaremos apostando no "projeto político e social" que o senhor Jáquisson Váguiner representa? Continuaremos acreditando na "oposição resposável" do senhor Juão Enriqui?
As eleições estão nas portas. Eles não votam em nós. Nós votaremos neles?

Maria de Fátima disse...

Olá Wellington,

Cheguei a conclusão de que os governos não priorizam o bem estar da maioria, porque nós não vamos para a rua reivindicar o que nos interessa. O artigo abaixo ilustra muito bem o que digo. Referido artigo saiu hoje no jornal A Folha-SP.
Leia e reflita.
Abraço,
Fátima

CLÓVIS ROSSI (jonal Folha-SP, de hoje).

Yes, você pode. Quer?

SÃO PAULO - O jornal espanhol "El País" revisitou ontem Rahaf Harfoush, a moça canadense que foi uma das estrategistas da campanha na internet de Barack Obama, tida como a razão do sucesso.
Suas observações são um valioso guia para os incontáveis leitores que reclamam por e-mail dos congressistas e pedem sugestões sobre como atuar para acabar com a pouca-vergonha.
Harfoush ensina, primeiro, que "o importante é a estratégia, não a tecnologia". Acrescenta que "é fácil criar perfis, fazer amigos no Facebook ou ter blogs". Mas "o objetivo era que as pessoas saíssem às ruas e votassem. Se todo esse esforço na rede não se tivesse traduzido em votos, não teria valido de nada".
É o que já escrevi aqui e digo sempre aos leitores: restringir protestos e ações à internet pode ser uma excelente maneira de acalmar a própria consciência e de sentir-se participante ativo, mas, como diz a perita da turma de Obama, "não vale nada".
No caso brasileiro, o que vale é convencer os eleitores a não votar em todos aqueles que, a juízo de cada leitor/eleitor, participam da grande esculhambação.
Não adianta também ficar no velho esquema de "nós com nós mesmos", uma característica da internet. Ou, em linguagem mais fina, pregar aos convertidos. É preciso inventar e, acima de tudo, pôr em prática um meio de atingir os eleitores dos políticos visados, a grande maioria dos quais não frequenta internet, Facebook, Orkut.
Para fazer a campanha de Obama, Harfoush diz ter largado tudo -namorado, apartamento e emprego- para mudar-se para Chicago, que não é exatamente a mais agradável cidade do mundo, mas era o QG do candidato.
Não recomendo a ninguém tanto sacrifício, mas, se a indignação que exalam nos e-mails é para valer, no mínimo terão que tirar o bumbum do sofá.

Anônimo disse...

Tio Well,

Gostei muito da crítica a tal impunidade na Fonte e de acordo com minha humilde experiência na política nesta cidade de itabuna e frente a outros acontecimentos pelos quais a população passa e vem passando,chego conclusão que é do próprio povo a responsabilidade! Isto porque no momento da escolha dos seus representantes políticos, que administrarão sua cidade, seu Estado e seu País, tratam esse procedimento eleitoral com descaso, votam em quem lhes dão um mero saco de cimento ou coisa parecida, não sabem que por traz de um singelo voto, poderão mudar toda a realidade e o futuro! Cada vez mais percebo que estamos vivendo um ciclo: "politicos comprando votos + povo que se vende" = realidade!! E não é recente tal comportamento, pois desde a antiguidade greco-romana existia a política do "pão e circo" = comida e diversão para o povo!
Destarte, quantos gerações deverão passar para o povo finalmente reconhecer que possui o poder em suas próprias mãos??
Sinceramente, acho que vai demorar um pouquinho!!
Ass: George cardoso (gegeocardoso@hotmail.com)

SARDINHA disse...

PARABÉNS PELO ESPAÇO E PELA EXCELENTE MATÉRIA SOBRE A FONTE NOVA.
INFELIZMENTE A (IN)JUSTIÇA DE NOSSO PAÍS É ASSIM MESMO: PUNE INOCENTES E ISENTA CULPADOS.
MAS A CULPA É DO POVO QUE NÃO SABE O PODER QUE TEM PARA PODER COBRAR O QUE É SEU DE FATO E DIREITO.
MAS ENQUANTO MUNDO FOR MUNDO E AS PESSOAS ACHAREM QUE O RUIM SÓ ACONTECE AO PRÓXIMO VAI SER SEMPRE ASSIM.
MAIS UMA VEZ PARABÉNS E CONTINUE ASSIM.

Nilton Késsio disse...

Welington;

Está questão de culpabilidade da vítima é bastante presente em nossa sociedade, se pararmos para pensar até as pessoas comuns entendem dessa maneira, os governantes são eleitos pelo povo para gerir as cidades, estados e países, assumindo seus direitos e deveres, sendo responsabilizados pela boa ou má administração pública, está é uma questão pouco entendida pela sociedade, a gestão dos equipamentos de esporte e lazer públicos é de responsabilidade direta do estado, quando não são conservados e estes causam prejuizos a população o estado deverá ser responsabilizado, estendendo está responsabilidade para os responsáveis direto pela gestão do equipamento.
Professor acredito que se nossos governantes tivessem a clareza de seu direitos e principalmente seus deveres,"fatalidades" como estás ocorreriam menos.

Welington Silva disse...

Querido Geo, meu sobrinho.

As atuais condições de reprodução da sociedade que criticamos é a expressão das relações sócio-históricas, complexas e contraditórias, que vem se desenvolvendo ao longo do desenvolvimento da humanidade. Nesse sentido, entendo que não é correto pensar nessas relações sociais como se elas estivessem sendo constituídas hoje e tenha caído do céu feito chuva ou brotado do chão feito grama. Elas devem ser pensadas historicamente.
Este povo que ai está, sendo culpabilizado pelos males sociais, é parte característica dessa reprodução social. Este povo que aí está, se vota por favorecimento, para receber um saco de cimento, uma dentadura ou coisa que o valha, é por não ter tido, ainda, em função do modo de reprodução da vida atual, capitalista, desumana, egoísta, individualista etc, etc, as suas necessidades básicas e vitais atendidas.
Retirar desta materialidade as questões postas aqui, é entrar num debate moral e maniqueísta, considerando que os bons, os mocinhos da história, os bem formados, os filhos da elite são os modelos que devem ser reproduzidos para uma nação pujante, pois os problemas da nação, da sociedade brasileira vem dos analfabetos, dos desempregados, dos que não sabem votar, etc, etc. Não é bem assim.
Pensar que quando conseguirmos votar certo, quando todos nós aprendermos a votar, então solucionaremos o problema da nação é, no meu entender, um engano. É só olhar para o nosso parlamento hoje e verificarmos o quanto isso é enganoso. Será que só foram os votos do que você chama de "povo" que botou os diversos "sarneys" lá dentro? Será o parlamento necessário ou ele é apenas, como nos diz o Gramsci, o gerente da burguesia? A crise que tá aí, parece concretizar o pensamento do filósofo sardenho. Gastamos bilhões de dólares para salvar banco, mas não temos para investir em educação, saúde, habitação entre outros. É este o Estado que temos, fruto das relações sociais onde todos nós, indistintamente, estamos.
Veja a nossa mídia maior que poderia servir para ampliação das nossas conciências. Prefere falar, todas as sextas sobre bicho, natureza, alimentação, pedra preciosa... e o país pegando fogo!!! Nada é feito para ampliar as consciências alienadas, tanto da buguesia quanto do proletariado, só para ficar com as duas classes fundamentais da sociedade capitalista. Por que é assim? Falta espaço aqui para desenvolver esse raciocínio.
Segundo Pochman, diretor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 10% dos brasileiros, 20 milhões de pessoas, vivem com uma média de 35 reais por mês. Um pouco mais de um real por dia. Sem falar naquele que nada tem e daqueles que embora tenham um pouco mais, só tem o suficiente para repor as condições da suas forças físicas, próprias para continuar trabalhando, reproduzindo o capital no chão das fábricas.
Considerar que essas pessoas, que são a maioria da nossa população de 190 milhões de habitante, é a causa das dores da sociedade atual é, no mínimo, uma atitude preconceituosa, rica em idealismo, próprio de um pensamento que naturaliza os fenômenos sociais.
Quem sabe, meu querido sobrinho, pessoalmente, possamos conversar sobre isso, já que nunca tivemos condições para tal. E então, aprofundarmos essas questões. Por fim, fica aqui mais uma vez o meu agradecimento pela sua participação e a oportunidade do início de uma interlocução que espero frutífera.

Abraços fraternos

Welington Silva disse...

Valeu, Késsio.

A questão que se coloca para nós é qual o papel do Estado e dos seus órgãos representativos no conjunto da reprodução da sociedade capitalista? Leia a resposta que escrevi para George, logo acima. Sem essa compreensão, imagino que o debatge sobre a resposabilidade social seja de que governante for, cairá no idealismo.

Nelson disse...

Olá Welington.
Dei uma olhada em seu blog e você, infelizmente, está equivocado. A absolvição dos dois acusados pela tragédia não só saiu no jornal A Tarde, logo no dia seguinte à decisão, como estampou a manchete da capa do jornal. E ainda demos com destaque o pedido de recurso feito pelo Ministério Público, dias depois. Vale uma retificação no texto.
PS: Ambas as edições estão disponíveis para consulta no site do jornal.

Abraço,
NELSON

Welington Silva disse...

Caro Nelson. Obrigado pela atenção dispensada, mas não há equívoco nenhum, pois no material postado me refiro, conforme o próprio texto diz, logo após a referência em negrito, especificamente ao Caderno de Esporte do sábado (15/08) e do domingo (16/08), quando os mesmos são mais lidos. Alíás, ambos os encartes com chamadas muito parecidas. A do sábado em relação ao técnico do Esporte Clube Bahia e a do domingo em relação ao técnico do Esporte Clube Vitória. Sabemos do potencial do caderno de esporte do jornal A Tarde, que já deu demonstração em outros momentos das possibilidades de pautar matérias que ultrapasse a visão funcional do esporte expressa apenas nos seus aspectos técnicos e táticos. O caderno deste domingo, inclusive, é digno de nota 10!!!
Mais uma vez, muitíssimo obrigado pela participação e atenção dispensada.