domingo, 27 de dezembro de 2009

Que tudo não se realize

Estou sentindo muitas dificuldades de desejar boas festas, bom natal, feliz ano novo ou qualquer coisa que o valha nesse ano. As coisas que tenho percebido ocorrer no nosso cotidiano não me permitem enganos e enganar os outros. Portanto, não teremos um ano feliz. Sinto dizer.

Crianças continuarão a morrer de fome. Jovens e adultos também. Muitos, além de morrerem de fome, continuarão cometendo suicídios por não terem os seus legítimos anseios satisfeitos. Além da fome, doenças facilmente curáveis continuarão matando as crianças. Não todas. As chuvas, em função do desmatamento irracional feito pelos homens, continuarão inundando e matando os homens e mulheres. A culpa voltará a ser dos ratos que se escondem nos esgotos. O menino morreu de leptospirose. É um novo nome para a irracionalidade. Calazar é o sobrenome.

A dengue continuará. Outra epidemia aparecerá, mais forte e com mais letras e números. A corrupção continuará e os corruptos também, impunes como sempre. Obama, o prêmio Nobel da Paz, continuará a enviar mais homens para ampliar o contingente no Iraque e no Afeganistão. Mas tudo em nome da paz, pois essa só se garante com guerra.

Os hospitais continuarão cheios e com leitos cada vez mais lotados. Os planos de saúde, sorridentes pelas ampliações das doenças, aumentarão as mensalidades, alertando, para evitar inconvenientes, que não cobrem todas as doenças.

O setor da educação continuará dividido entre aqueles que são educados para ocupar um mercado de trabalho cada vez mais incerto e outros que são educados para pensar como ampliar o mercado, pois o mesmo está incerto, usando cada vez menos a força de trabalho que está sendo educada para o trabalho precarizado. O setor esportivo continuará perpetuando os de sempre, que continuarão a fazer o que sempre fizeram.

Existem muito mais coisas. Inclusive, às boas. Mas preferir às ruins. Pois sei que seus ouvidos estão sendo invadidos por palavras de otimismo. Isso é bom. Mas aprendir com Chico de Oliveira que o otimista é o pessimista mal informado.

Para não finalizar a mensagem sem nenhuma esperança, desejo que tudo isso que coloquei acima não ocorra.

É o meu desejo sincero. Apenas isso.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tá todo mundo doido!!!

Barack Obama, logo após ter sido agraciado com o Nobel da Paz enviou 14 mil homens para a guerra fabricada pelo seu próprio país contra o Iraque. Herança do Bush júnior, de quem 44% dos cidadãos estadunidenses já sentem saudades.

Tudo é possível nesse mundo maluco e para completar a doideira, o mesmo Obama, dez dias antes de receber o prêmio aludido acima, não satisfeito com o contingente de soldados no Iraque, que durante a sua campanha o próprio prometeu reduzir, mandou mais 30 mil homens, tudo justificado pela chamada "guerra justa". Para os fabricadores de consenso, nesse caso em especial, guerra é paz.

E o que dizer da classificação da seleção francesa para a Copa da África do Sul? Uma beleza. Aliás, muito coerente com o mar de lama que atola os times europeus, afundados que estão nas mais de 200 partidas fraudadas pela márfia do futebol, coisa que nós brasileiros conhecemos muito bem - e com certeza não lembramos - pois já tivemos (ou será que ainda temos?) a nossa surcusal, intitulada márfia do apito. Mas que fique claro que isso tudo não me surpreende, pois assim como o meu quase sempre inspirador Mino Carta, editorialista da revista Carta Capital, acredito que "o futebol é negócio sujo, dominado pela ganância e marcado pela lavagem de dinheiro".

Aliás, dinheiro mesmo foi o que Raymond Domenech ganhou com a "honrosa" classificação da França, uma bagatela de 826 mil euros (dois milhões e meio de reais, aproximadamente). Dinheiro com sabor de roubo. Os senhores dos anéis, das cuecas, das meias e panetones sabem bem o que é isso e já que estamos falando de dinheiro, nada melhor do que ouvir a economista Christine Lagarde, francesa, sobre o acontecimento: "Honra-se a camiseta da seleção com muito suor, embora haja quem cuide de comprá-la". Retórica? Talvez. Mas que soa bem aos meus ouvidos, isso soa. Ainda mais vindo de alguém que não é ativista, marxista, maluca, estressada, pedagogenta, utópica ou qualquer outro adjetivo a enriquecer os jargões dos fabricadores de consenso.

Voltemos ao meu inspirador Mino Carta:"A fraude do gol francês é algo mais que metáfora das mazelas do futebol, exprime, em geral, a desfaçatez e a prepotência de quem puxa os cordéis em todos os quadrantes. E a irresponsabilidade. Eis aí, a desfilar diante de nossos olhos, a encenação de Copenhague, onde se verifica que a bem dos países ricos, é melhor salvar os bancos do que floresta".

É melhor fazer a guerra, pois só assim teremos paz. É melhor ganhar, mesmo roubando, pois ganhar é o que interessa, o como é só detalhe. Entre floresta e capital...capital, é claro!

Continuemos com a doideira e reproduzamos os sempre bem vindos desejos de feliz natal, boas festas, um ótimo ano novo, pois fim de ano é isso, tudo aparentemente se renova, para logo depois, no primeiro dia do velho novo ano, os problemas retornarem com força total. Mas aí, estamos salvos de novo, pois depois do ano novo, vem logo o carnaval.

Completemos a loucura. Em nome da coerência não perdida, façamos uma corrente para a frente, torcendo para que a França seja a campeã do mundo no futebol em 2010.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ainda sobre Políticas Públicas

O Blog Esporte em Rede dará continuidade ao debate sobre Políticas Públicas de Esporte. Para tanto, trouxe mais uma entrevista. Esta, com o professor Elson Moura, que participou ativamente da audiência pública na Câmara de Vereadores de Feira de Santana como representante do curso de graduação em Educação Física da Universidade Estadual de Feira de Santana.

Esporte em Rede:Fale de sua trajetória pessoal e acadêmica.

Elson Moura:Tenho 28 anos. Entrei no curso de Educação Física da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana) em 2001 por conta de na época ser atleta de Karate. Minha vontade era dar continuidade na minha vida de atleta e fazer a transição para treinador. Por volta do 7° semestre me deparei com a leitura de Luiz Carlos de Freitas que me alertou para a necessidade de colocar minha energia para outros fins. Em paralelo, estagiando no SESI (Serviço Social da Indústria), me deparei com o livro de Paulo Freire (Pedagogia da Autonomia) e este sentimento de transformação só aumentou. Terminei o curso em 2006 e ingressei na especialização em Metodologia em Educação Física e Esporte da UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Ao fim da pós participei da seleção na UEFS para professor substituto e fui aprovado. Em 2009 fiz o concurso na mesma instituição e fui aprovado. Hoje sou professor da UEFS, professor da Rede Municipal de Camaçari, trabalhando na Educação de Jovens e Adultos. Também participo do Grupo LEPEL (Linha de Estudo em Educação, Educação Física, Esporte e Lazer) da UEFS bem como do Movimento Nacional Contra a Regulamentação do professor de Educação Física (MNCR) de Feira de Santana. Esta curta trajetória foi, no entanto, suficiente para que eu esteja esclarecido da necessidade de defender a Educação Física na perspectiva da Cultura Corporal, a educação numa perspectiva Historico-critica; bem como de colocar minhas energias (minha ação pedagógica e minha militância) à serviço de um projeto de sociedade Socialista – Comunista.

Esporte em Rede:Como se deu sua inserção na discussão sobre políticas públicas de esporte?

Elson Moura:Inicialmente meu interesse foi no fenômeno/produção humana esporte. Por conta do interesse neste conteúdo, aprofundei os estudos sobre o esporte e a contemporaneidade. Foi assim que o tema políticas publicas me interessou, embora assuma que o esporte continua sendo o meu objeto de grande interesse. Mas, na busca de entender este fenômeno na contemporaneidade precisei adentrar no estudo e entendimento sobre políticas públicas de esporte. Cheguei à conclusão que para entende esta relação, era preciso também entender a sua relação com o Estado.

Esporte em Rede:Na sua opinião existe uma política pública de esporte em feira de santana e região?

Elson Moura:Ao tentar responder esta pergunta me deparo com a seguinte situação: estar dividido entre a afirmação do Professor Edmundo Dias, da UNICAMP, que nos ensina que as políticas públicas formuladas e aplicadas na sociedade vigente são definidas como políticas governantes de construção da hegemonia burguesa na classe trabalhadora, que são diferentes de políticas públicas, pois estas limitam o avanço do capital e o que de fato é feito na cidade de Feira de Santana, cujo nome é o de políticas públicas de esporte. Sendo assim, a partir da ressalva feita por Edmundo Dias, penso que existe uma política de esportes que, de forma hegemônica, privilegia a dimensão do esporte de competição (no meu entender, diferente do rendimento) enquanto prática assistencialista que usa o esporte enquanto propaganda ideológica de que existe uma política, uma preocupação com o público. Mesmo esta política, para os fins que se propõe, é insuficiente. Por conta disso existe uma insatisfação da população Feirense. É preciso fazer a ressalva que esta é uma opinião de quem vive em Feira desde 2001 (entre idas e vindas de Salvador). Portanto uma opinião não muito fiel se comparada com um legítimo cidadão Feirense.

Esporte em Rede:Como você considera o papel de uma câmara de vereadores nesse debate sobre políticas públicas?

Elson Moura:Estivemos presente, no último dia 04 de Dezembro, em uma Audiência Pública promovida pela câmara de Vereadores através do chamamento do vereador Frei Cal, cuja proposta era a discussão sobre políticas públicas de esporte. Pensamos ser este o papel do espaço de representação do povo. Obviamente que temos o entendimento que seu papel não para por aí. É preciso que tal ação se estenda no desdobramento de outras. Se de fato lá existem pessoas que pensam o esporte enquanto direito de todos e todas é preciso que existam ações que garantam o atendimento deste direito, bem como a “fiscalização” das mesmas. Por exemplo, tivemos conhecimento de que existe uma Lei Municipal que dispõe sobre o sistema de esporte e lazer no âmbito da cidade de Feira de Santana. Lei esta do Vereador Marialvo do PT. O próximo passo é garantir que tal Lei seja cumprida. Acima, coloquei uma fala do Edmundo Dias que pode nos remeter ao desânimo. Ou seja, sentar, cruzar os braços e esperara construção de outro projeto para garantir uma verdadeira política pública. Porém, mesmo por dentro dos marcos do Capital e todos seus limites, devemos pensar o que podemos fazer. Ao mesmo passo que pontuo o limite de algo, eu digo o que este algo pode fazer. Sendo assim, é papel da Câmara, sendo ela consciente do esporte enquanto direito, implementar políticas que avancem em relação ao assistencialismo atual ou à exclusividade do esporte de competição.

Esporte em Rede:Qual o papel da universidade nesta dinâmica?

Elson Moura:Como falei na audiência pública, reafirmo que a educação superior está longe da realidade, longe do social. O que justifica minha afirmação é o entendimento que tenho de que ações pontuais em semestres não se constituem como uma relação orgânica entre universidade e sociedade. Muitas vezes, as mesmas são usadas como laboratórios para serem analisados pelos estudantes, bem como para justificar a existência do curso/Universidade/Faculdade a partir da sua referência social, do seu engajamento. Também não podemos esquecer dos atos assistencialistas tão presentes nas ações do cotidiano. A integração Universidade/social é um imperativo existencial da própria Universidade. Tal imperativo se justifica pelo entendimento que temos de como se dá o movimento do conhecimento. Este se inicia na prática (no contexto social), movimenta-se para a teoria, voltando à pratica. Este caminho nos permite afirmar que não se pode produzir conhecimento socialmente referenciado dissociado da prática cotidiana. Tal processo se dá nos 3 pilares de sustentação do ensino superior: ensino, pesquisa e extensão. Obviamente que respeitando este movimento, as Instituições, as Universidades qualificarão profissionais aptos para intervir em sua realidade. Um último elemento deste ponto é a afirmação de que não podemos pensar a Universidades e Faculdades, bem como seus estudantes, para cobrir buracos deixados pelo poder público. Isso reforçaria a lógica neoliberal.

Esporte em Rede:Você teria alguma ideia de como pode se desenvolver uma política de esporte para o público e não apenas para o setor de redimento, que acaba atendendo a uma elite esportiva?

Elson Moura:Responderei como falei na Audiência. Apontarei 4 sugestões para pensar em Políticas Públicas, mesmo por dentro dos limites do Capitalismo. 1- Uma gestão democrática realizada do planejamento, passando pela execução e administração, até as avaliações do investimento do dinheiro público em esporte. 2-Uma ação interdisciplinar conjuntamente com a secretaria de educação, ou outras. 3-A negação da lógica salvacionista do esporte. Ou seja, a possibilidade de o esporte ser o remédio para todos nossos problemas. 4-O delineamento das prioridades sobre o uso do dinheiro público para o esporte. Em vez de mega eventos e/ou esporte de rendimento, esporte para os incluídos no grupo dos privados de Cultura Corporal. Colocar a ordem das coisas a partir da implementação, a partir do esporte de rendimento, até chegar ao esporte para todos, já se mostrou ineficiente (basta ver o Pan do Rio). Sendo assim, invertamos a ordem. Ou fazemos isso ou mendigaremos por verbas públicas que beneficiam o espaço privado.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Políticas Públicas para o esporte em Feira de Santana

Na última sexta-feira, 04 de dezembro, a câmara de vereadores da cidade de Feira de Santana, segundo município mais populoso do Estado da Bahia, com 600.000 (seiscentos mil) habitantes, recebeu em sua galeria professores de educação física, dirigentes esportivos, atletas e ex-atletas de diferentes modalidades entre outros, para uma audiência pública sobre as políticas públicas de esporte na cidade. Ao menos, esse era o objetivo inicial, tal como podemos observar na chamada expressa na foto ao lado.

Considero o evento um passo importante para pensarmos as políticas públicas de esporte para a cidade de feira de santana, portal do sertão da Bahia. Parabenizo à todos os envolvidos na materialização do evento, mas não posso me furtar a sintetizar a tônica das reflexões que pelas galerias ecoaram. Evidente que esta síntese é muito particular e tem como único objetivo contribuir para o debate e em hipótese alguma desmerecer a referida audiência que espero seja ampliada para outros fóruns onde possamos aprofundar elementos tomando como referência os pontos por lá abordados.

Eis a minha síntese: embora a audiência tenha sido para discutir políticas públicas para o esporte em Feira de Santana, a referência que ganhou primazia no discurso da maioria dos que se serviram da tribuna foi a dimensão do esporte de rendimento e os representantes de setores específicos do esporte, quando se utilizaram da palavra, evocaram a necessidade de atendimento de suas demandas particulares, portanto, de cunho privado.

Essa foi a minha compreensão e repito enfaticamente: esta síntese é muito particular e tem como único objetivo contribuir para o debate e em hipótese alguma desmerecer a referida audiência que espero seja ampliada para outros fóruns onde possamos aprofundar elementos tomando como referência os pontos por lá abordados.

Também com a intenção de colaborar com o debate, esta semana trago uma entrevista com um jovem professor que na sua trajetória profissional vem se debruçando sobre os aspectos das políticas públicas do esporte e do lazer. Embora muito atarefado com outras demandas junto aos professores da rede municipal de ensino de Feira de Santana, o professor Edson do Espírito Santo nos atendeu prontamente. A entrevista é longa, mas altamente enriquecedora e nos possibilita ampliar a visão sobre políticas públicas, reconhecendo outros elementos para além da dimensão do esporte de rendimento. Vamos à ela.

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O professor Edson do Espírito Santo (foto) é Licenciado em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana(UEFS); Especialista em Metodologia do Ensino e da Pesquisa em Educação Física, Esporte e Lazer, pela FACED/UFBA; Membro-pesquisador do Grupo LEPEL (Linha de Estudos e Pesquisas em Educação Física, Esporte e Lazer) pela UEFS e desenvolve estudos referentes às políticas públicas de esporte e lazer, já materializados tanto na sua monografia de conclusão de curso e na pós-graduação. Atualmente é professor da Rede Municipal de Ensino de Feira de Santana e também membro do GEED (Grupo de Estudos Educação em Debate).

Blog Esporte em Rede: Do que tratou o seu estudo na graduação e na pós?
Edson:Durante a monografia de conclusão da licenciatura estudei os projetos e ações da Secretaria de Educação, Cultura e Esportes da cidade de Cruz das Almas, identificando as concepções e metodologias expressas por esta Secretaria com a organização do lazer nesta cidade. Entendia a Gestão Participativa como o processo mais avançado no trato do lazer enquanto política pública e enquanto esfera de participação da classe trabalhadora na intervenção do Estado Moderno. Na monografia da especialização estudei especificamente como se organizava a proposta de Gestão Participativa, ainda tendo como recorte a cidade de Cruz das Almas, sua realidade, contradições e nexos com uma Política Nacional de Esporte.

Blog Esporte em Rede: Quais as tuas conclusões sobre as duas pesquisas?
Edson:Durante a monografia da licenciatura identificamos que apesar do esforço de deliberação pública das demandas sociais, encontramos na cidade uma sociedade civil pouco articulada politicamente para fazer uma tensão maior nas conquistas de direitos em relação à esfera governamental. Muitas vezes, no embate entre sociedade política e sociedade civil percebia que os setores organizados de governo conseguiam antecipar suas ações frente aos setores da sociedade civil. No que se referem às políticas de Lazer identificamos que a participação popular não ocorreu na definição de diretrizes e ações do Departamento de Esporte e Lazer e que, as ações deste setor se baseiam em realização de eventos nas datas comemorativas. Também esse setor sofreu duros cortes orçamentários, o que inviabilizava um trabalho mais efetivo. As realizações no setor limitaram-se a construção e requalificação de espaços públicos para a prática do lazer. Durante a pesquisa de especialização ainda identificamos que as concepções de lazer estavam limitadas à política de eventos. No entanto, sinalizou-se a criação de projetos esportivos, tendo em vista a ampliação das opções de esporte e lazer para a população da cidade. Quanto à participação popular, durante o processo de Orçamento Participativo foi realizada uma audiência pública para se discutir a situação do esporte e lazer na cidade, mas esta ficou limitada na defesa de projetos esportivos, muito mais motivados por interesses particularistas do que, necessariamente, imbuídas numa política de democratização e desenvolvimento de programas de esporte e lazer que possam elevar o padrão cultural da classe trabalhadora. Além do mais, é notória a defesa do esporte enquanto um elemento importante na formação de “bons cidadãos” e na possibilidade de “formação de atletas”, concepções do senso comum que fortalece o mito da inclusão social via esporte.

Blog Esporte em Rede: O que você vem estudando na atualidade?
Edson:Venho me debruçando sobre como vem se formando o consenso via esporte para entender o que fazem as pessoas reproduzirem o discurso da inclusão social via esporte. Tive que me reportar ao estudo das relações de hegemonia e contra-hegemonia na formação do consenso na sociedade civil e de como historicamente vem se consolidando as políticas de esporte e lazer no Brasil como necessidade de difusão de uma dada concepção ideológica. A partir dos estudos da professora Elza Peixoto sobre a produção do conhecimento em Lazer, tive como fazer apropriações – ainda como primeiras aproximações - tentando identificar Períodos Históricos de Elaboração das Políticas de Lazer no Brasil, tendo como marco histórico a década de 1930, período de ascensão do modelo industrial no país. Identificamos que em diversos períodos, as intencionalidades de conformação da luta social da classe trabalhadora pelos seus direitos (dentre eles, o lazer) vão desde a inserção de programas de recreação e lazer, passando por programas moralistas voltados a ocupação do tempo de lazer do trabalhador, até a utilização do esporte como veículo de propaganda governamental por meio da formação de atletas e sua profissionalização até a sua transformação em espetáculo. No período atual de Elaboração das políticas de Lazer, reconhecemos a sua identificação com um ideário neoliberal. Isso porque é cada vez mais crescente a utilização do esporte como importante setor de mercado, por meio da exaltação dos investimentos governamentais no esporte de alto rendimento e nas empresas que as gerenciam. No entanto, para garantir sua margem de lucro e a consolidação dos interesses dominantes é dado à população o seu antídoto: os programas de inclusão social através do esporte. Esses programas reproduzem uma lógica perversa, quando coloca para a população os programas esportivos como a solução para problemas de ordem estrutural como a violência, a fome e o tráfico de drogas. Essa construção ideológica está impregnada em nossa sociedade, dando ao esporte um poder mágico de resolução das desigualdades sociais.

Blog Esporte em Rede: Você acredita que essas ações estratégicas, gestadas por uma Política Nacional de Esporte, atingiria também a escola pública?
Edson: Sem dúvida existe um interesse em retomar um debate que nós identificamos no segundo Período de Elaboração das Políticas Públicas de Esporte e Lazer no Brasil (1965-1984) que seria o de potencializar as escolas como espaços onde se darão a formação de atletas. Dessa vez, eles utilizam de argumentos mais requintados como o da democratização do esporte, mas que na verdade seria o retorno das práticas de seletividade, exclusão, valorização da competitividade, individualismo e comparação entre alunos nas aulas de educação física. No entanto, esse elemento traz à tona um debate muito mais profundo que seria o da precariedade da escola pública. Somente para a gente ter uma ideia, em estudo apresentado no artigo “Mutirão para a Avaliação dos Jogos Escolares da Bahia” apresentado no livro “Trabalho pedagógico e Formação de Professores/Militantes Culturais”, publicado esse ano, organizado pelos professores Celi Taffarel, Cláudio Santos Júnior e Roberto Colavolpe, apresenta um dado alarmante: das 1.753 escolas da Rede Pública Estadual, apenas 782 possuem quadras esportivas, sendo que, destas, apenas 50 são cobertas. Numa pesquisa realizada pelo IBGE no ano de 2003 foi apontada que apenas 12% das escolas públicas municipais possuíam instalações esportivas e que no Nordeste esse número caia para 4,4%. Defendo a democratização do esporte nas aulas de educação física, mas não no viés da identificação do talento esportivo. Além do mais, os objetivos da educação física na escola devem ser de propiciar aos alunos o contato com temáticas que foram produzidos e acumulados historicamente pela humanidade, através daquilo que chamamos de cultura corporal (jogos, danças, lutas, capoeira, ginásticas, esportes). Essas temáticas devem ser entendidas como direitos sociais, que deverão ser utilizados por esses, independente de obtenção de fins de sua profissionalização. Nesse sentido, o componente curricular educação física deve trazer uma reflexão sobre a cultura corporal também como um patrimônio da humanidade. Nesse sentido, tematizar esporte nas aulas de educação física não significa preparar equipes para disputar os jogos escolares, mas, inclusive, discutir com os alunos como esse acervo cultural está inacessível a eles pela ausência de espaços adequados para a sua vivência, enquanto que 29 bilhões serão investidos em um evento de pouco mais de um mês em apenas uma cidade, que logo após a sua realização, milhões de brasileiros ficarão desprovidos de espaços públicos de lazer.

Blog Esporte em Rede: Como você, através dos seus estudos, compreende a dinâmica do esporte e lazer em Feira de Santana e região?

Edson:Feira de Santana, assim como Cruz das Almas, apresenta uma sociedade civil pouco articulada. A diferença é que em Feira de Santana para você ter acesso às informações sobre investimentos em programas e projetos governamentais, bem como a sua concepção e mecanismos de intervenção popular é difícil. Parece que existe uma caixa-preta em que as informações são de difícil acesso à população. Lembro de dois companheiros de curso que tentaram fazer uma pesquisa sobre a política municipal de esporte e lazer no município e que tiveram de desistir por inacessibilidade nas informações. Eu tinha a intenção de pesquisar as concepções e metodologias dos programas de esporte e lazer em Feira, mas logo tive que desistir, porque nunca encontrava o gestor por lá e também me informaram que o único projeto que eu encontraria no setor seria da Micareta Municipal. No que se refere à articulação da Política Nacional de Esporte com ações no município, gostaria de chamar a atenção para dois setores que se fortalecerão no ano de 2010. O Projeto Segundo Tempo e as equipes profissionais de futebol do município através da entidade denominada Fazenda do Menor. É nesta instituição que encontramos o grande pólo gerador e catalisador dos investimentos deste projeto. Por meio dela também percebemos a criação de uma equipe de futebol, mas uma vez evidenciando a relação do projeto com a formação de atletas. No que se refere aos clubes de futebol profissional na cidade, trago o destaque para o ano de 2010, uma vez que o Campeonato Baiano de Futebol terá a participação de três equipes na primeira divisão da cidade. Logo, a articulação dessas equipes e a cobrança de investimentos públicos nas mesmas será a tônica do próximo ano. Isso pode implicar na redução de investimentos na cidade, com relação a outros projetos e à necessidade de discussão sobre quais seriam as prioridades para o esporte e lazer na cidade. Aprofundando um pouco mais, vamos perceber que os dirigentes desses clubes de futebol de Feira de Santana estão ligados a setores empresariais. Enquanto isso, a reprodução do discurso que o esporte deve formar bons cidadãos vem sendo a tônica nas escolas públicas, por meio das Olimpíadas Estudantis, que todos os anos acontecem em Feira de Santana. Isso me deixa abismado, pois, das aproximadamente 215 escolas municipais, acredito que menos de 20 tenham quadra esportiva. Mais uma vez, o discurso contraditório da democratização do esporte se expressa em uma dada política municipal.

Blog Esporte em Rede: Você teria algumas sugestões para o desenvolvimento de políticas de esporte e lazer em Feira de Santana?
Edson:Algo que parece ser mais urgente é ter acesso às informações referentes a programas e ações de governo, aos seus investimentos, concepções e metodologias. Esses elementos são imprescindíveis para que tenhamos um diagnóstico inicial sobre a situação do esporte e lazer na cidade e para onde ele deve apontar suas ações. Outro aspecto importante é a defesa de uma Gestão Participativa nas políticas de esporte e lazer nos municípios que se contraponha à mera defesa de projetos particularistas. Isso implica desde o controle social dos investimentos públicos, quais os interesses envolvidos na privatização de espaços públicos, terceirização de serviços, necessidade de contratação de professores por meio de concurso público para atuarem com o esporte e lazer no município até definição de diretrizes e prioridades para o setor. Também acredito que haja uma distância muito grande entre conhecimento que se é produzido nas universidades (pensando aqui que, o curso de Licenciatura em Educação Física da UEFS já tem mais de 10 anos de existência) com as propostas de esporte e lazer que são construídas. Nesse sentido, cabe aos intelectuais orgânicos (todo aquele que tem uma função de direção na sociedade, para usar um conceito gramsciano) a tarefa de fomentar esse debate na sociedade, tendo em vista a construção de um lazer que se contraponha aos valores que são postos pela sociedade capitalista, que coloca a dimensão do lazer como mero divertimento, preparação da força-de-trabalho, ou ainda, campo propício para o lucro das empresas, a partir da mercadorização, privatização de espaços públicos e valorização do lazer-consumo. Neste sentido, cabe também aos intelectuais pensar na dimensão histórica do lazer, que deve ser colocada como “tempo livre para o gozo de uma atividade livre”, como já vem defendendo a professora Elza Peixoto nos seus estudos. Na questão específica do esporte, pensamos que a inversão de prioridades deve ser colocada como ação estratégica. Para isso, penso que o esporte ao ser colocado como direito social, remete-nos a discutir sua apropriação de forma a se contrapor à perspectiva de formação de atletas, mas como possibilidade de acesso e vivência de toda e qualquer pessoa, a partir da dimensão do lúdico e apontando elementos para que se alcance a emancipação humana, contribuindo assim para a elevação do padrão cultural de mulheres e homens. Eis a nossa tarefa que deverá nos seguir nos espaços de intervenção da educação física, da organização do trabalho pedagógico na escola pública, até os programas e projetos em esporte e lazer tanto em Feira de Santana como na região.

domingo, 29 de novembro de 2009

Atenção senhores passageiros...

O discurso oficial promovido pelo Ministério dos Esportes é sempre conjuntural. De acordo com a direção do vento, para onde apontar a biruta esportiva, as aeronaves salvacionistas são arremetidas ao céu pretensamente de brigadeiro e a qualquer sinal de pane no sistema, liga-se o piloto automático em busca de um “aeroporto” seguro, quase sempre o quartel de Abrantes, onde tudo fica como antes.

A culpa? Melhor apontar para o lado mais fraco dessa relação. Deixemos com a escola precarizada e com o professor de educação física. São deles todas as culpas possíveis e imagináveis da falência do sistema esportivo. Afinal de contas, professor não é piloto e o espaço escolar não é pista de vôo. Fica então mais fácil de explicar o fracasso.

Então de novo, mais uma vez e novamente, vamos fazer o discurso de que é preciso massificar o esporte, é preciso esporte na escola, é preciso professores com melhores formações, é preciso melhorar a estrutura da escola, é preciso melhorar os equipamentos, os materiais para dá aulas, é preciso, é preciso, é preciso...

Com raríssimas exceções, esse discurso se apresenta após os fracassos esportivos em grandes eventos. Após as Olimpíadas, por exemplo, os resultados ínfimos dos aguerridos atletas brasileiro, são computados, e os resultados, insatisfatórios, são imputados às instituições, deixando de lado, o necessário planejamento e gestão estrutural do esporte nacional, isolando esses elementos, retirando-os do debate, como se os mesmos não fizessem parte da dinâmica dos próprios organismos institucionais em que se imputam às críticas.

Assim como a elite brasileira não tem um projeto de nação, a elite que manda e desmanda nas federações e confederações esportivas onde se perpetuam nas diferentes gestões “monárquicas” também não tem um projeto para o esporte. O pragmatismo, o imediatismo, o aqui e agora são as tônicas das caricaturas de projetos esportivos brasileiros. Quando políticas públicas de incentivos são pensadas, a base é esquecida, e engana-se o povo com os jogos de linguagens utilizados nos projetos.

Pensemos no tal do faz-atleta. Lindo nome. A primeira vista e aos ouvidos dos desavisados, era um projeto para...fazer atletas. Mas o mesmo beneficiava abundantemente, os atletas já feitos. Ironia? Não, apenas a expressão concreta da forma como os gestores atuais pensam a dinâmica do esporte.

Mas como ser diferente se são as mesmas pessoas que comandam o aeroporto à anos? As aeronaves são deles, os pilotos idem, as empresas que transportam os atletas passageiros também, as fardas dos pilotos, toda a estrutura está fechada hermeticamente e no seu interior se desenvolve uma dinâmica extritamente patrimonialista. É o esporte sendo apropriado privadamente por um grupo de pessoas que pensam absolutamente tudo em função dos seus interesses, que são os interesses voltados para a dimensão de um determinado modelo esportivo pensado por eles mesmos e assim, entramos em uma verdadeira roda viva, em uma circularidade inoperante, atrasada, conservadora, que promove sempre o retorno ao mesmo aeroporto de partida.

Não sei por que, me lembrei de um certo dono de aeroporto que disse que sairia da direção do mesmo assim que o avião que partia para a Itália, retornasse. Independentemente das condições do vôo, ele sairia. Estava determinado. Mas o vôo foi fantástico, o avião voltou dando quatro voltas ao mundo, uma arremetida e aterrissagem de fazer inveja e com várias manobras antes, durante e depois do vôo, o dono do aeroporto resolveu continuar. Assim, sem mais, nem menos, ele esqueceu do que tinha dito e...ficou. Afinal de contas, se é para o bem de todos e felicidade geral do esporte, diga ao povo que fico. E tá aí até hoje, sendo festejado até por quem deveria vigiá-lo.

Lembrei-me de um outro. É demais. Me diga leitor, se você tivesse que prestar contas de trinta milhões de reais, como e onde você estaria? Eu estaria preso, com certeza. Mas esse dono do aeroporto tá em todos os canais de televisão dando entrevista, contando história da carochinha, procurando nos enganar mesmo quando a história já mostrou e comprovou que o contador da história sobre chapeuzinho vermelho é o próprio lobo mal. Este senhor recentemente esteve pulando de alegrias junto com o nosso presidente e a maioria do povo brasileiro pela conquista de novos vôos no céu de brigadeiro.

Resta agora ampliar o aeroporto que parecia estar pronto, comprar novos aviões, controlar a velocidade do vento e fundamentalmente olhar para a biruta e ver para onde a mesma está apontando para que ao menos a decolagem seja perfeita. Quanto a aterrissagem, bem, dependendo de como for, a gente deixa a pista bastante molhada, tira o freio do avião e no final das contas a gente culpa o piloto, pois como ele vai está morto mesmo... depois é só fazer o aeroporto funcionar de novo.

Mas antes, precisamos exigir do governo uma pista nova, pois esta deu no que deu.

domingo, 22 de novembro de 2009

Para além do esporte: mobilizando a comunidade através da Cultura Corporal

Na nossa última postagem nos inspiramos na questão do "apagão" ocorrido recentemente para pensarmos a relação entre a elite e o povo brasileiro. Mas não nos restringimos a isso. Refletimos também sobre como determinadas instituições reproduzem valores que fortalecem o ideário neoliberal, ou como já querem alguns pensadores, depois de mais uma crise do capital no ano passado, pós-neoliberal.

Quando escrevemos instituições, pensamos em basicamente duas: escola e esporte. Aprendi, nos bancos da faculdade de educação, na Universidade Federal da Bahia no início dos anos 90, que "a criança que pratica esporte respeita as regras do jogo...capitalista". Não creio que o autor que disse isso ainda pense assim. Aliás, duvido muito, pois o mesmo, no último Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, na plenária final, sem nenhuma mediação, disse em alto e bom som: viva as educações físicas.

Pois é. E os doutores que lá estavam, nada questionaram. Ficaram em silêncio. Consentiram. Para que abrir um debate desnecessário, logo no final de um evento científico? Pois deve ser isso mesmo. Se "ele" falou, tá falado. Que cada um cuide da "sua" educação física e ponto final.

Mas, apesar dos pesares, eu ainda acredito no que aprendi lá atrás. A diferença é que agora eu consigo enxergar as mediações. Não na sua intereza, ainda não atingir tal grau de compreensão do movimento do real. Mas o suficiente para aprender que não são "todas" as educações físicas que servem para as diferentes classes sociais. Algumas servem mais do que outras. Por exemplo, a educação física que defende a escola como um lugar onde se fabrica atletas. Essa eu não posso louvar. Como não posso louvar a outra que por extensão, reduz a educação física à prática do esporte. De preferência, obedecendo as mesmissimas regras impostas pelas federações e suas devidas penalizações, caso os educando(?) se tornem desobediente às regras.

Mas a educação física que se utiliza dos elementos da Cultura Corporal como mobilizador da comunidade, através da prática de outros conteúdos do seu acervo, esta eu louvo. Digo um grande viva em alto e bom som: VIVA!!! Foi justamente esta experiência que vivenciei, junto com outros colegas, no sábado, dia 14 de novembro último, na Escola Edgard Santos, no Fazenda Garcia. As imagens abaixo mostram um grupo de jovens ensaiando a sua apresentação,



para logo depois, dentro de um ginásio lotado de outros tantos jovens de diversas comunidades da cidade do Salvador e de outros estados (Alagoas e Paraiba) se apresentarem, demonstrando um domínio corporal impressionante, onde além da técnica propriamente necessária para o domínio dos gestos, continham a plástica e a beleza estética.



Foi um dia inteiro de muito gesto corporal através da ginástica e dos seus fundamentos e da dança e das suas possibilidades e nenhum pódium, medalha, ou premiação de primeiro colocado. Crianças, jovens, adultos e idosos. Estudantes das escolas públicas e das universidades, professores e professoras, moradores das comunidades, todos participando pela alegria de participar, buscando materializar na prática, a difícil tarefa de se auto-organizarem em função do coletivo.

Foi um dia muito rico. Só mesmo quem esteve por lá para poder sentir a força do momento que se expressava em cada grupo das escolas que se apresentavam. Falando em grupo, sabe aquele lá do início, que ensaiava para a apresentação? Pois é, veja como ficou. Os seus movimentos podem expressar, muito mais do que as minhas parcas palavras, não só o que significou o evento mas, também, que a educação física na escola tem muito mais o que fazer do que fabricar atletas.

domingo, 15 de novembro de 2009

O "apagão" nas aulas de educação física

Na semana do apagão, muitas viúvas do PSDB tentaram revitalizar o debate do caos na distribuição de energia elétrica que marcou o governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Só que desta vez, obviamente, tentando minar o governo Lula. Sem nenhuma proposta de nação para o país, a não ser o exercício do poder pelo poder, a oposição brasileira procurou fazer do apagão mais um mote para desbancar o governo Lula que vem batento recordes de aprovação nunca antes visto. Em tempo: tenho críticas, inclusive no campo da política esportiva, mas não sou sectário.

Muitos dirão que isso é fruto de política populista, do tipo "bolsa família" e congêneres. Outros dirão que é em função do pouco desenvolvimento da consciência do povo. Eu digo que é tudo isso junto e mais um pouco. Mas fico com Chateaubriand, quando afirma que "Um dos dramas do Brasil é a profunda ignorância, maior, muito maior, das suas chamadas elites que do seu povo".

Essa elite reprova a saída de milhões de brasileiros da condição de miseráveis com a ajuda do Bolsa Família, mas não assume o debate sobre o por que de um país como o Brasil - "em que se plantando tudo dá" - precisa de um programa que retire as pessoas da condição de famintas. É a mesma elite que quer alimentar os milhões de brasileiros do campo e da cidade sendo contra a reforma agrária e a favor do agronegócio, da monocultura e da derrubada da floresta para a construção de pastagens e campo de futebol.

Esta é a mesma elite que vem alimentando ideias e ideais que não ajudam um centímetro seguer o avanço da formação humana plena de sentidos e significados para todos os humanos que habitam a terra. É a elite que discursa sobre a necessidade das crianças praticarem esporte para não se aproximarem das drogas mas que não responde o que ela vai fazer depois que a prática do esporte acabar. Ou será que ela vai ficar jogando as 24 horas do dia?

É a mesma elite que roubou os cofres públicos e promoveu o pan-americano, traduzindo perfeitamente o que significa o adjetivo RENDIMENTO que qualifica o substantivo ESPORTE. A elite que queria vender a Petrobrás e que hoje torce para o pré-sal não dá certo. A elite que não explica o que foi feito com os R$ 30 milhões do crédito suplementar que pediu ao Congresso Nacional, para fechar a conta da candidatura olímpica do Rio de Janeiro.

É a elite que dá uma no prego e outra na ferradura, dependendo da conveniência. Um dia diz, como fez o Ricardo Teixeira, que não precisa de dinheiro público para a Copa de 2014 e no outro dia bate na porta do Banco Nacional de Desenvolvimento Social.

Essa elite, que se perpetua no poder, tem nas ações dos subalternos a sua influência extendida e esta se traduz nas práticas, por exemplo, dos professores que ao desenvolverem suas aulas na busca do talento esportivo, promovem a competição na busca do ser individualmente mais forte, mais rápido, mais, mais, mais...resumindo o espaço da escola a um celeiro de atletas.

Professores que proomovem a monocultura do esporte. A cultura corporal deve ser resumida ao esporte, de preferência, aos tradicionais futsal, volei e basquete. Promovem torneios internos onde a turma de uma sala joga contra a turma de outra sala obedecendo as regras federadas e confederadas pelas elites que pensam o esporte.

É o "apagão" da educação física, tão festejado pela elite, especificamente a esportiva, quanto o outro apagão. Nada de ampliar as possibilidades do conhecimento sobre a cultura corporal. Essa coisa de ampliação, para o povo, não é bom, pois eles vão querer sempre mais, mais e mais e nós, a elite, só podemos dá o suficiente para aplacar sua indignação, anestesiar as suas consciências. Em pró desse "esporte", não poupamos esforços e sempre estamos dispostos a ceder alguns anéis para não perder os dedos.

Alternativas? Existem e nós vamos mostrá-las na próxima semana e quando menos esperarem as elites, no apagar das luzes, acenderemos o fogo da contra-hegemonia, da contra-internalização.

domingo, 8 de novembro de 2009

Doping: um problema de saúde pública

A questão do doping sempre gera muita polêmica. Os motivos são vários. Mas creio que o principal ainda é o fato de nós, simples mortais, acreditarmos que o esporte é um fenômeno que transcende e se distingui da base material de onde se erguem as nossas relações sociais.

Quando este mundo é "invadido" por algum acontecimento que fere sua áurea, pronto, ficamos todos praquejando contra àqueles que querem sujar, dessacralizar um ambiente tão limpo, que tem a graça dos deuses do Olimpo. Nós esquecemos de que o fenômeno esportivo é produto e processo das relações sociais complexas e contraditórias que se desenvolvem sobre um determinado modo de vida. No nosso caso, o capitalista, um modo de produção a serviço do lucro onde todas as coisas sólidas se desmancham no ar.

Nesse sentido, o doping não se configura uma excrescência do chamado "mundo do esporte" como pensam alguns, ele é parte necessária ao metabolismo do mesmo e se nós ainda acreditamos no mundo asséptico do esporte, é porque nos negaram (e continuam nos negando), historicamente, as ferramentas necessárias para a compreensão do fenômeno esportivo na sua radicalidade.

Nesse sentido, antes que me chamem de apocalíptico, dizer isso requer também a afirmação de que o esporte e o ato do doping não se resume tão somente a prática que vise a performance atlética, o rendimento físico acima de qualquer fundamento ético. A forma histórica dominante do esporte moderno e das formas de doping atualmente existentes, que se constitui como uma força alienadora das relações humanas sob o capital, não é determinação a ele (o esporte) intrínseca, mas é a característica de como ele dominantemente é produzido e apropriado social e historicamente sob esse sistema do capital, atingindo a todos, indistintamente.

Por que digo isso?

Simplesmente porque o ato de se dopar já se configura como fato concreto nos diferentes ambientes de reprodução social e nos diferentes sujeitos, não se resumindo ao esporte de rendimento nem tampouco, aos seus atletas. O Instituto Adolfo Lutz detectou, em pesquisa realizada com 111 produtos caracterizados como suplementos alimentares, livremente vendidos em academias de ginástica/musculação, que aproximadamente 25% dos suplementos continham esteróides anabolizantes não declarados em suas fórmulas.

Já existem estudos que identificam a utilização de recursos para melhoria da performance física em colegiais atletas e não atletas, em funcionários públicos dos mais diferentes escalões, em motoristas de ônibus e caminhões, em profissionais de saúde de diferentes níveis e formação, em professores da educação infantil ao ensino superior, etc, etc, etc.

Tudo isso nos leva a acreditar que o doping se constitui hoje como um problema de saúde pública que deve ser combatido na medida direta em que devemos combater o modelo estrutural atualmente existente em que baseamos nossa forma de produção e reprodução da vida.

Parodiando o velho e dinossáurico barbudo de Trier, destruir as formas ilusórias do esporte de rendimento, é destruir uma sociedade que precisa desta dimensão esportiva para existir.

domingo, 1 de novembro de 2009

Jogos Para-Olímpicos, doping e "mala branca": como não falar de um assunto

Muito se fala dos Jogos Olímpicos e muito pouco dos Para-Olímpicos. Aqui vai uma crítica e uma auto-crítica. Percebi isso em relação ao Esporte em Rede justamente quando terminei a postagem sobre a Educação Física escolar. No último ponto, do último parágrafo lembrei que até então, apesar de discutir as questões ligadas aos Jogos Olímpicos eu não mencionava nada em relação aos Para-Olímpicos.

E quase que acontece de novo de não falar sobre as Para-Olimpíadas. Isso porque a realidade sempre dinâmica do mundo esportivo estava nos obrigando a retormar o tema DOPING. Pois além desta semana termos novidades com o caso de Daiane dos Santos, na última postagem do mês de agosto eu terminava falando do doping prometendo uma outra postagem sobre o DOPING GENÉTICO. Não cumprir esta ainda. Estou estudando o tema, lendo um pouco sobre o mesmo para não incorrer em equívocos.
Além da situação da ginasta brasileira, teve também o caso da chamada "mala branca", que alguns times de futebol estão utilizando nos campeonatos. Há quem ache isso extremamente natural e, o que considero um extremo paradoxo, são as mesmas pessoas que são contra ao uso de doping em competição.

Mas o que tem uma coisa a ver com a outra? O que tem o doping a ver com a tal da "mala branca"?

Primeiro é preciso considerar que conceitualmente, as duas coisas são bem diferentes mas os objetivos dos que se utilizam dos procedimentos são os mesmos, ou seja, otimizar o rendimento esportivo. Um usa substância química e o outro uma substância em papel: o dinheiro e tudo isso para poder levar vantagem na competição. Digamos, para ficar bem entendido, que a "mala branca" é o doping financeiro.

Misturando tudo, considero que doping e "mala branca" antes de ser uma excrescência, são procedimentos próprios da dinâmica do esporte de rendimento onde o que realmente vale é a vitória a qualquer preço, ou a derrota. Alguém aí lembra da goleada sofrida pela seleção do Peru contra a Argentina na Copa do Mundo de 1978 por cinco a zero, justo o placar que a própria Argentina precisava?

Voltando ao doping clássico, entendemos que os atletas de ponta do esporte de rendimento precisam se dopar se quiserem alcançar o pódium, que lhes renderão melhores patrocínios. Ciência, tecnologia e doping, é a equação para o atleta campeão atualmente. A questão é que alguns, eventualmente, são flagrados e punidos para que a aura, já perdida do fair play, configure-se nas consciências ingênuas daqueles que ainda acreditam que o esporte de rendimento é um fenômeno isento de interesses do capital.
Importante citar aqui, sobre a questão do doping, o que diz o professor Lino Castellani, que ao participar do debate sobre uma postagem deste blog reproduzida no blog do José Cruz, assim expressou sua opinião sobre o tema:"(...) o dopping não é manifestação patológica do alto rendimento e sim elemento integrado à sua lógica. Somente a hipocrisia impede que tal compreensão seja assimilada. Em sociedades marcadas por valores defensores da vitória a qualquer custo ("o importante é vencer, não interessa como", não é assim que disseram Gerson ter dito, embora ele não o tenha feito?)a vitória - e somente ela - é garantidora de salário, patrocínio e bajulação de todos, principalmente da mídia esportiva, tão responsável quanto pelo cenário."

Concordamos em gênero, número e grau. E consideramos isso, também, em relação ao doping financeiro pelos motivos já expostos. Mas, pera aí...e os Jogos Para-Olímpicos? Fica para uma outra semana.

domingo, 25 de outubro de 2009

Educação Física escolar

A escolha do Rio de Janeiro como cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016 reacendeu um debate muito antigo - embora um tanto quanto adormecido ultimamente - entre os professores de educação física no Brasil e que diz respeito ao papel tanto do professor quanto do esporte no interior das instituições de ensino, principalmente, nas públicas.

Entra Olimpíadas, sai Olimpíadas, os frequentes fracassos brasileiro nas mesmas são sempre justificados em função da precariedade com que se desenvolvem as aulas de educação física nas escolas. Professores desmotivados, escolas sem estruturas, alunos e alunas evadindo das aulas, falta de material esportivo, são os motivos mais comuns arrolados por todos os que pensam o esporte olímpico e enxergam a escola como a base da pirâmide esportiva.

Os que tem uma visão esportivizante da educação física considera o professor como um técnico, os alunos como atletas e as escola como um espaço de detecção de talentos. Nesse sentido o esporte deve ser massificado nas escolas, os alunos devem ser encorajados a participarem das aulas, ou melhor, dos treinos, e aos professores cabem, com o olhar clínico que lhe é nato, perceber as habilidades técnicas dos seus alunos, alçando-os à condição de atletas da escola.

O professor de educação física será reconhecido como bom, pelo número de troféus que ele conseguir para a escola e quanto mais medalhas conseguir colocar no peito dos agora atletas escolares.

A escola será a instituição principal da pirâmide esportiva, será aquela instituição que ficará na base da pirâmide, sustentando o processo de detecção dos possíveis talentos esportivos, daqueles sujeitos que, um dia, brindará o país com medalhas olímpicas, de preferência, de ouro.

Alguns depoimentos colhidos aleatoriamente em alguns sítios ligados ao esporte expressam, por parte de alguns, a função da educação física escolar. Vejamos:


(...) em se tratando de base, de lapidacao (...) tem que partir da escola de "Ensino Fundamental"

Eu nao sei nem pra que uma Escola Tecnica possui uma piscina "semi-olimpica", ja que sendo "técnica" nao é de sua responsabilidade nenhuma prática esportiva de competição e muito menos de aprendizado (Educacao fisica)...Esse tipo de ensinamento e capacitação, se fosse bem organizado, partiria do Ensino Fundamental, onde as crianças podem ser avaliadas como futuros atletas em potencial...

Bem, meu ponto de vista é o seguinte: Se o MEC, funcionasse como se deve, e de novo a velha reclamacao em relacao a eficiência do "esporte nas escolas de base", nao precisaria de "Ministério dos Esportes"..Sendo que a seunda etapa ficaria a cargo do COB e das federacoes esportivas...Apareceriam muito mais jovens atletas em potencial, que poderiam ser aproveitados pelos clubes e academias e suas respectivas federacoes...Ou seja, trabalhando a Escola na base, os clubes teriam que se preocupar só com o alto nível...

Se tivermos um fracasso retumbante em Londres (2012), não tenho dúvida alguma de que esses argumentos aparecerão com mais força ainda nos discursos dos dirigentes esportivos. Afinal de contas, depois de Londres vem o Rio de Janeiro e os atletas brasileiros ficarão com a obrigação de serem os primeiros no quadro de medalhas.

Não obstante, isso não pode fazer com que nós, professores preocupados com a formação humana, se deixe levar por esse debate que mais restringe do que amplia o nosso papel no âmbito escolar. Inclusive, penso que o mesmo deva ser incorporado nas nossas aulas, para que os alunos e alunas tomem consciência do sentido e do significado que é sediar os Jogos Olímpicos e, também, os para-olímpicos, tema da nossa próxima postagem.

domingo, 18 de outubro de 2009

Jogos 2016: por um Brasil sem fome!

Com o título “Você tem fome de quê?”, trouxemos no dia 19 de junho de 2009 uma reflexão que buscava comparar a compra dos jogadores Cristiano Ronaldo e Kaká que juntos custaram 160 milhões de euros para o Real Madrid com uma notícia presente no relatório da Organização das Nações Unidas sobre a fome e que relatava que este ano superaríamos a barreira de um bilhão de famintos no mundo.

Além da postagem, fizemos também uma enquete com os nossos leitores, perguntando se eles consideravam a compra dos jogadores, diante da realidade da fome mundial, um aspecto imoral ou normal. 78% disseram que era uma imoralidade (26 votos) e 21% acharam normal, coisa do futebol moderno (7 votos).

Como o futebol moderno é jogado no interior do metabolismo sócio-histórico do capital, ele se apresenta junto com as contradições do mesmo. Só a compra do Cristiano Ronaldo por 96 milhões de euros alimentaria mais de 8 milhões de etíopes. Somados ao valor da compra de Kaká, 64 milhões de euros, totalizaríamos a "bagatela" de 160 milhões de euros, quantia esta que amenizaria, e muito, a condição dos 18 milhões de brasileiros famintos.

Vejam vocês o seguinte. Tomando os valores do euro em junho deste ano, 93 milhões de euros equivalia cerca de 257 milhões de reais. Com 257 milhões de reais eu alimentaria e ainda sobraria dinheiro, mais de 8 milhões dos brasileiros famintos.

Quanto vai custa mesmo os Jogos Olímpicos? 38 bilhões de reais (perspectiva até 2016, podendo ser mais, muito mais e olha que não estou mencionando nem o dinheiro que será gasto para a Copa do Mundo de 2014). É muito, mas muito dinheiro mesmo para um Estado que até bem pouco tempo, fazia o discurso neoliberal de que não tinha dinheiro para a saúde, educação, habitação, segurança (e ainda o faz) e sob esse argumento justificou todo o tipo de privatização, colocando como mercadoria ítens essenciais - como alimentação - da existência digna de qualquer ser humano.



Mas alguns dirão que agora é torcer para tudo dar certo, tornar os Jogos viáveis deve ser o esforço de todo patriota, de todo brasileiro que ama o seu país, que tá de bem com a vida e que não desisti nunca! Esses discursos pessimistas, "a la contra" é coisa de gente revoltada, frustrada com a vida e que não tem o que fazer.

Então, deixa eu sair de cena um pouquinho e dá voz a uma atleta, a alguém que conhece por dentro o fenômeno esportivo.

Depois do anúncio da escolha do Rio de Janeiro como sede para os Jogos Olímpicos de 2016, nosso emocionado presidente declarou: a meta agora é transformar o Brasil em potência olímpica.

Está cheio de gente questionando a viabilidade dessa meta. Por enquanto não vi ninguém questionar a validade dela. Eu quase acho o projeto mais viável do que válido.

A China foi a primeira no quadro de medalhas de Pequim 2008. IDH: 92º. O Quênia (147º no IDH) ficou em 15º lugar nas olimpíadas. À frente da Noruega, que foi 21ª no quadro de medalhas e tem o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano, segundo a ONU.

É possível tornar-se potência olímpica sem melhorar a distribuição de renda, a educação e a saúde pública. O destaque esportivo também pode prescindir da democracia, da liberdade de expressão e da liberdade de escolha.

Ganhar uma baciada de medalhas olímpicas pode encher um povo de emoção e orgulho patriótico, mas não faz um país melhor.

Como brasileira, ex-atleta e apaixonada por esporte, (...) Quero ver o Brasil no alto do pódio olímpico muitas vezes, mas como consequência da melhora de todos os nossos indicadores sociais.

(...)

Quando todas as nossas crianças frequentarem boas escolas, forem bem alimentadas e tiverem oportunidade de participar de bons programas de iniciação esportiva em locais com estrutura adequada, sob orientação de bons profissionais, teremos boas chances de nos tornarmos uma potência esportiva. Se forjarem em nós o destaque olímpico que desejam sem que tenhamos nada disso, nem quero pensar em como o farão.
"

Pois é. Palavras de Ana Mesquita, autora do livro “A travessura do Canal da Mancha” e recordista latino-americana da travessia do Canal da Mancha.

domingo, 11 de outubro de 2009

Perguntas de um blogueiro que ler


Se a cidade do Rio de Janeiro não fosse escolhida, o que seria do Rio e do esporte nacional?

Por que, no dia do anúncio da cidade que seria sede das Olimpíadas 2016, foram apresentados apenas argumentos favoráveis ao evento no Brasil?

O que dizer de uma rede de televisão, que funciona por concessão pública, apresentar apenas os atletas com argumentos pró-Rio?

Cadê as vozes dos jornalistas, esportistas e cronistas contrários ao Rio-2016?

Qual a relação entre a compra dos caças franceses pelo Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016?

Por que os atletas que tinham críticas ferrenhas ao Nuzman, ficaram ao lado dele na disputa pela cidade sede?

Por que, de repente, não mais do que de repente, "ninguém" menciona as falcatruas do Pan-2007?

Depois das Olimpíadas, o Nuzman será candidato a presidente da (des)república?

Orlando Silva, o Ministro dos Esportes, será ou não candidato em 2010?

Por que, só agora, depois da vitória do Rio como cidade sede das Olimpíadas, o governo brasileiro vai fazer o PAC do esporte?

Por que a insistência em um modelo piramidal de desenvolvimento do esporte nacional?

Os dirigentes que já estão uma eternidade à frente das federações e confederações, deixarão seus cargos antes de 2016?

Qual a diferença do modelo de esporte brasileiro da década de 30 do século XX, para o atual, do século XXI?

A chamada "Lei Pelé", difere de que mesmo da "Lei Zico" se até os números das camisas dos dois craques são os mesmos?

Por que o esporte de rendimento é sempre o mais valorizado nas políticas de governo para o setor?

Quem, por fim, efetivamente, pagará a conta dos Jogos Olímpicos de 2016?

domingo, 4 de outubro de 2009

Papai Noel, Gnomos e boas intenções

O Comitê Olímpico Internacional, na última sexta-feira, dia 02 de outubro, sem dúvida alguma, fez história ao escolher a cidade do Rio de Janeiro como sede dos jogos olímpicos de 2016. Será a primeira vez que este grande evento esportivo se realizará na América do sul.
Quem vem acompanhando este blog desde a sua primeira postagem, dia 19 de abril do corrente ano, sabe do nosso posicionamento sobre o esporte de maneira geral e, especificamente, sobre a realização dos jogos aqui no Brasil, tanto a Copa do Mundo como, também, as Olimpíadas de 2016. Fomos contra.
Esta posição não cabe mais. A realidade histórica exige de nós um outro posicionamento. Mas este posicionamento não se pautará em uma perspectiva otimista ingênua tal como está aparecendo nos jornalismos de uma forma geral, com raríssimas exceções. Não estamos esquecidos de que as mesmas pessoas que estavam a frente do Pan-2007 e que até hoje não pagaram a conta – “São R$ 20 milhões, até agora, que o TCU cobra devolução aos cofres públicos, sem explicações claras sobre o seu uso. E há mais uma dezenas de processos para serem julgados...” (José Cruz) – estão também responsáveis pela organização dos Jogos para 2016.
Nada nos leva a acreditar que será diferente. Pessimismo? Não. Pessimista é o otimista mal informado, diria o sociólogo Chico de Oliveira. O que somos é realista. E essa posição realista não é fruto de nenhum tipo de “complexo de vira-lata” que, ao menos para o Presidente Lula, já ultrapassamos, mas baseada em fatos reais, como o citado acima.
E não estamos sós. Jornalistas sérios e conhecedores das entranhas do “mundo do esporte” como o jornalista Juca Kfouri e José Cruz comungam com esta ideia. Um outro jornalista, Flávio Prado, da JovemPan, faz parte também deste seleto e raro grupo. Ele afirma que para as Olimpíadas de 2016 é necessário “pessoas de confiança, de boa índole para administrar as finanças, já que até agora a verdade não foi revelada sobre a verba dos jogos Pan-Americanos”.
O Tribunal de Contas da União também está com a gente. Veja o que diz o seu relatório de julho deste ano sobre os equipamentos utilizados nos Jogos do Pan.“Quanto aos condicionadores de ar, a empresa Fast apresentou novos elementos, inclusive cópia das notas fiscais que demonstram a aquisição de todas as unidades contratadas. É, portanto, bastante verossímil a hipótese de que os equipamentos existam fisicamente. O que não se entende é o motivo pelo qual não houve ainda a sua apropriação pelo Ministério do Esporte, já que este não demonstrou até hoje perante o Tribunal, sua anexação ao patrimônio do órgão ou dos entes a que serão destinados.Dos 1.628 equipamentos de ar-condicionado adquiridos, 813, ou seja, metade, sequer foi instalada,por desnecessária. Trata-se de evidente desperdício de dinheiro público”.
Esses são alguns elementos que nos fazem “pessimistas”. Ainda não fomos tocados pelo fenômeno das lembranças efêmeras. Achamos incrível o fato de quanto mais o tempo passa, quanto mais a história demonstra a incapacidade de determinadas pessoas e grupos gerenciarem o dinheiro público para as coisas públicas e realmente relevantes no momento atual, seguimos acreditando que tudo será diferente, sem nenhuma prova factual deste mesmo grupo. Simplesmente acreditamos e... ponto. Já cunharam até a frase "o brasileiro não desiste nunca!".
O Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro nem conta prestou à sociedade depois do Pan. Foi ao Congresso Nacional e no momento da sabatina alegou ter um compromisso muito sério, inadiável, deixando os parlamentares e os brasileiros a ver navios. Nenhuma prestação de contas da utilização do nosso dinheiro, um desrespeito completo para com a República. Você lembra disso? Ou já foi tocado pelo fenômeno das lembranças efêmeras?
O nosso Ministro dos Esportes nos quer fazer acreditar que o que faltou no Pan foi planejamento. Sei, sei...Marx, em 1848, já tinha descoberto que o Estado Moderno é o executivo da burguesia e nós, em pleno século XXI, acreditando em Papai Noel, Gnomos e nas boas intenções do Nuzman.
Só para registrar, a Folha de São Paulo, hoje, traz a seguinte matéria no caderno de esporte: "Olimpíada-2016 tem a primeira rusga" e complementa "Ministério do Esporte e COB expõem divergências ao falar sobre como transformar o país em uma potência esportiva".
Parece que o problema de planejamento só está começando

domingo, 27 de setembro de 2009

Rio 2016: o retorno

Dia 02 de outubro, sexta-feira, conheceremos, finalmente, a cidade que abrigará os Jogos Olímpicos de 2016.

O Rio de Janeiro, como sabemos, é uma das cidades que pleitea a condição de sede dos Jogos. Supondo que seja a escolhida, a chamada Cidade Maravilhosa precisará, tomando como referência o orçamento atual, da bagatela de 38 bilhões de reais. Vou dizer de novo, por extenso: trinta e oito bilhões de reais.

Este é o valor que se encontra no Caderno de Encargos. O dinheiro servirá para os gastos com atividades fins (administração, competição, premiação entre outros e também, de infraestrutura como a de mobilidade urbana, aeroporto, etc.

Bem, como sabemos pela experiência de 2007, com o Pan-americano, este valor pode dobrar, mesmo quando observamos que ele já é um valor atualizado, ou seja, projetado para 2016 tomando como referência o ano de 2008.

Por hipótese, os Jogos nesse ano (2008) custaria vinte e oito bilhões e oitocentos milhões.

Daqui para 2016, teremos muita água rolando pelas baías poluídas do Rio. Algumas eleições municipais, estaduais e federais e os ventos sempre incertos da economia capitalista.

Em maio deste ano pautamos vários argumentos sobre este assunto (Rio 2016: vale mesmo apena?; Rio 2016: II parte e Rio 2016: III parte ), sempre argumentando contra o evento e favorável a aplicação dos recursos a questões estruturais e estruturantes do desenvolvimento humano.

O esporte, sabemos, transformou-se em uma grande mercadoria, potencializada pela quantidade de valor que podemos agregar a ela que vai desde o campo do lazer e entretenimento, passando pela área da responsabilidade e inclusão social, entrando nos aspectos do treinamento e rendimento físico entre outros.


Algum país vive em guerra? Esporte nele. Crianças vivem no mundo das drogas. Resolva o problema com doses homeopáticas de esporte. Problema de baixa autoestima? O menino e a menina não vão bem na escola? Tempo ocioso? Esporte, esporte e esporte.

Estamos (re)vivendo o que a Carmen Lúcia Soares chama de "receita e remédio para todos os males da sociedade" no seu livro Educação Física: raízes européias e Brasil.

No dia 02 de outubro, aproveitemos que é uma sexta-feira, vistamos branco e convidemos os orixás a bater um baba. Quem sabe o esporte não convence aos mesmos que o melhor para o Rio e para o Brasil é um outro direcionamento das verbas públicas?

domingo, 20 de setembro de 2009

Ave, César. Ave, Coaracy!!!

Júlio César, após várias conquistas tornou-se Cônsul Vitalício de Roma. Este título era dado aos militares que além de terem alta graduação tinham, também, grande poder político que só será perdido, obviamente, após a sua morte.

Esse poder, através dos tempos, foi sendo apropriado pelos simples mortais que, muito embora sem graduação alguma, nem tendo lutado em guerra nenhuma, se revestem de poderes políticos através do esporte nacional, tornando-se dirigentes ad eternum do mesmo.

Em função disso, em uma das nossas enquetes perguntamos aos assíduos freqüentadores do blog Esporte em Rede quanto tempo um dirigente esportivo deveria permanecer no cargo de presidente de clubes, federações e confederações.

Quatro foram as opções de voto. Vitalício, de dois anos, de quatro anos e de seis anos. Tivemos vinte e oito votos. Venceu, com 17 votos, a opção de quatro anos. 10 votaram a favor dos dois anos, 01 voto a favor dos seis anos e a opção vitalício não obteve nenhum voto.

Temos a certeza absoluta de que ao menos três pessoas não participaram da enquete. Se assim não fosse, teríamos alterado o número de votos dedicados a opção vitalício. Estou me referindo ao nosso já conhecido Ricardo Teixeira, ao senhor Coaracy Nunes e ao também eterno dirigente Gesta de Mello. Este detém o título do mais antigo dirigente a frente de uma entidade esportiva, no caso, a do atletismo. Lá está a nada mais, nada menos, do que vinte e dois longos anos.

Se vivo, creio que Júlio César também votaria a favor da vitaliciedade. Ainda assim, com este voto de um grande peso histórico, perderia. Ao menos tomando como base a nossa pouca representatividade.

De qualquer forma, ele ficaria feliz, pois perderia apenas por aqui, nesse humilde blog e ganharia na vida real, pois nesta, quando os dirigentes esportivos assumem o cargo não querem largá-lo sob nenhuma hipótese, mesmo que eles antes tenham assumido em discursos o compromisso de não ficarem por mais de uma gestão.

Foi o caso do Coaracy Nunes, reeleito sem oposição alguma no início deste ano (mês de março), para mais uma gestão frente a Confederação Brasileira de Desporto (CBDA) Aguático até 2012.

No início, era um ferrenho crítico da continuidade no poder dos dirigentes esportivos mas, foi só ganhar a sua primeira eleição em 1988, isso mesmo, 1988, que o tom do discurso mudou.

Nem Júlio César nos seus tempos áureos teve tanto apoio dos senadores romanos como teve o senhor Coaracy. Todas as 27 federações filiadas a CBDA votaram pela continuidade.

Cabe então para o senhor Coaracy, que neste momento sintetiza todos os outros dirigentes, a saudação dirigida, pelo povo, aos imperadores romanos: "Ave, Coaracy".

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Futebol e ditadura? No stress!!!


“Sorria, você está na Bahia”. “Na terra em que se faz festa no mínimo três vezes ao dia...”. “Sol, mar, muito coco e tranqüilidade”. “O torcedor baiano, com essa alegria inata...”, etc, etc. Essas e outras locuções estiveram presentes nos corações e mentes e foram verbalizadas pela maioria dos locutores esportivos que cobriram o jogo da seleção “brasileira” nessa semana que por aqui passou.
O jogo foi contra a seleção chilena.
Enquanto esta sofria os gols da seleção canarinho no estádio de pituaçu, aqui em Salvador, em Santiago do Chile, uma semana antes, o governo dos nossos irmãos latinos dava de goleada em um país chamado Brasil. Lá, ao contrário de aqui, a justiça mandou prender nada mais do que 131 ex-militares e policiais envolvidos no golpe militar ocorrido em 11 de setembro de 1973. Estão sob a mira da justiça chilena, além destes, mais 500 ex-militares que sob a batuta do Pinochet e com apoio da CIA e de governos ditatoriais da América Latina, incluindo o Brasil, implementaram um verdadeiro banho de sangue naquele país que tinha acabado de eleger, democraticamente, um governo socialista, o governo de Salvador Allende.
Entre os dias 11 ao dia 30 de setembro, mais de 300 pessoas morreram, executadas de forma covarde.
Já nessa época, a população brasileira, em sua grande maioria anestesiada, com a consciência embotada pelo lúdico alienador, cantava “Prá frente Brasil, salve a seleção”, em homenagem ao selecionado tri-campeão do mundo de futebol, desconhecendo o que acontecia nos porões da ditadura brasileira, que durou de 1964 até 1985.
Infelizmente, “No Brasil, uma parcela minoritária das Forças armadas e da opinião pública consegue, de tempos em tempos, impedir o menos indício de avivamento do debate em torno da responsabilização legal dos envolvidos nas torturas, desaparições e assassinatos cometidos por representantes do Estado durante a ditadura (...)” (CartaCapital, ano XV, n. 562, p. 24).
Quem dera se a opinião pública que tanta energia gasta nos gritos de gol pudessem encher os pulmões de ar com a indignação devida para gritar em alto e em bom som contra todos esses desmandos da política nacional e mundial, essas falcatruas e golpismos que ainda existem, de forma velada, e que a todo momento é perpetrado pela elite via mídia, seja nos entretendo com faustões entre outros, seja pautando notícias que nada tem a ver com os interesses nacionais mas, sim, com interesses de grupos que teimam em voltar ao poder e que, para tanto, fazem qualquer coisa, inclusive, despolitizam os fatos sociais essenciais para o desenvolvimento do nosso país, tal como faziam os sensores da época da ditadura, com a diferença que isso se dá mais subliminarmente e, até, semânticamente, já que segundo um editorial da Folha de São Paulo, o que houve no país não foi uma ditadura e, sim, uma "ditabranda".
Para esses, quanto mais pessoas se desviando do debate político e indo para os estádios gritarem suas angústias, decepções, sofrimentos entre outros, melhor. Buscam confundir, inclusive, na consciência dos "brazucas", o continente do conteúdo, pois ao falarmos de política, e da importância do debate, no genérico, os interlocutores verdes e amarelos dizem: política? Pra quê? É tudo igual!!!
E assim, a ARENA de antes se transforma em PDS, que se divide entre o PMDB, PSDB e o PFL, hoje DEM. O PT, retirando sua base social, reduzindo sua militância, "eleva-se" a um partido da ordem, sucumbe aos interesses mesquinhos destes mesmos ditadores, elevados a senadores da república, tudo em nome da manutenção do poder sem base social.
Sem referência política, os nossos olhos se voltam para Dunga. Felizes ficamos por Daniel Alves, baiano, entrar logo no primeiro tempo da partida. Brigamos uns contra os outros por causa da fila que não anda. Nos esquecemos rapidinho que ficamos mais de 20 anos sem ter o direito de assistir ao vivo a seleção jogar pelo desejo exclusivo de um único homem, o ditador Ricardo Teixeira.
Mas isso tudo é reflexão de gente stressada, rancorosa, que não vê nada de positivo na vida, onde tudo é negatividade. De gente quadrada que não assimilou que "redondo, é rir da vida", que não aprendeu a enxotar a tristeza com uma simples sandália havaiana e que ao invés de se preocupar com essas coisas, o melhor seria deixar "a vida nos levar".
E se você tiver a audácia de perguntar, para onde? Um moderninho de plantão tem a resposta na ponta da língua: No Stress!!!

domingo, 6 de setembro de 2009

Sobre ratos e gatos

Hoje eu ia escrever sobre o doping genêtico, dando continuidade a temática da semana passada. Mas um fato curioso me tomou a pauta e deixo a mesma para a próxima semana. Isso se não ocorrer outras surpresas de igual monta, pois estamos no Brasil, não é mesmo?

O que fez com que a pauta prevista para hoje fosse parar no rascunho do blog? A Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Não, não tem nada a ver com o jogo que a seleção fez contra a Argentina nem, tampouco com os valores dos ingressos cobrados para os brasileiros lá e cá. Mas sim, um fato simplesmente inusitado que pipocou nos principais blogs esportivos do país. Pelo menos nos mais sérios.

A CBF pode virar CBPF, Confederação Brasileira da Polícia Federal.

Brincadeiras a parte, o fato é que a CBF do eterno Ricardo Teixiera irá patrocinar um encontro, nada esportivo, da Polícia Federal (PF). Trata-se do seu IV Congresso Nacional, que ocorrerá em novembro próximo e será promovido pela Associação de Delegados da PF (CNDPF).

E o que isso tem demais? Pode está perguntando o meu nobre leitor. Explico com a ajuda do nobre jornalista José Cruz, de Brasília.

Nos diz ele que "Em 2001, durante as CPIs da CBF Nike (na Câmara dos Deputados), e a do Futebol, no Senado, policiais federais integraram um espetacular grupo de apoio aos parlamentares, ao lado de técnicos do Banco Central, do TCU, do Ministério Público e do próprio Congresso. Eles cumpriram ações para a quebra de sigilo bancário e fiscal da CBF, à época acusada de várias irregularidades." E arremata, ironicamente: "Agora, patrocinados pela entidade maior do futebol, que isenção terá a PF para cumprir, se preciso, futuras missões na Casa do Futebol?"

Que coisa i-na-cre-di-tá-vel!!! Aliás, se não estivéssemos no Brasil até que podia ser inacreditável mas...cá estamos, não é mesmo? E o nosso repórter questiona: "Que autoridade terá a Polícia Federal para cumprir novas missões que, por ventura, se fizerem necessárias na casa do futebol?"

Vejam vocês o aprofundamento da situação de descaramento em que já nos encontramos a séculos. É muita lama, esgoto puro e tudo passando a céu aberto, por bem debaixo dos nossos narizes.

Se já não bastasse patrocinar campanhas de políticos chaves do legislativo ( principalmente da bancada da bola), levar figuras influentes do Tribunal de Contas da União como componentes na delegação da seleção brasileira nos jogos pelo exterior, a CBF agora amplia as ações dos seus tentáculos trazendo para os seus domínios a Polícia Federal.

E faz tudo isso de forma bastante lúdica, como é de convir a um país reconhecido pelos seus carnavais, pelo seu samba e pelo seu futebol, pois "Além do patrocínio e do apoio para o IV CNDPF, o dirigente da CBF fez um convite aos delegados de Polícia Federal: conhecer a Granja Comary, concentração da Seleção Brasileira de Futebol. O passeio terá direito à realização de um campeonato de futebol entre os colegas e será organizado em momento oportuno, após a realização do evento de novembro".

Pois é. Quando o rato começa a fazer festa para o gato, é porque o leite deste não pode azedar, pois é dele que se faz o queijo.

domingo, 30 de agosto de 2009

A questão do doping

O objetivo central de qualquer atleta em uma competição esportiva é a vitória. Para tanto, muitos treinam duro e com muito afinco e outros, além de também treinarem duro e com bastante afinco, se utilizam de outros recursos para potencializar sua performance como, por exemplo, substâncias estimulantes (efedrina, anfetamina) e outras, conhecidas genericamente pelo nome de doping.
Além das substâncias estimulantes temos, também, a morfina, a codeína, que são das classes dos narcóticos; as testosterona, nandrolone, stanozolol, das classes dos anabolizantes entre outras, sendo estas as mais famosas até o momento e utilizadas em larga escala nos ambientes de diferentes academias de musculação onde, muitas vezes, o próprio professor de educação física é quem incentiva a utilização sob o argumento de auxiliar no desenvolvimento da estética corporal.
Muitas dessas substâncias têm, também, uso profilático e de tratamento de doenças, como a anemia, o hipogonadismo não sendo, portanto, necessariamente e exclusivamente de uso para melhoria da estética corporal nem obtenção da performance atlética, mas é deste caso que iremos tratar aqui.
Nesse particular, o doping, considerado como uma substância que pode ser natural ou sintética, objetiva a melhora do desempenho atlético. Existe quem afirme que o uso de substâncias dopantes não se restringe aos atletas de alto nível, mas, também, nos atletas noviços, ainda em formação, muitos que estão ainda no nível das competições escolares. É importante pontuar também, que o seu uso vem de épocas remotas. Existem relatos da sua utilização já entre os gregos, nas olimpíadas antigas, tendo em comum a otimização do gesto esportivo.
Na modernidade, esses acontecimentos são bem mais freqüentes e aparecem geralmente quando um atleta é flagrado em plena competição da qual participa. Os visados são quase sempre os que obtêm melhores marcas. Os próprios atletas se olham de forma desconfiada quando percebem um competidor obtendo marcas importantes, que se aproximam do recorde da competição, por exemplo. É como se todos carregassem nas costas a marca dos relatos históricos de casos de doping.
Esta questão foi pauta em vários meios de comunicação no Brasil no início do mês de agosto, nas semanas que antecederam o Mundial de Atletismo em Berlim. Nada mais, nada menos do que cinco atletas da seleção nacional de atletismo foram submetidos a um teste antidoping de surpresa no dia 15 de junho e foram pegos.
Todos eles faziam uso do hormônio eritropoetina (EPO). Este hormônio aumenta o nível de glóbulos vermelhos no sangue, potencializando a troca de oxigênio e, assim, elevando a resistência ao exercício físico. De fácil absorção pelo organismo, já que o próprio ser humano produz o hormônio, o fator surpresa foi essencial para a detecção do doping.
Vários foram os atletas, principalmente aqueles históricos do atletismo brasileiro como o Joaquim Cruz e o Robson Caetano que comentaram o fato. Todos eles se esqueceram, apoiados pela mídia, de mencionar o que realmente, na essência, está por trás da busca insana pelo rendimento, pelo sucesso e, no limite, pela quebra do record: a lógica própria do sistema capitalista que faz com que tudo se transforme em mercadoria, inclusive a performance humana.
O tripé que sustenta o esporte performance – eficiência, eficácia e rendimento – não pode ser mantido pelo uso simples e natural dos treinamentos esportivos, por mais que estes estejam, nos dias de hoje, altamente evoluídos. Se a droga lícita que o atleta utiliza não tem substância dopante a mesma tem, ao menos, substâncias que aliviam as dores dos treinamentos excessivos o que, ao fim e ao cabo, busca também, concomitante com as drogas ilícitas, potencializar, de alguma forma, o treinamento do atleta, pois o objetivo central é vencer, vencer e vencer, somente assim, terão condições de acessar um lugar no pódium da vida.
Não é a toa que as formas de utilização de substâncias dopantes andam a passos largos em relação aos testes de detecção destas e já se fala até no doping genético. Mas isso é assunto para uma outra postagem.

sábado, 22 de agosto de 2009

Cidadão, comemore!!!

Stock Car, Cirque du Soleil, Seleção "Brasileira" de futebol. O que esses fenômenos sociais têm em comum? Além de serem eventos que foi e serão vistos pelos baianos, apenas os mais aquinhoados terão a oportunidade de experienciar, in loco, uma vivência lúdica dos mesmos.

A Seleção "brasileira", que neste momento nos interessa mais de perto, finalmente jogará em Salvador, no Estádio de Pituaçu, no dia 09 de setembro, pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo de 2010. O jogo será contra o Chile e o ingresso custará a "bagatela" de CR$ 100,00 a arquibancada e CR$ 250,00 a arquibancada especial.

Os estudantes e idosos terão direito à meia entrada.

Por aí já podemos ter a ideia de quanto custará o ingresso para assistir aos jogos da Copa de 2010. Isso me faz lembra aquela composição de Lúcio Barbosa, imortalizada na voz de Zér Ramalho: cidadão. Parafraseando os versos, podemos compor a seguinte estrofe: "Tá vendo aquele estádio, moço. Ajudei a construir. Lá, eu quase me arrebento, fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar. Foi um tempo de aflição, era quatro condução, duas pra ir, duas pra voltar. Hoje, depois dele pronto, os meus filhos pedem em prantos: pai, vamos ver a seleção jogar! Mas, dizem uns cidadãos, que crianças com pés no chão, não podem na grama pisar. Este domingo já tá perdido, fico antecipadamente entristecido, dá vontade de chorar".

Pois é. Enquanto isso, o "eterno" presidente da Confederação Brasileira de Futebol, o senhor Rica(ço)rdo Teixeira mandou avisar que ao contrário do que imaginava, precisará, e muito, que os cofres públicos sejam abertos para viabilizar a Copa de 2014 no Brasil.

Mas, vamos tratar deste assunto em uma outra postagem pois agora precisamos deste espaço para comemorar a condenação em primeira instância do mesmo Rica(ço)rdo Teixeira pelo "voo da muamba". Trata-se, para quem não lembra, da liberação das bagagens da delegação da Seleção após a Copa do Mundo de 1994.

Foram nada mais nada menos do que 17 toneladas de bagagens trazidas pela delegação da seleção brasileira. Só para termos uma ideia, foram necessários dois caminhões e seis caminhonetes para tirar todo o equipamento (a maioria eletrodomésticos) do avião fretado.

O caso teve muita repercussão na mídia nacional e envolveu, também, os Ministros da Casa Civil e da Fazenda (Henrique Hargreaves e Rubens Ricúpero, respectivamente)do governo de Itamar Franco, presidente à época, já que o senhor Teixeira ligou e falou pessoalmente com o senhor Hargreaves para liberar a muamba. Os atletas da seleção, como parte integrante do jogo, ameaçaram devolver as medalhas que tinham recebido do Presidente da República quando da escala em Brasília e de não desfilarem nos seus estados de origem, caso as "muambas" não fossem liberadas.

Em função do caso, o secretário da Receita Federal, o senhor Osíris Lopes Filho, em uma atitude exemplar, se desligou do cargo, pois o mesmo não concordava com o benefício que foi concedido para a delegação em geral e outros funcionários do secretário, em solidariedade ao mesmo, também se desligaram do órgão.

A Ação do Ministério Público Federal foi por improbidade administrativa e por enquanto tem um conteúdo simbólico, pois as sanções não pegou na parte mais sensível do eterno presidente da CBF, o bolso. Mas, a simples possibilidade do mesmo perder seus direitos políticos por alguns anos, já é motivo para júbilo, justamente porque nessa terra de um verde e amarelo muito áridos, só os pobres são alvo da justiça.

Os advo(gados) da burguesia estão recorrendo, mas, por enquanto, a sugestão é: cidadãos, comemoremos... pero no mucho!!!

domingo, 16 de agosto de 2009

O silêncio da imprensa esportiva baiana


No dia 25 de novembro de 2007, o Estádio Otávio Mangabeira foi palco de um episódio trágico: parte das arquibancadas do seu anel superior caiu, vitimando torcedores do Esporte Clube Bahia que jogava, naquela fatídica tarde de domingo contra o Vila Nova de Goiás, em busca da ascensão para a Série B. O intento foi conseguido sob o manto da tragédia.
O saldo desta foi sete torcedores mortos e mais de 80 feridos que foram encaminhados para o Hospital Geral em estado grave. Durante os dias que antecederam ao jogo, a imprensa esportiva radiofônica incitava o povo para encher o estádio. Nada mais do que cinco trios elétricos estavam prometidos. As rádios fizeram promoções, enfim, todos estavam envolvidos em criar uma "corrente pra frente" visando o jogo. O povão, carente de oportunidades de lazer, atendeu o chamado. Lotou o estádio e o seu entorno. Todos prontos para a festa, mas, o final deste jogo todos nós já sabemos.
De imediato, sob pressão, o governador Wagner disse que iria demolir A Fonte Nova. Na oportunidade, em outro blog, eu dei minha opinião, me posicionando contra a decisão e a favor de uma consulta popular para decidir o destino do Estádio, já que o mesmo não se reduzia ao campo de futebol, mas abrigava também uma escola e uma piscina públicas, sem falar em outros serviços prestados à comunidade do Dique do Tororó e imediações.
Um dia após o episódio (26.11.07), assim me pronunciei em relação ao papel da imprensa esportiva no episódio no blog movimento do real."Quem são os culpados? Quem vai pagar pelos acontecimentos ocorridos no final da partida de ontem no Estádio Octávio Mangabeira, mais conhecido como Fonte Nova, quando no lugar dos gritos de alegria e de festa pela ascensão do Esporte Clube Bahia à Série B do Campeonato Brasileiro, tivemos choros e gritos de angústia e desespero por conta das vítimas do desabamento de uma parte da arquibancada?
Essas perguntas atravessaram toda a programação do “Se liga Bocão”, e do “Balanço Geral”, dois dos principais programas populares aqui de Salvador que vão ao ar todo meio-dia.
Importante salientar que todos os dois programas são ancorados por radialistas. Um, que atualmente trabalha nas transmissões esportivas pela rádio transamérica e o outro, que já trabalhou por muito tempo como comentarista esportivo.
Todos os dois buscaram culpados pela tragédia que acabou sobrando para o Governo do Estado e o Superintendente da SUDESB (Superintendência de Desportos do Estado da Bahia), o ex-jogador do Bahia, Bobô.
Sem querer tirar as responsabilidades dos elementos citados acima, gostaria de pontuar o que considero ser importante. Em nenhum momento a imprensa esportiva baiana, que vive a incentivar os torcedores do Bahia para que encham a Fonte Nova, para que lotem o estádio e prestigiem o seu “esquadrão de aço”, se posicionou de forma crítica sobre os seus próprios atos.
Se a imprensa sabia dos laudos técnicos sobre a Fonte Nova que apontavam para uma reestruturação da mesma, por que incentivava tanto os torcedores a irem ao estádio? Por que ao invés disso, não esclarecia o torcedor sobre os riscos iminentes de uma lotação excessiva da Fonte Nova?
Agora a mesma imprensa que aplaudia os 50, 60 mil torcedores que iam à Fonte Nova torcer pelo seu time do coração, que enaltecia em todas as programações radiofônicas ligadas ao esporte o fato de em plena série C, o time do Bahia colocar uma média de mais de 30 mil torcedores por partida, apedreja o Estado (...)".

Eis que mais uma vez a imprensa esportiva silencia. No caderno específico sobre esporte do maior jornal do Norte e Nordeste do Brasil, nenhuma nota sobre a decisão da justiça (?) sobre a absolvição do senhor Bobô e o senhor Nilo Santos Júnior, únicos a serem julgados do total de 5 indiciados pela Polícia Civil à época, foi redigida nos cadernos de sábado e domingo.
A conclusão que podemos chegar,já que ninguém foi responsabilizado pela tragédia, é que os culpados foram as próprias vítimas.
Enquanto isso, as famílias lutam na justiça pelas indenizações prometidas pelo Estado. Das sete famílias, duas ainda não receberam o seguro do ingresso (no valor de R$ 25 mil) e três ainda não tiveram decisão favorável do governo, prevista na Lei Estadual nº 10.954, quanto ao pagamento das pensões.
Sobre a situação da absolvição, assim se expressou o Coordenador do Curso de Educação Física da UFBa, professor Cláudio Lira: "Aqui se mata a rodo e não se pune nada. Ainda assim tem gente que crê na possibilidade de saída institucional pela via da democracia (alçada a valor universal, ou seja, sem classes). Para render uma homenagem aos que guardam ilusões, São Gregório de Nissa - no seu sermão aos usurários - diz: "de que adianta consolar um pobre se tu ajudas a fazer outros cem?"
Pois é. De que adianta? De que adianta tanto empenho em fazer da Bahia e de Salvador, especificamente, uma rota do esporte internacional, se tratamos de forma tão vil o nosso povo, desconhecendo, inclusive, os seus direitos legalmente constituídos? De que adianta a tão propalada liberdade de imprensa se esta fica a serviço do sistema? Quando a imprensa vai paltar de forma séria e aprofundada as questões de fundo da relação entre esporte e sociedade e dá voz e vez aos despossuídos da terra?
Muitas perguntas e uma certeza: as respostas não estão nos encartes esportivos.